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Mike D para além dos EUA!

Mal acabou de fazer seus primeiros dois shows solo nos Estados Unidos e o beastie boy Mike D mostra disposição para ir além de seu próprio território ao anunciar sua primeira turnê europeia já no mês que vem, passando pela Inglaterra, Alemanha, Portugal, Espanha, França e Bélgica. Mais um pouquinho e ele cola por aqui. Alô Primavera São Paulo, como é aquele papo de “e mais…” no final do vídeo de anúncio do elenco da edição deste ano publicado nesta segunda? Alô Mike D, please come to Brasil!

Veja as datas abaixo:  

O buraco do fim do mundo

“Esse sentimento de que o mundo tá indo pro buraco”, a sensação de desesperança transmitida pela segunda apresentação da temporada Acontecimento que o trio Crizin da Z.O. está fazendo no Centro da Terra poderia ser resumido a um questionamento ainda maior, posto logo já no primeiro movimento, quando o próprio Crizin arrematava: “Será que nesse buraco cabe o mundo?”. Recebendo a dupla Deafkids nesta segunda-feira, mais uma vez o grupo de funk apocalíptico transformou o palco do teatro em um alarme estridente sobre o fim do mundo iminente que toma conta do nosso dia-a-dia. Como na primeira apresentação da temporada (quando o grupo apresentou-se ao lado de Kiko Dinucci), esta nova noite viu o casamento das duas guitarras presentes criar uma parede de microfonia grossa que espremia o público contra a parede mental dos próprios cérebros, mas como tanto Douglas Leal quanto Mariano Sarine desdobram-se na percussão (elemento também crucial para o grupo do Rio de Janeiro), esta névoa elétrica sempre vinha aterrada de atabaques e tambores prontos para deixar todos em alerta. Pesado e aterrador como sempre, mas sem perder a seriedade ou o senso de emergência.

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O segundo disco de casal de Joyce e Tutty Moreno

O músico e produtor estadunidense Adrian Younge anuncia mais um disco da sua coleção Jazz is Dead em que embrenha-se na história da música brasileira, desta vez antecipando em um ano as bodas de ouro de um dos melhores casais da música brasileira, ao convidar Joyce e Tutty Moreno para gravar o 27º disco de sua série. Previsto para agosto (como antecipou o jornalista Mauro Ferreira), o disco contará com as participações do pianista Bryan Velasco, do percussionista Gibi dos Santos e, claro, do próprio Younge, que também produz o disco. É o segundo disco que o casal assina junto, após Samba-Jazz & Outras Bossas, lançado em 2007, quando seu casamento completou 30 anos.

Transa, de Caetano Veloso, vai virar filme!

“You don’t know me…” desafia Caetano Veloso logo ao início de seu segundo disco gravado em Londres em 1972, o mitológico Transa, que agora vai virar documentário produzido por Paula Lavigne e dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, como foi antecipado ao jornal O Globo. Os dois já dirigiram juntos outros dois capítulos diferentes da história do baiano, em dois documentários: Uma Noite em 67 (de 2010), em que dissecam o clássico festival da canção que revelou a geração-base que se tornou o que até hoje chamamos MPB, e Narciso em Férias (de 2020, também produzido por Paula), que conta o período em que o baiano foi preso, torturado e exilado do Brasil durante a ditadura militar. Agora os dois se debruçam sobre as sete músicas do disco como fios condutores para o período em que Caetano foi forçado a fugir para Londres, na Inglaterra, quando gravou dois discos, o primeiro homônimo em 1971 e Transa no ano seguinte, quando compôs o disco com uma banda formada por Jards Macalé, Moacyr Albuquerque, Áureo de Souza e Tutty Moreno, além de participações de Gal Costa e Angela Ro Ro. Não há previsão de lançamento por enquanto.

Gorillaz e Strokes puxam o Primavera São Paulo 2026

Saiu a escalação do Primavera deste ano e… tá boa, mas você não tá com a impressão que tem nomes faltando? Gorillaz e Strokes são ótimos headliners, mas dá a impressão de estar faltando um ou outro nome com o peso semelhante (havia boatos sobre Depeche Mode e Tame Impala e expectativa por My Bloody Valentine ou Geese, por exemplo) e talvez alguns nomes brasileiros a mais. FKA Twigs, Lily Allen, Courtney Barnett, Underscores e Yung Lean estão em momentos ótimos de suas carreiras, mas não são grandes o suficiente pra trazer muita gente. Mas fora essa sensação, ao reunir nomes como Ana Frango Elétrico, Juana Molina, Smerz, Duquesa, Gaby Amarantos, Los Thuthanaka, Black Pantera, Gab Ferreira, Zé Ibarra, Josyara e John Talabot, mostra que o festival não tá pra brincadeira e puxa mais pra primeira edição paulistana (que acertou gigante ao anunciar um ótimo elenco contemporâneo em vários dias) do que pra segunda (que pareceu ter sido dedicada à geração X). Mas como eles mesmos eles mesmos disseram no vídeo da escalação que há novos nomes a serem anunciados, fico à espera de alguma surpresa… Imagina se viesse PinkPantheress, LCD Soundsystem, Clairo, King Gizzard ou The Marias…

Missa rock

Tava devendo ver a Lupe de Lupe tocando seu Amor – um dos melhores discos do ano passado – ao vivo e consegui resolver isso neste domingo, quando o grupo tocou no La Iglesia, transformando, como sempre, um show de rock pesado com fortes doses de sentimentalismo em uma catarse quase bíblica em que o público se joga em uma roda de pogo enquanto chora amores esquecidos do passado. O repertório da banda é gasolina nessa fogueira e a cada nova música o público se empolga ainda mais, berrando letras quilométricas sobre frustrações da vida e como seguir em frente como se suas vidas dependessem disso. Além de quase todo o Amor (tocaram três das quatro músicas de dez minutos que compõem o disco), passaram por músicas de outros sete discos, com as guitarras fulminantes de Vitor Brauer e Jonathan Tadeu e a cozinha redondíssima formada pelo baixista Renan Benini e pelo novato Mauro Novaes, o tempo todo surpreendendo o público com músicas que eles não acreditavam estar vendo ao vivo. A base instrumental da banda é o rock da virada dos anos 90 para os anos 2000, quando o pós-grunge e o hardcore melódico começam a se misturar num mesmo gênero musical, mas o grupo tempera com sua poética essencialmente brasileira, com pitadas de clássicos do pop moderno, indo de Dorival Caymmi a Legião Urbana, passando por Mos Def, todos entrando em citações breves ao final de diferentes músicas. A cruz em cima do palco do La Iglesia só aumentava a sensação de missa meio indie meio emo que tomou conta do fim do dia das mães, que ainda contou com o Corinthians ganhando do São Paulo, para a felicidade da banda. E minha também, afinal… #vaicorinthians

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DJ Björk

Não é um enorme DJ labubu e sim a Björk transformando a abertura da Bienal de Veneza, na Itália, em sua rave particular neste sábado, ao discotecar usando uma roupa feita de fibra de vidro reciclada. E ela não deixa barato, veja abaixo:  

Ecos da geração X

Um encontro inusitado provou-se eficaz quando Dean Wareham abriu o show dos Vapors of Morphine neste sábado no Cine Joia. Ecoando duas forças de baixo impacto instantâneo – mas de longa influência – durante duas fases distintas dos anos 90, as duas atrações reuniram um bom público em sua grande parte formado pela geração X contemporânea tanto do Morphine quanto dos discos clássicos do Galaxie 500, estes últimos a base da apresentação puxada por Dean. Embora nascido em Boston, nos EUA, o Galaxie faz parte de uma longa tradição nova-iorquina de bandas que começou com o Velvet Underground, passou pela geração CBGB’s do Television e de Patti Smith, pela no-wave que pariu o Sonic Youth, pelo indie clássico do Yo La Tengo e pela nova geração do início deste século liderada pelos Strokes. Pela terceira vez no país, Dean veio mais uma vez ao lado da esposa Britta Phillips (com quem toca outra banda indie clássica, o Luna) e do baterista Roger Brogan (este pela primeira vez por aqui) e novamente hipnotizou a todos com sua guitarra noise de sonho que ecoa, ao mesmo tempo, o clima pesado e singelo do Velvet aos solos arrebatadores – ao mesmo tempo noise e psicodélicos – de Tom Verlaine, Thurston Moore e Lee Ranaldo. E além de clássicos do Galaxie 500 (não poderiam faltar “Tugboat”, “Flowers”, “Blue Thunder”, “Fourth of July” e “Strange”), puxaram também versões de canções de diferentes genealogias (além de duas do Luna, “Friendly Advice” e “23 Minutes in Brussels”) que já fazem parte de seu repertório, como “Bonnie & Clyde” de Serge Gainsbourg e Brigitte Bardot, “Listen the Snow is Falling” da Yoko Ono e “Ceremony” do New Order, com a qual encerraram o show. Parecia um sonho…

Depois foi a vez do Vapors of Morphine seguir o legado da banda fundada pelo saudoso Mark Sandman (1952-1999). Depois da morte do vocalista, baixista e frontman da banda, os remanescentes do grupo – o saxofonista Dana Colley e o baterista Jerome Deupree – não deixaram seu legado morrer, primeiro ao criar a bissexta Orchestra Morphine e depois, em 2009, ao retomar o formato trio como Members of Morphine, cujo nome foi mudado de vez para Vapors of Morphine em 2014. O trunfo deste projeto póstumo, além da presença e performance dos fundadores da banda (e Dana tem que tocar seu sax duplo senão não vale!), foi ter encontrado o guitarrista de Nova Orleans Jeremy Lyons como um ótimo substituto para Sandman. Ele não tenta imitar o antigo vocalista, mas aprendeu a tocar baixo com apenas duas cordas e seu timbre grave funciona bem como paliativo à saída abrupta de Sandman do grupo, fazendo as canções dos discos clássicos Good, Cure for Pain, Yes, Like Swimming e The Night não descerem do patamar que sempre estiveram: blues eternos em um barzinho decadente em que nunca parece amanhecer. Muito bom.

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Ian Curtis por dentro

O líder e vocalista do Joy Division, Ian Curtis, é o tema da exposição Ian Curtis: Insight, que será aberta ao público entre os dias 25 de junho e 22 de julho na Voltz Clarke Gallery, em Nova York. A mostra reúne manuscritos (entre cartas e letras de músicas), fotos, material de divulgação dos shows de sua banda e outros artefatos do acervo do vocalista que atualmente está no British Pop Archive, coleção pública dedicada à preservação da cultura popular, contracultura e cultura jovem de Manchester, na Inglaterra, preservada pelo John Rylands Research Institute & Library (e que inclui acervos como os de Tony Wilson, da gravadora Factory; Rob Gretton, primeiro empresário do Joy Division e do New Order; do fotógrafo Kevin Cummins; do jornalista Andy Spinoza; da TV Granada, entre outros). É a primeira vez que este acervo deixa a Inglaterra. Veja algumas peças que estarão na mostra abaixo:  

Cidadão à toda!

Fernando Catatau inaugurou a nova fase do Cidadão Instigado neste fim de semana em São Paulo, quando tocou o recém-lançado disco homônimo em duas datas no Sesc Pompeia. Como pude ver a estreia desse show na cidade-natal do guitarrista há exatas duas semanas é inevitável comparar os shows e notar como a apresentação paulistana foi mais tensa que a cearense – sem que isso comprometesse a performance. Enquanto em Fortaleza o público conterrâneo cantava inclusive as músicas novas, deixando todos – fãs e artistas – completamente entrosados e animados, em São Paulo havia uma tensão natural do público paulistano que queria ver o que era aquele novo Cidadão Instigado ao vivo com certaa desconfiança. E foi sintomático que ele começasse em São Paulo com a faixa que parece simbolizar essa mudança de fase, única gravada com os integrantes da formação e que mais se assemelha à sonoridade rock que associamos ao grupo – e que não foi tocada em Fortaleza. “Tudo Vai Ser Diferente” trouxe Catatau de blazer e óculos escuros para abrir o show e, como no Ceará, optou por uma dose cavalar do novo disco logo de saída, mas o público de São Paulo ainda está assimilando as novas canções e formato do show, que traz uma banda que une diferentes fases da carreira de Fernando, com Dustan Gallas e Clayton Martins representando a antiga encarnação do grupo, Samuel Fraga tocando a bateria eletrônica que também tocava nos shows solo de Catatau e Anna Vis e Rubi Assumpção como novas integrantes do Cidadão. E, como no show de Fortaleza, é Rubi quem faz a primeira conexão do passado com o futuro do grupo ao rimar na segunda parte do clássico dance-prog “Os Urubus Só Pensam em Te Comer”. Recomeçando duas músicas em dois momentos distintos, Catatau foi ficando mais tranquilo à medida em que o show progredia, ainda mais quando entregou-se aos seus clássicos e à sua guitarra – e além das que tocou em Fortal, o show de sexta-feira contou com “Doido” e “Homem Velho”, tornando a apresentação ainda mais ampla que a anterior. Showzaço.

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