Trabalho Sujo - Home

Um festival ornitorrinco

O tal festival No Line Up, que uma cerveja bancou neste sábado de graça para 2500 pessoas em São Paulo poderia ter sido bem melhor se não tivesse sido feito tão às pressas. E por mais que tenha dado palco para shows memoráveis, era uma espécie de ornitorrinco, um mamífero que bota ovos, que é tão estranho quanto simpático, mas está longe de ter a exuberância que poderia ter. Tudo bem não querer revelar o elenco, mas então por que espalhar dicas sobre os artistas pouco antes de um evento que já teve problemas para distribuir os ingressos? Essa indecisão também estava presente durante o festival, que poderia ter avisado sobre os horários dos shows à entrada, mesmo sem revelar os artistas, preparando o público para as trocas de palco. O público no geral parecia ser de convidados da marca e em quase todos os shows pessoas desinteressadas na música conversavam sem parar – o que foi péssimo para as atrações do palco principal (foi triste ver a indiferença do público ao TV on the Radio, por exemplo) à exceção da deslumbrante Chaka Khan, que hipnotizou a todos e valeria o evento por si só. Esse desinteresse do público pelos shows funcionou sem querer para as atrações do pequeno palco Noise, que era tão escondido que poucos sabiam onde era, tornando-o refúgio para quem estava interessado em música, recebendo shows sensacionais do Metá Metá, do Negro Leo e o absurdo show do Thalin, que montou uma senhora banda para fazer um dos melhores shows da noite. O palco intermediário sofreu com o som, que só se salvava quando se chegava mais perto do palco. A duração extensa prejudicou a possibilidade de mais gente assistir ao Don L (que foi muito cedo) ou ao DJ set da Arca (no fim de tudo) e Mano Brown deveria ter ido para o palco principal no lugar da insuportável Tierra Whack. Mas dada as condições, o festival foi melhor do que o desastre que poderia ser e com um planejamento menos improvisado (que tal menos artistas pra mais público tocando em menos tempo?) poderia fazer bonito mesmo. Pelo menos a maioria dos artistas escolhidos seguraram bem a noite, o que é ponto para a curadoria. Tomara que tenha outro ano que vem.

#nolineupfestival2025 #trabalhosujo2025shows 233 a 239

On the run #176: Fred again.. x Thomas Bangalter x Pedro Winter x Erol Alkan @ Pompidou Centre (25.10.2025)

O evento de comemoração dos 20 anos da gravadora francesa Because Beaubourg já prometia ao reunir durante dois dias e duas noites eventos relacionados ao elenco do selo nos oito andares do Pompidou Centre, em Paris, neste fim de semana. E entre nomes como 2ManyDJs, Shygirl, Irfane com Breakbot, Mayou Picchu, Christine & The Queens, Laima e Iggor Cavalera, Pascal Comelade, Mariam (que fazia dupla com seu marido recém-falecido Amandou), Sébastian Tellier, ainda anunciava um set em back to back entre o francês Pedro Winter e o inglês de ascendência turca Erol Alkan. O primeiro também é conhecido como Busy P, foi empresário do Daft Punk no início da carreira e fundou a gravadora Ed Banger, que lançou nomes como Justice, Cassius, SebastiAn, Mr. Oizo, DJ Mehdi, entre outros. O segundo é um DJ lendário da virada do século, cujos remixes (que iam dos Chemical Brothers ao Franz Ferdinand, passando pelo Interpol, MGMT, Hot Chip, Yeah Yeah Yeahs, Scissor Sisters, Tame Impala, Metronomy e Depeche Mode) transformavam qualquer hit em ouro puro, surfando na onda dos mashups quando fundiu “Can’t Get You Out of My Head” com “Blue Monday” numa época em que ninguém ousava fazer isso. Já era um encontro de peso, quando, de repente, sem anúncio, primeiro surge o novato Fred Again, ele mesmo um dos melhores DJs do mundo hoje, para se juntar à dupla, para depois receberem ninguém menos que Thomas Bangalter, metade do Daft Punk, que não discotecava desde 2016 (como consegue?) e, como o próprio Fred Again publicou depois em sua conta no Instagram, “me disse que foi naquele prédio que ele se apaixonou por música eletrônica em 1992 e que não discotecava sem máscara há 24 anos”, escreveu o jovem, impressionado. “Eu não soube o que dizer depois que ouvi isso e até agora ainda não sei.” Felizmente podemos ouvir o set de duas horas, que já está online, com direito a Kraftwerk, Gil Scott-Heron, Donna Summer, Ca7riel & Paco Amoroso, Plastikman, Justice com Simian, Skrillex, Missy Elliot, e a faixa-título do novo filme de Paul Thomas Anderson. Saca só aí embaixo, com setlist completo e tudo.  

Lana Del Rey ♥ Neil Young

Lana Del Rey foi uma das participantes do concerto beneficente anual estadunidense Harvest Moon, organizado por Neil Young para arrecadar fundos para instituições de apoio a crianças com dificuldades ou doenças raras, e aproveitou a oportunidade para cantar uma versão de chorar para a eterna “The Needle and the Damage Done”, do mestre canadense. Além dela, também tocaram, neste sábado num camping no Lago Hughes, na Califórnia, artistas como Beck, Tyler Ramsey, Muireann Bradley, Masanga Marimba e a nova banda do próprio Young, Chrome Hearts. E agora eu não consigo pensar em algo que possa me acalmar tanto a alma quanto um disco da Lana cantando o repertório do velho Neil. Olha esses vocalises no fim da música…

Assista abaixo:  

Doja Cat e Kali Uchis no Brasil!

Passei batido sobre o anúncio do show de duas divas do pop dos Estados Unidos no Brasil no ano que vem. Tanto Kali Uchis quanto Doja Cat lançaram discos em 2025 e trazem as turnês de seus respectivos álbuns no próximo mês de fevereiro em casas de show da zona sul de São Paulo. Doja Cat chega primeiro, dia 5 de fevereiro, quando se apresenta com a turnê do excelente e recém-lançado Vie, na novíssima casa de shows da cidade, o Suhai Music Hall, que fica no Shopping SP Market, na marginal Pinheiros. Já Kali Uchis, que lançou o ótimo Sincerely no início do ano, passa pelo país com a turnê deste álbum no dia 8 de fevereiro no Vibra. Os ingressos para os dois shows já estão à venda (o da Doja Cat neste link e o da Kali Uchis neste). Esse ano nem terminou e o ano que vem já está ficando lotado!

Veja os pôsteres abaixo:  

Todo o show: King Gizzard Rave @ Fed Square, em Melbourne (24.10.2025)

Não bastasse lançar um dos melhores discos do ano (o inacreditavelmente empolgante Phantom Island, lançado na mesma semana em que Brian Wilson morreu quase como uma utopia sonora do que o beach boy original sonhou em seu Pet Sounds) e retirar quase todos seus 27 discos do Spotify, o inominável grupo psicodélico australiano King Gizzard & the Lizard Wizard deu um show nessa sexta-feira, em sua cidade natal australiana Melbourne, em que finalmente começou a colocar em prática uma vontade que tinham há tempos, ao estrear sua apresentação como um set de rave, depois de ficar um tempo sem fazer shows (após suas apresentações gigantescas no próprio festival que fizeram em agosto na Califórnia). Tal formato inclusive foi anunciado quando o grupo marcou as datas de sua turnê pela Europa nos próximos dias, quando alterna apresentações com orquestras (dia 4 agora com a Covent Garden Sinfonia na Inglaterra, dia 5 com a Orchestre Lamoureux na França, dia 7 com a Sinfonia Rotterdam na Holanda e 9 com a Baltic Philharmonic Symphony Orchestra na Polônia) com esta vibe dançante. As dúvidas sobre o teor da apresentação foram sanadas com o show que deram em Melbourne, quando seus seis integrantes tocam dispositivos musicais eletrônicos de diferentes eras e instrumentos acústicos de percussão, uma guitarra ali, um sax acolá, entre músicas inéditas e versões de outras antigas para este formato, além de citações aos Beastie Boys (“Intergalactic” e “Sabotage”) e Limp Bizkit (“Rollin’”) e gritos pela Palestina livre por inacreditáveis duas horas – assista à íntegra abaixo. Com esse formato passam pela Inglaterra (31, 1º e 2), Alemanha (10), República Tcheca (11), Áustria (12), Dinamarca (14) e Suécia (15). Ficou pequeno pra rave do Tame Impala, diz aí…  

PJ Harvey na virada do século

Nossa mestra PJ Harvey festejou os 25 anos do lançamento de seu quinto álbum Stories from the City, Stories from the Sea nesta semana e resolveu compartilhar com os fãs o vídeo de bastidores que sua gravadora mandou para a imprensa junto com o novo álbum. Gravado na mansão Linford Manor na cidadezinha inglesa de Milton Keynes entre março e abril do ano 2000, o disco foi produzido pela própria Polly Jean ao lado dos compadres Mick Harvey (que havia produzido sua primeira colaboração com John Parish, Dance Hall at Louse Point, em 1996) e Rob Ellis (que produziu seu primeiro disco, Dry) e o vídeo recém-publicado mostra o clima informal e tranquilo por trás do disco que não é seu melhor álbum, mas que melhor sintetiza sua força musical, logo após ter composto álbuns díspares mas complementares (o magistral To Bring You My Love, o disco com Parish e o dramático e introspectivo Is This Desire?). Lançado logo após ela completar 31 anos, Stories from the City, Stories from the Sea acaba sendo a melhor introdução à obra de PJ e o título que mais conecta-se com todos os outros de sua discografia. Mas a participação de Thom Yorke, com quem ela divide os vocais em “This Mess We’re In”, sequer é mencionada.

Assista abaixo:  

Contato feito

Os Pelados fizeram Contato e lançaram seu ótimo novo álbum (segundo? Terceiro? Quinto?) neste sábado na Casa Rockambole num show azeitadinho dirigido pela querida Olívia Munhoz (que também iluminou a apresentação). Sem banda de abertura e com uma única participação especial (o tangolo mango Felipe Vaqueiro, que também é a única participação no disco), o grupo paulistano lotou o antigo Centro Cultural Rio Verde numa noite em que fãs e amigos cantaram em coro todas as músicas – inclusive as novas. Com foco no disco recém-lançaram, deixaram as músicas que têm mais cara de indie rock tru fora do repertório, optando tocar apenas quatro músicas do excelente disco anterior, Foi Mal (“Vampirinhos do Amor”, “A Tênue Linha Entre Gostar e Nâo Gostar”, a vinheta “Medo de Ficar Pelado!!!”, que só começaram a tocar agora, e o hit “Foda Que Ela Era Linda”), e a íntegra do disco, além de uma música solo da vocalista Manu Julian, “E Aí Beleza?”, que ela tocou sozinha no palco com seu teclado (no que ela disse serem “os cinco minutos mais tensos da minha vida até o momento”) e outra dos Tangolo Mangos (“Armadura Armadilha”, para aproveitar a presença de Vaqueiro, que também tocou em “A Tênue…” e voltou na última música do bis, “Foda…”). Minha banda de rock paulistana favorita atualmente, os Pelados já tinham dado um passo ousado ao lançar um disco de música pop que deixaram o indie rock em que foram criados em segundo plano e fizeram um show à altura deste Contato, que ainda teve a graça de ser lançado no dia do aniversário do baterista Theo Ceccato, comemorado pelo público que puxou os parabéns antes do bis, que começou com a última música do disco novo, a transcendente “Instruções para Descongelar o Gilberto Gil no Espaço”. Coisa linda.

#pelados #casarockambole #trabalhosujo2025shows 232

Tony Iommi toca no balé do Black Sabbath

Dirigido por Carlos Acosta e executado pelo Royal Birmingham Ballet, o espetáculo Black Sabbath Ballet contou com uma participação ilustre ao inaugurar sua segunda temporada nesta quarta-feira, quando o guitarrista fundador da banda que o balé homenageia, Tony Iommi, subiu no palco do teatro Sadler’s Wells, em Londres, na Inglaterra, para tocar o clássico solo de “Paranoid”, a música que encerra o musical. O espetáculo ainda conta com performances de outras músicas do grupo (“Black Sabbath”, “Iron Man”, “War Pigs”, “Solitude”, “Orchid”, “Laguna Sunrise” e “Sabbath Bloody Sabbath”) e contou com Iommi como supervisor musical quando foi concebido originalmente, mas é a primeira vez que o guitarrista sobe ao palco com o corpo de baile.

Assista abaixo:  

Wet Leg ♥ Empire of the Sun

Nem sou chegado em Empire of the Sun, mas é inegável a importância de “Walking on a Dream” como cápsula de um tempo em que dance music, indie rock e música pop se misturavam numa mesma cena híbrida, que incluía nomes tão distintos quanto Tame Impala, Phoenix, MGMT e LCD Soundsystem, entre inúmeras outras bandas que eram descobertas nos saudosos blogs de MP3. E é inevitável perceber a influência dessa cena na atual geração indie, momento retratado com perfeição quando o Wet Leg visita justamente o hit do Empire of the Sun em sua passagem pelos estúdios da BBC, em Londres. Olha que pérola.

Assista abaixo:  

Quintou!

Mais um Inferninho Trabalho Sujo quente nesta quinta-feira no Fervo, quando reuni as bandas Nigéria Futebol Clube e Schlop, ambas reincidentes nestes dois anos de festa, para uma noite barulhenta na casa da Água Branca. Quem abriu a noite foi o Nigéria Futebol Clube, cujo show começou com o baterista Raphael “PH” Conceição puxando o público para dentro da casa com sua caixa enquanto o guitarrista Rodrigs e o baixista Eduardo preparando o terreno sonoro com ruídos e marcações de groove que lentamente se transformariam em um set extenso e contínuo, com o grupo misturando improvisos e momentos pré-definidos entre linhas de baixo pós-punk, guitarra ruidosa, bateria pesada e canções-manifesto, cantadas em sua maioria por PH. Um show completamente diferente do que havia feito com eles no Redoma no início desse semestre, mas igualmente elétrico.

Depois foi a vez da Schlop encerrar a noite em uma formação improvisada pois o novo baixista não pode comparecer, restando à guitarrista Lúcia Esteve assumir o instrumento, deixando a vocalista Isabella Fontes como única guitarrista de seu grupo, que ainda conta com Antonio Valoto na bateria e teve a participação especial do saxofonista Rômulo França, que solou durante a já clássica versão que o grupo fez para a balada do LCD Soundsystem sobre Nova York, que em português virou “São Paulo Eu Te Amo, Mas Tá Foda Demais”. Fora alguns deslizes no percurso – como a famigerada corda da guitarra estourando no meio do show -, o Schlop versão trio ainda pode apresentar músicas inéditas, que apontam o rumo do próximo álbum, que começa a se materializar, lentamente.

#inferninhotrabalhosujo #schlop #nigeriafutebolclube #fervo #noitestrabalhosujo #trabalhosujo2025shows 230 e 231