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Loki

Nessa sexta-feira tem mais Inferninho Trabalho Sujo na Porta Maldita, quando reunimos três bandas que trabalham na base do improviso livre de natureza rock, com muito noise, microfonia e caos sonoro. Os Gialos já são uma banda clássica, o Tranze é o projeto beat do dono da Porta Maldita, o grande Tuta, e a bagunça do Pode Tudo Mas Não Pode Qualquer Coisa, reúne integrantes dos Fonsecas, Julio Lino e Julia Toledo. Shows completamente fora de controle, temperados pelo clima caseiro e aconchegante que só a Porta Maldita tem hoje – com discotecagem minha no final da noite. A Porta Maldita fica no número 400 da rua Luiz Murat, entre os bairros Pinheiros e Vila Madalena, e os ingressos já estão à venda neste link.

Tive que ir de novo no formidável encontro dos violões de Kiko Dinucci e Jards Macalé, que, nessa sexta-feira, fizeram um show quase idêntico ao que fizeram no dia anterior, numa apresentação menos informal – embora tenha rendido boas prosas entre as músicas, como na quinta – e um pouco menor que a anterior, talvez porque Jards tenha trocado “Mal Secreto” – que é mais extensa devido a uma citação do clássico da bossa nova “Corcovado” – por uma versão acachapante – e solitária – para “Movimento dos Barcos”, esta posta no repertório a pedido de Kiko. Escrevi sobre o show, que deverá repetir-se em algum momento em breve, em mais uma colaboração que faço para o Toca do UOL. Continue

Pavements, o metadocumentário meio fake meio real inventado por Alex Ross Perry para celebrar a história e o legado da banda liderada por Stephen Malkmus, tem operado pequenos milagres. Além de despertar um novo interesse pela banda a partir de sua segunda turnê de retorno, o filme aos poucos está transformando o Pavement na principal banda indie dos anos 90, basicamente porque o peso da tragédia que abateu-se sobre o rock alternativo da época com a notícia do suicídio de Kurt Cobain, fez todos os potenciais concorrentes ao posto saírem correndo na direção contrária: o Sonic Youth radicalizou para um lado ainda mais experimental, os Smashing Pumpkins correu em direção ao rock progressivo, ao industrial e depois até para o metal; o Teenage Fanclub lançou um disco meio soturno para depois abraçar o power pop, o Blur e o Oasis se engalfinharam numa briga besta e os Foo Fighers miraram no mainstream, de onde não saíram desde que lá chegaram, anos depois.

O Pavement percorreu uma trajetória ainda mais bissexta ao negar o rótulo de principal banda da década radicalizando ainda mais no indiesmo – seu terceiro disco, Wowee Zowee (meu favorito), é um Álbum Branco de frustração de expectativas ao mesmo tempo em que explora territórios novos para o grupo, da balada country ao hardcore, e essa guinada ajudou a colocar lenha na fogueira do documentário idealizado por Perry, que é irônico e não é irônico ao mesmo tempo e faz com que o grupo, mais de um quarto de século após seu fim, se prontifique ao posto que ninguém queria. E ao contar a história do grupo misturando com um documentário de mentira sobre a banda, um musical (!!!) no teatro e uma exposição sobre o grupo, o filme conseguiu outro grande feito, ao trazer à tona uma música que o grupo gravou nos ensaios de sua turnê mais recente, quando gravaram, de forma descompromissada, “Witchi Tai To”, canção perdida que o norte-americano de origem indígena Jim Pepper gravou em 1971 a partir de uma música que aprendeu com seu avô, um hino da Igreja Nativa Americana, que celebra o peyote como caminho para o autoconhecimento. A versão do Pavement, lançada pela primeira vez na trilha sonora do documentário que saiu nessa sexta-feira, é a primeira música que o grupo lança desde o EP Major Leagues, de 1999. O sangue do cinema tem poder!

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“E aí, doutor Kiko?”, perguntou Jards Macalé a Kiko Dinucci, que respondeu com outra pergunta (“E agora?”) prontamente respondida por Macau: “Agora foda-se”. Sabíamos que seria memorável, mas acho que nem Kiko nem Jards tinham ideia da química que baixou sobre os dois na primeira das duas apresentações que marcaram para esta semana no Sesc Pompeia. Mesmo com diferenças de geração, personalidade, origem e criação, os dois são gêmeos univitelinos no violão e dividem o mesmo humor – autodepreciativo e de um pugilismo quase fraterno – e apreço pelo baixo calão da vida, o que tornou a apresentação um acontecimento histórico. Passeando por diferentes fases do repertório de Jards, clássicos do samba e algumas canções de Kiko, os dois mostraram a força e a delicadeza de seus violões. Jards é da geração impactada diretamente por João Gilberto e seu instrumento fica entre o ritmo sincopado do mestre baiano e o suingue carioca de seu contemporâneo Jorge Ben, enquanto Kiko, guitarrista de nascença, convertido ao outro instrumento pelo samba, é diretamente influenciado pelo violão de Jards, além de trazer suas influências elétricas – do punk ao noise – para seu pinho. Mas o ponto em comum dos dois é a história do samba, visitada através de clássicos (como “Se Você Jurar” de Ismael Silva embutida em “Let’s Play That”, “Luz Negra” de Nelson Cavaquinho, “Ronda” de Paulo Vanzolini e “Favela”), e a devoção de Kiko por Jards, mencionada pelo próprio, que o perseguia por shows vazios em São Paulo quando ainda era adolescente (dele e de Itamar Assumpção, que não conheceu, como frisou). Isso deixou-o à vontade para passear com Jards em seus sambas imortais como “Pano pra Manga”, “Farinha do Desprezo”, “Boneca Semiótica”, “Depressão Periférica” e “Soluços” (esta no bis), além de duas que Jards tocou maravilhosamente sozinho: “Anjo Exterminado” e “Mal Secreto”. Kiko por sua vez fez duas de seu Rastilho sem Jards (“Febre do Rato” e “Gaba”) e lembrou que há cinco anos ele lançava seu clássico disco naquele mesmo teatro do Pompeia. Os dois ainda tocaram músicas que compuseram juntos, como “Vampiro de Copacabana” e “Coração Bifurcado”, mas tiveram um de seus melhores momentos quando emendaram “Antonico” – eternizada por Gal em seu disco ao vivo Fatal, que Jards visitou diversas vezes em diferentes momentos de sua carreira (tanto só quanto com o próprio Ismael, com Marçal e com Dalva Torres) e que Kiko vem tocando no momento acústico do show mais recente de Juçara Marçal – com uma que Jards nunca havia tocado ao vivo, “No Meio do Mato”, de seu disco Contrastes, de 1977. Um show que parece, ao mesmo tempo, um reencontro de velhos irmãos e o início de uma longa amizade musical. Sorte a nossa.

#jardsmacale #kikodinucci #sescpompeia #trabalhosujo2025shows 094

450 itens do acervo de David Lynch irão a leilão no próximo mês através da casa norte-americana Julien’s Auctions, que já oferece em seu site tudo que irá ser vendido no dia 18 de junho. E não é pouca coisa. Entre itens corriqueiros de seu dia-a-dia, como móveis, eletrodomésticos, livros, discos e outros itens de casa, ainda há joias como sua cadeira de diretor, a claquete que usava nos filmes, roteiros originais de Cidade dos Sonhos, A Estrada Perdida e Twin Peaks (quando ainda chamava-se Northwest Passage), sua versão pessoal em película de seu primeiro filme, Eraserhead, o cenário que compõe o Black Lodge de sua clássica série (incluindo o piso em zigue-zague e as cortinas vermelhas), o megafone que usava ao dirigir, câmeras, microfones, instrumentos musicais, sua máquina de gelo seco, a foto com a explosão da bomba atômica que ficava no escritório de seu personagem na última temporada de Twin Peaks… Enfim, muita coisa. Triste ver todo um legado material desfazer-se na mão de fãs endinheirados, mas não é a primeira vez que algo desse tipo acontece. Tomara que algum fã (ou grupo de fãs) compre vários itens e tente fazer um museu em homenagem ao mestre, algo que tornaria tais itens parte de uma comunidade mais do que do prazer pessoal de poucas pessoas. Se alguém quiser dar algum lance, o link é esse.

Veja alguns itens abaixo: Continue

Uma noite daquelas

Noitaça daquelas no Picles nessa sexta-feira, quando reuni em mais uma edição do Inferninho Trabalho Sujo duas bandas nada próximas pra mostrar que, mesmo tocando estilos musicais diferentes e estando em fases distintas de suas carreiras, estamos diante de uma safra invejável de novas bandas, que se conversam e se frequentam. Fazendo sua primeira apresentação em São Paulo, o quarteto Movimento Náufrago, de Santo André, faz parte daquela safra de artistas desta década que são igualmente influenciados por indie rock, música brasileira e rock clássico, com um elemento poético colocado em primeiro plano graças à excelente vocalista Jeini Cristina, que além das letras literárias também tem um carisma que entretém o público entre as canções. A guitarrista Mari Oliver traz os elementos rock tocando seu instrumento de forma enxuta, melódica e sem firulas, para que o novo baixista Askov (que também toca na Cianoceronte) e o baterista Matheus Rocha encorpem as canções de forma igualmente concisa e precisa. Entre as curtas músicas que apresentaram, mostraram uma que foi finalizada na tarde daquela sexta, tão bem recebida pelo público que foi tocada pela banda novamente no bis. Bem bom.

Depois foi a vez dos cariocas da Glote infestarem o Picles com uma bruma elétrica pesada, hipnotizando os presentes com o peso do shoegaze tocado com duas baterias. Soando como um cruzamento do Television com o Sonic Youth, o grupo, liderado pela dupla de guitarristas João Autuori e Alvaro Mendes (que também respondem como a banda Drogma, em uma encarnação paralela), é 100% cria do Escritório, escola de indie lo-fi inventada por Lê Almeida no Rio de Janeiro, que converge a estética indie e o modus operandi faça-você-mesmo para uma realidade periférica brasileira. E no Glote essa brasilidade está nas letras – tanto no jeito de cantar quanto nos assuntos -, que trazem essa brasilidade para o mar de noise e microfonia tenro e adocicado que formam seus arranjos, sempre pesados, nunca agressivos. Um sonho bom, em que canções de poucos minutos parecem durar horas de transe coletivo ao redor do som. Uma noitaça que terminou com a minha discotecagem ao lado da Fran, numa madrugada particularmente inspirada para os dois, mesmo ela tendo esquecido parte de suas músicas e de ela ter cutucado o meu passado mashup, que eu nem sabia como estava sentindo falta. Só começando…

#inferninhotrabalhosujo #movimentonaufrago #glote #picles #noitestrabalhosujo #trabalhosujo2025shows 083 e 084

Sexta-feira tem mais @inferninhotrabalhosujo no Picles, quando reunimos duas bandas que nunca passaram pela festa. A noite começa com os cariocas do Glote e depois a bola é passada pro Movimento Naufrágo, apresentando nova formação. Depois dos shows, eu e Fran (aniversariante da semana ❤️) começamos a esquentar a pista pra mais uma noite daquelas. Os ingressos já estão à venda e quem segurar os seus antes pode entrar de graça até às 21h30. Se não chegar essa hora o preço é 20 reais. Se você não pegar antes, o ingresso custa 30 reais. Não dê mole que a noite vai ser quente! Garanta seu ingresso aqui/a>.

Don L aos poucos prepara o território para a chegada de Caro Vapor II – Qual a Forma de Pagamento? e vem usando seu perfil no Instagram para soltar algumas pistas do que vem por aí, mostrando fotos novas, detalhes das roupas e dos adereços que vai usar nesta nova fase. Mas a primeira novidade que ele trouxe foi quando avisou que abriu uma conta no Letterboxd, a rede social sobre cinema que aos poucos vem se tornando uma referência online nesse assunto. Só que em vez de simplesmente anunciar que havia criado um perfil naquela rede, anunciou avisando que o disco estava no Letterboxd, o que fez fãs descobrirem que ele estava anotando como filmes que havia visto, referências que estarão no próximo disco – e não é só gente inventando coisas da cabeça, afinal o perfil do Instagram que L criou para divulgar o novo álbum (@caro.vapor) compartilhou como colab um vídeo do comentarista de basquete Gustavo Marinheiro, que levanta várias possibilidades a partir de nomes e temas de filmes com outras referências nas letras e ambientações dos discos anteriores do rapper cearense, sugerindo que alguns filmes dariam pistas sobre os nomes das músicas, por exemplo. Entre os filmes citados estão os brasileiros Marte Um, Veneno, Um Lugar ao Sol e Onde São Paulo Acaba, o japonês Homem Mau Dorme Bem (que Kurosawa filmou no mesmo ano de seu clássico Rashomon, em 1960), os norte-americanos Marcados Pelo Sangue, Judas e o Messias Negro e O Pagamento Final e o romeno Não Espere Muito do Fim do Mundo, numa lista que vai aumentando diariamente. E se lembrarmos que ele está no meio de uma trilogia chamada Roteiro Pra Aïnouz, em referência ao cineasta que também é seu conterrâneo, e que ele sempre cita nomes de filmes ou cria climas cinematográficos em suas canções, a pista parece boa. Veja abaixo: Continue

Dylan está voando em mais uma turnê Outlaw pelos Estados Unidos, novamente dividindo as noites com Wilie Nelson e convidados, quando aproveita para desenterrar músicas antigas de seu repertório que não tocava há uma cara bem como pinçar versões para clássicos alheios que ouvia pelo rádio na adolescência. A novidade da semana veio no show que fez na cidade de Nampa na terça-feira, quando tocou pela primeira vez desde 2014, sua clássica “Just Like Tom Thumb’s Blues” com vocais, em vez da versão instrumental que apresentou apenas seis vezes nos últimos onze anos. E apesar de tocar o piano como principal instrumento nos últimos anos, ele tocou um pouco de guitarra – ainda que de costas para o público, no início da canção.

Assista abaixo: Continue

Macalé & Dinucci

Esse encontro do Jards com o Kiko só com seus respectivos violões no Sesc Pompeia promete ser histórico, hein? Se liga que os ingressos já estão à venda