
“Cá estou, mais perto da sarjeta do que nunca. A passarela da fama de Hollywood, o primeiro lugar que eu vim quando cheguei em Los Angeles, depois dirigir através do país com David Lockery. Eu saí do meu carro em 1970, na esquina das ruas Hollywood e Vine e saí atravessando a rua até ganhar uma multa por atravessar na rua fora da faixa de pedestres, minha primeira, e nunca mais olhei para trás”. comemorou John Waters nesta segunda-feira, quando foi entronizado à eternidade do cinema norte-americano ao ter sua estrela da famigerada calçada da fama de Hollywood.
Ele dedicou a condecoração aos seus falecidos pais: “Pat e John Waters, que, apesar de ficarem horrorizados com meus primeiros filmes, e alguns dos mais recentes também, me encorajaram a continuar porque acho que eles devem ter pensado o que mais que eu poderia fazer além de estar no showbusiness?”
E depois de agradecer nominalmente diversos amigos – não apenas do cinema -, ele concluiu celebrando a atração turística da qual faz parte. “Passarela da fama de Hollywood, você é demais e espero que os rejeitados do showbusiness mais desesperados passem por aqui por cima de mim e sintam alguma espécie de respeito e força. Os esgotos deste boulevard mágico nunca secarão a sarjeta da minha gratidão, os detritos da minha carreira ou o desperdício da apreciação de Waters. Obrigado Hollywood, desta vez eu finalmente fui para além do vale das bonecas”, citando o clássico trash de Russ Meyer, com roteiro do crítico Roger Ebert, um dos pilares de sua formação. E ainda deu a deixa que, de repente, ano que vem, teremos a estrela de Divine, musa e estrela de sua maior obra, o infame Pink Flamingos.
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Pesado esse show que a Bike fez com o Tagore nessa terça-feira no Centro da Terra, enfileirando hits da lisergia brasileira que colocava os dois artistas num cânone viajandão que enfileirava Arnaldo Baptista solo (LSD), Pedro Santos (“Um Só”), Cérebro Eletrônico (“Pareço Moderno”), Júpiter Maçã (“Um Lugar do Caralho”), Fábio (“Lindo Sonho Delirante”), Tom Zé (“Parque Industrial”) e Violeta de Outono (“Declínio de Maio”), entre outros clássicos da música psicodélica brasileira, todos rearranjados com muito peso, microfonia e ritmo, cortesia da química entre os integrantes da banda paulista. O ápice da apresentação foi quando o grupo soltou Tagore em cima de dois hinos do udigrudi nordestino, quando emendou “Vou Danado pra Catende” de Alceu Valença com “Nas Paredes da Pedra Encantada Os Segredos Talhados por Sumé” do mitológico Paebirú, de Zé Ramalho e Lula Côrtes, que contou com uma interpretação possessa do vocalista pernambucano.
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Artistas contemporâneos e da mesma árvore genealógica, embora cada um nascido num canto do país, Bike e Tagore já estiveram juntos outras vezes, mas pela primeira vez criam um espetáculo em parceria, quando se reuniram para apresentar MPB ou LSD?, uma apresentação que funciona como uma jornada à alma psicodélica da música brasileira, cruzando os mares lisérgicos desde os tempos dos Mutantes, passando pelo udigrudi pernambucano dos anos 70, os experimentos paulistanos dos anos 80, o ácido rock gaúcho dos anos 90 e a cena retropsicodélica da qual fazem parte neste século. Essa viagem começa pontualmente às 20h desta terça-feira e os ingressos podem ser comprados neste link.

Na terceira apresentação da temporada Águas Turvas que Dinho Almeida está fazendo no Centro da Terra, ele finalmente pode começar sem pisar em ovos e se nas duas segundas-feiras anteriores o guitarrista dos Boogarins esteve sozinho no palco a maior parte do tempo (apenas dividindo-o no final da segunda noite, com os irmãos Bebé e Felipe Salvego), nesta ele começou com um grupo de amigos que é praticamente sua família paulistana: o casal Carabobina – Raphael Vaz, baixista de seu grupo, e Alejandra Juliani -, com seu sotaque andino-psicodélico e a violinista gaúcha Desirée Marantes moram na mesma vila que o compositor goiano, tornando o encontro praticamente um programa de família, que ainda contou com as texturas e beats eletrônicos do parceiro Bruno Abdalah. Juntos, este grupo de camaradas deixou Dinho à vontade para fazer a noite mais experimental de sua temporada até agora, buscando pontos além da melodia e da canção, explorando camadas de drone e som horizontal com sua voz e guitarra elétrica. Uma noite hipnotizante.
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Quem foi ao Sesc Avenida Paulista nesta quinta-feira pode aproveitar mais uma avalanche sonora provocada pelo Test em sua versão hiperbólica, a Test Big Band, e só quem esteve presente tem noção do impacto que foi essa primeira apresentação que o grupo faz neste formato depois da pandemia. Além dos heróis João e Barata, os responsáveis por esse cataclisma de som que o público pode assistir, eles contaram com Sarine na percussão, Bernardo Pacheco no baixo, Alex Dias no contrabaixo acústico, Rayra da Costa nos eletrônicos, Livia Cianciulli no saxofone, Romulo Alexis no trompete, Flavio Lazzarin na bateria, Tomas Moreira, Chris Justtino e Jonnata Doll nos vocais e Maureen Schramm na luz. Vida longa ao Test!
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Feliz por conseguir realizar o retorno da Test Big Band depois do período pandêmico nesta quinta-feira, no Sesc Avenida Paulista. Uma das principais bandas da cena noise brasileira, a dupla Test, formada por João Kombi (guitarra e vocais) e Barata (bateria), já extravasaram há muito tempo os limites do metal e do grindcore e hoje são uma usina compacta de barulho extremo. Mas esse elemento compacto vai para as cucuias no formato Big Band. Fui apresentado a essa formação – quando a dupla expande-se para a quantidade de músicos que eles conseguem colocar no palco – quando era curador de música do Centro Cultural São Paulo e reunimos dez músicos além da dupla na mítica Sala Adoniran Barbosa. Desta vez Barata e João são acompanhados por outros onze músicos: Sarine (percussão) e Bernardo Pacheco (baixo), que já tocam com os dois quando o grupo torna-se um quarteto, além de Alex Dias (contrabaixo acústico), Rayra da Costa (eletrônicos), Livia Cianciulli (saxofone), Romulo Alexis (trompete), Flavio Lazzarin (bateria), Tomas Moreira, Chris Justtino e Jonnata Doll (vocais) e Maureen Schramm (luz). A apresentação dessa parede sonora acontece no Sesc Av. Paulista a partir das 20h. Os ingressos já estão esgotados, mas quem conhece o Sesc sabe que, chegando na hora, sempre corre o risco de sobrar um ou outro ingresso. Vamos?

Dois instrumentistas gigantes, cada um deles ja dono de uma temporada inteira no Centro da Terra, retornam ao palco do Sumaré para um encontro único. Maurício Takara e Guizado juntam seus instrumentos-base, a bateria e o trompete, respectivamente, a pedais, plugins e synths para desconstruir canções dos respectivos repertórios nesta quarta-feira, na apresentação Campo Magnético. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos podem ser comprados neste link.

Finalmente vi Barbie, mas atropelo o comentário sobre o filme de Greta Gerwig para falar sobre o novo filme de Kleber Mendonça Filho, que Dodô usa como gancho para falar sobre museus e acervos – neste caso, pessoais. E em mais um DM emotivo, mergulhamos na coleção de lembranças que cada um de nós carrega e usa como autoficção para definir quem somos, cada um de nós. Isso é deixa para mergulharmos em amizades que nos deixaram, como a do meu querido irmão Fred Leal – que Dodô só conheceu pela internet, como pode? -, a trágica história de seu compadre de adolescência Elmer e, vamos festejar nossos amigos em vida, do grande Fabio Bianchini, o Mumu, uma das melhores pessoas que conhecemos (e olha que conhecemos muita gente boa).
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É oficial: a esquina anônima de Nova York que estampa a capa de um dos discos mais clássicos da história – não apenas do rap – agora leva o nome do trio que a colocou no mapa. O cruzamento das ruas Ludlow e Rivington, no Low East Side nova-iorquino, está na capa do segundo disco dos Beastie Boys, o revolucionário Paul’s Boutique, e foi palco neste sábado para a celebração que viu a transformação do endereço oficialmente em Beastie Boys Square – a praça dos Beastie Boys. É a conclusão de um processo inicial após a morte de um de seus fundadores, o rapper Adam “MCA” Yauch, em 2012, quando um fã chamado LeRoy McCarthy resolveu tentar mudar o nome do endereço por vias oficiais. A tramitação burocrática levou todo esse tempo e os dois beastie boys remanescentes, Michael “Mike D” Diamond e Adam “Ad-Rock” Horovitz, estiveram presentes na inauguração. “Agradeço a Nova York por nos ensinar o que ver, o que ouvir, o que vestir, como amar, como viver”, disse Ad-Rock durante o evento, “me deixa muito feliz saber que daqui a uns 50 anos algum moleque vai olhar pra cima e dizer: ‘que porra é um beastie boy? Por que eles têm uma praça?”. A cerimônia foi transmitida pela YouTube do grupo e pode ser assistida abaixo: Continue

Um dos motivos que me fizeram criar o Inferninho Trabalho Sujo foi a percepção de que há uma mutação acontecendo no cenário musical brasileiro. A tragédia pandêmica que nos isolou por tanto tempo fez com que voltássemos de forma muito viva aos encontros presenciais. Shows, peças, blocos de carnaval, jantares de família, restaurantes, botecos, casas de amigos: todo mundo está se encontrando muito mais e de forma mais intensa do que fazia antes da praga, talvez por uma questão de compensação ou mais provável por uma sensação de que perdemos algo que tínhamos como certo, então ninguém quer perder a oportunidade de estar junto com outras pessoas.
Isso também está acontecendo do ponto de vista artístico. A profissionalização do mercado de música brasileiro dos últimos anos colocou o artista solo (seja ele intérprete, músico, DJ, cantautor, produtor) como unidade básica do mercado. Os motivos são fáceis de entender (é mais fácil gerir a carreira de uma pessoa do que de um grupo), o que fez com que as bandas parassem de surgir, pode reparar.
Mas isso mudou depois da pandemia. Ter uma banda hoje não pressupõe gestão de carreira, gastos de produção, divisão de cachê e de tarefas. Comecei a notar bandas surgindo pelo motivo que sempre deveriam ter surgido: porque é legal tocar junto com outras pessoas. As bandas voltaram a ser turmas de amigos, mais do que CNPJs da indústria do entretenimento. E bandas que tocam em qualquer quintal, qualquer buraco, qualquer lugar em que elas possam ser ouvidas. E do mesmo jeito que não são empresas, fogem das tendências de mercado, inclusive estéticas. Estão buscando rumos artísticos novos e diferentes só porque é legal fazer isso. E bastou que eu começasse a frequentar o Picles para saber que aquele era o palco perfeito para uma festa pensada para essas bandas.
A edição desta quinta-feira do Inferninho Trabalho Sujo era exatamente o que eu havia pensado quando o conceituei. Duas bandas novíssimas, quase desconhecidas, fazendo música de um jeito muito pessoal e particular, ambas melódicas e barulhentas na mesma medida. E lembro ter conversado com integrantes das duas bandas (especificamente a Anna d’Os Fadas e a Stéfanie do André Medeiros Lanches), mesmo antes de começar a festa, sobre a necessidade da existência de um lugar como esse. De alguma forma é o antônimo do trabalho que estou fazendo no Centro da Terra, mas paralelo e complementar. Ver as duas bandas tocando para um público feliz e lotado mostrou as coisas estão dando certo. Que venham os próximos!
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