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Impressão digital #0011: Lost

Ser original nos anos 10
Lost além da cultura do sample

Adaptação para o Twitter do livro tal, remake daquele outro filme para a TV, uma nova versão do clássico não-sei-o-quê em formato de games, um clássico da literatura misturado com zumbis, o herói fulano dos quadrinhos que virou brinquedo… A quantidade de produtos culturais lançados diariamente parece inversamente proporcional à quantidade de títulos originais. Tudo parece remix, remake, adaptação ou mashups de temas clássicos, recorrentes ou manjados.

Menos Lost.

A série, que se arrastou por seis anos e chega a um fim retumbante neste domingo nos EUA, é um dos pouquíssimos exemplos de uma história contada em escala global que não se apoia em uma estrutura narrativa já estabelecida para apenas criar novos nomes para personagens conhecidos. Harry Potter e alguns títulos de quadrinhos e games são outros. Mas o que Lost fez é inédito.

A série criou uma história particular que, apesar de fazer referência a outras sagas, partiu de um zero completamente novo. Mesmo quem não acompanha a série sabe do avião que caiu numa ilha, do monstro de fumaça, dos ursos polares, dos flashbacks e flash forwards ou da Iniciativa Dharma. Pode não saber como isso tudo se amarra à história, mas seus ícones já estão estabelecidos, mesmo que o final seja frustrante para os fãs mais ferrenhos.

Não que isso nunca tenha sido feito (os universos dos super-heróis, Guerra nas Estrelas e Arquivo X são apenas alguns exemplos). O ineditismo de Lost diz respeito à era digital, de referências, samples e citações – e na insistência de seus criadores em contar uma história nova. Pode procurar: são poucos os que se atrevem a ser originais hoje em dia. E esse atrevimento pode ser reconhecido.

Primeiro online
Iñarritu vê a Copa do Mundo

A Nike lançou nesta semana, na internet, um comercial inacreditável. Dirigido pelo mexicano Alejandro González Iñárritu (o mesmo diretor de Babel e 21 Gramas, o curta de três minutos mostra seleções de futebol de países diferentes durante uma Copa do Mundo e as consequências que podem acontecer a cada um dos jogadores. Estrelado por ícones do futebol atual (Cristiano Ronaldo, Wayne Rooney, Fabio Cannavaro e o brasileiro Ronaldinho) Write the Future mostra como um simples drible ou chute a gol pode mudar completamente o destino de um jogador. O clipe ainda conta com participações do tenista Roger Federer, do jogador de basquete Kobe Bryant, do ator Gael García Bernal e de Homer Simpson (sério!) e, de um jeito ou de outro, se encaixa dentro da filmografia de Iñárritu. Para assistir, entre
no site www.nikefootball.com

Lost por Guilherme Werneck

Fico pensando por que diabos não comecei a ver Lost simplesmente para contar as lindas sardinhas da Evangeline Lilly. Kate continua o melhor motivo para ver a série. Mas a verdade é que passei os últimos anos acompanhando Lost de forma bastante irregular, interessado mais pelo que o criador da série J.J. Abrams faria com o universo que imaginou.

Apenas uma constante nestes últimos anos: nunca consegui assistir à série transmitida pela TV. Sempre esperei chegar ao final para baixar tudo de uma vez e fazer maratonas no sofá, laptop plugado na TV. Não tenho estrutura psicológica para esperar uma semana entre um episódio, muito menos para vencer a abstinência durante os breaks de meio de temporada.

Lost foi a segunda série a causar esse tipo de aflição, um efeito colateral até que esperado depois dos primeiros anos 24 horas – a maior celebração da cultura da anfetamina na TV. Mas com a série de J.J. Abrams era um pouco diferente. Nesse contínuo que criei para assistir ao Lost, a sensação era a de ter ido a uma rave e pego um doce no lugar de uma bala. Ursos polares em ilha tropical, fumacê matador, ondas de rádio fantasma, magnetismo esotérico. Hobbes e metafísca, Paraíso perdido de John Milton versus o paraíso reencontrado de John Locke. No começo era um quebra-cabeças divertido, instigante. Uma boa metáfora para o conhecimento. E repleta de citações – o melhor do J.J. Abrams é sempre a habilidade de fazer boas conexões com a nerdice da cultura pop.

O que me pegou em Lost no começo foi justamente essa oposição de país das maravilhas com uma dramaturgia absolutamente contida, em certos momentos no limite do melodrama. A ilha era David Lynch, a vida pregressa dos personagens, quase Fassbinder. Uma ousadia televisiva maior ainda do que a injeção de adrenalina de 24 horas.

E, por trás, J.J. Abrams, o criador de Alias, uma série simpática, com seu misto de futurismo e teoria da conspiração. Me empolgava ver um geek tomando de assalto a porção mais mainstream de Hollywood, mudando o sistema por dentro, com suas próprias armas. Transformando a disfunção narcotizante da TV com narcóticos mais poderosos que os do American Idol. Uma vitória canhestra da revolução contracultural americana que inicia com os beats nos anos 1940.

Mantive esse nível de felicidade com Lost nas duas primeiras temporadas. O budismo de biscoito da sorte da Dharma Initiative e a fraqueza dos roteiros nas fases em que Abrams se afastava da série fizeram com que a terceira e a quarta temporadas fossem as mais difíceis de assistir. Mas aí já estava viciado, ficava lá meio inerte esperando um bagulho melhor. Mas parecia que todas as boas ideias já tinham sido usadas e os flashbacks ocasionais eram apenas motivo para lembrar com um que de saudade do deslumbramento inicial.

Isso mudou com a quinta temporada e a demolição do tempo. Finalmente uma ideia digna de Lost. Universos paralelos e duplos injeteram graça até nos enfadonhos rebeldes messiânicos liderados por Benjamin Linus. O final me deu vontade de cair de cabeça na sexta temporada que ternmina hoje. Claro, seguindo meus preceitos, tenho os 16 episódios anteriores devidamente baixados. Mas não assisti nenhum ainda.

Passei boa parte da última semana tentando evitar a enxurrada de spoilers. Consegui. Não foi tão difícil. Enquanto Lost ficava em compasso de espera, caí de cabeça em Fringe, a série mais bacana dos últimos anos. Aquela em que J.J. Abrams conseguiu colocar para fora todas as suas obsessões com o futuro, conspirações, ciência de ponta, drogas para alterar a percepção e universos paralelos. Num certo sentido, Lost é um belo balão de ensaio para Fringe. Quem ainda não entrou neste universo, pode usar o espaço vago a partir de amanhã.

* Guilherme Werneck podia voltar com seu podcast, o Discofonia.

Lost por Fred Leal

Eu nunca lembro o que acontece em Lost. Esse é um dos principais motivos para eu gostar tanto da série. Todo dia de episódio, fico esperando até tarde da noite para o torrent aparecer e o download chegar ao fim. Mesmo em época de horário de verão, quando esse processo todo costuma acabar pra lá das quatro da manhã – e acho que isso ajuda na fugacidade da memória.

E antes que comecem as piadinhas dizendo que “é melhor esquecer, mesmo”, explico: todo episódio fica ainda mais surpreendente. E não é que eu não faço ideia do que acontece nos episódios, eu só me guio mais facilmente pelas emoções que pelos detalhes factuais. Eu não sei, por exemplo, em que momento aquela galera das tochas no meio do mato virou uma cohab dos anos 70, mas lembro que odeio o Locke desde que ele explodiu a porra do submarino só porque achava que estavam todos lá “por um motivo”. Em uma nota paralela: quer ficar, fica, mas não mela o bonde dos outros, porra.

Também confesso que até hoje não entendi porque, ao serem resgatados, os Oceanic Six não avisaram ao mundo da existência do resto da ilha. Mesmo que fosse pra proteger a parada toda, custava pelo menos fretar a porra de um barco pra resgatar o resto da galera? Enfim, sei que quase todo mundo que assinou um post sobre Lost nesse blog nos últimos dias é capaz de me oferecer uma explicação razoável para cada um desses questionamentos. Ou eu poderia simplesmente procurar na Lostpedia. Mas voltando ao que eu queria dizer, a série fica muito mais surpreendente. Nunca fui capaz de desenvolver uma teoria sobre o que é a ilha e porque estavam todos ali por sempre esbarrar em detalhes que me passavam completamente despercebidos.

É uma experiência quase psicodélica, e a montanha-russa de acontecimentos estupefacientes faz com que eu nunca ache um episódio de Lost ruim. Eu mal consigo isolar os acontecimentos sob um único título, como posso querer apontar dedos para os diretores e roteiristas e acusá-los de enrolação? O que me importa são os personagens e a mitologia que os envolve. Iniciativa Dharma. Números mágicos. Viagem no tempo. A sensação é de que a cada episódio surge uma nova loucura que em nada explica a anterior, mas que me deixa desesperadamente ansioso pela próxima.

* Fred Leal é um dos caras. Melhoraê, compadre!

O fim de Lost

A transmissão da ABC começa às 20h, com um especial que antecede a transmissão do último episódio, “The End”, com duas horas e meia de duração. Depois tem um especial do programa de entrevistas Jimmy Kimmel Live: Aloha to Lost, com entrevistas com Terry O’Quinn (John Locke), Jeremy Davies (Daniel Faraday), Emilie de Ravin (Claire Littleton), Naveen Andrews (Sayid Jarrah ), Nestor Carbonell (Richard Alpert), Alan Dale (Charles Widmore), Michael Emerson (Benjamin Linus), Matthew Fox (Dr. Jack Shepard), Daniel Dae Kim (Jin-Soo Kwon) e Harold Perrineau (Michael Dawson). O programa ainda exibirá os três finais alternativos para a série que foram filmados.

Lost por Vladimir Cunha

Lost é um filho direto da Grande Conspiração Americana. O maior erro, no entanto, é superestimar a sua contribuição para a cultura de massas, tentando achar na história e em seus desdobramentos algo mais inteligente do que uma luta mitológica entre o Bem e o Mal. Situada em um ponto imaginário entre o desbunde paranormal de Twin Peaks e o suspense de tablóide de Arquivo-X, a série tentou por vários momentos levantar questões mais interessantes do que o seu enredo inicial poderia prever, mas se perdeu em seus próprios truques e em sua narrativa circular e auto-indulgente. E ao final, ficamos todos com a sensação que, entre as pretensões iniciais dos seus criadores e o resultado final, alguma coisa se perdeu pelo caminho.

Uma boa conspiração nasce de duas maneiras: ou através da paranóia ou do exercício mental de cogitar diversas possibilidades. E por isso mesmo, quase nunca precisa de fundamento científico ou histórico para ser levada adiante. Ela precisa, sim, guardar relações profundas com a realidade, com os aspectos mais aparentes do nosso processo cognitivo, justamente aqueles que irão lhe dar subsídios para ser apreendida por nossa percepção como algo possível de ter acontecido. Quanto mais forte essa relação, mais enraizada no inconsciente coletivo e na cultura de massas uma conspiração irá se tornar.

Por exemplo: ninguém acreditaria na notícia de que um disco voador pousou em frente à Casa Branca. É fantástico demais, irreal demais, uma iconografia barata ligada aos filmes trash e às histórias em quadrinhos, entendida como clichê de ficção científica através de quase um século de cultura pop. Por outro lado, um disco voador capturado nos desertos do Novo México e mantido em segredo pelo Exército norte-americano, junto com seus tripulantes ETs, nos parece mais real, justamente por lidar tanto com aspectos que compreendemos como parte da nossa realidade -bases secretas, manobras militares clandestinas e ufologia barata – quanto por nos levar a todo o tipo de indagação supostamente inteligente (“hmm, se os militares não têm nada a esconder, porque não liberam a Área 51 para visitação pública, hein?”). Foi a partir da sua capacidade de suscitar mais dúvidas do que de responder perguntas, ao usar uma realidade possível para criar todo o tipo de possibilidades teóricas, que se desenvolveram as grandes conspirações da história recente da Humanidade.

No cinema, David Cronenberg talvez tenha sido o diretor que mais soube trabalhar essa questão. Em Scanners, The Brood e Videodrome, o horror acontece de maneira banal: nos centros comunitários, no parquinho da escola, na loja da esquina. Ele está tão entranhado nos aspectos mais corriqueiros do cotidiano que imaginar a sua existência torna-se quase natural. Assim como a elite sexualmente corrupta de De Olhos Bem Fechados, antes de serem personagens da ficção fantástica, Brian O’Blivion e Barry Convex, os dois arquétipos centrais de Videodrome, são também figuras comuns, baseados tanto no clichê do intelectual intransigente e aburguesado quanto do zé ninguém invisível, que com seu terno de loja de departamentos se integra passivamente à paisagem da América Corporativa. São essas pessoas comuns, sem poderes sobrenaturais ou visual extravagante, que nos suscitam o impulso paranóico de acreditar que, se o horror existe, ele está entre nós. Não na figura de um monstro do espaço sideral ou de um demônio cenobita, e sim na assepsia de um centro de pesquisas clandestino, no underground dos snuff movies, nos complexos industriais fortemente vigiados, nos círculos de pornografia ilegal, nas redes secretas de comunicação e vigilância, na indústria aeroespacial e nas salas de reunião das sociedades secretas. Um imenso lugar-nenhum criado a partir de fragmentos distintos da paisagem urbana ocidental pós-Segunda Guerra Mundial.

Por outro lado, Lost falha quando não estabelece esse tipo de conexão com o cotidiano e reduz a suas seis temporadas a uma luta do Bem contra o Mal, o confronto entre Luz e Trevas recriado de maneira pós-moderna a partir de memes e clichês pilhados da herança deixada por cinco mil anos de história das religiões. O estranhamento cotidiano e o terror possível até existem, nos filmes de 16 milímetros usados nos treinamentos da Iniciativa Dharma, nos centros de operações low-tech da Ilha, na corporação de Charles Widmore, nos experimentos paracientíficos de Daniel Faraday nos porões da universidade onde estuda e nos números 4, 8, 15, 16, 23 e 42. Diferente de Arquivo-X -que ganhou corações e mentes nos anos 90 justamente por transformar em histórias de terror o imaginário ufologista e a nascente comunidade da conspiração na internet com as manchetes do jornal sensacionalista National Enquirer, filho direto da indústria do entretenimento e da paranóia da Guerra Fria – Lost optou pelo isolamento, confinando no ambiente fantástico da Ilha todas as suas possibilidades de narração e desenvolvimento dos personagens, uma dimensão paralela aos moldes de O Senhor dos Anéis que não conseguimos assimilar como algo possível. As situações cotidianas existem, mas sem a força necessária para beslicar o nervo certo e provocar a pergunta: “e se isso estiver acontecendo de verdade?”.

Isso fica claro quando a série não consegue criar o estranhamento necessário para ir em frente, limitando-se a prender o espectador com o “continua na próxima semana” das histórias em quadrinhos ou as reviravoltas com jeito de pegadinha dos gibis da Cripta. A curiosidade se reduz apenas a saber como a história vai terminar e não em intuir como os seus aspectos mais aparentes, e possíveis desdobramentos, se relacionam a realidade, como é o caso de Kolchack – The Night Stalker, Millenium e Arquivo-X, todos produtos diretos da cultura da conspiração que usaram a paranóia de maneira muito mais inteligente e instigante. Lost chega ao fim e todas as possibilidades narrativas e intuitivas propostas inicialmente se diluíram na trama em torno da Ilha e seus habitantes. Ao contrário do que todo mundo imaginava, a série não teve fôlego suficiente para criar uma mitologia interessante e consistente. Valeu a tentativa. Infelizmente não foi dessa vez.

* Essa cara de mau do Vlad é tipo.

Lost por Camilo Rocha

Não, nunca assisti sequer UM capítulo de Lost. Mas fiz um top ten que acho que tem a ver (importante ouvir na ordem!)


MFSB – “Mysteries of the World”


Whitest Boy Alive – “Island”


Fare Soldi – “Survivor”


Goldfrapp – “Alive (Tensnake Remix)”


808 State – “Pacific”


Lloyd Cole & The Commotions – “Lost Weekend”


Titãs – “Sonífera Ilha”


Nação Zumbi – “A Ilha”


Kool & The Gang – “Jungle Boogie”


Régine – “Je Survivrai”

* Camilo Rocha é um dos três principais jornalistas brasileiros que escrevem sobre música dos últimos 50 anos. Os outros dois eu nunca consigo decidir quem são.

Lost por Luciano Kalatalo

Lost foi a primeira série que acompanhei via torrent, em que tive meu grito de liberdade. A partir daquele momento eu poderia fazer a programação que quisesse. Eram momentos de angústia aguardando a finalização do download durante a madrugada. Ao mesmo tempo é decepcionante perceber que o nosso serviço de banda larga pouco mudou nestes seis anos, continuamos com conexões ruins e com preços extorsivos.

Esta falta de consideração com o telespectador/consumidor é crônica, vejam o caso do canal AXN, demoraram cinco anos para tomarem uma iniciativa e exibirem os episódios com menos “delay” em relação a ABC, e mesmo sendo uma empresa multinacional, não tiveram competência para exibir simultaneamente os episódios, tendo como justificativa a questão da produção das legendas. Acabaram atropelados por uma equipe de fãs brasileiros, que conseguem publicar as legendas em menos de 24 horas após a exibição nos EUA.

Foi legal acompanhar cada suposição/teoria em relação a série, valia tudo: espiritismo, ufologia, física, histórias da bíblia, viagem no tempo. Mas o que mais gostei, acho que por ser estatístico, foi a maneira que Lost inseriu o tema das ciências exatas dentro da cultura pop. Conceitos de física, matemática e estatística já haviam sido discutidos em vários outros filmes e séries, mas desta vez não foram assuntos de menor ou maior relevância, tinham o mesmo peso que uma música obscura do Kinks, a citação de um livro ou o misticismo da trama.

* Luciano Kalatalo é estatístico e metade da Gente Bonita.