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Duas comédias sobre o fim do mundo

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…uma de cada lado do Atlântico.

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The World’s End, da imagem acima, é o novo filme de Simon Pegg e Nick Frost, que voltaram a trabalhar com Edgar Wright, para fechar a trilogia de paródias de filmes de gênero, que começou com Shaun of the Dead (Todo Mundo Quase Morto, no Brasil, de 2004) tirando sarro de zumbis e continuou com Hot Fuzz (no Brasil, Chumbo Grosso, em 2007), rindo de filmes policiais. O novo filme dos ingleses ainda não tem nem trailer (apenas algumas fotos), mas de alguma forma liga o consumo de cerveja em pubs ingleses aos motivos que fizeram o mundo acabar. O outro filme sobre o fim do mundo, a comédia norte-americana This is the End, no entanto, já tem trailer:

This is the End reúne o time de atores consagrados sob a reputação de Judd Apatow – Seth Rogan, James Franco, Jonah Hill, Emma Watson, Paul Rudd, Jason Segel, Jay Baruchel, Danny McBride, Craig Robinson e Michael Cera – no primeiro filme de Evan Goldberg (que escreveu Pineapple Express e Superbad, entre outros filmes da turma).

Eu acho que o filme inglês deve ser melhor que o americano.

Vazou O Som ao Redor

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Um dos filmes brasileiros mais falados dos últimos tempos, O Som ao Redor, acabou de aparecer online para download – e em vez de sair por aí caçando bruxas, seu diretor, o pernambucano Kleber Mendonça Filho, deixou um recado no Facebook:

Olá Amigos

Temos recebido muitos emails alarmados com um início de pirataria de O SOM AO REDOR. Peço que fiquem tranquilos, demos sorte, levou um ano e quatro meses para o filme finalmente cair na rede. Faz parte. O filme está tendo uma super carreira nas salas e chegou ao iTunes 3 semanas atrás, e agora virou arquivo de compartilhamento, como era previsto. O termo “pirataria” é meio complicado, na forma como é usada. Pirataria para mim é um esquema comercial de venda ilegal de filmes, meio baixo astral. Para esse pessoal, desejo que pisem num Playmobil descalços. Para os que não vendem ou ganham dinheiro com esse filme, mas querem vê-lo e querem que outros vejam através de torrents e troca de arquivos, a tecnologia existe, está disponível, usem-na com sabedoria. O SOM AO REDOR continua disponível para download no iTunes, onde a qualidade é excelente sempre e onde quem fez o filme será pago. Para mim, é como ir numa festa e levar uma garrafa de vinho ou vodka, ou umas latas de cerveja, para aumentar o nível de brodagem do encontro. Para quem não chegar com bebida, a festa (ou o filme) será bem recebido do mesmo jeito. Obrigado!

Palmas pro Kleber.

Impressão digital #150: Papo reto sobre o Facebook

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Semana passada Luane virou viral com vídeo boca suja, mas o que ela fala – descontando os palavrões – não é bobagem. Foi disso que falei na minha coluna da edição desta semana do Link.

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Parece piada, mas os conselhos de Luane têm fundamento
Apesar dos palavrões vídeo ‘manda a real’

No final do ano passado, a carioca Luane Dias resolveu gravar um vídeo para colocar no YouTube. Não citou nomes porque não queria apontar o dedo para ninguém, mas em pouco mais de três minutos desfilou um rosário de dicas de etiqueta social no Facebook. De fala mole e postura marrenta – uma carioca típica –, Luane, que pelo YouTube se identifica como “californiana2801”, também não poupa palavrões para criticar posturas de conhecidas em redes sociais.

Na semana passada, alguém descobriu o vídeo e ele viralizou. Se popularizou principalmente pelo jeito caricato que Luane dá suas dicas e pela enxurrada de palavrões ditos pela moça. Suas críticas tinham como alvo mulheres que querem passar por bem resolvidas e dizem não lamentar fim de relacionamentos, publicando frases de efeito no Facebook. As dicas de Luane são pérolas que merecem ser destacadas, mesmo relevando os palavrões e descontando o português esculachado:

“Bota que tá solteira, que tá feliz. Caô. Não tá! Sabe que não tá! Termina suave.” “Rasgue as fotos. Chore. Mas não coloque no Facebook.” “Tudo que vai fazer bota no Facebook. Essa porra virou diário agora?” “Como você vai arrumar namorado se todo dia você só quer reclamar?” “Guarde sua vida pessoal pra você.”

O único palavrão citado acima é quase uma vírgula perto das cenas pornográficas e do excesso de baixo calão do vídeo. Mas Luane não quer proibir ninguém de falar nomes feios e nem dar aulas de bons modos. Ela só quer dar um toque para umas meninas que saem publicando a primeira coisa que pensam no Facebook, sem nem pensar na repercussão que aquilo pode ter. “Não fale que tá na onda”, diz ela antes de cuspir outro palavrão e emendar “tá é ridícula”. O vídeo ganha ainda mais graça devido à fala arrastada de Luane, que capricha nos erres e nos esses chiados típicos do sotaque carioca.

Mas ela não está errada, não.

Luane está só verbalizando um sentimento que é próprio da maioria dos usuários da maior rede social do mundo. Você sabe. Basta um amigo ser contrariado para usar o Facebook como muro das lamentações e soltar indiretas como se elas pudessem ser percebidas apenas por quem é seu alvo. É quando paira aquela sensação de vergonha alheia – quando algo é tão constrangedor que envergonha até mesmo os outros. Você põe a mão na cara e abaixa a cabeça, incrédulo – “não é possível que o fulano se exponha dessa forma…”. Como se o Facebook já não fosse palco de outros tantos constrangimentos.

A carioca só pede calma na hora de postar. Ela mesma arrisca dizer que vai sair do Facebook, mas depois fala que não é preciso ser tão radical.

É um dilema da própria internet, não apenas do Facebook. A possibilidade de fazer sucesso a partir de frases polêmicas e opiniões engraçadinhas está ao alcance de qualquer um. E este sucesso é pra lá de relativo – basta que cinco amigos curtam uma frase boba para a pessoa que a publicou comece a se achar influente, transgressora, ousada.

Não, meu amigo, você não é. Na maior parte das vezes, o sentimento que você causa tentando provocar só piora a sua reputação.

Ou, como diz Luane, “se tu ficar de vacilação, alguém vai te cobrar”. Fique na boa!

***

Falei há duas semanas nesta Impressão Digital sobre o documentário Quarto 237, que disseca com diferentes lâminas O Iluminado, o clássico do horror dirigido por Stanley Kubrick em 1980. Ramon Vitral, repórter que cobre cinema no caderno Divirta-se, do Estado, veio me avisar que o filme de Rodney Ascher vai ser exibido no festival É Tudo Verdade, que começa na próxima quinta-feira, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Maiores informações sobre as sessões do filme no site do evento.

As classe sociais do Brasil

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Essa história toda me remete a uma entrevista com o sociólogo Jessé Souza que li no Globo há pouco menos de duas semanas. Alguns trechos:

Quais são as classes sociais do Brasil?
Basicamente, quatro. A alta, que tem capital econômico. Tem a classe média, que não é tão privilegiada quanto a alta, mas se apropria de um capital cultural valorizado, saber científico, pós-graduação, línguas estrangeiras, um conhecimento que tem valor econômico. Essas duas são as classes do privilégio. Para a classe alta, o mais importante é o capital econômico, embora o capital cultural tenha uma função. E, para a classe média, o que prevalece é o capital cultural, embora algum capital econômico também seja necessário.

Quais são as classes “sem privilégios”?
As classes populares não têm acesso privilegiado a capital econômico, nem cultural nem social, não vão ter acesso a pessoas importantes. Têm que trabalhar desde cedo, são batalhadores. É essa a nova classe trabalhadora precarizada (chamada pelos economistas de “nova classe média”). Ela foi incluída porque tem um lugar no mercado, tem renda, planos e consumo de longo prazo, mas isso não a torna classe média. A outra classe “sem privilégios” são os muito pobres, que não têm nem precondição para aprender, a quem chamamos de maneira provocativa de ralé. Para as classes média e alta, é bom que exista a ralé, porque assim podem desfrutar de serviços que a classe média europeia e americana já não têm, como alguém para fazer a comida, cuidar dos filhos. É a luta de classes invisível, tipicamente brasileira.

Luta de classes?
As classes do privilégio economizam um tempo importante para estudo ou para um trabalho mais rentável, enquanto a ralé limpa sua casa, faz sua comida. Luta de classe é uma classe roubar tempo de outra. Quando a empregada deixa o almoço do filho da patroa pronto para ele estudar inglês em vez de preparar sua própria comida, esse jovem ou criança está usando seu tempo para reproduzir seu capital cultural. E a empregada, usando seu tempo para repetir sua condição social.

A íntegra da entrevista segue aqui.

“O quarto de empregada é o apartheid brasileiro”

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Sobre essa questão da empregada doméstica, lembro do ótimo livro Eu Não Sou Cachorro, Não, de Paulo César de Araújo, que, ao fazer um raio X sobre a chamada música cafona dos anos 70 no Brasil, também aproveita para traçar um panorama da divisão social brasileira a partir das “minorias” que eram público-alvo de artistas como Odair José, Waldick Soriano e Nelson Ned. Araújo mais tarde tornou-se conhecido ao escrever uma biografia de Roberto Carlos que foi censurada legalmente pelo próprio rei da música brasileira, mas seu primeiro livro é uma pequena aula de historiografia brasileira encapsulada na análise da música popular dita cafona em plena década da ditadura militar. Em um capítulo dedicado a Odair José ele enfatiza a questão da empregada doméstica que, nos anos 70, também passou por uma situação parecida com a que vivemos hoje. O capítulo chama-se Os Sons que Vêm da Cozinha – Odair José e o Apartheid Brasileiro e cito aqui parte dele:

Um rótulo que marca a imagem desta geração de artistas românticos é o de “cantor das empregadas”, termo que aparece com certa freqüência na mídia, como se os “cafonas” fossem ouvidos e admirados apenas por este segmento de público. Na verdade, o termo é restritivo porque cada um destes artistas poderia ser chamado também de cantor dos padeiros, dos pedreiros, caminhoneiros, porteiros, ferreiros, lixeiros, açougueiros, coveiros, enfim, da maioria da população brasileira, e não apenas “das empregadas”. Mas este rótulo se deve ao fato de o segmento de classe média – que os rotula – ter um contato cotidiano e mais próximo com a empregada doméstica e ouvir da sala os sons que vem da cozinha, através do rádio ou na voz da própria empregada.

De qualquer forma, neste público feminino se concentra mesmo grande parte de consumidores dos discos de artistas como Odair José, Paulo Sérgio e Agnaldo Timóteo. Aliás, ao escrever um artigo na Folha de S. Paulo sobre o alcance popular destes cantores, o jornalista Ruy Castro alertava o seu leitor com a observação de que “você pode não gostar deles, mas a sua empregada gosta. E compra os seus discos com o dinheiro que você lhe paga no dia 30. E, se você mora sozinho e passa o dia fora, adivinhe onde ela toca os discos? No Marantz de 400 watts que você comprou na Breno Rossi e deu de presente aos Mahler e Bártok da sua coleção”.

Já foi observado que as empregadas domésticas não apenas gostam de ouvir músicas; também costumam cantar – e pelo menos duas delas deixaram a cozinha e tornaram-se nomes de projeção na nossa música popular: a sambista Clementina de Jesus (no campo da MPB) e a baladista Carmen Silva, destaque desta geração de artistas “cafonas” (não confundir com Carmen Costa, cantora da era do rádio). Consagrada como a “Pérola Negra” título de um de seus discos – , Carmen Silva é neta e filha de escravos. Embora ela não cante sambas ou exaltações a divindades afrobrasileiras, na voz de Carmen Silva ouvem-se ecos do porão do primeiro navio negreiro e lamentos do terreiro da primeira senzala. Seu pai Fernando José da Silva (já octogenário quando Carmen nasceu, em 1945), tinha 22 anos de idade quando foi promulgada a Lei Áurea.

Portanto, ele cresceu no cativeiro e como todos os negros de seu tempo derramou muita lágrima clara sobre a pele escura. Um dos grandes sucessos de Carmen Silva é exatamente uma canção que gravou em homenagem à memória do pai faixa de seu LP em 1976: “Meu velho pai / preste atenção no que lhe digo / meu pobre papal querido / enxugue as lágrimas do rosto…”

Como a trajetória da maioria dos descendentes de escravos no Brasil, a de Carmen Silva não ficou muito longe da senzala. “Eu fui uma criança que não teve infância. Eu nunca soube o que é ganhar uma boneca no Natal. A gente dormia em cama de pau e colchão de palha. Mas desde pequena eu sempre acreditei que todo ser humano tem direito a uma vida digna.”

Nascida num lugarejo próximo à cidade mineira de Uberaba, aos dez anos de idade Carmen começou a trabalhar em casas de família. “Foi uma época importante, quando aprendi a cozinhar, lavar e passar, o que muito me serviu depois na cidade grande.”

O primeiro impulso para a carreira musical surgiu quando ela trabalhava na casa de Cecília Palmério, mulher do escritor e acadêmico Mário Palmério. “Dona Cecília um dia me descobriu cantando para as crianças dormir e disse que eu tinha uma voz muito bonita. Aí, ela me fez aprender La Violetera e me incentivou a procurar rádios e programas de calouros.”

Com poucas oportunidades no interior de Minas, aos 16 anos Carmen Silva se mudou para São Paulo e ocupava seu tempo entre o fogão das patroas e o microfone das rádios. No fim dos anos 60 foi contratada pela gravadora RCA, que queria lançá-la como sambista na linha de Elza Soares. “Mas eu dizia para eles, ‘só porque sou negra tenho que cantar samba?’ A gente tem que cantar aquilo que o coração sente, né? E eu gostava de música romântica. Eu até admiro o samba, mas não é minha área, nunca foi. O samba nunca mexeu comigo; eu nunca pulei carnaval, nunca saí em escola de samba. Aliás, quando chega carnaval eu sempre me retiro, vou descansar.”

Definitivamente, seu coração não balança ao som de um tamborim e o sucesso veio mesmo com a gravação de baladas como ”Eu posso não prestar mas te amo”, “Que Deus proteja nosso amor” e “Adeus solidão”, faixa que lhe rendeu o primeiro disco de ouro em função das mais de cem mil cópias vendidas, em 1970.(544) A partir daí o tanque e o fogão ficaram para trás, e a cantora se tornou uma referência para muitas ex-colegas de trabalho que lá permaneciam “alegres e sem canseira / trabalhando e cantando / no compasso da torneira ..”

Sucessora das antigas mucamas – que realizavam o trabalho doméstico durante a escravidão no Brasil – , desde o fim do século XIX a empregada doméstica aluga sua força de trabalho nas casas de família de classe média, mas a categoria foi excluída dos benefícios da legislação social e trabalhista estabelecidos no governo Vargas através da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).

No inicio dos anos 70 as domésticas se mobilizaram em busca destes direitos e o disc-jóquei Luiz Aguiar, que tinha neste público grande parte de sua audiência, se solidarizou com a causa e apoiou suas reivindicações através do programa comandado por ele na Rádio Tupi de São Paulo.

Numa certa manhã de 1973, Odair José participava do programa de Luiz Aguiar quando ouviu o locutor ler um texto que apresentava as principais reivindicações das trabalhadoras domésticas e descrevia as dificuldades e preconceitos enfrentados por cada uma delas no seu cotidiano.

Odair José achou o texto interessante, principalmente a segunda parte, e perguntou ao locutor se poderia usar aquela temática nos versos de uma canção. Luiz Aguiar concordou e o resultado foi a balada “Deixa essa vergonha de lado”, canção que mostra o estigma de sub-trabalho que envolve o ofício das domésticas no Brasil e a barreira social que as impede de namorar um rapaz de classe média: “Deixa essa vergonha de lado / pois nada disso tem valor / por você ser uma simples empregada / não vai modificar o meu amor…” Mas a letra da música vai além da mera descrição do dilema amoroso dos personagens e, na segunda estrofe, ao fazer referência ao quarto de empregada, aponta para a questão do uso do espaço numa sociedade de classes: “Eu sei que o seu quarto fica lá no fundo / e se você pudesse fugia desse mundo / e nunca mais voltava…”

Marca essencial das habitações das famílias de classe média do país, o diminuto cômodo reservado às empregadas domésticas, assim como a segregação destas moças em espaços de circulação apartados daqueles dos patrões – as chamadas “área de serviço” e “elevador de serviço””, denunciam por si só o alto grau de autoritarismo da nossa sociedade. Como destaca o arquiteto Carlos Lemos, “O Brasil tornou-se o primeiro e único país a possuir edifícios com essa precaução reparadora de circulações”. E até hoje este apartheid está presente na maioria das construções brasileiras, e uma comparação com edifícios de outras regiões do planeta “mostra que estamos frente a uma exclusividade nacional”.

Este traço peculiar da nossa arquitetura residencial contemporânea traz, segundo o autor, a influência da antiga casa-grande, porque, no subconsciente dos patrões, a empregada doméstica “ainda é a escrava de presença desagradável” e “o seu quartinho abrindo porta para o tanque de lavagens ainda é a senzala”.

Embora sem a mesma profundidade de um tratado sociológico, a temática da canção composta por Odair José é também um reflexo de toda esta questão social, como ele próprio afirma numa entrevista à Rádio Globo: “Eu me mudei para o Rio de Janeiro por volta de 1966. E chegando aqui dormi em banco de praça, dormi debaixo de marquises, dormi na praia e depois fui morar em quartos de fundos. E ao conviver com essas dificuldades todas eu aprendi a gostar das pessoas que também dormem em quartos de fundos. Foi quando eu fiz a canção Deixa essa vergonha de lado, que conta a história da pessoa que convive com a família, mas não é da família, ou seja, a empregada doméstica, aquela secretária de casa que serve para dar banho nas crianças, serve para levar o filho à escola, serve para passar roupa, serve para fazer a comida, mas não serve para casar com os filhos da gente. E isso é uma coisa que sempre me tocou muito ”

Em 1973, as empregadas alcançaram um primeiro resultado da sua mobilização por direitos sociais: em março daquele ano o presidente Médici assinou decreto determinando que a partir dali o trabalho doméstico deveria passar a ser regido pela CLT. E, em conseqüência da repercussão da balada Deixa essa vergonha de lado – que foi lançada em meio a este processo – , Odair José tornou-se o principal porta-voz das domésticas no campo musical e empenhou-se, inclusive, na criação do “Dia Nacional da Empregada Doméstica”, data a ser comemorada a cada primeiro sábado de Outubro. Segundo relato do Jornal da Tarde, no inicio do primeiro show comemorativo, em um cinema em São Paulo, a empregada Sebastiana Comes da Silva fez um agradecimento a Odair José em nome da classe, mas ao final houve um quase incidente; as moças avançaram sobre o cantor, que teve que ficar 30 minutos trancado no banheiro de senhoras, para não ser agarrado e beijado pelas domésticas que “protestavam contra a escravidão em que vivem”.

Entrevistei o autor em 2003, ano seguinte ao lançamento do livro, e ele falou mais sobre este tema:

Não faria um livro apenas sobre música, mas sim um trabalho de história social e cultural, priorizando a análise da canção popular sem emitir juízo de valor estético. Afinal, quais os critérios de seletividade e julgamento na escolha da boa música popular? Quem determina estes critérios como universalmente válidos? Os críticos e historiadores da música popular brasileira excluíram os bregas de seus livros sob o argumento que esta produção musical é “ruim”, “vulgar”. Mas alguém já disse, e eu concordo, que este negócio de crítica musical não é objetivo. Implica um julgamento de valor tipo “eu sou melhor do que você, portanto o que eu gosto é melhor do que o que você gosta”. Ou seja: a luta de classes também se expressa na questão estética. Por isso, sempre me incomodou esta desqualificação do repertório “cafona” e a excessiva exaltação dos cantores da MPB.

No meu livro procurei fugir destes dois extremos. Ali, focalizo a produção musical popular como um fenômeno social. Não emito qualquer juízo de valor estético – nem para as canções de Waldik Soriano, nem para as de Chico Buarque – ambas tratadas como documentos da história brasileira. Não opino se a voz de Nelson Ned é boa ou ruim ou se ele é um compositor completo ou não. Eu analiso a repercussão social de sua obra, o sucesso popular e a sua ausência na historiografia. Interessa-me o fato de Nelson Ned ser ouvido em cerca de trinta países, lotar por duas vezes no mesmo dia o Carnegie Hall e de contar entre os seus milhões de admiradores com o prêmio Nobel de literatura Gabriel Garcia Márquez. Da mesma forma não discuto se a música de Odair José é de alta ou baixa qualidade, mas sim, que ela aborda questões cruciais da sociedade brasileira – racismo, homossexualismo, drogas, exclusão social… -, o que fez de seu autor um dos mais proibidos artistas da época da ditadura militar. E para um amante da MPB que acha a música de Odair José muito simplória e banal, saiba que existem amantes de jazz e de música clássica que também acham a música de Chico Buarque muito simplória e banal. Em última instância o que vale é o poder de quem possui o “discurso competente” para afirmar que tal produção artística é boa ou ruim.

(…)

Analisando a história da música brasileira no século 20, você consegue estabelecer um marco inicial para o surgimento desta “música de bom gosto”, que ignora vendas de discos para conceber discos mais “nobres”? Quando a música popular brasileira pôde se deixar ao luxo de deixar de ser popular?
Isto aconteceu após a eclosão da bossa nova, no fim dos anos 50, quando efetivamente a canção popular começou a ser objeto de análise e debate por parte da intelectualidade. É quando surgiu também um novo público consumidor de discos. Até então a nossa música popular era direcionada exclusivamente para a grande massa ouvinte dos programas de auditório. E este universo dos cantores do rádio era é visto pelas elites como o reino do improviso, do descompromisso profissional, do baixo nível artístico, da futilidade. De certa forma, não se atribuía qualquer importância a essa produção musical. Nomes hoje consagrados da música popular brasileira como Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues e Luiz Gonzaga só obtiveram reconhecimento da crítica quando o período de maior sucesso popular de cada um deles já havia terminado. Na época, Mário de Andrade se referia a obra destes compositores como “popularesca”. Os estratos mais altos da população brasileira não se identificavam com a música popular produzida neste país. Isto começou a mudar por volta de 1958, com o aparecimento da bossa nova. A partir daí foi incorporado um novo público para o mercado de discos e as principais gravadoras organizaram seu elenco com basicamente dois grupos de artistas: os de “prestígio, para atender as classes A e B, e os “comerciais” ou “cafonas”, voltados para os segmentos C, D e E.

Por que a bossa nova? Qual é o “truque” do gênero para se estabelecer como marco tão forte? Seria o sucesso no exterior aliado à mentalidade servil do brasileiro em relação ao estrangeiro?
É fato que as elites culturais do Brasil sempre consideraram “cafona” um tipo de música mais identificado aos gêneros e ritmos de países subdesenvolvidos. De mau gosto sempre foram o bolero, a guarânia, a rumba, a conga. De outro lado, eles sempre admiraram aquela música mais identificada aos Estado Unidos, principalmente o jazz. Alguns dos próprios músicos de bossa nova como Johnny Alf, João Donato e Carlos Lyra afirmam que na fase de adolescência eles não se interessavam por música popular brasileira. O que fazia a cabeça deles eram os temas, as melodias e as harmonias das canções americanas. Ou seja: foi a partir da bossa nova, com a fusão do samba com o jazz, que uma geração de jovens brasileiros passou a se interessar e a se identificar com a música popular do nosso país. A bossa nova aproximou o samba da música norte-americana e talvez por isso foi tão bem aceita pela elites culturais.

A entrevista toda está aqui.

Tumblr do dia: FILMography

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Christopher Moloney imprime fotos clássicas de filmes passados em Nova York e as coloca sobre seus cenários originais, superpondo lindamente ficção e realidade. O melhor é que em seu tumblr ele ainda vende suas próprias fotos. Tem mais outras aí embaixo…