O raio X de Virgin da Lorde

Lorde comemorou um ano de seu Virgin disponibilizando 49 demos e versões alternativas (além de fotos aleatórias do período de gravação) em um site chamado XRAYS, prometendo inclusive lançar estas novas gravações em um novo formato digital. Ela aproveitou o aniversário do disco para falar sobre o processo de gravação do álbum, que não pode traduzir em palavras à época do lançamento, e como ele mexeu com sua vida num longo texto em sua newsletter. “Eu usava um jeans masculino e um moletom preto com capuz e zíper todos os dias, não importava o clima”, escreveu a cantora neozelandesa. “Minhas espinhas formavam uma barba espessa que descia pelo pescoço, eu me sentia monstruosa e sagrada (…) Concentrei-me em cantar para mim mesma da maneira como precisava que cantassem para mim. Aos poucos, fui dando música e palavras a histórias antigas que eu tinha medo de contar. As expulsei de dentro de mim e me senti mais leve. Viver nessas canções teve um efeito de encantamento. Senti-me mudar. O disco Brat surgiu, um sistema climático de ousadia e fragilidade. Minha fase incipiente tornou-se, de repente e de forma impactante, algo externo. Tive de encarar de verdade as minhas questões e manter-me aberta. Charli me manteve por perto e me deu a medida certa de espaço — isso exige carinho de verdade. Minha fé na música como tecnologia social foi restaurada. Nas festas e festivais, eu fumava, cantava e me sentia parte da raça humana.” Leia abaixo a íntegra do texto sobre o disco, que também pode ser ouvido a seguir:
“No domingo à noite, estava guardando minhas roupas e percebi que Virgin já tinha sido lançado há quase um ano. Decidi que precisava fazer algo sobre isso.
Para ser sincera, não sei bem como falar de Virgin desde que ele saiu. Achava que já estava acostumada — e até um pouco insensibilizada — a comercializar e transformar meus sentimentos em produto nesta fase da vida, mas compartilhar Virgin me passou uma sensação nova de crueza e exposição. Eu dei entrevistas ruins, não conseguia escrever por aqui e não publiquei muita coisa. Acho que eu precisava ficar em silêncio por um tempo. Também faz sentido para mim que um trabalho tão físico resistisse a ser aprisionado pela linguagem. Mas algum tempo já se passou e quero tentar encontrar as palavras.
Fazer um disco é um ato absurdo. A imersão em si mesmo e a convicção necessárias te tornam uma pessoa de difícil convivência. Você desaparece completamente em seu próprio mundo, sempre meio que balbuciando, constantemente prestes a realizar alguma descoberta. O trabalho fica muito ruim por um bom tempo; é preciso conviver com o que não está certo e sair dali na marra. Às vezes, é difícil enxergar além do desconforto e da banalidade, mas cada dia da criação de Virgin foi uma verdadeira bênção. Sentia que estava me libertando, construindo um lugar sagrado. Apliquei cada camada com o máximo cuidado.
Estava tentando me curar de um transtorno alimentar breve, mas que vinha se desenvolvendo há muito tempo. Tinha acabado de deletar meu MyFitnessPal. Na semana em que começamos o que viria a ser ‘Shapeshifter’ e ‘What Was That’, eu estava trabalhando para acreditar que o café da manhã não era algo negociável. Eu me obrigava a tomar um smoothie toda manhã e a ir trabalhar quando queria fugir e continuava tentando, um passo de cada vez.
Eu estava saindo de uma separação. Em vez de ficar em hotéis, hospedei-me em camas de visitas e sofás de várias amigas. O cuidado que essas mulheres demonstraram por mim durante esse período é uma das principais razões pelas quais a Virgin existe. Em 2024, uma dessas amigas olhou nos meus olhos e disse, com serenidade: ‘Parece que você entra nessa depressão profunda por causa do álbum toda vez que fica menstruada’. Meses depois, fui diagnosticada com TDPM (Transtorno Disfórico Pré-Menstrual).
Eu usava um jeans masculino e um moletom preto com capuz e zíper todos os dias, não importava o clima. Minhas espinhas formavam uma barba espessa que descia pelo pescoço. Eu me sentia monstruosa e sagrada. Peguei uma bicicleta emprestada e senti-me espalhando e deslizando, desperta para os milhões de códigos sutis que vinham sendo enviados e recebidos pela cidade e para a energia de tudo aquilo se acumulando sobre nossas cabeças.
Concentrei-me em cantar para mim mesma da maneira como precisava que cantassem para mim. Aos poucos, fui dando música e palavras a histórias antigas que eu tinha medo de contar. As expulsei de dentro de mim e me senti mais leve. Viver nessas canções teve um efeito de encantamento. Senti-me mudar.
O disco Brat surgiu, um sistema climático de ousadia e fragilidade. Minha fase incipiente tornou-se, de repente e de forma impactante, algo externo. Tive de encarar de verdade as minhas questões e manter-me aberta. Charli me manteve por perto e me deu a medida certa de espaço — isso exige carinho de verdade. Minha fé na música como tecnologia social foi restaurada. Nas festas e festivais, eu fumava, cantava e me sentia parte da raça humana.
Fizemos os raios X que viriam a ser a capa do álbum no dia 2 de março de 2025. Quando chegou a minha vez de passar pelo exame, senti-me fora de mim, em um território desconhecido: numa clínica médica, com as joias das minhas duas avós me conduzindo para algo que parecia uma sessão espírita ou um exorcismo. Os velhos medos voltaram. Tinha certeza de que a máquina revelaria uma feiura e uma deformidade que iam até o osso. Eric percebeu o que eu estava sentindo enquanto preparávamos a primeira foto. Ele tocou minha mão e disse baixinho: ‘Vai ficar perfeito; é uma foto sua — do jeito que você estiver hoje, estará perfeito e certo’.
Já falei sobre como tentei amar Virgin em todas as suas fases, e não apenas quando se tornou um produto vendável. Ao longo do processo, fui repetidamente tocada por momentos de profunda beleza — fosse quando tropeçávamos em algo novo ou quando seguíamos numa direção totalmente errada. No ano passado, brincamos com a ideia de criar um álbum feito dessas versões-esqueleto — misturas interessantes de diferentes versões. Mas, no domingo à noite, percebi que verdadeiros “raios-X” de Virgin seriam mais autênticos, mais engraçados e revelariam melhor as imperfeições e os desvios; seriam menos sobre o resultado final e mais uma celebração do percurso — as repetições, as espinhas, a jornada. Como disse o Eric: ser você mesmo é algo lindo. É assim que tento viver.
Obrigada, como sempre, por abrirem espaço em suas vidas para qualquer faceta do meu projeto artístico. É uma verdadeira honra ser acolhida por vocês. Divirtam-se com isso; espero que gostem de explorar por aí. Mal posso esperar para ver vocês neste verão.
Amo muito vocês.
P.S. Vou colocar tudo isso na Lume, a nova plataforma dos meus amigos, assim que ela for lançada… conto mais em breve.
Em certo momento, googlei por ‘sintomas de burnout’ e hoje estou tomando antidepressivos. Me sinto muito melhor”
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