“Eu não vou sucumbir”, brada a diva Elza Soares em “Libertação”, primeiro single de seu próximo álbum, batizado de Planeta Fome, que reúne três pesos pesados da música baiana: Letieres Leite, Virgínia Rodrigues e BaianaSystem.
A dupla psicodélica chilena The Holydrug Couple apresenta-se nesta quinta-feira, a partir das 21h, no Centro Cultural São Paulo (mais informações aqui) e a abertura fica a cargo da banda Atalhos.
Aproveitando o aniversário de 40 anos de um dos discos mais emblemáticos da história do rock, o grupo inglês The Clash, um dos pilares do punk, tem sua saga revisitada a partir de novembro no Museum of London, na Inglaterra. A exposição The Clash: London Calling leva o nome do clássico álbum pois o utiliza como ponto focal e reúne mais de uma centena de itens relacionados ao grupo, entre equipamentos, peças de roupa, fotos e trechos de filmes, detalhando especificamente o processo de realização do disco – que chegou a se chamar The Ice Age e New Testament.
Entre os itens que estarão à mostra em público pela primeira vez estão as baquetas do baterista Topper Headon, a capa de fita cassete em que o guitarrista Mick Jones definiu a ordem das músicas do disco, a máquina de escrever e o caderno de rascunho de Joe Strummer e os pedaços do baixo que Paul Simonon espatifou no chão em um show em Nova York dois meses antes do lançamento do disco, gesto que rendeu a fotografia imortalizada em sua capa (veja abaixo).

O baixo Fender Precision quebrado no palco por Paul Simonon em Nova York no dia 21 de setembro de 1979 na foto que foi eternizada na capa de London Calling
A exposição será gratuita ao público, abre no dia 15 de novembro e funciona até o meio do semestre que vem (mais informações aqui), coincidindo com o lançamento do livro London Calling Scrapbook, que será lançado pela Sony e reúne fotos e anotações manuscritas da banda sobre o disco histórico lançado no final de 1979.
O produtor e jornalista Alex Antunes comemora seu aniversário de 60 anos nesta quinta-feira, apresentando dois trabalhos de suas bandas, o grupo de improviso MARV e o trio Death Disco Machine, a partir das 21h (mais informações aqui).
Não é o nome da tinta escrito errado de propósito. “É um pássaro da mata Atlântica que sintetiza sons como nenhum outro”, me explica Pedro Bonifrate sobre o projeto que está lançando ao lado de Dinho Almeida. Dois dos principais nomes da psicodelia brasileira neste século, o primeiro liderando o saudoso Supercordas e o segundo à frente dos inquietos Boogarins, eles se juntaram para lançar Guaxe, cujo primeiro single, “Desafio do Guaxe”, está sendo lançado nesta sexta.
“Trombei com o Dinho pela primeira vez no Dia da Música de 2015 em São Paulo”, lembra Pedro. “Fomos apresentados pelo Diogo, que era dos Supercordas e que já andava com eles desde o comecinho da banda. Pouco depois ele levou o Dinho pra dar um pulo em Paraty. Desde essa primeira visita a gente começou a gravar algumas coisas aqui em casa, e continuamos nos anos seguintes em visitas esporádicas, sempre aqui em Paraty. Tínhamos algumas ideias juntos que depois eu ia trabalhando, e com o tempo fomos tendo um conjunto bem legal de canções, bem diversas do ponto de vista da parceria em si – tem canção só do Dinho que eu só gravei e sobrepus arranjos, tem canção basicamente minha que o Dinho complementou com uns versos e umas vozes, e tem a maioria que escrevemos e gravamos juntos mesmo, bem espontaneamente em rompantes de criatividade. O Dinho tem uma forma muito rápida e direta de escrever, o que contrasta com minha lentidão reflexiva, e acho que esse contraste trouxe um dos aspectos mais interessantes desse trabalho.” O primeiro single puxa mais para o cancioneiro supercordiano, principalmente pela temática naturalista, mas as digitais de Dinho podem ser percebidas principalmente no arranjo entrecortado do instrumental. O cruzamento destas duas escolas aproxima ainda mais o universo das duas bandas e ajuda a forjar o que é a psicodelia brasileira contemporânea.
O disco, que leva apenas o nome da banda, deve ser lançado no início de setembro – e até lá eles devem lançar outro single. “A princípio o lance seria um EP, mas como rolou esse interesse da estadunidense Overseas Artists Records de lançar o disco a gente achou melhor expandir e fizemos outras duas faixas em dois dias que acabaram sendo pontos altos do disco, as músicas ‘Onda’ e ‘Avesso'”, completa Bonifrate. A dupla não sabe como o projeto se materializará ao vivo. “Ainda não paramos pra pensar nisso seriamente, já que as agendas andam cheias, mas já apontamos algumas ideias pro futuro próximo e mais pra frente devem rolar umas apresentações sim.”
Abaixo, a capa do disco (que já está em pré-venda) e a ordem das músicas.
“Desafio do Guaxe”
“Pupilxs”
“Rio Abaixo”
“Nilo”
“Onda”
“Avesso”
“Povo Marcado”
Quando o diretor Stanley Nelson começou a escrever o documentário que queria fazer sobre Miles Davis, ele tinha como meta tirar a personalidade junkie e problemática que paira sobre o Picasso da música até hoje para mostrá-lo como um artista completo. E o resultado ele traz neste Miles Davis: Birth of the Cool, que chega aos cinemas norte-americanos neste semestre.
O cantor cearense Jonnata Doll finalmente começa a mostrar o novo disco de sua banda, Os Garotos Solventes, ao lançar o primeiro single, “Trabalho Trabalho Trabalho” em primeira mão no Trabalho Sujo. Batizado de Alienígena, o disco tem produção de Fernando Catatau, que também participa do primeiro single, bem como a cantora Ava Rocha e o trumpetista Guizado.
“O disco nasceu da minha experiência em São Paulo”, conta o cantor e compositor. “Cheguei aqui em 2013 e morei em vários lugares, em situações e pessoas diferentes, tendo uma amostra do que é a vida em São Paulo da perspectiva de alguém pobre, sem grana nenhuma, sem pai, dependendo de favores, amigos e bicos – atualmente eu passeio com cachorros e com um porco, o George. Pretendo até fazer um clipe com o George, se o dono dele deixar”, ri, antes de voltar para o assunto do disco.
“Observei essa onda de extrema direita efervescente aqui em São Paulo, aqueles seres bizarríssimos na Paulista e isso fez de Alienígena o disco mais político da gente”, continua. “Ao contrário dos outros, pude utilizar minha autobiografia como relato, usando o meu eu em relação ao outro, à cidade. Nunca o foco sou eu mesmo, tentei estabelecer esse método beatnik, que o Kerouac e o Burroughs faziam muito bem.” Este método é ilustrado na intervenção que a banda fez no centro de São Paulo para realizar o clipe.
A relação com São Paulo também está expressa ao chamar o guitarrista do Cidadão Instigado para produzir o álbum. “Foi o cara que me trouxe pra São Paulo e é um grande parceiro. Ele influenciou também na sonoridade quanto na composição, falava pra fugir de fórmulas, de repetições, me mostrando como cantar de forma livre, sem pensar numa regra, o que deixou as músicas bem psicodélicas.” A própria sensação expressa no título do disco traça um parentesco direto com o conceito do Cidadão Instigado de Catatau – alguém que se muda do Ceará para tentar a sorte em São Paulo, mas ao chegar em São Paulo sente saudades do Ceará. É como se Fernando estivesse passando este bastão para Jonnata.
“Escolhi ‘Trabalho Trabalho Trabalho’ para começar porque é uma música bem diferente da gente e mostra bem o que é o disco. É uma crônica sobre o trabalhador”, explica o compositor. “O alienígena quando chega de fora vê esse ritmo de São Paulo, a pressa, a indiferença e a liberdade de poder fazer o que quiser sem que as pessoas se importem muito, mas também a solidão.” O disco será lançado pelo selo Risco no próximo dia 21 de agosto.
Imensa satisfação em receber o projeto Vovô Bebê, capitaneado pelo músico, cantor e compositor carioca Pedro Dias Carneiro, que apresenta-se ao lado de Ana Frango Elétrico (vozes e efeitos), Guilherme Lírio (baixo) e Igor Caracas (bateria), além de convidar a mineira Juliana Perdigão, nesta terça-feira no Centro da Terra, às 20h (mais informações aqui). Conversei com ele sobre a apresentação que ele preparou para esta vinda para São Paulo.
“A mistura de música pop com barulho e o jeito esculhambado com que se comportaram ao longo dos anos, de não se levarem muito a sério, o sarcasmo das letras… É a soma quase perfeita de elementos pra construir a imagem e a estética de uma banda de rock. Em uma entrevista à revista Bizz, em 1990, falando sobre o irmão William, o Jim Reid disse algo como ‘ele sabe como tocar guitarra da maneira errada’. E eu acho que o rock, em essência, é exatamente isso, tocar guitarra da maneira errada”.
Assim Filipe Albuquerque, um dos donos da novíssima editora Sapopemba, explica o motivo de escolher Barbed Wire Kisses – A história do Jesus and Mary Chain, da jornalista inglesa Zoë Howe, para inaugurar o catálogo de sua empreitada. Fundada com o sócio Mauro Albano (o nome por trás das clássicas fotonovelas Wagner & Beethoven), a editora surgiu da vontade dos dois de lançarem livros que gostariam de ler. “O nome vem da tentativa de fugir dos nomes em inglês, por ser um nome de um bairro tradicional de São Paulo – nós dois somos paulistanos – que é bastante sonoro e gráfico. A linha editorial é esse universo meio indefinido da cultura pop e do comportamento, em que a música é talvez o principal elemento.”
“Sempre gostei muito de biografias e a do Jesus and Mary Chain era uma que eu sabia que seria das mais legais de se ler. Quando fiquei sabendo do lançamento do livro da Zoë Howe, em 2014, encomendei com uma amiga que estava de viagem aos EUA e, enquanto lia, tive a ideia de tentar comprar os direitos autorais”, lembra Filipe. “Entre pensar nisso e comprar os direitos de fato foram quase três anos. Mas pensei em começar pelo livro por ser um tema familiar, já que eu sempre gostei da banda, desde a primeira vez que ouvi/vi “Just Like Honey”, entre 85, 86, provavelmente no Som Pop, do Kid Vinil. Tenho os discos, fui a dois dos três shows que fizeram em São Paulo – no Terra e no Festival Cultura Inglesa. Achei que conhecer o tema do livro e o universo em que a história da banda se passa ajudaria a errar menos considerando que era algo que a gente estava fazendo pela primeira vez.”
A Sapopemba no entanto faz mistério sobre seus próximos lançamentos. “Há um outro livro já sendo trabalhado, mas sobre esse eu não posso adiantar praticamente nada”, esconde Filipe, não sem antes deixar de dizer que o trabalho mais conhecido de seu sócio deve sair da internet. “Existe a ideia de, no ano que vem, lançar uma coletânea com o melhor de Wagner & Beethoven, e seguir com títulos na área da música e cultura pop. Acho que existe uma trilha boa a seguir por aí.” Barbed Wire Kisses (que já está à venda na Amazon)foi lançado pegando carona na quarta vinda do grupo para o país, no mês passado, e a editora cedeu um trecho de um dos capítulos para publicar no Trabalho Sujo, que conta o momento em que o grupo começa a preocupar a cena inglesa, no histórico e tumultuado show na North London Polytechnic, no dia 15 de março de 1985:
Os ingressos para o show seguinte, no North London Polytechnic, esgotaram-se rapidamente. O show seria no dia 15 de março, o famoso “ides of March” [nos idos de março, no meio do mês], quando o profeta alertou o imperador romano Júlio César para que tomasse cuidado. A situação do Jesus and Mary Chain não foi tão dramática quanto a do imperador Júlio César no “ides of March”, mas foi uma noite e tanto. O número de fãs da banda crescia dia a dia, e naquela noite, quando Neil Taylor entrou no North London Polytechnic, na Holloway Road, o sentimento dominante era, nas palavras dele: “A besta cresceu demais”.
Os companheiros de Creation, Jasmine Minks e Meat Whiplash, abririam o show. Adam Sanderson, líder dos Jasmines, já antecipava os problemas, para grande surpresa da atração principal da noite. Bobby Gillespie contou: “Na passagem de som, o Adam me disse: ‘Olha!’. Ele abriu a mochila e mostrou um martelo. Perguntei: ‘Por que você trouxe isso?’ Ele respondeu: ‘Esta noite vai ter confusão’”.
“Ele morava em um squat em King’s Cross e deve ter ouvido alguma coisa. Ele me disse: ‘Cara, ‘tô pronto para o que der e vier. Se algum filho da puta vier pra cima de mim, estouro a cabeça dele!’ Só pensei: ‘Aí é um pouco demais, que pretensioso’.”
O local já estava lotado, mas, quando o Jesus and Mary Chain definhava no camarim, bebendo com toda a determinação, a porta foi escancarada. “Alguém disse: ‘Tem centenas de pessoas na rua, sem conseguir entrar’”, contou Gillespie. “O Douglas e eu abrimos as portas de emergência pra aquela gente. Foi uma atitude punk: entra todo mundo!”
O Meat Whiplash, garotos de East Kilbride fazendo o primeiro show em Londres, subiu ao palco e foi imediatamente atingido por um míssil. Quando os Jasmine Minks entraram, o vocalista-líder arremessou uma garrafa de vinho no público. “Provavelmente não foi uma boa forma de começar”, observou Neil Taylor.
Quando o Jesus and Mary Chain entrou no palco, a atmosfera já estava bem carregada. Por um momento, o rumor anárquico foi abafado por um som puro, lembrou o engenheiro de som do Mary Chain, David Evans, ex-Biff Bang Pow!: “A intenção da banda não era chamar a atenção do público com aquilo, mas fizeram uma microfonia ensurdecedora, deixando todo mundo num enorme estado de excitação, mas também certa frustração, esperando pela próxima música, como se uma música tivesse começado e sido interrompida, pra começar de novo em seguida. Foi um momento muito especial”. Os fãs ficaram eletrizados com a apresentação no North London Poly. Um deles, perguntado por um jornalista de TV por que gostava do Mary Chain, respondeu simplesmente: “Fazem bastante barulho”.
Bobby Gillespie disse: “Toda noite era diferente, sem roteiro. O William é um guitarrista virtuoso. Eu sempre tinha a guitarra dele no meu retorno. Ele começava com aqueles riffs e ia viajando, e aquilo me inspirava a tocar com mais energia. Eu me guiava por ele, atento ao que ele tocava. E, um dia, o Jim me disse que, quando me via ficando maluco, ficava maluco também”.
“O Bobby era o nosso motor”, disse Jim. “Se eu estivesse pensando: ‘Não estou entendendo como estão as coisas, onde é que isso vai dar?’, era só eu olhar em volta e veria o Bobby com um sorriso radiante na cara. Aí eu pensava: ‘Isso está ficando bom demais’.”
Naquela noite, no North London Poly, o público era uma mistura de devotos do Jesus and Mary Chain, pessoas curiosas com aquele fenômeno e uma significativa parcela de encrenqueiros. “Com certeza”, disse Neil Taylor, “o que aconteceu foi um setlist muito curto, falação exagerada, a bebedeira de sempre, as quedas em cima de tudo, as quedas do palco… Então as pessoas ou quiseram mais ou pensaram ‘O.k., esse é o sinal pra gente começar o bom e velho furdunço e partir pra porrada’.”
Alan McGee e David Evans insistem que, honestamente, não esperavam que as coisas saíssem do controle e ficassem violentas como ficaram. Certamente não pensaram que a própria segurança seria colocada em risco. O equipamento, como geralmente acontecia nos shows do Jesus and Mary Chain, ficou à disposição: chutes nas caixas de som e quebradeira – a diferença é que dessa vez os fãs é que se encarregaram, e não Jim Reid. Dessa vez, isso não fazia parte do show, embora os envolvidos não tivessem dúvida de que fazia parte da energia violenta e do barulho que tinham sido desencadeados pela banda.
Bobby Gillespie viu, com o bom humor de sempre, o recrudescimento do tumulto, que começou antes que a banda deixasse o palco. “As pessoas estavam jogando coisas na gente, e eu joguei os tambores nelas. Não senti medo nenhum. Ei, North London Poly, eu estava adorando aquilo!”
Joe Foster, que era professor do Poly naquele tempo, ficou horrorizado com o que se desenrolava, principalmente quando viu que alguns estudantes corpulentos tinham conseguido puxar Jim do palco. “Foi bizarro, um caos, horrível”, lembrou ele. “Sendo – como eu posso dizer – um idiota, mergulhei no meio do povo e agarrei o Jim. Tentamos voltar pro palco, mas aí um dos estudantes fortões decidiu que devia nos pegar. E nós, tipo: ‘O.k., então você acha que vai nos dar uns belos chutes na bunda com sua perna musculosa de jogador de rúgbi? Não vai, não!’” Joe Foster foi demitido no dia seguinte por causa da ligação com o Jesus and Mary Chain.
McGee também ficou horrorizado com o caos e também não demorou muito para se jogar no meio da briga.
Enquanto mais policiais chegavam, o que serviu para colocar mais lenha na fogueira, a banda escapou para a segurança do camarim e lá ficou escondida, porque uma horda correu atrás dela. “Começaram a bater na porta com extintores de incêndio”, contou Douglas. “Parou de ser engraçado, virou uma brutalidade.”
A lembrança de Bobby Gillespie é um pouco diferente. Ele estava entusiasmado com o perigo que sua presença parecia ter desencadeado. “Quando o McGee veio e disse: ‘Estão tentando entrar no camarim’, eu pensei: ‘Que demais!’ Eu queria mexer com o máximo de pessoas possível. Tinha esperado a vida inteira para estar no olho do furacão, porra!”
Quando a situação se acalmou e o local ficou tranquilo, a banda emergiu para dar uma entrevista, parecendo totalmente calma. Talvez os caras estivessem só disfarçando magistralmente a própria aflição, e isso só podemos cogitar, mas seu jeito blasé certamente foi convincente.
Durante a entrevista, Jim foi categórico ao responder às acusações de que as guitarras estavam desafinadas, explicando que a guitarra de William estava perfeitamente afinada, mas a dele não, porque essa servia “para ser chutada”. Sem evitar alguns palavrões, Douglas respondeu suavemente à inevitável pergunta sobre seu baixo Gibson de duas cordas, explicando ao jornalista que aquelas eram as únicas duas cordas que usava, então por que se incomodaria em comprar as outras duas? Jim acrescentou que “o cara ficaria atrapalhado se tivesse que lidar com mais cordas”. O jornalista perguntou como eles se sentiam ao serem descritos, muitas vezes, como a melhor e a pior banda do hemisfério ocidental. Depois de uma pausa contemplativa, William respondeu: “Minha cor favorita é dourada”. Para um grupo de jovens supostamente sociopatas, sabiam dar boas declarações.
“Assisti a algumas dessas gravações recentemente”, disse Gillespie. “Só estávamos tentando parecer cool. No fim, estou sentado no palco e digo: ‘Só quero que as pessoas escutem a música. Ouça a si mesmo! Quem você pensa que é?’ Não parecemos muito assustados naquela filmagem, não é? Estamos é muito arrogantes.”
Enquanto a entrevista rolava, Neil Taylor já estava no telefone com a NME, e a lenda do show do North London Poly já estava sacramentada. “Acho que faltavam uns dois dias pra imprimir, mas derrubaram qualquer que fosse a matéria que ia na página três e colocaram essa. Sempre fico irritado quando me lembro disso, porque o subeditor fez a seguinte chamada: ‘Tumulto Jesus and Mary Chain’. Eu não disse que tinha sido um tumulto, ainda que tenha sido quase isso. Houve cenas violentas. Aí a banda saiu dizendo ‘Não foi um tumulto, foi aquele cara da NME que disse isso’ ou alguma coisa assim, e é por isso que sempre volto a falar nesse assunto.”
William insiste que nunca houve nenhum “tumulto” de verdade, apenas “um palhaço, que pensou que era o Rambo, sapateando na mesa de som”. Ainda assim, não importa o quanto minimizassem, a quantidade crescente de confusões em seus shows estava se tornando uma preocupação, não apenas do ponto de vista da segurança pessoal, mas porque violência significava o oposto do que o Jesus and Mary Chain realmente era. “Odeio isso”, disse William na época. “Estamos tentando nos mostrar como uma banda séria, e não um tipo de banda Oi!, como o Cockney Rejects.”
No dia seguinte ao fiasco no North London Poly, McGee e a banda foram para a Alemanha, para uma apresentação na TV. “Foi tudo bem, um pouco de paz”, disse McGee. Naturalmente, a imprensa já queria informações sobre as loucuras da noite anterior, mas McGee colocou seus verdadeiros sentimentos de lado, em uma tentativa de dar uma declaração fria e ao estilo Malcolm McLaren: “O público não destruiu o local, destruiu a música pop… Foi realmente arte usada como terrorismo”. Os Situacionistas teriam adorado.
“Na verdade, não foi uma boa declaração”, disse ele na entrevista para esta biografia. “Ficou meio esquisita e, depois daquele ponto, ficou parecendo ingênua. Eu achava que todo mundo percebia que a gente estava brincando, mas de repente as pessoas estavam destruindo coisas e não tinha mais graça. Ainda que a maior parte fosse nossa responsabilidade, quer dizer, a ‘arte como terrorismo’ etc., a verdade é que acabamos ficando: ‘Que porra está acontecendo aqui?’”
Psicodelia e rock progressivo se encontram neste domingo, às 18h, no Centro Cultural São Paulo, quando as bandas Applegate e Monstro Amigo apresentam a sexta noite do Centro do Rock 2019 (mais informações aqui).
















