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Mil canções por minuto

Que beleza a segunda noite da temporada Eu Nem Era Nascido que Gabriel Thomaz está fazendo no Centro da Terra. A apresentação desta segunda-feira ficou com seu projeto solo Multi-Homem em que, acompanhado apenas do baterista Fernando Fonseca, passeia por diferentes fases de seu repertório e por músicas de outros autores, na velocidade elétrica do rock’n’roll em versões curtas e diretas – com apenas dez minutos já tinha tocado seis músicas, inclusive uma inspirada versão para “Have Love Will Travel” dos Sonics. E assim, fulminante, seguiu por mais uma hora de show, chamando intrépidos convidados para assumir vocais a seu lado: com Tatá Aeroplano fez a primeira música deste projeto, a transamazônica “Peru-Pará”, com Persie visitou o Little Quail (tema de sua próxima apresentação, segunda que vem) com o hit “Aquela” e com Thunderbird engatou um tributo ao Júpiter Maçã que começou com “Novo Namorado” e seguiu com “Ela Sabe o Que Faz”, quando Thunder chamou os outros dois convidados para fazer os vocais de apoio numa aparição conjunta que Gabriel agradeceu chamando-os de Trio Ternura. E foi nesse clima de Jovem Guarda que o candango mais roqueiro do Brasil encerrou a apresentação, invocando o gigante Erasmo Carlos com a irresistível “Minha Fama de Mau”.

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Três heróis de Minas Gerais

Pude ver neste domingo as apresentações que Flávio Venturini, Lô Borges e Beto Guedes fizeram no Espaço Unimed, quando reuniram-se para reverenciar o legado de meio século do cânone musical mineiros inaugurado pelo clássico disco Clube da Esquina, assinado por Lô e por Milton Nascimento em 1972. O espetáculo A Música de Minas: 50 Anos, contudo, não foi uma apresentação conjunta e os três heróis de Minas Gerais só se reuniram uma vez no palco, no final do show intermediário da noite, quando Lô chamou Flávio e Beto para cantar “Para Lennon e McCartney”. Ao ser dividido em três partes, uma para cada protagonista, o que seria um espetáculo tornou-se um minifestival divdido em três estéticas e atitudes distintas que se esticou por mais de três horas, mas cada um dos shows teve seus momentos de brilho e destaque, cada um à sua maneira. Flávio, que foi do grupo O Terço e depois do 14 Bis, começou a noite com um tom mais jazz anos 80, entre a MPB e a música pop, passando por clássicos como “Espanhola”, “Todo Azul do Mar” e “Nossa Linda Juventude”, além de cantar “Clube da Esquina N°2”, faixa-título do segundo volume do clássico mineiro e ponto de intersecção literal entre sua carreira e a dos outros donos da noite, e “Mais Uma Vez”, que compôs com Renato Russo. Ele dividiu-se entre violão e teclados e ainda alcança os mesmos agudos vocais que atingia em seus tempos áureos. Lô Borges veio em seguida e fez a melhor apresentação da noite, puxando a sonoridade mais para o rock e conquistando o público com seu tradicional jeito solto e informal de se portar no palco, contando causos e falando sobre Coca-Cola enquanto desfilava um repertório imbatível, que além dos clássicos de sua lavra (“Trem Azul”, “Trem de Doido”, “Paisagem na Janela”, “Um Girassol da Cor de Seu Cabelo”, “Nada Será Como Antes”), ainda estreou uma música nova (‘Tobogã”, faixa do título que lança este mês) e visitou a parceria com Samuel Rosa e Nando Reis eternizada pelo Skank (“Dois Rios”). Beto Guedes, único com a voz idêntica às gravações clássicas, mexeu mais uma vez na estética sonora da noite – ficando entre o jazz e o rock dos anos 70 (com uns timbres de teclados dos anos 80) – e com foco maior em sua carreira solo, visitando “Canção do Novo Mundo”, “Sol de Primavera”, “O Sal da terra”, “Amor de Índio” e sua versão para “Till There Was You”, “Quando te Vi” – e foi o único a apresentar os músicos que o acompanhavam. Foi uma noite um pouco mais longa que o ideal (o show começou 20h30 e terminou quase meia-noite), mas valeu pela reverência a um legado fundamental para a canção brasileira.

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E também teve o Tiny Desk do Devo…

Outro monstro sagrado que acaba de gravar um Tiny Desk Concert foi o grupo norte-americano de new wave Devo. Paladinos da de-evolução, o grupo norte-americano dos irmãos Mark e Bob Mothersbaugh e de Gerald Casale divertiu-se no estúdio de gravação da emissora NPR e escolheu um repertório não apenas alheio aos hits de sempre, como focado em músicas menos lembradas de seus discos clássicos, em versões fidelíssimas. Abriram a apresentação com uma tradicional música folk do início do século 20 que o grupo havia gravado no filme Human Highway, que Neil Young dirigiu em 1982 e depois passaram por “Blockhead”, do disco de 1979 Duty Now for the Future, e por “Praying Hands” “Come Back Jonee”, ambas do disco de estreia do grupo Q: Are We Not Men? A: We Are Devo! de 1978. A banda está afiadíssima e os vocais de Mark estão perfeitos!

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Sem perder a majestade

Quem também fez bonito nessa sexta-feira foi a Céu, que lançou seu novo disco Novella num Áudio que talvez tenha reunido o maior público em um único show em sua carreira (apesar da Áudio não estar lotada). Ela só pecou por ter começado o show muito tarde e por chamar o produtor deste novo disco, o norte-americano Adrian Younge, para discotecar antes de sua apresentação (sério que a gente ainda precisa ouvir gringo mostrando que manja de música brasileira em pleno 2024?). Fora isso, o show foi preciso. Foi um acerto fazê-lo em São Paulo depois de uma turnê pela Europa, o que deixou a banda em ponto de bala e a própria Céu seguríssima de si para mostrar as novas canções – sem esquecer seu excelente repertório, que já vinha mostrando na turnê anterior, Fênix do Amor. A apresentação ainda contou com a presença de Liniker, que brilhou em dois números ao lado da protagonista da noite (“Gerando na Alta” e na parceria que lançaram em 2020, “Via Láctea”, se não me engano tocada pela primeira vez ao vivo) e derreteu-se para sua antiga ídola que agora chama de amiga. Foi um bom momento para retomar sua trajetória depois do erro que foi seu disco de versões (o decepcionante Um Gosto de Sol, de 2021) e isso estava claro quando não só quando mostrou as músicas do disco novo, mas principalmente num dos grandes momentos da noite, quando voltou a um dos ápices de seu Apká, de 2019, ao cantar a excelente “Pardo”, que pediu para Caetano Veloso, mostrando que, mesmo com o deslize passado, ainda mantém a majestade de uma das maiores cantoras do Brasil. Fodona.

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Em pleno vôo

E o quinteto baiano Tangolo Mangos começou nessa sexta-feira, no MIS de São Paulo, uma longa turnê que passa pelo sul, sudeste e centro-oeste do Brasil em quatorze shows em menos de um mês, azeitando ainda mais o showzaço que vêm apresentando desde o começo do ano. E é impressionante como crescem no palco – as canções de seu disco de estreia, Garatujas, lançado no fim do ano passado, ganha uma energia e vitalidade que não estão no disco, elevando a mescla de rock psicodélico e música nordestina (que se cruzam naquele lugar quaaaase prog, mas sem perder o pique pop) a um patamar que mistura solos e riffs precisos, mudanças de tempo ousadas, performance corporal, muita microfonia (inclusive inusitada, quando o pedal wah-wah do vocalista Felipe Vaqueiro resolveu não desligar mais, do meio do show em diante) e uma química cada vez mais intensa entre seus integrantes, que sequer precisam se olhar para passar de uma música pra outra ou trocar o clima no meio das canções. E além das músicas do primeiro disco eles já trabalham várias músicas novas, que o público já conhece de outros shows e gravações não-oficiais. O show no MIS ainda teve a cereja de ter o som feito pela Alejandra Luciani, deixando todos os instrumentos cristalinos sem perder o volume do barulho que fazem no palco. Voa, Tangolos!

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Girl in Red ♥ Billie Eilish

E a norueguesa Marie Ulven Ringheim, mais conhecida como Girl in Red, passou semana passada pela rádio australiana Triple J e escolheu a melhor música do disco novo da Billie Eilish para fazer uma versão no clássico quadro Like a Version, em que a emissora sempre pilha artistas para revisitar suas músicas favoritas. E fez bonito: com uma banda completa ao seu redor, ela tirou “Lunch” dos timbres eletrônicos que marcam o terceiro disco da Billie, transformando-a em um rock como só uma garota pode cantar. Bem foda.

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Desaniversário | 10.8.2024

Você só estava esperando o chamado, confesse! Neste sábado tem mais uma Desaniversário, a festa para adultos que eu, Clarice, Claudinho e Camila fazemos ali no Bubu, que fica na marquise do estádio do Pacaembu (Praça Charles Miller s/n°). Começamos às 19h esquentando a noite desde cedo com várias músicas que você nem lembrava que sabia cantar junto e botamos todo mundo na pista de dança até a virada do dia, passando um pouquinho só da meia-noite porque parte da festa quer continuar até altas e a outra parte quer dormir cedo pra aproveitar o domingo. Vem dançar com a gente!

Microfonia e melodia

Quinta foi dia de visitar a Porta pra ver show de duas bandas em diferentes estágios, mas na mesma frequência. Tanto a nova versão do Retrato quanto os primeiros passos do banda nova do Otto Dardenne passeiam por caminhos distintos do casamento entre melodia e microfonia, mas a jornada dupla fez sentido para quem pode passar na casa da Vila Madelena. A noite começou com a ex-dupla Retrato (que agora é um quinteto) preparando-se para sua primeira turnê na região sul do país. O grupo formado pela dupla Ana Zumpano (bateria e vocais) e Beeau Gomez (guitarra e vocais) juntou-se em definitivo com a dupla Antiprisma (o casal Elisa Moreira na guitarra e Victor José no baixo) e a John Di Lallo (sintetizadores e efeitos) deixando seu som mais volumoso e, justamente por isso, hipnótico, misturando levadas kraut, ruídos com melodias velvetundergroundianas, um gostinho sessentista e uma pitada de eletrônica vintage, deixando as canções assumir seu lado mais onírico. Só pecou por ser curto: como disse pros dois no final, tinham músicas ali poderiam ser esticadas por mais de dez minutos, só no groove analógico. Mas funcionou bem.

E depois do Retrato foi a vez de Otto Dardenne mostrar seu primeiro projeto solo batizado com o trocadilho que fez com o disco mais recente da Rosalía e seu username nas redes sociais, Ottopapi. E ele montou um supergrupo indie para acompanhá-lo em seu segundo show: Gael Sonkin do Mundo Vídeo na batera, Thales Castanheira (que toca com a Manu Julian) na guitarra solo, Bianca Godoi no baixo e Danilo “Várias Fitas” Sansão nos synths e efeitos fazem as canções do guitarrista ganhar corpo e sintonizar numa frequência parecida com a da banda anterior, embora puxando mais pras melodias indie (um astral “Sonic Youth de rua” como disse um compadre presente no local) e prum ar de power pop que naturalmente habitam suas composições. Showzão.

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E será que vamos ter Primavera São Paulo esse ano?

Pergunto porque o Primavera chileno, que acontece nos dias 8 e 9 de novembro, acabou de divulgar seu elenco e… os Smashing Pumpkings já estão vindo pro Brasil em show solo, o Franz também, o Dinosaur Jr tá no festival da Balaclava, o que deixa sobrando o Air (tocando o Moon Safari!!!!!), os Kooks e a Lianna La Havas, que fariam ótimos shows mas só segurariam um festival se fossem só os três em uma única casa de shows. A não ser que tenham uma senhora carta na manga aí… Tipo o quê? Kylie Minogue? Green Day? The Smile? Justice? Chappell Roan? Tame Impala?