O músico e produtor paulista Pipo Pegoraro começou o ano lançando seu ótimo Antropocósmico, disco de jazz funk instrumental que passeia pela música eletrônica, o pop do inicio dos anos 80 e pelo trip hop em uma viagem pesada ao lado do baterista Daniel Pinheiro, do trombonista Victor Fão e do percussionista Ricardo Braga. Pilotando sintetizadores e baixo, o músico e produtor lança o primeiro clipe deste trabalho em primeira mão no Trabalho Sujo, uma versão visual para a faixa-título em que o animador Vital Pasquale transformou o groove repetitivo da faixa em uma jornada retrô e psicodélica, misturando o espaço sideral, a geometria e o corpo humano como elementos de uma viagem intergalática – para dentro.
O mexicano Alan Palomo, o nome por trás do Neon Indian, encontrou uma forma bondosa de prestar seu débito à italo house ao ser convidado para fazer um set para o festival italiano Ortigia Sound System. Dedicou sua hora de mixagem a esse delicioso subgênero da disco music que caminha entre o épico e o cafona, o romântico e o robótico e decidiu que os fundos arrecadados com esta colaboração iriam para ajudar às vítimas do coronavírus na região do festival, em Siracusa. E ele viaja bonito, mostrando uma faceta desconhecida para seus fãs.
Risque – “Starlight”
Spanish Crash – “Life is Now Pt. 2”
Gang – “KKK (Club Mix)”
Mito – “Unit (Incl. Toccata E Fuga in Re Minore)”
Radiators – “I am Sure”
Gaznevada – “Special Agent Man (Female Version)”
B.W.H. – “Stop”
Talko – “The Hustle (Instrumental)”
Silvie Stone – “Charming Prince ”
The Creatures – “Machine’s Drama”
S.C.O.R.T.A. – “Pertini Dance (1984 Italo Mustache Edit)”
M-Basic – “OK Run”
La Bionda – “I Wanna Be Your Lover”
Evo – “Din Don”
Domina – “You’ve Got my Soul”
Frank Tavaglione – “Tumidanda (Italian Diversion)”
Lowell – “No Matter”
Maurice Mcgee – “Do I Do (Edit)”
Peter Richard – “Marlene”
Clio – “Faces”
Fabio Xeno – “It’s Droad Day Light”
Plustwo – “Melody”
Patrizia Pellegrino – “Il Mondo Di Una Nuovola”
Videoclub – “Lost Time”
The Immortals – “Ultimate Warlord”
Casco – “Cybernetic Love”
O guitarrista do Sonic Youth, Thurston Moore, aproveitou o período estranho da pandemia e quarentena para desenterrar uma música antiga e inédita do grupo Chelsea Light Moving, que inventou com os músicos que o acompanham em sua carreira solo, Keith Wood na guitarra, Samara Lubelski no baixo e John Moloney na bateria. A música “Sunday Stage” é de 2014 e a foto de divulgação, com a banda usando máscaras, foi tirada quando o grupo tocou no Japão. O resultado é o bom e velho noise melódico que esperamos de Thurston.
O grupo também lançou a brusca faixa “No Go”, esta gravada em 2013.
Mais que o pulmão do Metá Metá, Thiago França está intimamente ligado ao sistema circulatório da música em São Paulo, seja capitaneando sua Espetacular Charanga ou tocando com gente de todas as vertentes musicais, do improviso livre ao choro, da gafieira ao free jazz, da marchinha de carnaval ao rap, do samba rock à música de terreiro. Mestre do sopro, interliga saxes, flauta e pedais para criar climas tensos, atmosferas bucólicas, melodias familiares, ataques frontais, mas pôs-se ao desafio de torear seu próprio instrumento num disco dedicado apenas a ele, gravado todo em takes únicos e sem outros instrumentos ou efeitos de pós-produção.
O resultado é Kd Vcs, um disco que soa ao mesmo tempo ermo e populoso, contemplativo e agressivo, abstrato e pé no chão. Embora o lançamento do disco em abril já estivesse na agenda de Thiago desde o final do ano passado, o disco afina em vários níveis com a estranha sensação que estamos passando nestes dias de isolamento social. E não é apenas o título que remete a esta sensação solitária, pela extensão de menos de meia hora das sete canções, o instrumentista nos conduz a uma paisagem alienígena para que possamos olhar para dentro e nos reconhecer, como se o Doutor Manhattan de Watchmen pudesse levar cada um de nós para Marte e poder ver o que estamos fazendo com nosso planeta – e, portanto, com nós mesmos. Dá para ouvir ecos de samba, jazz e funk na forma que o saxofonista conduz seu timbre, mas ele abandona rótulos e sensações reconhecíveis numa queda livre em que, várias vezes, perdemos a noção da gravidade. Sem noção de onde é o chão, estamos soltos no espaço profundo explorado por Sun Ra, mas sem nenhum planeta nem a nave-mãe de George Clinton no horizonte, e a flutuação torna-se voo com o norte magnético apontado para o free jazz espiritual. Inspirado no livro Cujo, de Nuno Ramos (que também é autor da imagem da capa do disco), Kd Vcs é um mergulho pra cima em uma densidade desconhecida. O disco pode ser baixado no site do Thiago e eu conversei com ele por email sobre este gesto solitário.
Quando você percebeu que tinha de registrar este momento com seu instrumento e que teria que fazer isso sem outros músicos?
A vontade de ter um formato solo sempre me instigou, pelo quão inusual é prum saxofone, mas não queria que fosse algo só por fazer. Por volta de 2016 eu comecei a fazer as primeiras experiências, ainda como “ato de abertura” de algum show meu com banda. No começo era mais improvisação livre e algumas músicas já do meu repertório, e de cara eu senti que o mais interessante seria compor especificamente pra esse formato, um repertório pra existir assim, que fosse só o saxofone e não ficasse faltando nada, achei um bom desafio. Eliminei também os pedais porque saquei que seria um lance óbvio demais porque eu acabaria por emular a função dos outros instrumentos criando harmonias, padrões rítmicos, etc, e fui me envolvendo cada vez mais com a idéia de estar “nu” no palco. do No final de 2018, senti que tinha chegado nas músicas com o propósito que eu queria, fiz mais alguns shows no começo do ano seguinte e em setembro de 2019 (dia 10) gravei o disco. Mas a primeira centelha de fazer um disco mesmo foi quando eu gravei um solo de tenor na trilha do “Gira”, espetáculo do Grupo Corpo que o Metá fez a trilha.
O disco tem alguma inspiração direta, um disco em que também traga apenas um músico e seu instrumento?
Tem um saxofonista fodão chamado Collin Stetson, que toca sax baixo (que é mais grave ainda que o barítono), e com certeza vai rolar essa associação. Mas o lance do Collin é mais “completão”, ele usa mais camadas, ele canta as notas com a garganta enquanto toca, ele microfona o pescoço, as chaves do instrumento, então você ouve vários sons, tem hora que parece que tem percussão junto. Uma das músicas do meu disco, “Tarrasque”, foi bem inspirada nesses sons do Collin, onde eu também uso esse recurso de cantar com a garganta. Mas fora isso, muita coisa me instigou durante a vida toda. Há uns vinte anos atrás eu ia muito nos shows do Nenê (baterista) e achava incrível quando ele fazia os solos, dum jeito super melódico, uns momentos grandes durante o show. O próprio Hermeto tem sempre uns momentos que fica só ele. Ou mesmo que não fosse uma música inteira só uma pessoa, mas um trecho que tá só um cara tocando, fosse o Roscoe Mitchell, Pharoah Sanders, Eric Dolphy ou o Mingus…
Fale da influência do Nuno Ramos no disco, da capa ao livro Cujo.
Bom, foram uns anos até resolver o repertório, e depois que as músicas estavam todas compostas, os shows já tavam rolando no formato que seria o disco, obviamente me bateu uma nóia: legal, é um disco de saxofone solo, mas porra! é um disco de saxofone solo! eu comecei a achar chato, repetitivo, porque é só o saxofone, é só aquele mesmo som. Tudo bem, tem seus momentos distintos, mas no fim das contas, é só saxofone. E eu lembrei duma passagem do livro do Nuno onde ele descreve os materiais, pedra, argila, terra, e ele diz que dentro da pedra só tem pedra, dentro da terra, por mais que ele cave, só tem terra. A princípio me pareceu monótono, mas depois eu comecei a entender de outra forma, das coisas que são rigorosamente o que são, da beleza e do poder de sustentar uma idéia como profissão de fé, o comprometimento ritualístico com a essência das coisas – a pedra é pedra até o último grão. O mar vai ser sempre o mar e vai estar onde sempre esteve, é maravilhosamente acalentadora essa idéia, essa verdade, que o mar é mar até a última gota, é um porto seguro do nosso imaginário, do nosso sagrado. Num momento onde o mundo está a mentira é uma tática de guerra aceitável (fake news), acho muito essa imagem muito forte. O sax tenor é o meu porto seguro, é o meu “voltar pra casa”. E depois desse giro enorme, fui entrando em paz com a idéia materializar o disco. O nome vem de um disco do saxofonista Peter Brotzman, que em português é: “Eu estou aqui, aonde estão vocês?” e eu realmente “estou aqui”, o disco é um apanhado de idéias de quase 30 anos de saxofone, estou nu, meio que contando aqueles pensamentos mais malucos que a gente só abre quando tá meio bêbado pra quem a gente confia muito.
O disco está muito ligado ao conceito de respiração circular, quando você aprendeu essa técnica e como começou a usá-la?
Em 2001 eu tava na faculdade de música da UFMG – que eu larguei no começo – e o professor de saxofone, Dilson Florêncio, é um verdadeiro monstro, seguramente o saxofonista mais técnico que eu conheço no mundo, nunca ouvi ninguém tocando com a perfeição e excelência dele. E um dos folclores que circulavam na época é que ele tocava o Moto Perpétuo, do Paganinni no sax, originalmente um concerto pra violino que não tem pausa, e o Dilson tocava com respiração circular. E tocava mesmo, eu assisti isso ao vivo, umas das coisas mais impressionantes que eu vi na vida. Então tinha esse dado aí. Ele me explicou como fazia e é uma mecânica bem simples, só leva tempo pra limpar e fazer direitinho. O lance mesmo era o que fazer com isso. O saxofone é um instrumento melódico, é como se imitasse a voz. Imagina conversar com alguém que não para de falar nem pra respirar? Fui começando aos poucos, usando em alguns choros que tinham frases muito longas, só como um auxílio. Tentei tocar alguns choros usando a respiração na música inteira, tipo o “Voo da Mosca” do Jacob do Bandolim, mas no fim das contas ficava chato, me sentia mais executando um truque de mágica do que uma música, um virtuosismo barato. Também usei muito nos arranjos do Metá também, porque eu precisava soprar forte pra equiparar o som da guitarra e do baixo e acabava faltando ar, fui usando só pra completar as idéias. Mas foram quase vinte anos até chegar nessas sete músicas do disco e usar essa técnica aonde realmente tinha um propósito, incorporando a respiração como parte das composições.
Você antecipou o lançamento do disco por conta da pandemia? Como fará para trabalhar este disco nesta época nesta época estranha?
Pior que não. Eu tinha na cabeça que lançaria o disco em abril mesmo, quando baixasse a poeira do carnaval – o disco tá pronto desde novembro, com capa e tudo. O que eu não sabia mesmo era como trabalhar, porque é um show de 25 minutos, eu não seguro uma noite sozinho, sempre que eu faço divido a noite com alguém, e esse formato não-ortodoxo significa procurar lugares fora do roteiro convencional de shows. Tudo bem que é um disco super introspectivo, pra ouvir sozinho em casa mesmo, mas não precisa duma quarentena dessa pra isso, né? Daí quando começou o isolamento eu até pensei em não lançar, pra não ficar parecendo oportunismo nem entrar nessa paranóia de “quarentena de alta performance” que todo mundo se cobra de produzir, fazer mil coisas. Mas depois desencanei, porque convenhamos, mercadologicamente falando nunca é um momento propício pra se lançar um disco esquisito de saxofone solo.
“Aguiã, Alufã”
“Ngoloxi”
“Dongô”
“Pescoço Curto”
“Tarrasque”
“Maercúria”
“Dentro da Pedra”
Quando a YB perdeu sua clássica sede na Vila Madalena, em São Paulo, um de seus sócios, o músico, produtor e compositor Maurício Tagliari deu a sorte de encontrar uma outra casa prontinha pra receber um estúdio de gravação no bairro de Higienópolis. Depois de transferir o equipamento para o novo imóvel, era hora de testar a acústica do local e no final do ano passado, Tagliari convidou alguns amigos para sessões de improviso no novo endereço. “Na sessão número 1 eu queria ouvir o resultado dos timbres de bateria e sopro, por isso reservei uma tarde e chamei o Thomas Garres e o Guizado. Chamei mais gente, mas como era final de ano, muita gente não podia. E eu não pensava em lotar a sala, até para entender melhor a acústica. O propósito era meramente técnico, mas com esses parceiros a probabilidade de sair algo muito bom era altíssima”, conta o guitarrista, que além de Harres e Guizado, também convidou o baixista pernambucano Pedro Dantas. Gravaram duas sessões com o nome de Tanino, trabalho que vem a público na próxima sexta. Uma destas, “Romã”, você ouve em primeira mão no Trabalho Sujo.
Não hove planejamento nem regras pré-estabelecidas. “Foi passar o som e gravar. O que acontece é que houve uma confluência enorme de referências e uma capacidade de audição de cada um que foi bem mágica”, continua Maurício. “Você percebe que não tem ego, as notas vêm e vão, os timbres dialogam. um inspira o outro. E o Thomas é o grande motor da dinâmica. Eu me concentrei em timbres, o Pedro acha as pulsações escondidas e o Guizado borda as melodias. Tudo muito intuitivo.”
Comento que há uma tendência recente a se registrar em discos sessões de improviso, algo que, mesmo em pequena escala, tem tornado-se comum em São Paulo. “É um tipo de música para poucos. infelizmente. só tem rolado em espaços pequenos e alternativos. Fora disso não vejo muita gente aqui no Brasil apostando nisso. No Centro da Terra, no Leviatã, Estúdio Bixiga e um poucos em outros lugares, os malucos se encontram. Mas é algo restrito. Pra mim é mais um exercício estético do que uma onda. Cresci musicalmente ouvindo free jazz. mas tem um ponto: improvisação muitas vezes é um enorme prazer para quem toca mas nem sempre para quem ouve! há vários tipos de som que podem entrar nessa categoria. Sou muito influenciado por Miles Davis e Art Ensemble of Chicago. Toquei e produzi muita coisa na vida, mas só de uns tempos para cá tenho projetos de improvisação lançados. Já tinha feito isso na Universal Mauricio Orchestra e mais recentemente no projeto Dúvidas da Juliana Perdigão. Eu gosto muito do resultado, queria que essa onda chegasse em mais gente. Mas somos os mais underground dos independentes.”
O trabalho são apenas duas músicas, “Romã”, de oito minutos, e “Cravo”, com dezesseis. “Não gastamos mais do que duas horas no estúdio, entramos para brincar. Passamos o som, gravamos a primeira, fomos ouvir e gravamos a segunda. Dali foi sair para comemorar o resultado. Inicialmente era só um teste mas gostamos tanto que decidimos lançar.” E agora fica a dúvida sobre o futuro próximo do grupo, que ainda não tocou ao vivo com público. “Um pouco antes da pandemia atacar a gente se reuniu para uma sessão de fotos de divulgação e decidiu que iria tentar uma residência semanal em algum lugar. Pelo simples prazer de tocar. Mas agora tudo parou, vamos nos contentar em ouvir o disco, por enquanto. É um som muito orgânico. Não dá vontade, ao menos para mim, de tentar algo online ou seja la o que for. tem que ser olho no olho.”
O rapper baiano Baco Exu do Blues pegou todo mundo de surpresa ao adiar o álbum que lançaria este ano para antecipar um disco-relâmpago, Não Tem Bacanal na Quarentena, gravado há poucos dias. O disco é curto e funciona também como uma vitrine para os MCs do selo de Baco, 999 – mas o foco está todo nele, que fala da epidemia e da quarentena (“Tudo Vai Dar Certo”), das dores do autoconfinamento (“Preso em Casa Cheio de Tesão”), apoia o jogador Babu na atual edição do Big Brother (“Tropa do Babu”) e dispara contra Jair Bolsonaro ao som das panelas (“Amo Cardi B e odeio o Bozo”). Mas não o disco que ele me mostrou no final do ano passado que, pelo jeito, deve se chamar Bacanal mesmo.
Engrossando o coro para manter todo mundo em casa, o grupo nova-iorquino Sonic Youth começou a abrir seu baú de shows ao vivo e vem desovando discos piratas de apresentações de toda a história da banda em seu Bandcamp, em todos os lugares do mundo: do CBGB’s em Nova York a Moscou, passando por Paris, Berlim, Glasgow e Moscou. O grupo já liberou 15 shows de todas as fases da banda – o mais antigo até agora é de 1983 e o mais novo de 2009. Clássico!
Depois de lançar 2017-2019, um abalo sísmico em forma de disco, no início deste ano com o pseudônimo Against All Logic no início do ano, o produtor americano-chileno Nicolas Jaar lança mais um disco em 2020 – o primeiro disco com seu nome de batismo desde Sirens, um dos melhores discos da década, lançado em 2016. Mas Cenizas – “cinzas”, em espanhol – é um mergulho para dentro em que o produtor deixa toda a expansão rítmica de lado e nos convida para uma viagem erma e distópica, como se antevesse os dramas da atual quarentena ao nos confinar solitários em nossas casas – e nossos corpos. O próprio confinamento foi ponto de partida do disco, este voluntário, quando Jaar se isolou sem álcool, cigarros e café para parir o disco sem outros estímulos a não ser os seus próprios. O resultado é um disco denso e delicado, uma esfinge sem olhos que nos persegue pelo tato, empilhando ralas camadas de um jazz alienígena, estranhamente familiar, compostos por temas ocos e secos, mas fortes e intensos e que conversa com seu primeiro disco desde o título daquele álbum, Space Is Only Noise. Impaciente e incrédulo, é o segundo grande disco que Jaar produz no mesmo ano, exibindo sua maestria em ambos extremos de uma pista de dança futurista e sem esperanças.
Lembro de Letícia descrevendo coincidências em um post no Instagram de menos de um mês atrás, quando comentou como sua leitura de Os Ossos dos Mortos, de Olga Tocarkzuk, batia com seus hábitos durante a leitura – até mesmo a presença de um bissexto 29 de fevereiro, data da publicação. Ela ainda não tinha revelada nenhum segundo de seu segundo disco, Letrux Aos Prantos, mas no fim do ano passado, encerrando os trabalhos de seu ótimo Em Noite de Climão, mostrou uma das músicas, “Salve Poseidon”, em apresentação no Cine Joia (filmei, veja lá).
Justo uma música em que ele fala sobre coincidências: “Eu queria estar lá na hora que a Shakira disse que nasceu dia 2 de fevereiro e o marido disse ‘eu também’, eu queria estar em todas as coincidências do mundo. Porque é onde todo mundo está um pouco mais místico. Na hora das coincidências todas as pessoas estão mais conectadas, com uma excitação disso aqui não ser só isso aqui. Eu choro com as coincidências. Eu quero estar em todas as coincidências.”
Mal sabia que a coincidência do lançamento de seu disco em uma sexta-feira 13 também coincidia com a tomada de consciência de que o coronavírus no Brasil era uma realidade, inciando o período de autoquarentena da população brasileira – e cancelando todos os compromissos em público, inclusive os shows de lançamento de seu disco. Letrux aos Prantos, seu segundo álbum, é um disco classudo e sisudo, sofisticado e delicado como poucos discos de música pop brasileira – mas sem perder o humor e o escracho característicos da cantora e compositora carioca, que vêm aqui de forma sutil. Letícia topou dissecar o álbum faixa a faixa aqui no Trabalho Sujo. Aperte o play e venha com a gente.
“Deja Vu Frenesi”
“Letrux aos Prantos começa com a faixa ‘Deja Vu Frenesi’. Eu sempre quis ir para a Grécia, desde que eu era criança eu tinha essa obsessão grega, com tudo: teatro, filosofia e praias, por que não? No ano passado eu realizei esse sonho e é um pouco absurdo realizar sonhos porque você acha que vai ficar assim, plena e, foi uma viagem muito louca. Passei por situações muito loucas e um belo dia, eu estava numa ilhazinha chamada Milos, que é onde encontraram a estátua Vênus de Milo, e eu entrei dentro d’água e a música veio. Eu comecei a cantar, me baixou um ‘Deja Vu Frenesi’. Acho que me deu uma sensação de déjà vu, de ter estado ali antes. Eu tenho muito disso, inclusive. Mistérios. Eu parecia uma maluca me mexendo na água, sem parar e eu não saí da água enquanto ia compondo, em algum momento eu saí correndo, peguei o celular cantarolando “todo corpo tem água”, e gravei ali pra não esquecer. É uma música que eu acho que abre bem os trabalhos do disco. Ela dita um lugar, um estado, uma dinâmica para se estar. E viver é um frenesi. Ainda não sei o que pensar de todos os déjà vus que eu tenho, mas não tenho medo deles, nem fico “ai que estranho”. Eu meio que encaro esses déjà vus e fico tentando achar significados e símbolos para toda essa loucura.”
“Dorme com Essa”
“Essa é a primeira música que a banda pegou dessa segunda fase. A gente tava fazendo show no Espírito Santo e a gente tinha horas sem passagem de som, sem show – e, tempo é uma coisa escassa no nosso dia a dia, então eu falei ‘vamo para o estúdio, vamo se embrenhar!’. E essa é uma composição minha de um tempo já, de um momento meio de quando você entra na banheira e fala ‘aaaarrrgh!’ e aí veio essa música. E foi a primeira música que a banda, depois de dois anos e meio de Em Noite de Climão, que a gente se olhou e falou ‘uau, isso está acontecendo, há uma nova canção surgindo!’. Então é uma música que eu tenho muito carinho por ser esse nosso reencontro com canções inéditas. É uma música gostosa, triste, o tipo de música que eu gosto. Gostosa e triste.”
“Fora da Foda” (com participação especial de Luisa LoveFoxx)
“É uma música super colaborativa. Eu virei pro baterista, que é o Lourenço Vasconcellos, e o baixista Thiago Rebelo e perguntei: ‘cês não tem uma música aí não?’. E eles falaram que tinham e me mandaram as duas. E eu ficava ouvindo a música do Rebelo e a do Lourenço, e é tão louco, baixo e bateria andam sempre tão unidos, a cozinha da banda, que a música deles dialogava. Aí falei, ‘ó, juntei a sua parte, com a sua parte, fiz aqui um negócio’. Chamei o Arthur Baganti, que é o tecladista e um dos produtores do disco, e a gente elaborou ali uma letra sobre uma pessoa que tá de fora da foda, de uma pessoa que não participou de uma suruba, de uma situação sexual maravilhosa, mas que ficou de fora, tadinha. Eu sou muito fã de Cansei de Ser Sexy, amo a Luisa LoveFoxx, e aí na volta que elas fizeram no Popload, eu vi e pensei ‘por que não?’. Convidei a Luisa e ela topou, disse ‘lógico, eu amo você, amo o Climão’, o que foi uma honra para mim, porque eu admiro muito ela, ela artista, ela ser humano e a vozinha dela no disco, é assim, a cereja de todos os bolos possíveis! É música para ser despretensiosa, maluca, leve, astral e eu acho que esse feat trouxe tudo isso.”
“Eu Estou aos Prantos”
“Essa música nasceu no avião. Eu sou uma pessoa terra, terra, terra, então eu acho que voar é uma coisa que eu ainda não compreendo. Tô melhorando, tô voando tanto que preciso melhorar. E em algum voo, eu tava sozinha, não tava voando com a banda, tava indo fazer uma participação sozinha, e eu tava com muito, muito, muito medo. Irracional, como todos os medos são. Mas eu tava muito mal, a mão suando, taquicardia, que eu pensei ‘não dá pra viver assim, não dá’. E eu peguei meu caderninho e pensei ‘tô com tanto medo, que eu preciso fazer alguma coisa com esse medo’. Eu sou muito de transformar, eu sinto as coisas e transformo em poesia, eu não consigo ficar com as coisas muito assim, só sentindo. Eu preciso transformar. E eu tava com tanto medo, tanto medo, que eu decidi fazer uma música. E aí veio essa música e todas essas questões que eu tô vivendo: será que dá para ter um filho, será que dá pra ter um carro, será que é débito ou crédito. E há uns três anos, quem não está aos prantos? Acho que essa pergunta no final, ‘eu estou aos prantos, quem não?’, é uma indagação que eu acho que tá todo mundo se fazendo e sentindo. Então, se você tem medo de avião, faça uma música.”
“Contanto Até Que”
“Eu tenho uma grande amiga, uma das minhas melhores amigas, se chama Keli Freitas, uma dramaturga, atriz, escritora maravilhosa. E ela acha que eu falo muitas expressões idosas. Eu falo ‘ao passo que’, ‘contanto, até que’. E eu falei um dia ‘Kelly, a gente tem que fazer uma música’. E ela falou ‘tem, mas tem que ter todas essas expressões malucas que você usa’. E tem uma música, um pedaço de uma música que eu tentei escrever com a Duda Braque, que é uma compositora também, que ela falava ‘eu vim para botar fogo no teu quarto, eu vim pra botar fogo no teu bairro’, mas a gente acabou não dando continuidade. E eu comecei a fazer essa música com a Kelly e falei isso junta com aquilo, perguntei pra Duda se era tranquilo usar, ela topou e a gente começou a fazer uma grande suruba musical maluca. Acho que é a música mais rock’ n’ roll no disco. Foi um dia de gravação bem forte, com muito sangue no olho e é uma música com muito sangue no olho, que fala de questões amorosas muito conturbadas, meio com muito fogo. E fogo é um elemento da natureza maravilhoso, mas excesso de fogo é a morte de tudo, da floresta, do museu, da catedral. O fogo também assassina. Então, como dosar o fogo? É uma música que fala como é difícil dosar o fogo.”
“Ver Gente – Vai Brotar?”
“Essa canção é uma grande loucura. Há uns anos, eu e uns amigos, quando alguém saia muito esquisito na foto, gente ficava brincando ‘com quem tá a cigana?’ – que absurdo!, porque sempre tinha um amigo meio esquisito e ficava meio ‘a cigana encostou aqui!’ e riiiia, quá quá quá… E a gente até brincava de fazer um programa de TV meio ‘estamos aqui na festa e vamos ver com quem está a cigana’ e passava mal de rir. Amigos e amigas, por falta do que fazer, inventando mundos e fundos – e viva a isso, né? E isso ficou na minha cabeça, e um dia, eu fiquei pensando como o mundo anda cada vez mais cínico e debochado – e tudo bem. Mas como a gente não pode deixar só isso assumir, o meme, o deboche. Eu amo tudo isso, mas também amo ficar espiritualizada, amo ser uma pessoa emotiva, então acho que é uma canção que fala sobre isso. E aí fiz com o Arthur Braganti e no final, a gente ficou pensando em um monte de ditados da língua portuguesa, e nós somos dois apaixonados pela língua portuguesa e a gente pirando em ‘quem não chora, não canta’, ao invés de ‘quem não chora, não mama’, então foi uma tarde de muita criatividade quando a gente compôs. E é uma música que no estúdio, tanto gravando, quanto ensaiando, a banda ficava num flow, num crescente, numa vibração muito intensa. Eu acho que vai ser uma música de muita força dançante. “
“Cuidado Paixão”
“‘Cuidado Paixão’ é uma pérola para mim. Eu sempre que componho, sem querer – ou por osmose, porque sou carioca – vem em samba. Em todo o Climão, eu chegava para a Natália (Carrera) e para o Arthur (Braganti) e falava assim ‘gente, eu fiz uma música que é assim: ‘ninguém perguntou por você’’, assim meio samba e o Arthur falava ‘que loucura…’. A Natália sempre ficava ‘meu deus, é um samba’. E aí, é claro, a galera começava a perverter os arranjos, a criar camadas sonoras, então o resultado não era samba. Mas o embrião das canções, de muitas delas, vinha em samba. Aí nesse segundo disco, no Aos Prantos, também aconteceu muito isso. Eu tava na praia, e me vinha uma ideia… Essa foi na praia também, na Grécia, estava nesses momentos aquáticos de entrega, de conexão com a natureza e com o que há de mais misterioso na gente e, uma hora me veio essa frase ‘Cuidado Paixão”’. E isso realmente aconteceu. Um dia eu estava no mercado e uma mulher falou: ‘cuidado, Paixão!’ e eu pensei: ‘que hilário, ela nem me conhece e tá me chamando de paixão!’. E eu sou dessas, muito conectada ao externo, às pessoas e eu logo pego o caderninho e anoto a frase que a pessoa falou, guardo, uso, penso. E ela veio em samba e quando eu mostrei pra banda a gente já percebeu que ela tinha que continuar samba. Assim, um samba Twin Peaks, meio David Lynch. Não é um samba, samba. Mas ela veio numa atmosfera sambística e a gente quis manter, do nosso jeitinho Letrux, mas ela é um samba: ‘Cuidado Paixão’. “
“Sente o Drama” (com participação especial de Liniker)
“‘Sente o Drama’ é uma música que eu fiz com meu parceiro, Thiago Vivas. O Titi tem toda uma pesquisa com o blues e eu também tenho toda uma época, uma escola de blues na minha vida. E eu olhei, falei ‘Baby, por que a gente não faz um blues?’. E aí fizemos esse blues, com essa letra meio, não sei o que dizer… Mas quando o blues tava pronto, eu pensei ‘isso é a cara da Liniker, com aquele vozeirão, com aquela atitude, aquela potência’ e eu falei ‘Liniker, você topa?’ e ela, ‘claro’. Eu fiquei muito feliz, e quando ela chegou no estúdio, rolou um eclipse, um fenômeno da natureza, não sei… Todo mundo ficou com o braço arrepiado, o couro cabeludo arrepiado, uma coisa muito intensa. E ela arrasou, ela matou em dois, três takes. E improvisava, fazia uns vocais, uns gritos… É uma música maravilhosa. Sempre quis ter meu blues e agora já posso dizer que fiz um blues, e com a participação da Liniker, eu não quero mais nada da vida. “
“El Día que no me Quieras”
“Essa música é um desejo que eu sempre tive de compor em espanhol, já tinha feito uma brincadeirinha ou outra, até no Climão tem uma vinheta que eu fiz em espanhol, mas eu queria compor uma música inteira. E é a primeira música, na vida, que eu compus no piano. Há uns dois anos, eu sentei no piano do Arthur e veio vindo esses acordes do início. E o Arthur é meu parceiro, então eu disse: ‘amigo, a gente tem que fazer uma música em espanhol’ e ele ‘claro!’. Ele também ama espanhol, fala super bem, inclusive. E nessas idas e vindas de avião, nesse modo avião, e é hilário estar em modo avião porque você não pode conferir se uma palavra é daquele jeito. A gente fala espanhol, mas não FAAAAAALA espanhol, sabe? Então a gente no modo avião, a gente ficava ‘será que isso tá certo?’. A gente arranhava, depois chegava na cidade, conferia no Google e não tinha nada a ver. E aí a gente ria e tudo mais. É uma música xodó, fiquei muito feliz com o resultado dessa música em espanhol. Eu acho que o Brasil é um tão isolado da América do Sul, seja pela língua, seja por questões culturais ou políticas, então acho que cantar em espanhol, me dá uma sensação de hermana, de sulamerica, de latinidade. Já viajei muito pela América do Sul, tive esse privilégio, essa sorte, então é uma canção eu me orgulho muito.”
“Abalos sísmicos”
“Eu quis fazer música com todos os integrantes da banda. Então tem música com o Arthur, sempre teve com ele. Aí dessa vez, eu quis fazer música com todos com o Lourenço, com o Thiago Rebello. E eu olhei para a Natália Carrera, que é a guitarrista e uma das produtoras do discos e a Martha V, que é a tecladista e backing vocal e falei ‘meninas, a gente tem que ter uma música!’. E uma dia, a Nat tava na dela, brincando com a guitarra na passagem de som e eu falei ‘o que é isso, o que é isso?’, com a anteninha ligada e comecei a gravar. E essa loucura toda de não ser cínica, nem ser irônica, de ser uma pessoa que sente muito, eu me abalo muito – chega a ser um pouco… eu fico meio exasperada, às vezes. Chega a ser uma questão na minha terapia, eu me afeto muito. E não pode ser – pode, claro, tudo pode, mas a gente também tem que se proteger, ficar forte. E eu falei ‘Martha, vamo aqui pensar numa loucura sobre alguém que se abala muito e aí faz daqui a letra, Nat, pensa aqui numa parte B, Marta pensa aqui numa parte C’. É uma canção sobre o poder que uma outra pessoa pode ter na sua vida, seja para o bem ou para o mal. Tem pessoas que passam na nossa vida e que dão uma devastada. É uma canção sobre como a gente não pode deixar isso acontecer. E é uma música que eu fiz com as meninas do grupo e eu amo muito muito muito essa canção. Eu me emociono. Eu gravei no estúdio e chorei muito gravando.”
“Salve Poseidon”
“É uma canção que Arthur chegou para mim e falou ‘amiga, eu tô aqui com uma melodia, umas frases, o que você acha?’. E eu falei ‘nossa, que delis, coisa maravilhosa’. E ele falou ‘vamos pensar em várias rimas com ão, com on’ e em algum avião da vida a gente foi brincando, pirando com isso. No meio da música tem um texto que eu falo do meu amor por coincidências, que elas nem existem, na verdade. A coincidência é um momento de conexão, na verdade. Ela não é ‘ahh, que coincidência!!!’. Não acho que seja isso. Acho que seja uma hora de ‘ahhh!’, de estalo, de arrepio, de confirmação. Então é uma música que eu tô achando delis no disco. E no final, eu ainda faço uma pequena homenagem à Fernanda Young. Que eu falo ‘I love you, forever Young’, porque nossa, eu sou muito apaixonada por ela. E é uma música e também uma ode a uma figura marítima misteriosa masculina. Amo Iemanjá, sou de Iemanjá, mas eu tava junto com o Arthur, que também é um ser do mar, a gente brinca muito de divã no mar, a gente sentiu que era o momento de fazer uma homenagem a uma figura mais masculina do mar. E saiu essa grande loucura.”
“Esse Filme que Passou Foi Bom”
“‘Esse filme que passou foi bom’ é uma música que eu fiz com o Lucas Vasconcellos que é meu ex-companheiro e ex-parceiro da banda Letuce. O Lucas é um excelente compositor, então sempre gosto de brincar de compor com ele e, um dia a gente se encontrou num estúdio, meio totalmente ‘redação tema livre’, a gente ainda estava sem saber sobre o que queremos falar. E eu falei ‘Caslu, acho que eu quero falar sobre morte’. Porque essa é uma questão que desde pequena permeia meus pensamentos, já que tudo é muito efêmero. Eu tô aqui, mas de repente eu posso ter um mal súbito, um ataque cardíaco e isso tudo me assusta muito, mas também me dá muita pulsão de viver a vida, à toda e aí o Lucas comprou a ideia. É uma música mórbida, engraçada e alegre – que é o que eu acho que é a vida. A vida é absolutamente mórbida e absolutamente hilária em alguns momentos. É uma canção meio misteriosa também, tem um arranjo meio Radiohead, triste e aí de repente ela vira quase um pagode – um pagode que a gente tenha feito, claro. Então ela ficou uma confusão muito doida, ainda é uma música muito doida para mim, mas eu tô adorando. Porque morrer pode ser passear. E não ter medo, ou ter medo, mas um medo saudável, um medo que te dá um tesão de querer viver mais.”
“Cry Something Awkward”
“Essa é uma vinhetinha, uma besteirinha, uma loucurinha. Uma maluquice da minha cabeça, de uma música que eu fiquei com ela andando, nessas viagens de turnê, no avião, você pensa uma coisa, anota, cria num lugar, cria melodia. É um entreato, um momento meio Frank Sinatra que eu tive, é uma letra muito pessoal, porque penso tudo aquilo. E penso que utilizei da língua inglesa só para ter artifícios de facilidade para dizer aquilo que eu queria, porque dizer aquilo tudo em português acho que ficaria muito… ‘ah’. Mas me utilizei da língua inglesa só para ficar mais ‘Sinatra Feelings’, mas é uma vinhetinha gostosinha, só para tocar seu coração.”
Primeiro grande nome que perdemos para o Coronavírus: o saxofonista camaronês Manu Dibango, que morreu nesta terça, foi um dos primeiros popstars africanos e revolucionou a música global a partir dos anos 70, quando, ao lado de uma geração que contava com músicos de outros países do continente, como os nigerianos Fela Kuti e King Sunny Adé, mostrou para o resto do mundo a influência daquela música no pop daquele período. Explodiu com o hit “Soul Makossa” em 1972 e colaborou com artistas tão diferentes e importantes como Herbie Hancock, Sly and Robbie, Bill Laswell, Don Cherry e Bernie Worrell, além de ver Michael Jackson surrupiando seu hit em “Wanna Be Startin’ Somethin'” de 1982 e depois Rihanna em “Don’t Stop the Music” de 2009. Que vá em paz.











