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Um filme sobre o Pavement?!

Aproveitando o auê ao redor da segunda volta do Pavement, a clássica gravadora indie norte-americana Matador, que acompanhou toda a fase adulta do grupo liderado por Stephen Malkmus nos anos 90, encomendou um filme sobre a banda ao diretor Alex Ross Perry. Pavements estreou pela primeira nesta semana durante o festival de Veneza, trazendo Joe Keery, que interpreta o valentão Steve Harrington no seriado Stranger Things, como o vocalista e guitarrista da banda californiana. Um pastiche irônico de biografia romantizada com documentário feito para a TV (como deveria ser, afinal, eram os anos 90), o filme teve sua primeira cena mostrada em público nessa semana, quando a revista Vanity Fair antecipou um trecho do filme em que um Malkmus fictício faz pouco da excitação dos dois donos da gravadora (Chris Lombardi e Gerard Cosloy, vividos pelo ator Jason Schwartzman e pelo comediante e músico Tim Heidecker) quando estes anunciam que sua banda será o número musical do programa humorístico Saturday Night Live. E a reação foda-se de Keery como Malkmus consegue ser mais convincente em poucos segundos do que o Dylan de Timothée Chalamet no trailer do próximo filme sobre Dylan, A Complete Unknown (e olha que eu gostei desse último!).

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Um filme em busca de uma trilha

Cuca Ferreira pisou firme em sua estreia como artista solo em sua apresentação no Centro da Terra nesta terça-feira. Embora ainda se escondendo sob o pseudônimo de Cuca Sounds, ele deixou sua marca explícita em toda a apresentação, desde o desenho da formação musical que reuniu à escolha do repertório até a forma como ele foi apresentado. A deixa inicial foi a primeira apresentação ao vivo do EP que lançou no primeiro semestre que batizava o espetáculo, Música em Busca de um Filme, mas esse foi só o mote inicial da noite, resolvido na primeira faixa. Dali em diante, Cuca e o exército de sopro e ritmo que organizou mergulharam no mar das memórias do saxofonista, passando por músicas que foram importante em sua carreira, como “Algo Maior” da Tulipa Ruiz, “Pomba de Gira do Luar” de Luiza Lian e “Saudade de Casa” e “Ngm + Vai Tevertrist” de Giovani Cidreita, um dos convidados da noite, com quem Cuca vem trabalhando ao vivo; e faixas autorais, como as do disco que lançou há pouco tempo, uma da segunda parte deste projeto, ainda inédita, e uma música em homenagem ao compositor Philip Glass, chamada “Glass Key”, esta última coreografada por sua filha, a dançãarina Beatriz Galli que, como o próprio pai disse antes da apresentação, mostrou que não estava ali por nepotismo. A banda, sem instrumentos harmônicos ou bateria, contava com velhos e novos cúmplices de Cuca, como o baixista Fábio Sá (com quem sempre tocou em projetos temporários), a flautista Marina Bastos (com quem ele tocava pela primeira vez), a percussionista Valentina Facury e o trombinista Doug Bone (ambos integrantes de uma de suas bandas, o decano Bixiga 70). Longe do palco, Bernardo Pacheco e Paulinho Fluxus, outros velhos camaradas de Cuca, cuidavam respectivamente do som e da luz, provocando intervenções cirúrgicas. E escondido atrás das cortinas estava o agente oculto Marcos Vilas Boas, que projetava imagens durante toda a apresentação – até chegar ao ápice da noite, quando a banda – e a dançarina – improvisou a partir de imagens que Vilas Boas projetava sem ter combinado nada previamente, invertendo o título da noite e mostrando o quanto essa formação é orgânica e próxima, num delírio em preto e branco. Agora é colocar essa turma na estrada, seu Cuca!

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Cuca Sounds: Música em Busca de um Filme

Satisfação receber nesta terça-feira, no Centro da Terra, a primeira apresentação solo do saxofonista Cuca Ferreira, que traz o espetáculo Música em Busca de um Filme usando o nome de CucaSounds. Integrante fundador do Bixiga 70, Cuca também faz parte do trio Atønito e da banda Corte, ao lado de Alzira E, e já tocou e arranjou para artistas como Elza Soares, João Donato, Tulipa Ruiz e Giovani Cidreira. Este último, inclusive, participa desta primeira apresentação solo, que também terá a participação da dançarina Bia Galli, da flautista Marina Bastos, da percussionista Valentina Facury, do baixista Fábio Sá, do trombinista Doug Bone, além de projções feitas por Marcos Vilas Boas. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos já estão à venda na bilheteria e no site do Centro da Terra.

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E o Lollapalooza do ano que vem, hein?

Saiu a escalação do Lollapalooza do ano que vem e o festival, que nos últimos anos tornou-se uma salada desagradável de artistas pequenos que ninguém conhece com artistas gigantes que não conversam entre si, apresentou uma seleção de nomes que parece ter aproveitado a lacuna da ausência do Primavera deste ano. Muito bom saber que vamos ver, num mesmo evento, Olivia Rodrigo, Justin Timberlake, Alanis Morrissette, Michael Kiwanuka, Caribou, Parcels, Girl in Red, Fountains D.C., Foster the People, além dos brasileiros Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, Drik Barbosa, Zudizilla, Kamau, L_cio, Sofia Freire, Dead Fish, Marina Lima, entre outros. Ainda tá longe de ser um festival foda, mas conseguiu subir um degrau acima em relação às edições recentes. Mas precisa mesmo ter quase 70 artistas em três dias de evento? O festival acontece nos dias 28, 29 e 30 de março do ano que vem e os ingressos já estão à venda.

Nas alturas

A primeira apresentação da temporada do grupo vocal Gole Seco no Centro da Terra subiu a régua lá no alto quando a cantora Niwa voltou para seus tempos de intérprete celebrando cantoras e compositoras num espetáculo que chamou de Disruptivas. E já começou a noite com a fabulosa “Feminina” de Joyce, passando por canções de Dona Onette (“No Meio do Pitiú”, quando reforçou sua ascendência paraense), Fátima Guedes (a deslumbrante “Cheiro de Mato”), Tetê Espíndola (“Cunhataiporã”), Lila Downs (“Yunu Yucu Ninu”, poema mixteca musicado pela cantora mexicana), Urias (a excelente “Foi Mal”) e Ná Ozzeti (“Ultrapássaro”, canção composta por seu irmão Dante e José Miguel Wisnik), cercada pela banda que a acompanhava no início de sua carreira (formada por Ivan Liberato na guitarra, Pedro Canales no baixo e Felipe Rezende na bateria) e de João Antunes (produtor de seu primeiro disco, tocando violão e guitarra). No meio da apresentação ela chamou suas amigas de Gole Seco (Giu de Castro, Loreta Colucci e Nathalie Alvim) para duas músicas, uma versão linda para “Jóga” da Björk e “Me Chamou de Feia”, canção da própria Niwa que o grupo gravou em seu primeiro álbum. A banda voltou para acompanhá-la por duas músicas próprias (“Mulessa” e “A Justiça de Tupã / Yo’i Tüna Pogü”) antes que ela chamasse o último convidado da noite, o paraibano Pedro Índio Negro, que dividiu os vocais com a dona da noite em duas das maiores tour de force vocais da história do rock: “Barracuda” do Heart e “Wuthering Heights” da Kate Bush, essa última com direito à citações da coreografia do clipe. Foi de tirar o fôlego!

Assista abaixo:  

Gole Seco: Gole a Gole

E quem toma conta das (cinco!) segundas-feiras de setembro no Centro da Terra é o grupo vocal Gole Seco, que aceitou minha proposta de uma temporada em que suas quatro integrantes pudessem mostrar suas carreiras solo também e me provocou para fazer a temporada em um mês com cinco segundas – para que a quinta data fosse dedicada apenas ao grupo. E assim começamos a temporada Gole a Gole quando, nesta primeira segunda, dia 2, a cantora Niwa apresenta-se ao lado de de Ivan Liberato, João Antunes, Pedro Canales e Felipe Rezende numa noite chamada Disruptivas, em que celebra a força feminina de autoras como Tetê Espíndola, Fátima Guedes, Kate Bush e Björk. Na outra segunda, dia 9, é a vez de Loreta Colucci mostrar seu show Voz e Violão ao lado do parceiro Luca Frazão. Giu de Castro toma conta da terceira segunda-feira, dia 16, quando apresenta o espetáculo Manual do Tempo de um Dia, inspirado na obra do escritor e ator Gabriel Góes, que também estará no palco, ao lado da artista visual e musicista Antônia Perrone. No dia 23, Nathalie Alvim vem com uma noite chamada Outro + Um Tanto Daquilo Que Me Constitui em que mostra diferentes facetas de seu trabalho autoral, acompanhada por Wagner Barbosa, Ivan Liberato e Marco Trintinalha. Na última segunda-feira do mês, dia 30, o quarteto encerra a temporada em uma apresentação inédita. Os espetáculos começam sempre pontualmente às 20h e os ingressos já estão à venda na bilheteria e no site do Centro da Terra.

#goleseconocentrodaterra #goleseco #centrodaterra2024

Discotecando na nova Casinha do Mancha em plena segunda-feira

Que tal uma baladinha em plena segunda-feira? Pois é isso o Mancha armou para comemorar seu aniversário esse ano – aquela festa que quem dá o presente é o aniversariante! Ele me chamou pra tocar ao lado de uma tropa de desajustados que mora em seu coração e além de mim também passam pela Casinha o lindo Samurai, a entidade Katia Mello, a madre superiora Claudia Assef, o cascudo Jurássico e o frenético JP, além dele mesmo, que abre a noite. Só entra na festa quem botar nome na lista – e nem cogite chegar em cima da hora sem ingresso querendo chamar alguém pra liberar sua entrada que não vai rolar. Vou tocar lá pela meia-noite, vamo? Onde é a nova Casinha? Quem conhece sabe.

Olha esse elenco:  

Prece atendida

Em 2024 a mineira Luiza Brina conseguiu por em prática um trabalho que vinha desenvolvendo desde que começou a fazer música, quando materializou uma série de canções que batizava apenas de “Oração” num disco chamado Prece. Desde o ano passado ele vem ganhando forma quando ela convidou Charles Tixier para ajudá-la na produção de um disco que contava com uma orquestra inteira formada por mulheres e várias participações especiais (da argentina LvRod à mexicana Silvana Estrada, passando por Sérgio Pererê e Iara Rennó). Quando a convidei para fazer a temporada de março deste ano no Centro da Terra, ela resolveu apresentar o conceito e as músicas do disco – até então inéditas – chamando poucos convidados (como Tixier, Castello Branco, Iara, Jadsa e Batataboy) e deixando as apresentações intimistas. Prece surgiu opulento e grandioso no mês seguinte, quase um avesso das apresentações no teatro, embora manteivesse seu clima introspectivo e pensativo – e isso aguçou minha curiosidade para saber o disco funcionaria no palco. A curiosidade foi satisfeita neste domingo, quando ela abriu setembro acompanhada apenas de um quarteto – Guilherme Kastrup (percussão e eletrônicos), Lucas Ferrari (eletrônicos), Patrícia Garcia (oboé) e Clarissa Oropallo (fagote) – no palco do Sesc Vila Mariana. A formação pouco ortodoxa emulava a pompa de uma orquestra em versão reduzida, mas os samples disparados por Lucas e Kastrup instigavam ainda mais as madeiras tocadas por Patrícia e Clarissa. À frente, Brina cantava suas orações que por vezes funcionavam como mantras – especificamente as de número 18 e 17. Esta última ela cantou acompanhada de Maria Beraldo, depois de tocar uma das principais músicas do disco de estreia da convidada catarinense, “Amor Verdade”. Sérgio Pererê foi o outro convidado da noite, dividindo vocais na oração de número 13 e tanto Beraldo e Pererê retornaram ao palco no bis, quando repetiram a oração 18 e seu refrão mantra (“pra viver junto é preciso poder viver só, pra gente se encontrar/pra andar junto é preciso poder andar só, pra gente caminhar”) para felicidade do público. E assim sua Prece foi atendida.

Assista abaixo:  

E esse medley de versões feitas pelo Khruangbin?

Adoro bandas tocando músicas dos outros, bandas instrumentais fazendo versões para músicas que têm vocal e bandas que fazem versões para clássicos do rap sem precisar citar os vocais, além de medleys que misturam diferentes pedaços de música. Se você também gosta disso tudo, dá uma sacada esse trecho do show que o ótimo Khruangbin fez há dois anos no BBC6 Music Festival, misturando músicas do David Bowie, MF Doom, Ol’ Dirty Bastard, Elton John, A Tribe Called Quest, Spandau Ballet, Chris Isaak, Ice Cube, Brick, Notorious B.I.G., Warren G e Dr. Dre – veja se você reconhece todas.

Assista o show completo abaixo, o medley fica entre os minutos 27 e 35:  

De Porta a Porta

Tem horas que tudo que você precisa é uma bordoada kraut na cabeça, aquela imersão motorik de gritos, ritmo e microfonia que o prog alemão do início dos anos 70 inventou e que felizmente espalhou-se pelo tempo e espaço. Por aqui, o filhote mais tenso e intenso dessa genealogia é o ex-quarteto Madrugada que agora conta com Cacá “Rumbo Reverso” Amaral na segunda bateria, tornando o impacto do grupo ainda mais atordoante. E o show que o agora quinteto fez neste sábado no Porta Maldita foi uma espécie de saudação de boa vizinhança de uma porta à outra. Afinal, dois dos integrantes do grupo – a tecladista e vocalista Paula Rebellato e o guitarrista Raphael Carapia – são proprietários do Porta, na Vila Madelena, que naquela mesma noite encerrava suas atividades no endereço atual, preparando-se para recomeçar em um novo endereço, a um quarteirão do Porta Maldita. Duas portas célebres por voltarem-se para a cena underground de São Paulo – e do Brasil – quase vizinhas parecem iniciar o prenúncio de uma nova era – e não duvide que aquela esquina da rua do cemitério com a do Ó do Borogodó ocupe um espaço que já foi da Rua Augusta, reunindo notívagos, artistas e bandas passeando de um lado para o outro para ver shows de artistas que as pessoas mal conhecem. A avalanche sonora do Madrugada – que ainda conta com os irmãos Otto e Yann Dardenne no baixo e na primeira bateria – me pareceu um bom presságio para uma nova era na noite de São Paulo. Vamos que 2024 ainda promete muitas surpresas…

Assista abaixo: