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A força do Netflix

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Falei sobre a renovação das séries Três é Demais e Demolidor no Netflix, que se tornou mais valioso do que a ABC e a Viacom neste início de 2015, em meu blog no UOL http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/04/22/netflix-ja-vale-mais-do-que-as-maiores-emissoras-de-tv-aberta-e-fechada-dos-eua/

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Duas especulações que haviam sido cogitadas aqui neste blog foram confirmadas esta semana: além da confirmação da nova temporada do seriado Três é Demais, também foi anunciada a segunda temporada da série Demolidor. Os endossos têm a mesma fonte: o serviço de vídeo sob demanda Netflix, que irá produzir e exibir as duas novas temporadas, e chegam ao mesmo tempo em que a marca exibe seus músculos financeiros.

As ações do serviço dispararam no recém-fechado quadrimestre e a marca conseguiu crescer 14,7% nos últimos meses, segundo um relatório divulgado pelo site Deadline. Assim, o preço de mercado do Netflix sobe para US$ 32,9 bilhões, tornando o serviço mais valioso que o canal aberto mais caro dos Estados Unidos (a CBS, que avaliada em US$ 30,6 bilhões) e que a principal produtora de TV por assinatura do país (a Viacom, dona da MTV e do Nickelodeon, avaliada em US$ 28,8 bilhões).

O valor de mercado atingido pelo Netflix, óbvio, não diz respeito apenas às suas produções, que incluem hits como House of Cards e Orange is the New Black e as continuações de seriados que foram cancelados na TV a cabo, como The Killing e Arrested Development. O serviço cresce por oferecer um formato de consumo de conteúdo mais próprio da era digital do que o que é oferecido pelas TVs aberta e por assinatura.

As pessoas lentamente percebem que não precisam estar na frente da televisão num horário pré-estabelecido para assistir ao que querem. O formato sob demanda – que o espectador diz quando quer assistir o quê – ainda tem uma série de problemas para serem resolvidos (quem nunca perdeu vários minutos procurando o que assistir?), mas é irreversível. A TV tradicional só vai ter o monopólio da atenção em eventos ao vivo, sejam esportes ou notícias. E por enquanto.

A esperteza do Netflix, no entanto, está no fato de surfar essa boa onda financeira produzindo conteúdo. Podiam investir no serviço em si, em melhorias na interface, na navegação, em curadorias de filmes e em qualidade de transmissão. Preferem fidelizar seu público aproveitando os dados de audiência que conseguem levantar com mais precisão do que qualquer canal (afinal o espectador só assiste o que quer) e produzem seriados de acordo com o gosto que detectam a partir dos números de suas próprias exibições.

É um comportamento bem diferente de serviços similares em outras mídias. Ainda não ouvimos falar do Spotify bancando discos de artistas, por exemplo, embora a própria Amazon já tenha detectado essa tendência e começado ela mesma a produzir seus próprios seriados. E a colher frutos disso, como foi o caso da série Transparent, que ganhou dois Globos de Ouro (melhor série de comédia e melhor ator de série de comédia) no início deste ano.

E isso é só o começo de uma mudança ainda mais drástica que seguiremos acompanhando nos próximos anos…

Impressão digital #151: Netflix: House of Cards ou Arrested Development?

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Minha coluna da semana no Link foi sobre como cedi ao Netflix e porque a paranóia sobre conteúdo criado de acordo com o gosto do freguês é tão fraca quanto falsa (e, não, não considerem esta coluna como sendo meu texto sobre Arrested Development).

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O que acontece quando você faz algo que todo mundo espera
House of Cards ou Arrested Development?

Já escrevi sobre isso aqui: por mais que goste das novidades digitais, estou longe de ser early-adopter, daqueles que saem por aí usando todas as possibilidades de um aparelho ou serviço recém-lançado. Tenho uma curiosidade branda em saber como funciona o que acabou de aparecer e está todo mundo comentando. Mas ficar horas na fila para comprar um telefone? Sonhar em usar uma certa atualização? Não sou desses.

(Lembro quando comecei a trabalhar no Link como editor-assistente em 2007. A chefia na época me deu o argumento definitivo para comprar um celular. O iPhone acabara de ser lançado e os celulares ainda não eram computadores de bolso. Eu não queria ser encontrado e levei anos para me acostumar com um telefone que te acompanha mesmo depois que você sai de casa. Mas me perguntaram: “E se acontecer algo urgente quando o jornal estiver indo para a gráfica?” Um argumento definitivo, cedi.)

A explicação para eu ser um late-adopter vem de um hábito que tem a ver com a profissão de jornalista e virou compulsão: consumir conteúdo. Sou fissurado por notícias, livros, filmes, programas de TV, games, sites e blogs – e por isso me contenho na hora de utilizar novas tecnologias. Também demorei a comprar DVD, fazer compras pela internet e comprar um e-reader.

Todo este enorme nariz de cera para dizer que finalmente aderi ao Netflix. E o motivo de não ter começado antes a pagar a assinatura digital para consumir conteúdo online é porque eu sabia que ia abrir uma porteira difícil de ser fechada. Mas resolvi ver qual era a deles a partir do anúncio de que começariam a exibir produções próprias.

House of Cards, série do diretor David Fincher, foi a escolhida para estrear a nova fase. Foi minha isca. Seu grande atrativo foi ter sido criada a partir de informações que a locadora digital tem dos usuários. Analisando os dados dos programas mais assistidos, chegaram a uma média que dizia que uma série sobre os bastidores da política estrelada por um protagonista sem escrúpulos seria de interesse de seus espectadores.

Comecei a assistir a série e… achei OK. Boas atuações, diálogos rápidos, uma trama que tem tudo para prender a atenção por alguns episódios e… um protagonista que vira-se para a câmera a cada dez minutos para explicar a cena e dizer quais são suas reais intenções. Precisava ser tão didático? Não passei do terceiro episódio, quem sabe um dia a retomo. Talvez não seja público-alvo típico da Netflix. Acontece.

Mas vi artigos e ouvi pessoas comentando que aquilo poderia ser um perigo, que a tendência era que a produção de conteúdo, quando é movida por algoritmos e estatísticas, poderia empacar a criatividade, criar produtos estanques, que não surpreendem e apenas saciam a vontade das pessoas por aquilo que ela já sabe que gosta.

Como se TVs e estúdios de cinema não fizessem pesquisas para saber como o público está reagindo a determinado filme ou série. Como se não existissem grupos de discussão, técnicas de foco de audiência e outros métodos para entender o que o público quer ver.

Bobagem ter esse receio. É inevitável que alguém surja com algo completamente inusitado que atraia as atenções – talvez pelo fato de que a maioria do conteúdo que é produzido hoje tende à banalidade justamente porque todos querem adivinhar o desejo do público.

Quero saber como será a volta de Arrested Development, uma das séries mais engraçadas de todos os tempos, cancelada em 2006 pela baixa audiência, justamente por ser inusitada, nonsense e exagerada – algo que nunca seria aprovado em uma reunião de conselho. Mas a série ganhou público e virou cult depois do cancelamento, a ponto do Netflix ter apostado em sua volta. A próxima temporada será lançada em 26 de maio. E agora? Arrested Development será como o público quer ver ou vão deixar a natureza livre, psicótica e absurda típica do seriado tomar conta novamente?

A ver.

Link – 3 de setembro de 2012

Além do game overVida digital: Phil Libin (Evernote)Novo iPhone novoImpressão digital (Alexandre Matias): A Gina Indelicada e os dilemas superficiais do novo séculoHomem-Objeto (Camilo Rocha): Entrevista com Reed Hastings (Netflix)No Arranque (Filipe Serrano): O efeito social ultrapassa os limites do FacebookA garota que mudou a escola pelo Facebook, o MIT no Brasil, lei apressada para crimes digitais e Obama25 anos de Street Fighter

Link – 9 de julho de 2012

• Tensão pré-AmazonVida Digital: CatarseOne Laptop per Child: Para educarHomem-Objeto (Camilo Rocha): Dois preços, duas medidas • Impressão digital (Alexandre Matias): Está cansado do Facebook? Espere só a eleição começar… • No Arranque (Filipe Serrano): Como o modelo da Netflix serve de exemplo para novos negócios • Pioneirismo digital • O fim do Acta, malware no iOS, princípios da internet, transparência no Twitter…

Conversando com o dono do Netflix

Bati um papo rápido com o Reed Hastings, fundador e CEO do Netflix, que estreou semana passada no Brasil no especial sobre TV e internet que fizemos no Link essa semana.

TV social começa antes no Brasil
Reed Hastings, co-fundador e CEO do Netflix

A TV é a última fronteira das mídias digitais?
Não acho que seja a última, mas entendo sua pergunta. Acho que a TV via internet deve revolucionar a TV tradicional como o celular fez com o telefone, o MP3 fez com o disco, etc. pois as pessoas querem mais opções. Mas estamos bem no começo disso. A TV tradicional ainda será forte por muitos anos. Pelo que vemos nos EUA, isso deve demorar. Mesmo com o crescimento da internet, acredito que um tipo específico de programação – como competições esportivas de alcance nacional ao vivo, por exemplo – ainda manterão vivo o interesse pela TV tradicional.

Mas a transmissão de eventos ao vivo – não apenas esportes, mas também a cobertura jornalística, por exemplo – têm futuro na internet, não?
Sim, a transmissão de eventos ao vivo é uma grande oportunidade para quem quiser entrar nesse mercado, mas não optamos por isso. Nosso foco é a TV sob demanda.

E na área de TV social? Vocês têm interesse em colocar seus clientes para assistir a filmes juntos?
Sim, inclusive estamos para lançar, ainda neste mês, na América Latina, nossa plataforma de TV social através do Facebook Connect.

Antes dos EUA?
Sim, pois temos uma superposição de leis que nos impede o compartilhamento de vídeos através de nosso site. A América Latina vai ter isso antes dos EUA.