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“I Am Somebody”, Jesse Jackson

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Se alguém quiser traduzir o discurso abaixo, é só postar nos comentários que eu publico aqui. O YCK traduziu (valeu!), segue abaixo do texto original:

“This is a beautiful day.
It is a new day.
it is a day of black awareness, it is a day of black people taking care of black people’s business.
Today, we are together, we are unified and all in accord.
Because together we got power and we can make decisions.

Today on this program you will hear gospel, And rhythm and blues, and jazz.
All those are just labels.
We know that music is music.
All of our people have got a soul, our experience determines the texture, the tastes and the sounds of our soul.
We may say that we are in the slums but the slums are not in us.
We may be in prison, but the prison is not in us.
In Watts, we have shifted from, burn-baby-burn to learn-baby-learn.
We have shifted from having a seizure about what the man got, to seizing what we need.
We have shifted from bed bugs and knob picks to community control and politics.
That is why we are gathered today to celebrate our homecoming and our own sense of somebody-ness.
That is why I challenge you now, to stand together, raise your fist, together, and engage in our National Black Litany.
Do it with courage and determination.

I am somebody.
I am somebody
I am somebody.
I may be poor.
I am somebody.
I may be on welfare.
But I am somebody.
I may be unskilled.
But I am somebody.
I am somebody.
I am Black, beautiful, proud.
I must be respected.
I must be protected.
What time is it?
Nation time
When we stand, together, what time is it?
Nation time
When we say no more “yessa’ boss,” what time is it?
Nation time.
What time is it?
Nation time
What time is it?
Nation time”

E em português:

“Esse é um dia maravilhoso
é um dia novo
é o dia da consciência negra, é o dia dos negros cuidarem do que é dos negros
hoje, estamos juntos, estamos unidos e todos de acordo
porque juntos nós temos o poder e nós podemos tomar decisões
Hoje, neste programa, você vai ouvir gospel, e R&B, e blues, e jazz
Estes são apenas rótulos
Nós sabemos que música é música
Todos do nosso povo tem uma alma, nossas experiências determinam a textura, os gostos e os sons da nossa alma
Nós podemos dizer que estamos na favela, mas a favela não está em nós
Nós podemos dizer que estamos na prisão, mas a prisão não está em nós
Em Watts, nós mudamos de queime- baby- queime para aprenda-baby-aprenda¹
Nós mudamos de querer o que o homem tem, para querer o que precisamos
Nós mudamos de piolhos e michas para controle e políticas comunitárias
E é por isso que hoje estamos reunidos para celebrar nossa volta ao lar e à nossa noção de ser alguém
E é por isso que eu os desafio agora, a levantarem juntos, erguendo o punho fechado, e se comprometer com nossa oração² nacional e negra
Façamos com coragem e determinação.

Eu sou alguém
Eu sou alguém
Eu sou alguém
Eu posso ser pobre
Eu sou alguém
Eu posso receber da previdência social
Mas eu sou alguém
Eu posso ser inexperiente
Mas eu sou alguém
Eu sou alguém
Eu sou negro, bonito e orgulhoso
Eu devo ser respeitado
Eu devo ser protegido
É tempo de que?
Tempo da Nação
Quando nos levantamos, juntos, é tempo de quê?
Tempo da Nação
Quando dizemos não mais “sim, sinhô”, é tempo de quê?
Tempo da Nação
É tempo de quê?
Tempo da Nação
É tempo de quê?
Tempo da Nação

¹ N.T. referência às revoltas em Watts, bairro negro de Los Angeles, de 11 a 17 de agosto de 1965, de caráter racial-político que tiveram quase mil prédios danificados ou destruídos.
² N.T. no original é litania, ou ladainha, mas como pode ser algo pejorativo para alguns, como algo maçante, preferi trocar por oração.

E, abaixo, o filme de onde saiu essa cena, o documentário de 1973 sobre o festival Wattstax (dirigido pelo mesmo Mel Stuart que realizou o primeiro filme da Fantástica Fábrica de Chocolates em 1971). O evento original foi realizado em agosto de 1972 em Los Angeles pela gravadora Stax, em comemoração ao aniversário dos tumultos que aconteceram em 1965 na região de Watts:

 

Vida Fodona #380: Nas ruas

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Uma trilha sonora pra esses dias, que contou com uma pequena ajuda de muita gente.

Jesse Jackson – “I Am Somebody”
Gil Scott-Heron – “The Revolution Will Not Be Televised”
Nina Simone – “Revolution”
Metá Metá – “São Jorge”
Curtis Mayfield – “Power to the People”
Sam Cooke – “A Change is Gonna Come”
Wilson das Neves – “O Dia em que o Morro Descer e Não for Carnaval”
Bob Dylan – “Masters of War”
National – “Fake Empire”
T-Rex – “Children of the Revolution”
Richard Hawley – “Tonight The Streets Are Ours”
Buffalo Springfield – “For What It’s Worth”
Gal Costa – “Divino Maravilhoso”
Beatles – “Tomorrow Never Knows”
Sonic Youth – “Teen Age Riot”
Beastie Boys – “Fight For Your Right to Party”
Paralamas do Sucesso – “Selvagem”
Titãs – “Desordem”
Rage Against The Machine – “Killing in the Name”
Kendrick Lamar – “Bitch Don’t Kill My Vibe”
Primal Scream – “Come Together”
Massive Attack – “Safe from Harm”
Sly & the Family Stone – “There’s a Riot Goin’ On”
Rolling Stones – “Gimme Shelter”
Gilberto Gil – “Marginália 2”
Siba e a Fuloresta – “Pisando em Praça de Guerra”
Tatá Aeroplano – “Tudo Parado na City”
Ronnie Von – “Anarquia”
Martha & The Vandellas – “Dancing in the Streets”
Black Alien – “From Hell Pro Céu”
Ana Tijoux – “Shock”
Major Lazer + Amber Coffman- “Get Free”
Black Lips – “Bad Kids”
Gorillaz – “Dirty Harry”
Clash – “Guns of Brixton”
Bob Marley & the Wailers – “Exodus”

Vamos lá!

Hermes e Renato 2013: RPMs

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O quadro é deste ano, mas não vi ninguém fazendo menção a essa brincadeira do Hermes e Renato – ainda mais à luz dos fatos desta semana…

Bom saber #010: Manuel Castells e o ponto em comum entre a praça Taksim e avenida Paulista

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Fui à palestra de Manuel Castells na terça passada enquanto acontecia o quebra-pau entre manifestantes e polícia na Avenida Paulista e o assunto abordado pelo sociólogo espanhol tinha tudo a ver com a reivindicação que se repete hoje – tanto que é o meu assunto na minha coluna no site da Galileu.

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O ponto em comum entre a praça Taksim e avenida Paulista
O sociólogo espanhol Manuel Castells falou nesta terça-feira em São Paulo sobre esta nova modalidade de manifestação social – que começa na internet e vai para as ruas

Ao mesmo tempo em que o sociólogo espanhol Manuel Castells falava em mais uma palestra do evento Fronteiras do Pensamento, que aconteceu no Teatro Geo na terça-feira desta semana, em São Paulo, a tensão entre manifestantes contra o aumento da passagem de ônibus e a polícia militar chegava às vias de fato a poucos quilômetros dali, na Avenida Paulista. Não estava alheio ao que acontecia na cidade, ao citar o protesto paulistano como uma das inúmeras manifestações de uma indignação que, nos últimos cinco anos, tem começado em um novo espaço social, a internet, para depois chegar às ruas, em massa.

O sociólogo é um dos principais acadêmicos a compreender esta mudança, que é o tema de seu novo livro, chamado Redes de Indignação e Esperança – Movimentos Sociais na Era da Internet, que deve sair no Brasil em setembro, pela editora Zahar. O livro também foi a base para sua conferência, em que começou explicando que qualquer manifestação política começa em nossas mentes para depois materializar-se na prática. “A forma como pensamos, determina a forma como atuamos. Portanto, o que realmente condiona o comportamento da sociedade é o que ocorre em nossas mentes”, explicou. Falou sobre o papel da coerção do estado para manter o poder (“uma tradição que começa em Maquiavel e que foi formalizada melhor por Max Weber”, disse) e como apenas o monopólio da violência – válido ou não – torna este mesmo estado débil. “Pois ao mesmo tempo há outra tradição, que inclui Bertrand Russell, Foucault e também Gramsci, que insiste no papel decisivo da persuasão para a manutenção do poder, pela maneira implícita e explícita de influenciar nossa maneira de pensar”, explicou, antes de cravar que “afinal, manipular as mentes é muito mais eficaz do que torturar os corpos”.

Com esta introdução ele explicou que a atuação do poder – de qualquer natureza, político, econômico, militar, tecnológico, etc. – não acontece sozinha, e sim com a participação da sociedade civil. “Nossas mentes vivem imersas em um ambiente de comunicação, onde construímos nossa forma de pensar e, portanto, de fazer o que fazemos”, considerou, lembrando que, com a chegada das tecnologias digitais, não temos mais como fugir deste ambiente – cada vez mais intenso, veloz e, portanto, mais decisivo para definirmos nossas posições e preferências, tanto quanto indivíduos como sociedade.

Eis o centro de sua palestra: o impacto que estas novas tecnologias imprimiram primeiro à sociedade, depois aos meios de comunicação – ou à “arena da comunicação”, frisando que não mais podemos separar o público dos grupos que antes controlavam este debate – e, finalmente, aos poderes políticos constituídos. “O poder político é construído no espaço da comunicação”, frisou, “este é o espaço em que se joga o poder”. Exemplificou o impacto da internet na sociedade moderna, primeiro em números, citando que há quase o mesmo número de linhas de telefones celulares ativas no mundo que de pessoas (“Sem nos esquecer que bebês – ainda – não usam celulares”, brincou), e como a evolução do digital e das tecnologias móveis aceleram um processo que está mudando a cara da política. “A humanidade está conectada”, atestou, “e isso aconteceu num espaço duas décadas, sobretudo nos últimos dez anos.”

Lamentou a crise do jornalismo, agente que funcionaria como mediador entre os poderes e as pessoas, mas que tem perdido o contato com o público por não saber dialogar com a nova realidade digital e estar obcecado com números de audiência – antes fáceis de ser conseguidos e que agora dispersam-se pois os espectadores e leitores não são mais “vegetativos” – como explicitou no caso do público da TV – e que consomem muito mais informação que antes, por canais diferentes. “O uso da internet se aprofundou pois novos espaços sociais de interação foram ocupados, cada vez mais personalizados”, continuou, listando redes sociais e enfatizando que o até o e-mail já perdeu seu espaço. “Há mais de 500 milhões de blogs atualizados diariamente, a maioria na China, e as redes sociais, hoje onipresentes, existem há menos de dez anos”, além de salientar que a internet se tornou um espaço multicultural, em que o inglês, por exemplo, perdeu a dominância: “Menos de 29% da internet é escrita em inglês”, reforçou.

Este novo cenário resulta na crise total do negócio tradicional da comunicação, disse Castells. “Ninguém ainda encontrou a resposta para a questão da perda do monopólio nas transmissões das mensagens. Todos os grandes meios de comunicação em todo o planeta estão em profunda crise empresarial, pois tentam se apropriar de um modelo que não entendem. É um problema mental – e generalizado no mundo todo. A internet é ativa, os outros meios eram passivos”, refletiu.

Castells também falou sobre como enfraquecimento dos meios tradicionais de comunicação afetou a política, que hoje busca um rosto para representar o poder, não apenas ideologias ou partidos. Disse que isso acontece pois há uma crise de representação de poder que encontra eco nos novos espaços sociais e faz que a sociedade se pergunte sobre seu papel nestes novos tempos.

O novo cenário é composto não apenas de veículos de comunicação de massa e ambientes digitais que permitem discussões entre as pessoas, mas de uma nova forma de comunicação, que chama de “autocomunicação de massas”. Ele explica o termo: “É de massas porque pode alcançar, potencialmente, milhões e milhões de pessoas. Não ao mesmo tempo, mas uma pequena rede se conecta a muitas redes que se conecta a muitas redes e se chega a todo o mundo”, definiu, “e é ‘auto’ porque há autonomia na emissão das mensagens, na seleção da recepção das mensagens, na criação de redes sociais específicas. Assim, a capacidade de encontrar informação é ilimitada, se você tem critérios de busca – que não são tecnológicos e sim metais ou intelectuais.”

E a partir daí começou a conclusão de sua conferência, explicando que movimentos como o que propôs a criação coletiva da constituição da Islândia, os Indignados na Espanha, o Occupy Wall Street nos Estados Unidos, a Primavera Árabe e o grupo Anonymous são parte de um mesmo movimento, coletivo e global, que não é político e sim social. “São estes movimentos, sociais e não políticos, que realmente mudam a história, pois realizam uma transformação cultural, que está na base de qualquer transformação de poder”, salientou.

Disse que estes movimentos começam na internet mas não são essencialmente digitais. “Eles só tornam-se visíveis e passam a existir de fato quando tomam as ruas”, explicou, reforçando que estes movimentos acontecem há apenas cinco anos e que eles não têm lideranças, que repudiam a violência e que embora não tenham objetivo definido, encontrem coincidências e semelhanças ao indignar-se. “São movimentos emocionais e que se unem pela recuperação de uma dignidade que se perdeu. Às vezes eles começam pequenos e parecem que se mobilizam por pouca coisa, mas que funcionam como apenas uma gota a mais em uma indignação que existe em todos os setores sociais, que as pessoas não aguentam mais”, realçando que isso pode ser a construção de um shopping para turistas na praça Taksim na Turquia ou no aumento de centavos nas passagens de ônibus em São Paulo. “Centenas de milhões de pessoas já participaram destes movimentos”, continua, “e são movimentos que podem ter saído das ruas, mas não desapareceram. Eles continuam online. Quando vem a repressão física, eles se retiram das ruas, rediscutem online. Não têm líderes nem programa, mas têm a capacidade de resistir e de renascer a qualquer momento. Isso só acontece porque há a capacidade de autocomunicação de massa que os permitiu existir”.

E conclui: “A palavra ‘dignidade’ aparece em todos os países, em todos estes movimentos, em diferentes países e culturas. Eles não têm uma reivindicação concreta, mas querem o reconhecimento da própria dignidade, pois as pessoas não se vêem reconhecidas como pessoas ou cidadãos”. Castells reforçou que as semelhanças entre movimentos que partem de causas tão distintas apenas enfatizam seu papel no século 21 – e compara o que está acontecendo nos últimos anos com o que aconteceu nos últimos 40 anos no que diz respeito às mulheres, sem se referir a um autor, ideologia ou movimento feminista específico. “Foi um movimento coletivo, em que todas as mulheres do mundo decidiram abandonar o papel de sujeitada para assumirem o papel de sujeitas da história”, reforçou, lembrando os avanços da ascensão do papel da mulher na sociedade na última metade de século, principalmente em comparação a milênios de história. E, segundo ele, isso está acontecendo de novo, nesta nova forma de manifestação social – que demanda mudanças culturais mais do que políticas.

Foto: Divulgação / Fronteiras do Pensamento