Trabalho Sujo - Home

Loki

Foi excelente o show que o King Krule fez em São Paulo neste sábado. O jeito displicente e quase tímido que Archy Marshall se aproxima do microfone disfarça um maestro de melodia e ruído que usa sua guitarra como batuta, conduzindo sua banda entre o transe e a catarse, para delírio do público que lotou o improvável Terra SP. O grupo, composto de baixo, bateria, guitarra, teclado e sax, preenchia silêncios com camadas de microfonias e golpes de barulho, permitindo que as canções do inglês ganhassem uma profundidade ainda mais complexa que nos discos. E nisso a cumplicidade com o público, que conhecia todas as músicas e cantou quase todas as letras junto, era essencial. Show de rock sem os vícios do gênero e abrindo para inesperadas massas amorfas de eletricidade sonora que misturava improviso jazz, explosão noise, melancolia indie, letras balbuciadas como rap e melodias acridoces, acalentadas por uma pequena multidão – e como tinha gente conhecida entre aquelas milhares de pessoas. Talvez o único ponto negativo do show tenha sido o local, que ao menos não comprometeu o som da apresentação. Mas o Terra SP, além de ficar em Ohio (Ohio que o parta, tenho que manter vivo o humor infame que meus pais me passaram – a casa fica a 20 quilômetros do centro de São Paulo), comprometia a visão da audiência mesmo tendo espaço de sobra. O lugar é uma espécie de Áudio quadrado misturado com um Espaço das Américas de menor lotação e, com dois mezaninos, teoricamente teria ótimas opções para se assistir ao show. Mas duas pilastras no meio da casa criava bolsões vazios nos três andares atrás destas, que impediam o público de ver o palco e obrigando a acotovelar-se ao lado de espaços vazios para conseguir ver toda a banda. Mas, como comentei, isso felizmente não comprometeu a apresentação e marcou mais um golaço na trajetória da Balaclava Records, que ainda aproveitou para tirar sua onda ao anunciar, discretamente, que irá trazer o Tortoise tocando seu disco TNT no Brasil esse ano.

#kingkrule #balaclavarecords #terrasp #trabalhosujo2024shows 28

Assista abaixo: Continue

Inferninho torto

Não podia ser diferente: quando marcamos o Inferninho Trabalho Sujo nessa quinta-feira 29 de fevereiro sabia que teria que buscar atrações ímpares para que a noite fizesse jus ao dia bissexto. E quem começou a destruição foi o Odradek, cuja dinâmica musical explora ângulos tortos e andamentos improváveis ao mesmo tempo em que fazem isso com muito barulho – e a simbiose entre Caio Gaeta, Fabiano Benetton e Tomas Gil faz todo mundo ficar grudado no que eles fazem no palco. Impressionante e barulhento pacas, como de praxe. Quem fechou o palco foi o papa do math rock Patife Band, liderado pelo icônico Paulo Barnabé, ele por si só uma instituição da música brasileira. Como seu irmão Arrigo, Paulo também trabalha entre a música erudita e a música popular, só que essa segunda vertente, ao contrário do irmão, trafega mais pelo rock, seja pós-punk, noise ou progressivo, tornando a colisão entre as duas linguagens ainda mais complexa. Liderando uma versão quinteto do grupo, com Elvis Toledo na bateria, Gustavo Boni no baixo, Paulo Braga no piano e Arthur Sardinha na guitarra, ele começou a apresentação nos vocais, depois pegou a guitarra para cantar o hino punk “Vida de Operário”, dos Excomungados, foi para a bateria quando tocou peças tortas que ameaçou dizer que não estavam ensaiadas (imagina se estivesse!), além de, claro, as faixas imortais de seu disco-símbolo, Corredor Polonês. O atordoo foi generalizado e depois sobrou pra mim e pra Fran fazer as almas da madrugada derreterem-se na pista. Que noite!

#inferninhotrabalhosujo #noitestrabalhosujo #odradek #patifeband #picles #trabalhosujo2024shows 25 e 26

Assista abaixo: Continue

O primeiro grande disco de 2024 – e não apenas brasileiro – chega aos ouvidos de todos nesta sexta-feira, quando o pianista pernambucano Amaro Freitas compartilha conosco o mergulho que fez nas águas amazônicas e na alma dos povos originários desta região. Y’Y (pronuncia-se Ieiê e quer dizer “água” ou “rio” no dialeto indígena sateré mawé) será lançado pelo selo norte-americano Psychic Hotline e segue sua busca com seu jazz decolonial para além dos rumos do ótimo Sankofa, de 2021. Em faixas como “Mapinguari (Encantado da Mata)”, “Uiara (Encantada da Água) – Vida e Cura” e “Sonho Ancestral” (em que cita lindamente “Luar do Sertão”), ele nos conduz por uma viagem ao mesmo tempo misteriosa e mágica ao lado de músicos estadunidenses como o harpista Brandee Younger, o baterista Hamid Drake, o flautista Shabaka Hutchings e o guitarrista Jeff Parker (ele mesmo, do Tortoise), do baixista cubano Aniel Someillan e dos arranjos do professor Laércio Costa e ainda saúda o mestre Naná Vasconcellos em “Viva Naná”. Dá pra ouvir alguns dos singles que ele já lançou abaixo, pra ter uma ideia do que vem por aí…

Ouça aqui: Continue

Um Inferninho Trabalho Sujo literalmente bissexto nesta quinta-feira, pois além de cair no dia 29 de janeiro ainda juntamos uma banda contemporânea (o Odradek, de Piracicaba) com uma clássica (a paulistana Patife Band), que entortarão as almas dos presentes com suas versões torta e angulosa para esse bicho chamado rock. Depois, da meia-noite em diante, eu e Fran assumimos o comando da pista e incendiamos os corações e quadris que estiverem derretidos em nossas boas vibrações. O Inferninho, você sabe, acontece no meio de Pinheiros, neste portal interdimensional chamado Picles, que abre às oito da noite e vai até… Vamos?

Cês viram que o Tortoise vai tocar seu clássico disco TNT na íntegra… no Chile? Um dos pais do chamado pós-rock, o grupo de Chicago celebra os 25 anos de um de seus discos mais emblemático no Teatro Coliseo, em Santiago, no dia 11 de maio deste ano. No palco, todos eles: Dan Bitney, Doug McCombs, Jeff Parker, John Herndon e John McEntire acompanhados de músicos locais nas cordas e sopros. Os ingressos já estão à venda, mas… será que não tem nenhuma boa alma que se interesse a trazer o grupo pra cá? Afinal Tortoise é coisa nossa também…

Prometido há mais de vinte anos, finalmente sai em outubro deste ano (e já em pré-venda) o tão aguardado The Moon and Serpent Bumper Book of Magic ou, como bem traduziu o compadre Érico Assis, com toda propriedade, “Almanacão de Férias Mágicas da Lua e da Serpente”. Bumper book é o nome em inglês para livros enormes de passatempos feitos para crianças passarem as férias e sua versão brasileira foi trazida para o Brasil por Maurício de Souza em seus Almanacões de Férias da turma da Mônica, nos idos do século passado. A diferença é que este calhamaço tem a grife do mestre dos magos Alan Moore, que vinha trabalhando com seu mentor Steve Moore (que lhe abriu as portas dos quadrinhos para o pupilo ainda nos anos 70, quando Alan começou a assinar uma tira no semanário Sounds), desde o início do século a partir dos experimentos com magia que vinha fazendo em performances ao vivo ao lado de seu The Moon and Serpent Grand Egyptian Theatre of Marvels. Steve faleceu em 2014, mas Alan seguiu o trabalho ao lado de cinco de seus artistas favoritos, Kevin O’Neill, John Coulthart, Steve Parkhouse, Rick Veitch e Ben Wickey, concebendo um manual ilustrado de magia em capa dura e com mais de 350 páginas que traz encantamentos, guias de viagem para dimensões alienígenas, uma dissertação sobre o tema (“Adventures in thinking”), biografias de 50 magos históricos desde a última era glacial e “o significado definitivo da lua e da serpente que torna transparente os sempre obscuros segredos da magia, da felicidade, do sexo, da criatividade e do Universo conhecido ao mesmo tempo em que explica por que estes símbolos lunares e ofídios aparecem com tanta proeminência no peculiar nome desta ordem”, que data de 150 anos antes de Cristo. Ou seja, pura diversão!

Ao apresentar seu Favelost neste sábado no Sesc Avenida Paulista, Fausto Fawcett reuniu uma banda que deu um sabor ao mesmo tempo novo e retrô ao seu poema épico e decadente sobre a megalópole do terceiro mundo. Ao lado do casal Leela (Bianca Jhordão e Rodrigo Brandão, ambos empunhando guitarras, Bianca às vezes arriscava-se no theremin), ele substituiu a cozinha de uma banda de rock pelos sintetizadores de Paulo Beto, soando simultaneamente dance e rock e deixando sua verborragia apocalíptica, ir rumo à psicodelia dançante da Manchester do final dos anos 80, a famigerada Madchester, mas com o tempero sensual, decadente e brasileiro característico de sua poética. Misturando samples de Rolling Stones, Led Zeppelin, Bee Gees e “Please Don’t Let Me Be Misunderstood” no meio de pérolas de seu repertório como “Facada Leite Moça”, “Santa Clara Poltergeist”, “Drops de Istambul” e “Caligula Freejack”, ele ainda recebeu a presença de Edgard Scandurra e Fernanda D’Umbra, com quem tocou “De Quando Lamentávamos o Disco Arranhado” da banda desta última, o Fábrica de Animais. O espetáculo ainda teve os visuais do diretor Jodele Larcher e a reverência ao hit imortal “Kátia Flávia”, revisitado com direito a parte dois, quando a protagonista sai do submundo cão para assumir o “supermundo cão” fazendo OnlyFans para agentes de inteligência e do crime organizado em troca de segredos de estado. E, de repente, em 2024, as hipérboles de Fausto não parecem tão exageradas quanto eram no século passado. Showzaço.

#faustofawcett #sescavenidapaulista #trabalhosujo2024shows 20

Assista abaixo: Continue

Vem Warpaint!

Nossas amigas do Warpaint comemoraram o aniversário de vinte anos (já?) com um novo single, “Common Blue”, que chega com um clipe em clima de retrospectiva de carreira (veja abaixo) ao mesmo tempo em que elas anunciam mais uma turnê pelos EUA. No dia 22 do mês que vem elas lançam o single em vinil, que vem com o lado B “Underneath”, as duas primeiras músicas que lançam desde o ótimo Radiate Like This, de 2022. Elas bem que podiam esticar essa turnê pra cá, hein…

Assista abaixo: Continue

Sempre reconheci que a breve passagem de Damo Suzuki por São Paulo em 2005, quando participou da quarta edição do festival Hype, que aconteceu no Sesc Pompeia, como um dos grandes acontecimentos da minha vida. Além do eterno vocalista do Can, o festival reuniu, entre os dias 12 e 14 de maio daquele ano, artistas tão distintos quanto a volta da banda Akira S & As Garotas que Erraram, o produtor austríaco Fennesz, o duo Wolf Eyes, a produtora norte-americana DJ Rekha, o pernambucano DJ Dolores, o DJ escocês Kode9, o rapper Black Alien e a dupla Drumagick. Damo apresentou-se no último dia do evento, no sábado, quando eu faria a mediação de duas conversas na parte da tarde, a primeira com o próprio Damo e a segunda com Steve Goodman, mais conhecido como Kode9. Mas conversamos os três um pouco antes do papo e em vez de fazermos uma hora de conversa com cada um deles, misturei as experiências dos dois numa longa e riquíssima conversa de duas horas com discussões que ecoam na minha cabeça até hoje, contrapondo arte e experiências pessoais às noções de sucesso comercial que, como reforçava o próprio Damo, eram artificiais e vazias. Não bastasse essa conversa maravilhosa, no fim do dia ainda pudemos assistir a mais de uma hora de improviso intenso reunindo nomes de diferentes fases do pop experimental paulistano – Miguel Barella, Paulo Beto, Ian Dolabella, Renato Ferreira, Carlos Issa, Gustavo Jobim, Maurício Takara e Sergio Ugeda – regidos pelo decano vocalista japonês, num descarrego energético que mudou a vida de quem esteve no teatro do Sesc Pompeia naquele sábado. Encontrei uns poucos registros em vídeo dessa noite no canal do compadre Paulo Beto, mas torço para que o Sesc tenha gravado a íntegra desta apresentação e sonho com a possibilidade de encaixá-la nessa excelente série Relicário, em que o Selo Sesc finalmente abre seu acervo de shows para o público.

Assista abaixo: Continue

Uma hora e meia de krautrock classe ouro.

Ouça abaixo: Continue