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Loki

Um dos principais grupos de rock progressivo do Brasil está prestes a ver sua discografia aumentar consideravelmente, quando a gravadora londrina Fat Out anunciou o lançamento do quarto disco do Som Imaginário, gravado ao vivo em 1975, mas arquivado desde então. Formado para acompanhar Milton Nascimento em sua turnê de 1970, o grupo era liderado pelo tecladista Wagner Tiso e acompanhou, tanto em estúdio quanto ao vivo, nomes como Gal Costa, Marcos Valle, MPB4, Taiguara, Odair José e Simone, entre outros, além de contar com sumidades da música instrumental brasileira em suas diferentes formações, como Naná Vasconcelos, Zé Rodrix, os guitarristas Toninho Horta, Fredera e Vitor Biglione, o violonista Tavito, o baterista Robertinho Silva e o baixista Luiz Alves. O grupo lançou três discos ainda no começo dos anos 70, culminando com o clássico Matança do Porco, que completa meio século este ano, mas quando propôs lançar o quarto, gravado ao vivo em Brasília, teve seu lançamento engavetado. Banda da Capital vê a luz do dia quase 50 anos depois de sua gravação, no dia 4 de outubro de 1976, em Brasília (no colégio que eu mesmo estudaria alguns anos depois!), e traz Tiso acompanhado pelos cobras Nivaldo Ornelas (sax, flauta e violão), Jamil Joanes (baixo e vocais) e Paulinho Braga (bateria e percussão). O disco traz oito faixas, entre elas “Cafezais Sem Fim”, disponibilizada nesta sexta-feira, gravadas naquela apresentação, além de duas outras, “Armina” e a então inédita “Manuel, o Audaz” (de Toninho Horta), gravadas pelo grupo um ano antes, no dia 6 de outubro de 1975, em um show no Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro. Banda da Cidade será lançado dia 2 de junho e já está em pré-venda no site da Far Out.

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Para além do Can

“Essa é a base do fazer musical: dar forma ao tempo”, assim, Irmin Schmidt, único músico fundador do grupo alemão Can ainda vivo, define sua labuta no documentário Can and Me, de Michael P. Aust e Tessa Knapp, primeiro filme confirmado na edição de 2023 do festival de documentários sobre música In Edit. O filme traz várias cenas raras e inéditas do transgressor grupo em ação, incluindo cenas de shows e apresentações ao vivo em programas de TV (além de um inusitado encontro entre seus dois vocalistas, o norte-americano Malcolm Mooney e o japonês Damo Suzuki, que assumiram os vocais de diferentes fases da banda após sua fundação), mas ultrapassa o período em que Schmidt esteve com a banda. O vemos fazendo trilhas sonoras para seriados de TV, filmes de Wim Wenders, óperas com ênfase em música eletrônica e colaborações com DJs e produtores contemporâneos, além de comentar sua filosofia musical. Também traz cenas da infância e da adolescência do músico e maestro, incluindo sua relação conflituosa com o pai, que era militar nazista na Alemanha de Hitler, e quando conheceu a nata da música de vanguarda de seu tempo (incluindo Karlheinz Stockhausen, La Monte Young e até John Cale antes deste vir fundar o Velvet Underground), antes de criar o Can, um dos grupos mais importantes da cultura alemã da segunda metade do século passado. Can and Me é uma boa amostra do que o In Edit, que acontece entre 16 e 25 de junho, vai trazer na edição deste ano. Ainda hoje, anunciam mais lançamentos de sua programação, que será revelada integralmente na primeira semana de maio.

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Desafio vencido

Que maravilha a estreia do Guaxe ao vivo. A dupla formada por um boogarin e um supercorda finalmente debutou nos palcos depois de quase dez anos de parceria – Dinho e Bonifrate começaram a compor desde o primeiro dia em que se conheceram, em 2015, e lentamente seguiram maturando composições entre a guitarra do goiano e a viola do paratiense até que elas tomaram forma no ano anterior à pandemia e o encontro no palco foi suspenso pelos motivos que conhecemos. Este primeiro reconhecimento finalmente aconteceu nesta terça, quando Bonifrate disparava bases eletrônicas num Casiotone – ou simplesmente fazia o teclado cantarolar uma melodia – para que seus instrumentos de corda e suas vozes se encontrassem num ponto perfeito entre a desconfiança caipira e a ingenuidade lo-fi, num show memorável que terminou com os dois reverenciando Spacemen 3, numa versão para “The Sound of Confusion”. Lindaço.

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Vocalistas de duas das principais bandas psicodélicas brasileiras deste século, Dinho e Bonifrate atravessaram os anos pós-golpe lapidando, nas idas do goiano à Paraty, um disco que só foi lançado depois em 2019. E como aconteceu com todo mundo em 2020, o projeto que une o boogarin e o supercorda criaram em casa, não se materializou nos palcos pelos motivos que a gente sabe, ressurgindo apenas em 2023 na primeira apresentação ao vivo, que recebemos com prazer neste início de abril no Centro da Terra. A dupla Guaxe mistura as sensibilidades caipira e lo-fi entre violas e teclados de brinquedo nessa que já uma das apresentações mais disputadas no Centro da Terra neste ano. O espetáculo Desafio do Guaxe começa pontualmente às 20h e ainda há ingressos à venda online – mas estão quase no fim!

Renasce o monstro

Noite histórica. Ao recriar mais uma vez seu clássico de 1980 no palco do Sesc Pinheiros neste sábado, Arrigo Barnabé reforça o papel fundamental de sua obra-prima na história da música brasileira ao sublinhar com a ênfase necessária que ela só aconteceu devido ao contexto em que foi concebida, a cena que surgiu ao redor do mitológico teatro Lira Paulistana, no início dos anos 80. Arrigo arregimentou parte da Banda Sabor de Veneno da gravação original, entre eles o trombonista Ronei Stella, o tecladista Bozo Barretti, os saxes de Manuel Silveira e Chico Guedes, a bateria de seu irmão Paulo Barnabé e as vozes de Suzana Salles e Vânia Bastos, acrescidas das presenças de Ana Amélia e Tetê Espíndola. Acompanhando Tetê ao piano num momento fora do roteiro do disco original, o compositor paranaense passeou por duas de suas composições para celebrar a presença da amiga, “Canção dos Vagalumes” (que resumiu como “canção-manifesto do sertanejo lisérgico” que a vocalista do Mato Grosso do Sul fazia parte naquele período) e “Londrina”, além de visitar, em outros momentos da noite, “Mente Mente”, de Robinson Borba, que gravaria na trilha sonora do filme Cidade Oculta, e improvisar o começo de “Noite Fria”, de Itamar Assumpção, com as vocalistas antes de começar o bis. E ao entrecortar a ópera dodecafônica sobre o monstro mutante surgido a partir de uma experiência a que um office-boy se submete, por falta de dinheiro, nas entranhas de São Paulo com estas composições, Arrigo reverenciou a cena em que surgiu numa apresentação de fôlego para um teatro lotado. “43 anos…”, desabafou, rindo, com sua voz grave no início do espetáculo. “Inacreditável, a gente tocava isso em 1980, por isso que chamavam de vanguarda”.

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Quarta-feira, você sabe, é dia de documentário sobre música brasileira no Centro da Terra, graças às parceria que firmamos com o festival In Edit e neste dia 15, às 20h, exibiremos Pedro Osmar, Pra Liberdade Que Se Conquista, que trata sobre o personagem que batiza o filme de Eduardo Consonni e Rodrigo Marques. Fundador do mitológico Jaguaribe Carne, nos anos 70, Pedro Osmar mudou a cara da arte paraibana a partir da psicodelia nordestina, que reverberou em outras áreas de sua produção artística – além de músico e compositor, também é poeta, artista plástico e dramaturgo e sempre expandiu seus horizontes a partir da liberdade que conquistou com sua arte, transformando o que seria uma biografia num um manifesto poético-político-musical. A sessão começa pontualmente às 20h, os ingressos estão à venda neste link.

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Que bordoada esse show que a Bufo Borealis fez ao lado de Edgard Scandurra. O guitar hero paulistano por excelência já havia participado das gravações do primeiro disco do combo de free jazz fundado a partir de uma cozinha de formação punk: o baixista do Ratos de Porão Juninho Sangiorgio e o baterista Rodrigo Saldanha fundaram o grupo a partir de experimentos musicais inspirados pela fase elétrica de Miles Davis. Com Tadeu Dias na guitarra, Paulo Kishimito na percussão e teclados, Vicente Tassara nos teclados e Anderson Quevedo no sax, o grupo enfileirava músicas de seus dois discos criando um parede sonora que entrou pelos poros de todos que lotaram o Centro da Terra nesta terça-feira. O acréscimo de Scandurra à formação trouxe um sniper para este batalhão enfurecido, que acertava com precisão para onde quer que apontasse sua guitarra. O final do show com versões para “In a Silent Way” de Miles Davis e “20th Century Schizoid Man” do King Crimson foi só o golpe baixo final que acabou por acachapar as expectativas de todos os presentes. Alguém anotou a placa do caminhão?

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Maior satisfação receber o grupo instrumental Bufo Borealis baixa pela primeira vez no palco do Centro da Terra, que faz sua apresentação Escuridão com um convidado que já é da casa – o guitarrista Edgard Scandurra, que injeta uma dose de rock (e progressivo ainda por cima!) no caldeirão jazz funk do grupo paulistano. E o resultado é explosivo! Os ingressos estavam quase no fim, mas ainda dá pra comprá-los neste link e o espetáculo começa pontualmente às oito da noite. Vamo?

Qualquer apresentação de Kid Koala é um convite a perder o rumo. Tocando três vitrolas e um mixer ao mesmo tempo sem usar fones de ouvido, o DJ canadense pertence à escola do turntablism que reinventou o tocadiscos como instrumento na virada do século e como outros da sua estirpe, transcende barreiras entre gêneros musicais, lentamente transformando faixas facilmente reconhecíveis e hits desconhecidos guardados a sete chaves em uma massa amorfa de som que desafia rótulos sonoros. Mas em sua performance única, ele não desmerece estilos e escolas como se fossem meras classificações técnicas, muito pelo contrário: faz questão de passear por diferentes áreas mostrando para o público o universo que está desbravando, não importa se é o ska ou o shoegaze. E assim enfileirou clássicos dos Beastie Boys com aquele remix do Erol Alkan pro Franz Ferdinand, contrapondo Outkast com a islandesa Emiliana Torrini, sempre criando climas exóticos e familiares ao mesmo tempo. O DJ apresentou-se neste domingo no Sesc Pompeia com a canadense Lealani, que alterna entre esmerilhar na MPC e rugir com sua guitarra, tocando hinos punk de sua banda Pezheads (quando Koala assume as baquetas de sua MPC e se torna ele mesmo um baterista). Koala fechou a noite mostrando que seu virtuosismo não é só exibicionismo ao visitar a música favorita de sua mãe, “Moon River”, que deixou tocar com os vocais de Audrey Hepburn para depois ele mesmo tocar a música usando apenas a variação de velocidade de seus tocadiscos. Um mestre.

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Estranho sossego

Casa cheia para assistir à última apresentação do grupo Oruã antes de sua próxima turnê internacional, quando o quarteto carioca vaga à deriva, nos próximos meses, pelo hemisfério norte com dezenas de apresentações marcadas enquanto finalizam seu próximo disco, que deve ser lançado durante essa viagem. Mas quem foi ao Centro da Terra nesta terça-feira já pode sentir um gostinho do estranho sossego das canções deste novo disco, chamado de Passe. Pelas faixas do novo disco, o grupo conduz um jazz funk relaxado, ancorado num andamento quase sempre kraut, cortesia do entrelaçamento da bateria motorik da aniversariante do dia, Karin Santa Rosa, com as linhas de baixo marcantes de Bigú Medine e a cama eletrônica dos synths de João Casaes. Por cima destes andamentos surge Lê Almeida, por vezes cantando doces melodias sussurradas, por outras deixando sua guitarra sangrar solos entre o rock clássico e o indie rock, e conduzindo todo o público a este novo ambiente, tão familiar quanto surpreendente, enquanto tocavam sob projeções de vídeos com paisagens oitentistas e cenas da própria banda e entre a bruma de incensos acesos. Esse ritual mágico e sônico só mudou de rumo quando o grupo convidou a performer Flavy Matos para o palco e todos trocaram de instrumentos: Lê assumiu o baixo, Bigú foi para o synth, João para a bateria e Karin na guitarra, esta última surpreendida com um bolo de aniversário em pleno palco, antes de cantar a balada “Don’t Touch”, de Norma Tenaga, com a participação de Ana Zumpano na bateria. Coisa linda.

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