O desdobramento da fase “Baby Pop”, inaugurada com France Gall, fez com que Serge Gainsbourg funcionasse como um cavalo de Tróia sofisticado para o pop descartável francês. À medida em que seus hits ganhavam o topo das paradas na França, artistas diferentes – e de fora de seu país – começavam a lhe pedir canções. E aos poucos ele começa a diluir a trivialidade de suas canções ingênuas de duplo sentido com os trocadilhos sonoros e jogos de cena de suas composições do período adulto. Um bom ensaio para uma aparição que viria a seguir…
Petula Clark – “O O Sheriff”
Dominique Walter – “Les petits boudins”
Dalida & Serge Gainsbourg : “Rues de mon Paris”
Minouche Barelli – “Boum-badaboum”
Serge Gainsbourg & Anna Karina – “Ne dis rien”
Marianne Faithfull – “Hier ou demain”
Françoise Hardy – “Comment Te Dire Adieu”
Danilo avisou: e se os personagens de He Man fosse recriados para o século 21 com o senso de estética atual?
Falando no McCormick, vale rever seu curta The Subconscious Art of Graffiti Removal, em que ele compara o esforço de moradores e donos de estabelecimentos em apagar pichações (grafitti, em inglês, se refere tanto a pichações quanto ao grafitti tradicional – você sabia que essa separação, entre grafitti bom e mau?) a uma variação inconsciente de arte moderna, descendente direta do expressionismo abstrato, construtivismo russo e minimalismo. Genial.
France Gall – “Poupée de cire poupée de son”
A principal guinada na carreira musical de Serge Gainsbourg aconteceu em 1965, depois que ele assumiu que o pop em inglês que vinha dominando as paradas de sucesso de seu país não era seu inimigo e sim seu bilhete para o sucesso nacional. Resolveu que iria entrar de cabeça naquele novo mercado na França e se viu concorrendo no programa Eurovision, o show de calouros europeu que, vez por outra, revela algum talento de fato (como dez anos mais tarde aconteceria com o Abba). Compôs “Poupée de Cire, Poupée de Son” para ser cantada pela adolescente (recém-completos dezoito aninhos) France Gall. A música não só ganhou o concurso como deu início tanto à transformação de Serge Gainsbourg num Phil Spector tarado por meninas mais novas como à parceria de France com Serge, que durou tempo o suficiente para estabelecer a carreira de ambos na França.
France Gall – “Nous ne sommes pas des anges”
France Gall – “Laisse Tomber Les Filles”
France Gall – “Baby Pop”
France Gall – “Teenie Weenie Boppie”
France Gall – “N’écoute pas les idoles”
Desde a faixa campeã, Serge já mostrava que sabia onde estava pisando e que não iria disfarçar – seu título pode ser traduzido tanto como “Boneca de Cera, Boneca de Estopa” quanto como “Boneca de Cera, Boneca de Som”, numa clara referência ao fato do talento da cantora ser manipulado pelo compositor da canção. A partir daí, Serge passa a compor alucinadamente não apenas para France Gall, mas para toda uma geração de jovens intérpretes (de preferência, mulheres; de preferências, bem jovens), criando praticamente seu próprio gênero, o “Baby Pop”. Assim, conseguiu se estabelecer como um popstar em seu país.
Serge Gainsbourg & France Gall- “Pauvre Lola”
Esperto, aos poucos vai se inserindo na paisagem, em duetos que aos poucos vão revelando uma personalidade sendo construída ao vivo. É quando ele, aos poucos, vai deixando de cantar para apenas tornar sua voz mais falada, assume-se como de uma geração mais velha que a de seus ouvintes e faz com que toda ironia discreta de suas letras torne-se explícita.
Serge Gainsbourg & France Gall- “Denis De Lait Denis De Loup” / “Les Sucettes” / “Marilu”
Serge Gainsbourg & France Gall- “Les Sucettes”
O auge da parceria dos dois acontece com a faixa “Les Sucettes” (“Os pirulitos”) cujo hoje óbvio duplo sentido da faixa (açucarado por versos que falam de gostar de sentir o doce escorrendo pela garganta) só foi percebido por France quando a faixa já estava vendendo rios de discos. Os dois romperam a relação por um tempo, mas logo voltaram a trabalhar juntos. Menos, porque à medida em que a década entrava em sua segunda metade, Gainsbourg foi sendo atraído para outros patamares…
France Gall – “Les Sucettes”
Não tente entender.
Danilo quem me arrumou.
O trio australiano, dono de um dos melhores discos de 2007 (o épico retrô Dystopia), aos poucos está voltando à ativa e manda notícias com a primeira faixa de seu próximo álbum, ainda sem título. Apesar do ritmo central martelado pelo baterista Daniel Stricker de “This New Technology” ser tenso – embora mais acelerado – como o do disco de estréia do trio, o vocal do tecladista Vincent Vendetta chega ao refrão cantarolando, longe do clima de alerta e pregação que acompanhava os hits do grupo. Mas tanto na curta introdução, como no refrão (quase) ensolarado e num final bucólico e pastoril, parece que os Juggernauts estão lentamente saindo de sua paisagem sintética e apocalíptica rumo à psicodelia. Será?
Midnight Juggernauts – “This New Technology“
Air – “Sing Sang Sung”
Thom Yorke – “Harrowdown Hill”
Mombojó – “Amigo do Tempo”
Scarlett Johansson & Pete Yorn – “Relator”
Crookers – “Put Your Hands on Me (featuring Kardinal)”
Você acertou: o show da Orquestra apertou o gatilho da obsessão e cá estou em meio de mais uma, dividindo com vocês, como sempre. Sempre acompanhei de perto a obra de Serge Gainsbourg e seus discos sempre apareceram em momentos estranhos ou inusitados – fazendo sentido à própria figura que Serge projetou para a posteridade. Apreciador não-linear, fui montar os pedaços que conhecia da biografia do sujeito graças à biografia escrita por Sylvie Simmons, editada no Brasil pela Barracuda. Um Punhado de Gitanes reconhece, de cara, não ser uma biografia definitiva, mas uma introdução à obra e à vida de uma figura sem par na história do século passado.
Serge era, ao mesmo tempo, o maior sabotador e o grande conservador da cultura francesa, reinventando-a para a era da música pop cantada em inglês. Serge é uma espécie de Bob Dylan influenciado por James Brown, ao piano; ou um Phil Spector que, quando sai dos bastidores, vira um Bowie 100% irônico; os Sex Pistols e Malcolm McLaren na mesma pessoa; um Chico Buarque cafajeste e politicamente incorreto. Qualquer paralelo é falho: Gainsbourg era um provocador profissional e um conservador ferrenho, maníaco por controle e pela própria família, obcecado com a própria imagem à ponto de reinventá-la a cada dois ou três anos. Cantor, compositor, cineasta, fotógrafo, celebridade e diretor de arte da própria vida, ele é o autor da música francesa mais conhecida do mundo (“Je T’Aime… Moi Non Plus”), além de emplacar dezenas de hits nas paradas de sucesso de seu país. Era uma máquina de composição no ritmo da Motown, mas com um requinte essencialmente europeu e, sua maior contribuição lírica, apegado à sonoridade de seu idioma. Misturando o francês com onomatopéias, costurando aliterações e jogos de duplo sentido com o som e o sentido das palavras, as letras de sua música sequer precisam de melodia para tornarem-se canções. Una-as a uma herança musical de berço que deu-lhe a formação mais clássica que um pianista noturno poderia ter, e aí está Serge Gainsbourg, que ainda temperava a própria imagem pública como um sujeito insuportável, um bêbado que não parava de fumar um segundo, sempre cercado de mulheres lindíssimas e metido em polêmicas absurdas. E, mesmo assim, mesmo sendo uma celebridade intragável – uma espécie de Pedro de Lara com estilo -, um ídolo pop para várias gerações e uma persona non grata que ridicularizou até o hino da França num reggae gravado com a dupla Sly & Robbie, Serge é tratado em seu país como uma instituição nacional.
A minha trip pelo sujeito começou com a resenha do show da Orquestra Imperial e seguiu na primeira parte de um especial no Vida Fodona. Como disse no programa, não sei se o próximo VF vai ser dedicado ao sujeito ou intercalo com um programa tradicional, mas certamente a parte 2 vem em seguida. Além dos podcasts, resolvi compartilhar alguns pérolas que me acompanharam nessa viagem, caçadas no YouTube. São seções de vídeos – shows, clipes e programas de TV – que contam as diferentes fases da carreira de Serge. Não vou entrar em muito mais detalhes em sua vida e carreira em texto – vou deixar pra falar disso no Vida Fodona e ligar a TV Serge Gainsbourg por uma semana ou duas (vai saber). E os 4:20 também vão na onda – e serão temáticos sobre a França até essa brincadeira acabar.
E se você não sabe falar francês, não liga. Eu também não sei.




