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Loki

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O maestro norueguês da space disco Lindstrøm corresponde às expectativas com seu novo It’s Alright Between Us As It Is, lançado no mês passado, que já vinha sendo alardeado como um dos grandes discos do ano basicamente pelo fato de estar sendo produzido há cinco anos.

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Escrevi sobre os discos novos de dois grandes nomes da música brasileira atual – Curumin e Rincon Sapiência – em minha coluna na edição de julho da revista Caros Amigos.

Novos caciques
Curumin e Ricon Sapiência provocam a mesmice política da música brasileira atual mostrando que não existe um padrão para o futuro

Há um tempo que venho detectando e relatando aqui nesta coluna, o reencontro da música brasileira com a cultura de protesto, a contracultura, a vanguarda estética e o descontentamento generalizado da sociedade. Qualidades distintas, mas primas, vizinhas e movidas pela mesma motivação, que é próxima do próprio conceito da arte em si, de não manter-se no mesmo lugar, de querer sempre transcender, ir além. A expressão artística em si não limita-se a apenas refletir o indivíduo, a sociedade ou a civilização, mas também a provocar a transformação, a questionar o status quo, buscar expandir a consciência – e com ela, o indíviduo, a sociedade e a civilização.

Tradicionalmente, a música (e a cultura como um todo) brasileira sempre enfrentou a autoridade, a mesmice, a estagnação. Nossa tradição é a do anti-herói, sejam os personagens de Machado de Assis ou do Henfil, o intelectual em conflito ou o político populista do filme Terra em Transe, a golpista e o empresário corrupto de Vale Tudo ou o malandro / bandido e policial corrupto / assassino das letras do samba e do hip hop. O Brasil sempre viveu à margem e sua cultura traduzia isso em forma de confronto – são clássicos os dribles que diferentes compositores deram na censura mais hostil à cultura (a da época da ditadura militar, antes dos anos Fernando). Mas nos anos de ouro da economia nacional do início do século, a música – e, de certa forma, toda a cultura brasileira – passou por um momento de autocelebração e de autocontentamento que inevitavelmente neutralizava o choque e o conflito, criando o tal abismo estético – que é irmão da polarização política – que segue dividindo o Brasil neste novo século. Até o rap, tradicionalmente aguerrido e politizado, começou a falar de amor.

Mas essa década do não-confronto não aconteceu só por conta da boa fase financeira que o Brasil – e o mundo – atravessava. Ela também coincide com o início da era digital para as massas, quando a internet deixa de ser conexão discada e vira banda larga, quando o texto deixa de ser o principal padrão de comunicação para dar espaço para imagens, sons e vídeos, quando a internet sai dos computadores para os telefones celulares e as pessoas passam a se conectar umas às outras através de enormes catálogos humanos online chamados de redes sociais. Este novo cenário começou a ser desenhado pela própria chegada da música na internet. A velocidade de transferência e o formato MP3 fizeram a música ser o boi de piranha da nova mídia e com ela foi descentralizado um mercado que, durante o século vinte, foi lentamente se transformando em um oligopólio. O download ilegal de músicas no início do século fez a indústria fonográfica perder a liderança cultural que um dia teve, passando-a para empresas de tecnologia, notadamente a Apple (mas não dá para excluir a Microsoft, o Last.fm, Google Play, Deezer, Spotify, Podomatic, Trama Virtual e todas iniciativas que ajudaram o público a consumir música sem suporte físico). A mesma década de satisfação política também foi uma década de reinvenção de formatos e uma nova geração de artistas viu-se surgindo entre um mercado que estava desintegrando e um outro que vinha sendo construído de forma incerta. As primeiras gerações da música brasileira no século vinte e um não protestavam porque não queriam – mas fazer música em si já era uma forma de protesto, de sobrevivência em um mercado que não parecia ter solução viável no horizonte para mantê-lo financeiramente.

Isso, contudo, vem mudando. Esta mesma geração é dona de uma nova safra de álbuns lançada nos últimos anos mostra que está botando suas garras de fora – e cobrando uma mudança. Nó na Oreia do Criolo, Fortaleza do Cidadão Instigado, De Baile Solto de Siba, o Violar do Instituto, o Ascensão de Serena Assumpção, o Dancê de Tulipa Ruiz, o Mulher do Fim do Mundo de Elza Soares e Cortes Curtos de Kiko Dinucci são apenas alguns destes discos que aos poucos peitam a mentalidade de shopping center e a produtização que o capitalismo impõe à cultura. Há dezenas de outros, mas faltava uma pressão mais forte, mais direta. E essa pressão começou a ser feita por dois álbuns de 2017, lançados na mesma semana: o Galanga Livre, de Rincon Paciência, e o Boca, de Curumin.

São discos irmãos, paulistanos, mas essencialmente brasileiros, que fogem do cinza da metrópole para abraçar o colorido de todo o país, sem perder os olhos e os ouvidos do resto do mundo. Álbuns que mexem com diferentes estados de espírito e gêneros musicais, pontos de vistas e visões de mundo, temperaturas e pressões distintas para fugir de uma estética única, repetitiva, quadrada. Rincon e Curumin fogem dos padrões, mas, principalmente, do padrão, da âncora mercadológica do sucesso comercial que, quando não dá o prumo, ajuda a afundar.

O multifacetado Galanga Livre parte de uma história fictícia de um escravo que matou o senhor de engenho para entrar num Brasil em constante movimento, intenso e sempre na pressão, mesmo nos momentos mais contemplativos. Rincon produz e rima com características particulares, uma dicção que remete a idiomas africanos, rimas sagazes e manhosas e beats que casam samba com trap, a versão mais recente e eletrônica do hip hop norte-americano. Ele fala sério com um riso no canto da boca, brinca com assuntos sérios, superpõe o épico e o mundano, história e rotina para frisar que os diferentes aspectos de sua musicalidade não são díspares, mas complementares.

Curumin segue um discurso semelhante, mas trabalhando na pós-produção, no improviso, na sonoridade orgânica. Multiinstrumentista, ele lidera sua banda a partir de uma bateria cheia de samples, pedais, teclados. Dispara trechos de música para encaixar em sua própria batida, seja orgânica ou sintética, acompanhado de perto por seus velhos compadres Zé Nigro e Lucas Martins, que também revezam-se nos vocais, guitarra, baixo, efeitos e MPC, lidando com as duas facetas da mesma musicalidade. Seu recém-lançado disco Boca é o ápice deste amálgama musical, misturando cores e sabores para mostrar que a graça é não ter padrão.

Tanto Boca quanto Galanga Livre pressionam ainda mais o dedo na política ao tirá-la das assembleias e congressos e traze-la para a vida real, cotidiana, puxando discussões sociais e culturais que vão além da régua da mera música pop. Ambos abrem o capítulo 2017 da maturidade dessa geração e têm a mesma força que a dupla Tropix (da Céu) e Duas Cidades (do BaianaSystem) pareciam carregar no ano passado.

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O controverso terceiro disco da banda goiana – um dos grandes álbuns de 2017 – vira um LP transparente através do Noize Record Club, que deve chegar aos assinantes na virada deste ano. Mais informações no site do serviço de assinaturas.

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O canal francês 7 Minutes de Réflexion traça paralelos entre a nova temporada de Twin Peaks com Alice no País das Maravilhas, Em Busca do Tempo Perdido, Kiss Me Deadly e Além da Imaginação, entre outras referências.

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Quem acompanha o rap brasileiro sabe que o Coruja BC1 já é um dos principais novos nomes da cena – e seu primeiro disco, que sai nessa sexta-feira, vem consolidar sua chegada. NDDN é sigla para No Dia dos Nossos (ou Nx Dia dxs Nxssxs) e consagra a aproximação do rapper nascido Gustavo em Osasco e que construiu sua reputação em Bauru com o Lab Fantasma dos irmãos Emicida e Fióti. O disco já teve dois singles lançados (a faixa-título e “Jazz Records“) e sua capa, abaixo, é revelada em primeira mão para o Trabalho Sujo.

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BC1 (encurtamento para “buscando o conhecimento em primeiro lugar”) vem traçando sua trajetória em singles, mixtapes e clipes que veio soltando online desde o início da década, mas ganhou moral graças às suas participações nos cyphers, formato que vem se consolidando como uma das principais plataformas de lançamento de novos rappers no país – são rodas de rap em que MCs improvisam seus trechos ao vivo ou em clipes online. Bati um papo com o rapper sobre este novo momento de sua carreira.

2017 está sendo um bom ano para o rap brasileiro?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/coruja-bc1-2017-2017-esta-sendo-um-bom-ano-para-o-rap-brasileiro

Fale sobre o processo de gravação do seu primeiro disco.
https://soundcloud.com/trabalhosujo/coruja-bc1-2017-fale-sobre-o-processo-de-gravacao-do-seu-primeiro-disco

Como foi a aproximação com o Lab Fantasma?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/coruja-bc1-2017-como-foi-a-aproximacao-com-o-lab-fantasma

Os cyphers ajudaram a consolidar sua reputação. Fale sobre esta tendência.
https://soundcloud.com/trabalhosujo/coruja-bc1-2017-os-cyphers-ajudaram-a-consolidar-sua-reputacao-fale-sobre-esta-tendencia

O Brasil está vivendo um de seus piores momentos políticos. Como o rap pode confrontar essa situação?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/coruja-bc1-2017-o-brasil-vive-um-de-seus-piores-momentos-qual-o-papel-do-rap-nesta-situacao

Fale sobre o título do álbum.
https://soundcloud.com/trabalhosujo/coruja-bc1-2017-fale-sobre-o-titulo-do-album

Quais os próximos passos após o lançamento do disco?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/coruja-bc1-2017-quais-os-proximos-passos-apos-o-lancamento-do-disco

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Box com a terceira temporada da série de David Lynch traz mais de seis horas de cenas inéditas do evento do ano – escrevi sobre isso no meu blog no UOL.

A terceira temporada de Twin Peaks chega à mídia física no início de dezembro e depois de ser batizada como Twin Peaks: The Return e Twin Peaks: The Third Season, ela agora recebe o título definitivo de Twin Peaks: A Limited Event Series, que reforça a ideia de que a temporada, na verdade, é um longo filme de dezoito horas. E não bastassem os episódios da série lançada este ano que ultrapassam a duração de toda a filmografia de David Lynch até hoje, o lançamento e DVD trará mais de seis horas de extras – ou mais de sete, na opção em blu-ray.

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São dez curtas de quase meia hora cada um deles, filmados pelo mesmo Jason S. que trabalhou no documentário sobre o diretor David Lynch lançado no início deste ano, chamado David Lynch: A Vida de um Artista. Os extras têm os seguintes títulos e durações:

1) The Man with the Grey Elevated Hair (29:40)
2) Tell it Martin (29:08)
3) Two Blue Balls (24:14)
4) The Number of Completion (29:17)
5) Bad Binoculars (28:08)
6) See You on the Other Side Dear Friend (30:00)
7) Do Not Pick Up Hitchhikers (26:44)
8) A Bloody Finger in Your Mouth (26:49)
9) The Polish Accountant (28:05)
10) A Pot of Boiling Oil (38:32)

Um breve trecho de uma das filmagens já foi antecipado online e mostra um descontraído Lynch dirigindo os atores Kyle MacLachlan e Laura Dern:

São cinco horas de bastidores e cenas inéditas deste que é o principal evento cultural de 2017. Ainda há a íntegra do painel que o elenco participou na Comic Con de San Diego antes do lançamento da série, que contou com a presença de Kyle MacLachlan, Tim Roth, Dana Ashbrook, Kimmy Robertson, Matthew Lillard, Everett McGill, James Marshall, Don Murray e Naomi Watts e a moderação de Damon Lindelof, um dos criadores de Lost. Ainda há o vídeo que David Lynch enviou para o evento, que abriu a mesa de discussão.

Outros extras são itens promocionais que foram usados para antecipar a chegada da nova temporada, como o documentário Twin Peaks: The Phenomenon, produzido pelo canal Showtime, dividido em três partes.

Uma galeria de fotos de bastidores e todos as dezoito variações do logotipo da Rancho Rosa, a produtora responsável pelo seriado. Há também curtas que Lynch produziu antes do lançamento da série, como Piano, Donut, Woods, People, Places, Albert (abaixo) e In – cinema:

Além destes, há mais dois extras que só estarão na versão em blu-ray da temporada, os curtas Behind the Red Curtain (29:17) e I Had Bad Milk in Dehradun (28:11) filmados por Richard Beymer no cenário do Black Lodge, e A Very Lovely Dream: One Week in Twin Peaks (27:09), dirigido por Charles de Lauzirika durante as primeiras semanas de filmagem da nova temporada no estado de Washington em 2015.

São mais de seis horas de extras, um sonho para fãs do seriado e de David Lynch.

Stranger Motown

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O elenco de Stranger Things esteve no programa de James Corden para um tributo à clássica gravadora de soul music – veja lá no meu blog no UOL.

Desde a primeira temporada de Stranger Things sabemos que os garotos que formam o elenco principal da série têm uma surpreendente queda pela música – e o apresentador de TV ingles James Corden, anfitrião do programa norte-americano The Late Late Show na emissora CBS, resolveu pegar carona no talento dos pré-adolescentes e no sucesso da segunda temporada do seriado. Finn Wolfhard (Mike), Gaten Matarazzo (Dustin), Caleb McLaughlin (Lucas) e Noah Schnapp (Will) reúnem-se como um grupo chamado The Upside-Downs em que recriam – com direito a coreografia e tudo mais – clássicos da Motown, a principal gravadora de soul dos Estados Unidos, como “I Want You Back” dos Jackson Five, “My Girl” dos Temptations e “I’ll Be There” dos Four Tops. Assista:

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O produtor e amigo Carlos Eduardo Miranda já tinha cantado a bola sobre o Luneta Mágica, quinteto psicodélico de Manaus, antes de ser chamado pela banda para produzir seu novo material. “O melhor é que eles conhecem muito de música, é impressionante, e não só do tipo de som que eles fazem”, explica o produtor, que assinou o novo single da banda, “Parte”, lançado em primeira mão no Trabalho Sujo. Os vocais em falsete derretidos por sobre camadas de guitarras lisérgicas parece ir atrás da tendência psicodélica inaugurada no Brasil pelos Boogarins, mas a banda vai para além. Formado por Daniel Freire (baixo e vocais), Eron Oliveira (bateria), Pablo Araújo (vocais e guitarra), Victor Neves (synth e programações) e Erick Omena (guitarra), o grupo é uma das bandas brasileiras que irão tocar no próximo Lollapalooza e deve começar a gravar o próximo álbum em 2018.

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Enquanto a Nação Zumbi prepara-se para o lançamento de seu Radiola NZ (o grupo acaba de revelar o primeiro single, uma versão para “Refazenda” de Gilberto Gil), seu guitarrista Lucio Maia começa mais um projeto paralelo, desta vez voltado para a música latino-americana, especificamente caribenha, com referências musicais como Celia Cruz, Tito Puente e Willie Bobo. Lucio Maia começou a rascunhar o Quarteto Los 5 ainda com o baterista Tom Rocha, no Recife, mas o trouxe para São Paulo reunindo um time que conta com Mauricio Fleury (Bixiga 70) nos teclados, Fábio Sá no baixo, Felipe Roseno na percussão e Hugo Carranca (Otto) na bateria. Ainda no início de seus trabalhos, o grupo instrumental faz sua primeira apresentação na quinta-feira da semana que vem, no Sesc 24 de Maio (mais informações aqui). Conversei com o guitarrista sobre os rumos desta nova empreitada, que deve começar as gravações de um primeiro disco no início de 2018.

Como surgiu o Quarteto Los 5?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/lucio-maia-2017-como-surgiu-o-quarteto-los-5

Como chegaram a esse nome?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/lucio-maia-2017-como-chegaram-a-esse-nome

Quais são as referências que vocês trazem para o grupo?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/lucio-maia-2017-quais-sao-as-referencias-que-voces-trazem-para-o-grupo

A ideia é ser um projeto paralelo ou é algo pontual, com duração limitada?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/lucio-maia-2017-a-ideia-e-ser-um-projeto-paralelo-ou-e-algo-pontual-com-duracao-limitada

Vocês têm planos de gravar disco?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/lucio-maia-2017-voces-tem-planos-de-gravar-disco

Como vai ser este primeiro show? Algum convidado?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/lucio-maia-2017-como-vai-ser-este-primeiro-show-algum-convidado

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Duas entidades do novo rap brasileiro se encontram nesta quinta-feira na Sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural São Paulo: de um lado o bardo do rap mineiro que já passou pelo Quinto Andar e Subsolo e agora chega à sua carreira solo, do outro o ótimo grupo instrumental paulistano Projetonave, a banda do Manos e Minas que já acompanhou grandes nomes da black music brasileira. O encontro acontece no lançamento do disco 2 Atos, produzido por Gui Amabis, a partir das 21h (mais informações aqui).