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Um golpe ao som do jazz

É uma pena que o melhor filme desta temporada não esteja recebendo a devida atenção. Mais do que Anora, Conclave, Brutalista, Babygirl, Nosferatu, Substância, A Verdadeira Dor, Nosferatu e até Ainda Estou Aqui, o inacreditável Trilha Sonora para um Golpe de Estado, com suas duas horas e meia de duração, é sessão obrigatória para quem gosta de cinema, música e política – e para quem quer entender o estado das coisas do mundo atual. Escrito e dirigido pelo multiartista, curador e diretor belga Johan Grimonprez, é uma aula de história política internacional, que mira no coração da África no auge da Guerra Fria (especificamente a partir da independência do Congo) para falar sobre como a política cultural dos EUA ajudou a aumentar as tensões políticas do país depois que este livrou-se da Bélgica para, como diz seu título, dar um golpe de estado (como é de praxe na política estadunidense). O que transforma este documentário numa aula eletrizante é a forma como Grimonprez usa o elemento cultural da vez – a outra parte do título, a trilha sonora – para dar uma dinâmica de tirar o fôlego para sua história, usando o melhor jazz norte-americano, personificado em ícones como Louis Armstrong, Dizzy Gillespie, Nina Simone, Miriam Makeba, John Coltrane, Duke Ellington, Charles Mingus, Ornette Coleman, entre inúmeros outros, para dar um ritmo à edição de cenas, que em sua enorme maioria, são imagens de arquivo – e reunindo alguns dos principais nomes da política internacional do período, de Fidel Castro a Malcolm X. Poucas imagens foram captado para a realização do documentário, a enorme parte das imagens são cenas e falas que já existiam, ordenadas de uma forma magistral, intercalando trechos com imagens e textos (além de dois flashes curtos, quase comerciais sobre o século 21 que parece ter começado a partir daquela exploração colonial) e começando e terminando o filme com a cantora Abbey Lincoln e o baterista Max Roach liderando uma invasão no Conselho de Segurança da ONU para protestar contra o assassinado do primeiro ministro Patrice Lumumba. É muito foda.

Assista ao trailer abaixo:  

Lilian Knapp (1948-2025)

Morreu neste sábado a cantora carioca Lilian Knapp, que tornou-se conhecida como a Lilian da dupla Leno e Lilian que compôs com o potiguar Gileno Azevedo durante o auge da Jovem Guarda, nos anos 60. Ela foi a primeira a gravar sucessos como “Devolva-me”, “Pobre Menina” (versão em português para “Hang on Sloopy”, do grupo The McCoys), “Coisinha estúpida” (versão da dupla para “Something Stupid”, eternizada por Frank e Nancy Sinatra), “Sou Rebelde” (versão para o hit de 1971 da cantora espanhol Jeanette) e “Eu Não Sabia Que Você Existia” ,que depois seriam regravados por nomes tão diferentes quanto Adriana Calcanhotto, Chico César, Paquitas, Alice Caymmi e pelas bandas Virgulóides e Vexame, esta última liderada pela atriz Marisa Orth. Também foi a primeira mulher a compor um rock no Brasil, quando assinou “O Picapau”, gravada por Erasmo Carlos em seu disco de 1965 (“com meu bem fui ao cinema…”). Lilian estava internada em estado grave nos últimos meses, mas ainda estava em atividade até há pouco tempo – seu último show aconteceu no fim do ano passado, na clássica churrascaria Ed Carnes (clássica justamente por ser de propriedade de outro ícones da Jovem Guarda, Ed Carlos), e sua apresentação ao lado de seu eterno dupla Leno (que morreu em 2022) aconteceu há mais tempo, na Virada Cultural de 2015, há dez anos.

Desaniversário | 22.2.2025

Chegou a hora de afastar os móveis da sala e se acabar de dançar – neste sábado tem mais uma Desaniversário, quando eu, Clarice, Camila e Claudinho transformamos o Bubu na nossa pista de dança favorita, resgatando pérolas que você nem lembrava que gostava e enfileirando-as com hits atuais que você vai adorar. A festa sempre começa cedo justamente pra acabar cedo, por isso esperamos vocês neste sábado a partir das 19h para terminar a farra lá pela meia-noite – e o Bubu, você sabe, fica ali na marquise do Estádio do Pacaembu (Praça Charles Miller, s/nª). Vem dançar com a gente!

Psicodelia infernal

Guilherme Cobelo e Tagore fizeram uma noite quentíssima na edição desta sexta-feira no Inferninho Trabalho Sujo no Picles, quando trouxeram versões de uma psicodelia brasileira influenciada pela cultura do sertão, cada um à sua maneira. Cobelo trouxe seu Caubói Astral pela primeira vez para São Paulo, acompanhado do guitarrista Jota Dale, do baterista Dinho Lacerda e do baixista André de Sousa, e ainda cantou músicas inéditas, como minhas favoritas “Asa Soul” e “Conversando como Sábado”, esta última dividindo os vocais com sua irmã de Joe Silhueta, Gaivota Naves, que subiu no palco para abrilhantar ainda mais a noite.

Depois foi a vez de Tagore passear por seus discos e invocar a psicodelia nordestina, puxando Alceu Valença e Ave Sangria entre seus vários ídolos musicais em meio às músicas de seus discos clássicos como Movido a Vapor, Maya e o mais recente Barra de Jangada. Ele veio com uma banda azeitadíssima, que contava com seu fiel comparsa João Cavalcanti no baixo, o ás Arthur Dossa na guitarra, o baterista Arquétipo Rafa e o tecladista Gustavo Garoto, e ainda convocou o capixaba André Prando para a celebração de uma noite quente! Showzaço!

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Embicando pro fim do Foi Mal

O fim de semana começou com mais um show dos Pelados, desta vez no palco do Museu da Imagem e do Som, lentamente encerrando o ciclo de seu disco de 2023, o ótimo Foi Mal, que chegou à sua versão em vinil justamente nesta apresentação. Talvez por isso a banda tenha abandonado de vez as músicas do disco anterior, focando apenas em músicas do disco mais recente (à exceção de “Medo de Ficar Pelado”, que o público até tentou puxar, e “Ser Solteiro é Legal”, que o guitarrista Vicente Tassara prometeu para um show próximo) e algumas do próximo disco, que já está gravado, entre elas uma que canta que “as cores da Enel desbotam no papel” no refrão e a já conhecida “Modrić”. E entre as músicas aquele clima de turma que sempre baixa nos shows, com as piadas infames da Manu Julian e do Lauiz (comemorando “aniversário”) e fazendo o público, que assistia ao show sentado, levantar-se das cadeiras para vê-los de pé. E se eu não vejo a hora de ver esse disco novo na rua, imagino a banda…

#pelados #mis_sp #trabalhosujo2025shows 024

Jerry Butler (1939-2025)

Lenda da soul music que atravessou décadas ajudando a moldar o gênero desde que este começou a surgir, quando o doo-wop começou a namorar o gospel ainda nos anos 50, morreu na última quinta-feira. Fundador do grupo Impressions, que mais tarde revelaria o gigante Curtis Mayfield, emplacou seu primeiro hit antes de completar 20 anos, quando lançou “For Your Precious Love” em 1958 e saiu logo em carreira solo, mandando outro hit ainda em 1960, “He Will Break Your Heart”. Foi parceiro de Otis Redding (na clássica “I’ve Been Loving You Too Long”) e atravessou a década que viu o nascimento do gênero enfileirando sucessos, como “Find Another Girl”, “I’m A-Telling You”, “Only the Strong Survive”, “Brand New Me”, “Moon River” (foi um dos primeiros a gravar essa música), “Hey, Western Union Man”, “Never Give You Up” e “Make It Easy on Yourself”, além de duetos com Betty Everett (regravando “Let It Be Me” dos Everly Brothers) e Brenda Lee Eager (“Ain’t Understanding Mellow”). Na década seguinte, ajudou a soul music a manter-se como uma versão lenta do que se tornaria o funk e depois a disco, colaborando com a dupla de compositores que forjaria o som da Filadélfia Kenny Gamble e Leon Huff e envolveu-se tanto com política (tornou-se comissário do condado de County, em 1985, mantendo-se no cargo até 2018) quanto com a televisão (apresentou especiais sobre a história da música negra no canal estatal norte-americano PBS). Morreu vítima do mal de Parkinson.

Inferninho Trabalho Sujo apresenta Tagore (que convida André Prando) e Guilherme Cobelo (que convida Gaivota Naves) no Picles!

Essa sexta tá pegando fogo no Inferninho Trabalho Sujo, quando recebemos dois bardos da psicodelia brasileira de fora de São Paulo para o palco do Picles. A noite começa com Guilherme Cobelo mostrando seu disco Caubói Astral pela primeira vez na cidade, com a participação da incrível Gaivota Naves. E depois é a vez do mestre pernambucano Tagore trazer seu disco mais recente, Barra de Jangada, pra esquentar ainda mais a noite – e quem aparece no show dele é o capixaba André Prando. Depois dos shows é a vez de eu e a Fran nos encontrarmos mais uma vez para transformar a pista do Picles em nosso clubinho particular – e vocês sabem como ficam as coisas quando a gente põe as pessoas pra dancar! O Picles fica no número 1838 da Cardeal Arcoverde, no coração de Pinheiros, e a casa abre a partir das 20h – os shows começam às 21h30. Vamos?

Ninguém segura essa Charanga!

Mais um baile daqueles com a Charanga do França, duas horas sem intervalo misturando clássicos da música brasileira, hits desse século, música pop, axé music e sambas da pesada, com direito a inéditas do disco que o grupo lançará em breve e o show particular do mestre Wellington “Pimpa” Moreira, equilibrando três pandeiros ao mesmo tempo. E foi minha primeira vez no Dois Dois, baita casa ali na fronteira da Barra Funda com os Campos Elíseos, que privilegia noitadas de samba ao colocar o palco no meio do público – e todos ficam ao redor de uma roda formada pelos músicos. Já perdi a conta de quantas apresentações da Charanga já vi e sempre fico impressionado com o gás do octeto, que não deixa a peteca cair em nenhum momento, com Thiago capitaneando a nau e o público ao mesmo tempo, puxando coros, palmas e gritos que fazem o show transpor para além do palco, botando todo mundo na roda. Noitaça espetacular, como preza o adjetivo do grupo.

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Mais uma vez com a Charanga do França

Nesta quinta-feira continuo no clima de carnaval mais uma vez aquecendo o baile antes da entrada da Espetacular Charanga do França, que apresenta-se no Dois Dois, que fica ali nos Campos Elísios, no número 711 da alameda Dino Bueno, pertinho do Sesc Bom Retiro. A casa abre as portas às 21h e o show deve começar no máximo uma hora depois – e eu também toco depois da apresentação da Charanga. Vamo lá?