Trabalho Sujo - Home

Loki

Confesso ter ido ao show do Primal Scream nessa terça-feira na Áudio sem muita convicção. Fui mais para saudar o senhor Bobby Gillespie e seu conjunto como uma forma de agradecer por ter feito a trilha sonora de vários momentos foda da minha vida – de paixões arrebatadoras a chapações pesadas, pistas frenéticas, acabação rock’n’roll e estradas intermináveis, a gama de estilos musicais e vibes díspares em que o grupo atua sempre abre espaço para todo tipo de curtição da vida, quase sempre de forma intensa. Autores de discos que carregam eras da história da música em canções quase sempre sobre desafios, revelações e jornadas, já vi shows ensurdecedores ou completamente lisérgicos da banda, mas sua última vinda ao Brasil, em 2018, com integrantes a menos e uma certa má vontade no palco, me fez crer que o grupo havia se tornado uma caricatura de si mesmo que só sobrevivia graças aos sucessos do passado. Não poderia estar mais errado. Logo ao ver a banda completa no palco – com vocalistas de apoio, saxofonista e tudo que tinha direito -, percebi que o show recente foi mais um mau momento da banda do que o início da decadência. Com a casa de shows incrivelmente cheia para uma terça-feira, Gillespie e companhia não tiveram dificuldades em conquistar o público, seja saudando a psicodelia, o rock clássico, o country, a música eletrônica, o rock industrial ou a folk music, mesmo com mais de um terço do show tirado do disco mais recente da banda, Come Ahead, que é apenas OK. Mas mesmo com músicas sem tanta personalidade dos clássicos na primeira parte do show, o grupo conseguiu eletrizar o público, esquentando o clima a cada nova música. Bobby estava visivelmente extático, eletrizando o público na marra, enquanto bradava contra a política estrangeira dos Estados Unidos e do Reino Unido, provocava de sacanagem dizendo que a platéia de Buenos Aires estava mais animada ou dedicando uma canção ao presidente Lula. Mas a partir de “Loaded”, com quase dez minutos, o show foi ficando mais tenso e esfuziante, com “Swastika Eyes” descendo feito uma pedrada, “Movin’ On Up” incendiando a pista de dança e “Country Girl” fazendo todo mundo cantar junto. Veio o bis com a lenta “Damage”, a gospel “Come Together” e a autoexplicativa “Rocks” e parecia que o show havia encerrado com chave de ouro. Mas Bobby mesmo puxou a volta da banda para um novo bis, quando escancararam uma versão destruidora de “No Fun” dos Stooges, mostrando que, como vários de seus contemporâneos dos anos 90, eles já são uma banda de rock clássico. E muito obrigado Bobby Gillespie, você ainda é o cara.

#primalscream #audiosp #trabalhosujo2025shows 258

Chapada adentro

É a segunda vez que Felipe Vaqueiro cutuca sua Saga Diamantina no palco do Centro da Terra. Na primeira vez, em abril do ano passado, essa história, contada ao violão, sobre a vida no garimpo na Chapada Diamantina que também é o projeto de conclusão de curso do compositor baiano no formato audiovisual, foi uma das partes de sua apresentação, que ainda contou com a semente de sua dupla com Sophia Chablau (que deu no ótimo disco Handycam, que os dois lançaram esse ano) e várias outras canções próprias. Dessa vez ele resolveu transformar essa parte no todo, contando com projeções que contavam a história que estava expondo, e, novamente, a participação do percussionista de sua banda Tangolo Mangos – Bruno “Neca” Fechine – como único parceiro instrumentista no palco. Entre canções épicas de natureza sertaneja e histórias contadas que seguia passando em frente como música, ele mostrou que esse trabalho já tem corpo para tornar-se algo autoral em breve, possivelmente um álbum-visual de sua banda. Mas além dessas, ele ainda arriscou canções de outras cepas, como a versão que fez para o hit viral “Young Girl A”, do japonês Siinamota, uma música instrumental de Vítor Araújo que ele colocou letra e “Campo Minado”, do disco com Sophia, que também estava presente, mas dessa vez apenas na plateia. E ele já mandou a letra que quer fazer um show só tocando outros compositores. Vamos falar sobre isso aí…

#felipevaqueironocentrodaterra #felipevaqueiro #centrodaterra #centrodaterra2025 #trabalhosujo2025shows 257

Enorme satisfação de receber nesta terça-feira, no Centro da Terra, mais uma apresentação solo do baiano Felipe Vaqueiro, que desta vez mostra seus Ensaios Diamantinos acompanhado apenas de seu violão. O espetáculo é um mergulho no universo do garimpo da Chapada Diamantina a partir do ponto de vista do ex-garimpeiro Leôncio Pereira, e é o piloto da Saga Diamantina, álbum visual que Vaqueiro irá apresentar com seu grupo Tangolo Mangos, com as conversas com Leôncio funcionando como fio da meada de canções criadas por Felipe. A apresentação também contará com imagens que serão projetadas por Gabriela Cobas. O espetáculo começa pontualmente sempre às 20h e os ingressos estão à venda no site do Centro da Terra.

#felipevaqueironocentrodaterra #felipevaqueiro #centrodaterra #centrodaterra2025

TV Clara Bicho

A sensação indie Clara Bicho vai encerrando um bom 2025 já pensando nos planos pra 2026, mas antes lança mais uma música nova, que vem acompanhada de seu primeiro clipe, que antecipa em primeira mão aqui no Trabalho Sujo. “Confesso que no início fiquei meio perdida porque nunca tinha gravado nada desse tipo, mas a Mariana Barbosa e a equipe da produtora Slimbi foram muito prestativos e me ajudaram a me entender na gravação”, diz a it girl mineira, que surge no clipe fazendo o papel de si mesma dando uma entrevista ao programa que batiza a nova música, “Telejornal Animal”. Assim ela reforça a ideia no título de seu primeiro EP, Cores na TV, da televisão como uma mídia retrô, ultrapassada e, por isso mesmo, digna de ser revisitada. Foi um jeito que ela encontrou de ampliar também seu universo imaginário, essa psicodelia light via Hanna-Barbera que vem estampada em suas ilustrações: “Parece que, nesse clipe, eu tinha entrado na minha cabeça, com meus personagens, cores e cenários vivos”, explica.

Assista abaixo: Continue

Além de falar sobre os shows do Stereolab e do Yo La Tengo também fiz um balanço sobre esta edição do Balaclava Festival em mais uma colaboração para o Toca UOL, quando aproveitei para reforçar que a produtora por trás do evento vive seus melhores dias e está no epicentro do indie brasileiro, seguindo uma tradição que remonta tanto aos primeiros shows de rock alternativo em grandes festivais como Hollywood Rock e Free Jazz quanto às primeiras vindas de artistas internacionais independentes para o Brasil por culpa da Motor Music, ainda nos anos 90. Continue

O Yo La Tengo também fez bonito festival da Balaclava neste domingo, sempre imprevisível, mas sempre com deixando aquelas brechas pro Ira Kaplan desossar a guitarra, como essa versão de quinze minutos de “I Heard You Looking”, que ainda teve o Tim Gane do Stereolab nos teclados. Também escrevi sobre esse show pro Toca UOL. Continue

Quem foi ao festival da Balaclava neste domingo teve o prazer de assistir a uma apresentação mágica do Stereolab, que há 25 anos não tocava no Brasil. Escrevi sobre a apresentação em mais uma colaboração com o Toca UOL. Continue

Big day coming!

Yo La Tengo e Stereolab num mesmo domingo foi um presente que a Balaclava deu aos indies brasileiros que poucos poderiam esperar – e pelas apresentações que os dois grupos já estão fazendo pelo continente vai ser uma noite de chorar. Continue

O superlativo Chaos A.D., clássico do heavy metal mundial feito pela banda brasileira Sepultura, ganha duas novas leituras ao ser revisitado pelos irmãos Cavalera na abertura do show que o Massive Attack faz no Brasil e pelo compadre Vina Castro, que assina o novo volume da coleção Livro do Disco da editora Cobogó sobre essa joia de 1993 do som pesado. Conversei com Vina e com Max Cavalera sobre a importância do álbum em mais uma colaboração que faço para o jornal Valor Econômico. Continue

Avalanche de som

Quando os dois shows do Mogwai no Brasil foram anunciados, eu tive as mesmas certezas – de que o show de São Paulo ia ser frio e distante e o do Rio ia ser quente e intenso. Mas isso não tem nada a ver com público e sim com os ambientes. O primeiro show da banda escocesa este ano no Brasil aconteceu no Parque do Ibirapuera domingo passado. A céu aberto e dentro de um festival não precisa ser muito sagaz para perceber que qualquer show de rock perde o impacto sonoro quando feito ao ar livre e por mais que a organização do evento tivesse a boa vontade de colocar o grupo para tocar no horário do crepúsculo (um por do sol foda seria um bom contraponto para a falta de força sônica), mas mesmo um espetacular ocaso brasiliense (o mais bonito do Brasil, desculpe) não compensaria o ataque brutal aos sentidos que é o espetáculo do grupo (quem foi no Sesc Vila Mariana no começo do século sabe bem do que eu estou falando). E sem contar que o show carioca, além de acontecer num lugar fechado, era no Circo Voador – um dos melhores lugares pra se ver um show de médio porte no Brasil. Passada a bonita e esforçada apresentação paulistana do grupo, saí caçando companhia para me acompanhar num bate-volta pela Dutra e, uma vez que rolou (deu certo, Mariah!), pudemos comprovar a suspeita no anúncio na prática. Além do grupo ter feito um show mais longo (com quarenta minutos a mais e contemplando músicas de vários discos, ao contrário do show de São Paulo, que ficou em só nos quatro álbuns mais recentes e teve apenas uma música do século passado), veio com uma avalanche de som que só quem estava lá sabe da bordoada física, que inevitavelmente embargou os olhos de todos com litros de emoção. O público reduzido também manteve o alto nível da apresentação, que quase sempre contrapunha o volume gigantesco com silêncios delicados, passagens em que ninguém na plateia dava um pio – ao contrário de São Paulo, em que, além dos pássaros e aviões do som ambiente, ainda contava com um público conversador, que esperava o Bloc Party ou o Weezer). Foi o melhor show do Mogwai que já vi na vida e sem dúvida um dos melhores do ano. Nota 10.

#mogwai #circovoador #trabalhosujo2025shows 251