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A guitarra indomável de Arto Lindsay

Corro dali pro centro de São Paulo pra participar da comemoração de um ano do Matiz, bar no terraço do Edifício Carlos Rusca, na Martins Fontes. Com um dos melhores equipamentos de som da cidade, o lugar tem seu foco nos drinks e na audição e eventualmente chama músicos para apresentações ao vivo, como foi o caso desta terça-feira de aniversário, quando contaram com Arto Lindsay em show solo na abertura, seguido do trio MTZ, liderado por um dos responsáveis da noite, Rodrigo Coelho, que assume o baixo e que iria receber Marina Lima, mas hoje sabemos porque ela não foi, sendo substituída por Fernanda Abreu. Não consegui ficar no segundo momento da noite, mas pude ver mais uma apresentação do americano-brasileiro Arto Lindsay, que novamente apenas com sua guitarra no wave, transformou o terraço do Matiz em uma câmara de ruídos elétricos, disparando microfonia, efeitos e seu toque frenético sobre composições próprias e até uma do sambista Batatinha. Surreal poder ver esta apresentação do ângulo que vi, entre uma pequena multidão de descolados modernos paulistanos e o horizonte cinza noturno de fachadas de prédio aparentemente sem alma, algo que casou bem com as frequências soltas disparadas pelo guitarrista noise.

Assista abaixo:  

Antonio Cicero (1945-2024)

Triste saber da morte de um dos nossos maiores nomes das letras, feliz por saber ter sido do jeito que ele planejou, como avisou em sua despedida:

“Queridos amigos,
Encontro-me na Suíça, prestes a praticar eutanásia. O que ocorre é que minha vida se tornou insuportável. Estou sofrendo de Alzheimer.
Assim, não me lembro sequer de algumas coisas que ocorreram não apenas no passado remoto, mas mesmo de coisas que ocorreram ontem.
Exceto os amigos mais íntimos, como vocês, não mais reconheço muitas pessoas que encontro na rua e com as quais já convivi.
Não consigo mais escrever bons poemas nem bons ensaios de filosofia.
Não consigo me concentrar nem mesmo para ler, que era a coisa de que eu mais gostava no mundo.
Apesar de tudo isso, ainda estou lúcido bastante para reconhecer minha terrível situação.
A convivência com vocês, meus amigos, era uma das coisas – senão a coisa – mais importante da minha vida. Hoje, do jeito em que me encontro, fico até com vergonha de reencontrá-los.
Pois bem, como sou ateu desde a adolescência, tenho consciência de que quem decide se minha vida vale a pena ou não sou eu mesmo.
Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade.
Eu os amo muito e lhes envio muitos beijos e abraços!”

Esse é imortal mesmo sem precisar de academia nenhuma. Fica entre nós.

Um Dia Um Show Salvou Minha Vida, com Bia Abramo

E a convidada desta semana do podcast Um Dia Um Show Salvou a Minha Vida, que faço ao lado do compadre Rodrigo Levino, é a mestra Bia Abramo. No programa, dedicado a celebrar a alegria que é assistir à música ao vivo, pedimos para à maior jornalista de música de sua geração para falar sobre os shows que foram importantes para sua formação – e no centro deste seu palco, Nick Cave.

Ouça abaixo:  

Saindo o CØMA

Estreia intensa do grupo CØMA nesta terça-feira no Centro da Terra. O grupo surgiu a partir do encontro da baterista Bianca Godoi com o guitarrista Guilherme Held – e este, que vinha ficando obcecado com sons pós-punk desde que descobriu uma playlist de pérolas obscuras e contemporânea do gênero nascido na virada dos anos 70 para os anos 80, passou essa obsessão para a nova amiga e com isso passaram a reunir músicos que pudessem expandir a ideia original. Assim, reuniram Otto Dardenne, Rubens Adati, Joana Bergman e Danilo Sansão para uma noite curta e intensa de baixos pulsantes, baterias febris e guitarras dissonantes, reunidos com teclas pontuais e as letras improvisadas e aparentemente nonsense (embora não sejam) proferidas pelo vocalista Otto. O grupo ainda contou com a participação das inusitadas taças do músico Tomas Gleiser, que toca no grupo Mustache e os Apaches, e por pouco menos de uma hora, induziram o público do teatro a um transe dissonante e metronômico. Só não pode deixar esse fogo morrer em uma única apresentação – que venham outras!

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CØMA: TAO

Mais uma atração que estreia no Centro da Terra, temos o prazer de receber nesta terça-feira a primeira apresentação do grupo CØMA, idealizado por Bianca Godoi e Guilherme Held a partir de uma playlist de pós-punk e disco-punk obscuro organizada pelo DJ brasileiro residente Alemanha chamado Cosmic Pulses. Os dois convidaram outros amigos músicos para encorpar essa apresentação e além de dividirem-se entre synths e programações, Bianca e Guilherme, que tocam bateria e guitarra respectivamente, chamaram Otto Dardenne para fazer os vocais, Rubens Adati para tocar baixo, Joana Bergman nos teclados e piano e Danilo Sansão, que vai fazer projeções enquanto toca. O espetáculo batizado de Tao marca o nascimento deste pequeno coletivo e começa pontualmente às 20h, além de já estar com ingressos à venda na bilheteria e no site do Centro da Terra.

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Ave Joni Mitchell!

E um dos grandes eventos do ano aconteceu neste fim de semana, quando a mestra Joni Mitchell esgotou por duas vezes (sábado e domingo) o Hollywood Bowl, em Los Angeles, nos EUA, para realizar seus primeiros grandes shows após o aneurisma cerebral que a derrubou em 2015, deixando-a sem falar, cantar ou tocar por um bom tempo. Infelizmente isso não foi uma novidade em sua vida, já que ela que ficou reclusa em seu quarto no início da adolescência, vítima da pólio, tragédia que a transformou em uma instrumentista de excelência ímpar e uma das maiores compositoras da América do Norte. A recuperação da calamidade recente tornou-se pública há poucos anos, quando ela começou a fazer algumas aparições-surpresa: primeiro no festival de folk de Newport em 2022, depóis em dois shows mais longos em 2023 em Washington, capital dos EUA (um em março e outro em junho), e mais recentemente em uma aparição no Grammy deste ano, na mesma época em que anunciou as apresentações deste fim de semana. E ela não veio só: sua famosa banda rotativa Joni Jam, contou com, além da velha amiga Brandi Carlile, que a chama de “minha embaixadora”, Joni reuniu uma constelação de estrelas que incluía nomes como o cantor e compositor Blake Mills, o fleet fox Robin Pecknold, o jazzman inglês Jacob Collier, integrantes da banda Lucius, a soberba Annie Lennox, o inglês Marcus Mumford da Mumford & Sons, o multiinstrumentista Jon Batiste, a cantora e ativista canadense Allison Russell, a dupla afilhada por Prince Wendy & Lisa, a atriz e cantora Rita Wilson, Taylor Goldsmith do grupo Dawes, o imortal Elton John e a deusa do cinema Meryl Streep, além de Lucy Dacus e Chappell Roan, que cantaram com Joni em seu camarim. Separei uns trechos que achei da apresentação abaixo, bem como o setlist dos dois dias (que foram idênticos), e aproveito para agradecer publicamente à maravilhosa Luiza Villa, que há pouco mais de um ano, me cutucou para fazer um show em homenagem à mestra e me reconectou à história deste colossso da canção. Valeu, Lu! E tá na hora de fazer outro show daqueles, hein? Ave Joni Mitchell!  

Eis a escalação completa do C6 Fest 2025!

Confirmados Air, Pretenders, Wilco e Nile Rodgers e também fechados Mulatu Astatke, A.G. Cook, Amaro Freitas, Gossip, Perfume Genius, Meshell Ndegeocello, Maria Esmeralda, Seu Jorge, Agnes Nunes, Last Dinner Party, Arooj Aftab, Stephen Sanchez, Brian Blade & The Fellowship Band, Beach Weather, English Teacher, Cat Burns e Superjazzclub. Sinistro!

20 anos do Link Estadão e a minha parte neste quinhão

Coube ao Bruno Romani, atual editor do Link Estadão, a tarefa de celebrar o aniversário de vinte anos do antigo caderno do centenário jornal paulistano dedicado à tecnologia e ele convidou alguns ex-editores para lembrar do tempo em que cada um de nós tomou conta da publicação. Liderei esta equipe entre 2007 e 2012, primeiro como editor-assistente e depois, dois anos após minha contratação, como editor e aproveitei para lembrar de um período que funcionou como uma era de ouro da cultura digital e também como uma forma de trazer a cobertura de tecnologia do jornalismo brasileiro para o século 21. Além de mim, a antologia ainda reunia textos do Camilo Rocha, da Claudia Tozetto e do Bruno Capelas, todos ex-editores da seção.

Leia meu texto abaixo: