
As paisagens musicais desenhadas pela música são entendidas de formas diferentes por cada um dos ouvintes, mas é impressionante como o quarteto de rock tuaregue Etrain de L’Air consegue fazer todo o público sintonizar numa mesma frequência, que desenha horizontes desérticos e caravanas em movimento ao mesmo tempo em que põe todos para dançar. O fato de subirem ao palco vestidos com suas túnicas, taguelmustes e lithams inevitavelmente aciona o inconsciente coletivo que nos leva ao norte da África, em que povos nômades cruzam o Saara em longas e pacientes travessias. Mas a junção de duas guitarras, baixo elétrico e bateria inevitavelmente nos leva para o território do rock, o que ajuda a traçar conexões tão distintas entre rockabilly, surf music e heavy metal buscando origens que podem estar mais perto do Equador do que se pensa. O quarteto do Níger foi uma das atrações do último fim de semana do Sesc Jazz e manteve o alto nível que pode ter tornar esta a melhor edição do festival. E não teve dificuldades de envolver o público em uma dança que, apesar de movida a guitarradas, era essencialmente impulsionada pelo ritmo e pelo groove dos quatro instrumentos atacando em uníssono. Um longo transe elétrico de mais de uma hora e meia transformou a comedoria do Sesc Pompeia em um bailão intenso, suor pingando do teto e o público completamente entregue ao grupo. Delírio.
#etraindelair #sescjazz #sescjazz2025 #sescpompeia #trabalhosujo2025shows 245

“Eu nunca achei que a gente ia viver de música quando a gente fez essas músicas, eu nunca achei que ia ter esse tanto de gente pra ouvir e cantar essas músicas desse jeito, quando a gente lançou esse disco a gente nem tocava ele inteiro”, comemorou Dinho no final da comemoração de dez anos do segundo disco dos Boogarins, Manual ou Guia Livre de Dissolução dos Sonhos, que o grupo fez nesta quinta-feira no Cine Joia. Com a casa lotada e o público cantando todas as músicas (inclusive os solos de guitarra), o grupo deslizou seu disco mais pop com a química musical e a excelência sonora que atingiram picos que os goianos nunca poderiam imaginar quando o gravaram originalmente, como o guitarrista bem salientou ao final da última música, “Auchma”, esticando sempre os miolos instrumentais para lugares improváveis. E para não ficar preso no passado, o grupo sequer parou para um bis e já emendou com uma sequência de músicas do disco novo Bacuri (“Amor de Indie”, “Chrystian & Ralf”, “Chuva dos Olhos” e a faixa-título) e encerrou a viagem com uma versão delírio para o hit “Foi Mal”. E os cabelos do Fefel estavam ótimos.
#boogarins #cinejoia #trabalhosujo2025shows 244

“Ninguém me retira do Bom Retiro!”, Tom Zé começou o show que deu nesta quinta-feira celebrando o bairro em que a unidade do Sesc onde se apresentou fica instalada. Para receber a quase nonagenária lenda viva da música brasileira – o baiano acaba de completar 89 anos! -, o Sesc Bom Retiro preferiu fazer o show fora de seu teatro fechando a área livre da unidade para comportar mais gente, num espetáculo cujos ingressos esgotaram-se rapidamente. E a alegria contagiante do protagonista da noite começou quase instantaneamente, mesmo que tenha preferido ir de forma comedida, chamando um novo músico a cada nova música no início da apresentação. Mesmo em apresentações mais intimistas (quando dividiu “A Boca da Cabeça” apenas com o guitarrista Daniel Maia e depois quando fez “Curiosidade” com Andréia Dias, que está cantando na banda do mestre). Quando toda banda subiu no palco, pode passear, sem regras pré-estabelecidas, diferentes fases de sua carreira, emendando “Nave Maria” com “Jimmy Renda-se”, “Um ‘Oh!’ e Um ‘Ah!’” com “Jingle do Disco”, sua “2001” composta com Rita Lee com “Tô” e “Hein?” com “Politicar”. O público, boa parte formada por fãs de Tom, não fez cerimônia e fez coro em várias músicas, deixando Tom Zé à vontade para colocar todo para cantar. E dançar! Tão empolgante quanto vê-lo sorrindo enquanto canta é notar como Tom Zé mexe com seu corpo continuamente, sempre entregando-o à música, fazendo a própria dança parte de sua sonoridade. A idade pareceu pedir para encurtar o show antes da hora, mas Tom Zé voltou animado para um bis não apenas como uma, mas duas músicas, quando emendou a envolvente “Xique-Xique” com a implacável “Parque Industrial”, uma música que parece fazer ainda mais sentido em 2025 do que no ano em que foi lançada, 1968. A benção, Tom Zé!
#tomze #sescbomretiro #trabalhosujo2025shows 243

Festa não, festival. A comemoração dos dois anos do bar Matiz, que já entrou no mapa da noite paulistana com DJ sets e shows inacreditáveis, acontecerá em outro endereço, também no centro de São Paulo, e reunirá, no mesmo dia 6 de dezembro, nada menos que shows de Nubya Garcia, Azymuth e o encontro inédito de Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago, além de discotecagens encabeçadas pelo DJ Nyack. Os ingressos já estão à venda e mesmo sem saber onde vai ser realizado, acho que vai ser imperdível.

O Tiny Desk Brasil dessa semana é com a Céu e aos poucos o prumo da versão brasileira do programa (depois de João Gomes, Metá Metá com Negro Leo, finalizando com Péricles) parece que vai se definindo – ou será que eles ainda podem dar mais um cavalo de pau em nossas expectativas?
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O Tame Impala começou a turnê de lançamento de seu Deadbeat em Nova York nesta segunda-feira quando reforçou que, mesmo abraçando a dance music no novo álbum, mantém os pés firmes na psicodelia. Ao revelar um palco circular multicolorido e superiluminado em que o público cercava sua banda, Kevin Parker reforçou seu compromisso lisérgico em uma viagem em que as músicas de diferentes fases da banda soassem como parte de um mesmo tecido musical. E entre músicas nunca apresentadas ao vivo (como sua colaboração com o Justice do ano passado, “Neverender”, que abriu o bis), não chegou a empolgar o público com as músicas mais novas – com exceção de “Dracula”, que foi inclusive cantada pelos fãs.. Cacei vídeos em que dois heróis filmaram a íntegra desse primeiro show, para nossa alegria.
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O grupo Crizin da Z.O. encerrou a ótima temporada que a produtora de Guarulhos Desmonta realizou nas segundas de outubro no Centro da Terra dando um cavalo de pau nas expectativas do público. Mesmo sem mexer na formação, o trio composto por Cris Onofre (voz e letras), Danilo Machado (beats e percussões) e Marcelo Fiedler (baixo, guitarra e beats) enveredou por uma seara bem diferente do que costumam ser suas apresentações, com os dois músicos mantendo a força do ruído, mas sem a agressividade dos beats, substituído por texturas hipnotizantes, percussões ritualísticas e ciclos eletrônicos, enquanto o vocalista seguia praguejando o Rio de Janeiro e São Paulo em esporros vocais por vezes a capella, por outros soando como sermões à beira do abismo. Apresentando músicas novas e recontextualizando as mais antigas numa longa tramam contínua quase sem interrupção (salvo a pesada respiração do vocalista, que pairava sobre o silêncio onde o público poderia aplaudir, mas a concentração da noite deixou o aplauso apenas para o final do percurso), os três seguiam o clima distópico do disco de estreia, mas o clima de apocalipse iminente foi substituído pela sensação de terra arrasada (reforçado pela penumbra quase na escuridão da iluminação do palco), aos poucos tateando o que podem ser os novos passos da sensação da periferia carioca.
#desmontanocentrodaterra #desmonta18 #desmonta #crizindazo #centrodaterra #centrodaterra2025 #trabalhosujo2025shows 241

Morreu um dos últimos titãs da fase de ouro do jazz e o músico que mostrou que a bateria é muito mais que um instrumento de percussão.

Depois de convidar Seu Jorge e Roberto Carlos para as apresentações de retorno a São Paulo no fim de semana passado, nosso mestre Gilberto Gil subiu o sarrafo mais uma vez ao trazer pelo menos dois convidados por show no retorno de sua turnê Tempo Rei ao Rio de Janeiro. No sábado, ele chamou Iza para dividir “Não Chores Mais”, sua versão para “No Woman No Cry” de Bob Marley, e encerrou o show convidando Zeca Pagodinho pra fazer “Aquele Abraço” com ele. No domingo, ele foi ainda mais ousado: primeiro trouxe o Paralamas do Sucesso inteiro para cantar “A Novidade” com ele, depois chamou sua neta Flor Gil pela segunda vez para o palco da turnê, desta vez para cantar “Estrela” (na primeira vez, em São Paulo, ela cantou “Refazenda”) e pegou todo mundo de surpresa quando convocou ninguém menos que Jorge Ben para o palco em sua “Filhos de Ghandi”, música que não estava no repertório da turnê e sim no clássico disco que os dois gravaram juntos há 50 anos, o soberbo Gil & Jorge: Ogum, Xangô. As próximas datas da turnê acontecem em Fortaleza (dias 15 e 16 de novembro), Recife (22, 23 e 28) e Salvador (dia 20 de dezembro) – isso se ele não inventar de marcar datas pro ano que vem.
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O tal festival No Line Up, que uma cerveja bancou neste sábado de graça para 2500 pessoas em São Paulo poderia ter sido bem melhor se não tivesse sido feito tão às pressas. E por mais que tenha dado palco para shows memoráveis, era uma espécie de ornitorrinco, um mamífero que bota ovos, que é tão estranho quanto simpático, mas está longe de ter a exuberância que poderia ter. Tudo bem não querer revelar o elenco, mas então por que espalhar dicas sobre os artistas pouco antes de um evento que já teve problemas para distribuir os ingressos? Essa indecisão também estava presente durante o festival, que poderia ter avisado sobre os horários dos shows à entrada, mesmo sem revelar os artistas, preparando o público para as trocas de palco. O público no geral parecia ser de convidados da marca e em quase todos os shows pessoas desinteressadas na música conversavam sem parar – o que foi péssimo para as atrações do palco principal (foi triste ver a indiferença do público ao TV on the Radio, por exemplo) à exceção da deslumbrante Chaka Khan, que hipnotizou a todos e valeria o evento por si só. Esse desinteresse do público pelos shows funcionou sem querer para as atrações do pequeno palco Noise, que era tão escondido que poucos sabiam onde era, tornando-o refúgio para quem estava interessado em música, recebendo shows sensacionais do Metá Metá, do Negro Leo e o absurdo show do Thalin, que montou uma senhora banda para fazer um dos melhores shows da noite. O palco intermediário sofreu com o som, que só se salvava quando se chegava mais perto do palco. A duração extensa prejudicou a possibilidade de mais gente assistir ao Don L (que foi muito cedo) ou ao DJ set da Arca (no fim de tudo) e Mano Brown deveria ter ido para o palco principal no lugar da insuportável Tierra Whack. Mas dada as condições, o festival foi melhor do que o desastre que poderia ser e com um planejamento menos improvisado (que tal menos artistas pra mais público tocando em menos tempo?) poderia fazer bonito mesmo. Pelo menos a maioria dos artistas escolhidos seguraram bem a noite, o que é ponto para a curadoria. Tomara que tenha outro ano que vem.
#nolineupfestival2025 #trabalhosujo2025shows 233 a 239