Um pouco da importância do mestre carioca Aldir Blanc pode ser absorvida através do ótimo documentário Aldir Blanc: Dois Pra Lá, Dois Pra Cá, dirigido em 2013 por Alexandre Ribeiro de Carvalho, André Sampaio e José Roberto de Morais, que está disponível online. Nele, o boêmio carioca lembra da infância e da adolescência na zona norte do Rio de Janeiro, suas parcerias (João Bosco e Guinga falam sobre este que consideram seu principal parceiro musical), seu envolvimento com o Movimento Artístico Universitário e seu papel na luta pelos direitos autorais, além de ver como Aldir era bom contador de histórias e querido por onde passava.
Dica do Aliche, o diretor do festival In-Edit Brasil.
Mesmo em quarentena, Thurston Moore não para de lançar música. Foram duas de seu grupo Chelsea Light Moving, “Sunday Stage” e “No Go”, desenterradas de gravações do começo da década passada, e agora ele lança músicas com a banda que vem lhe acompanhava no meio da década, batizada de Thurston Moore Group, com o baterista do Sonic Youth Steve Shelley, a baixista do My Bloody Valentine Deb Googe e o guitarrista do Nought James Sedwards. Primeiro, o grupo lançou a noisy “Instant Transcendent Conjecture”, gravada em 2016.
Agora é a vez de lançar “May Daze”, esperando que seus conterrâneos norte-americanos se registrem para votar nas eleições para presidente deste ano. “Nós podemos mudar o mundo – liberte todos os presos políticos – insurreição pela decência comum – consciência rock’n’roll” brada ao anunciar a nova música, que parece saída dos discos do início do século de sua antiga banda.
“Saudades de todo mundo junto dançando na rua, né minha filha?”, parece perguntar, entre a nostalgia e a pilha, a série de mixtapes Xepa Sounds que o Thiago França está lançando no seu site. Ele sussurra seu mantra “nunca não é carnaval” um pouco antes de gritar “bora!” e soltar a bateria eletrônica, emendando hits pop sem medo de apelar – meu astral de festa, quem conhece, sabe. Então tome Kid Abelha com Police, “Morena Tropicana” com Claudinho e Buchecha, Spice Girls com Men at Work, Terence Trent D’Arby com “The Final Countdown”, George Michael com “Lilás”, Lulu Santos com “Lindo Lago do Amor”, “Still Lovin’ You” com Rosana – tudo no beat do passinho.
Já são três (dá pra baixar a primeira aqui, a segunda aqui e a terceira aqui) – e vai saber quantas mais vêm aí…
Bruno Torturra me chamou para conversar sobre as transformações que a pandemia está impondo à cultura no programa Tem Alguém em Casa?, que ele mantém no canal do YouTube de seu Estúdio Fluxo.
O Gorillaz manda um salve para o saudoso Tony Allen. A banda de desenho animado do vocalista do Blur Damon Albarn – parceiro do baterista nigeriano em dois grupos diferentes (The Good, The Bad and The Queen e Rocket Juice & The Moon) – celebra o mestre nigeriano falecido na semana passada ao lançar a música que a banda fez com o baterista ao lado do rapper inglês Skepta, gravada pouco antes da quarentena londrina começar.
“How Far?” é a quarta música do projeto Song Machine, que o grupo lançou no início do ano: antes dela vieram “Momentary Bliss” com o rapper Slowthai e o duo de rock Slaves, os dois ingleses, “Désolé” com a cantora da Costa do Marfim Fatoumata Diawara e “Aries” com o baixista Peter Hook e a cantora Georgia.
E o projeto tá ficando bem redondinho…
Resgatei uma entrevista que fiz pra Ilustrada com o pai do afrobeat Tony Allen, que saiu deste plano na última quinta, na primeira vez que ele veio ao Brasil, em 2004. A foto que ilustra o post saiu do Radiola Urbana do Ramiro, que fez uma playlist no Spotify em celebração ao mestre.
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Pulso de Tony Allen une Brasil e África
Baterista nigeriano que tocou nas bandas de Fela Kuti apresenta-se pela primeira vez no país, ao lado de Sandra de Sá
Como o multiinstrumentista nigeriano Fela Kuti (1938-97) exigiu o holofote da história para seus discursos de ritmo incendiário, o baterista Tony Allen foi deixado em segundo plano como uma espécie de Sancho Pança do jazz-funk africano. Mas basta ouvir qualquer álbum de Kuti para entender que Allen era a força motriz e a arma secreta das bandas do artista – Koola Lobitos e Africa 70.
Allen era companheiro de longa data e tocava com Kuti desde os tempos em que sua banda chamava Koola Lobitos. Formado nos anos 60 apenas por estudantes nigerianos que faziam faculdade em Londres, o grupo logo passaria por uma drástica transformação em sua primeira turnê aos EUA.
Lá, Fela Kuti foi apresentado à nata de uma cultura negra em plena ebulição, que incluía free jazz, movimentos políticos e rock alto. Absorveu com a mesma intensidade as palavras de Jimi Hendrix, Malcolm X, Ornette Coleman, Sly Stone e Eldrigde Cleaver e mudou a banda: a partir daquela viagem de 1969, os Koola Lobitos se tornavam Fela Kuti & Africa 70 e nascia um novo gênero musical, o afro-beat.
Idealizado por Kuti, o gênero não sairia do lugar não fosse o pulso preciso de Allen, que se apresenta hoje e amanhã dentro da programação do Fórum Mundial de Cultura. Kuti morreu em 1997, mas o trabalho de Allen continua a pleno vapor. Ele, que já havia colaborado com grandes nomes do pop africano (como Manu Dibango e Ray Lema), passou as duas últimas décadas experimentando gêneros desconhecidos e possibilidades em estúdio. Lançou seu último disco, “Home Cooking!”, em 2003, e tem colaborado com Damon Albarn, vocalista do grupo inglês Blur, e com o novíssimo MC e produtor inglês Ty. Leia a seguir os principais trechos da entrevista que Tony Allen deu à Folha.
Que semelhanças você vê entre a música brasileira e a do continente africano?
Tony Allen – O Brasil tem muitas semelhanças com a África, por serem continentes de ritmos que surgiram do sofrimento. Tivemos a escravidão no passado, que nos tornou irmãos de sangue. E são culturas de países que não tiveram oportunidade de desenvolvimento, por isso são culturas nascidas na pobreza, mas que não são pobres. Há um lado na pobreza que não é tão negativo, que faz com que os pobres vivam mais do que os ricos, tenham mais experiência e intimidade com a vida do que aqueles que se dizem ricos. E, para falar dessa vida, eles colocam a boca no mundo.
Você tem algum artista brasileiro favorito?
Gosto especificamente de Gilberto Gil, que é uma pessoa em que eu sempre presto atenção. Ele é tão político quanto artista, tem uma desenvoltura muito boa para falar e idéias que realmente importam. E tem estilo. Seu violão é uma assinatura inconfundível.
Ele é o atual ministro da cultura do Brasil…
Sim, eu sei, e parece uma escolha óbvia para o cargo -não por ser um artista representativo do Brasil, que também ele é, mas por ter uma visão ampla de toda a situação. Acredito que o fato de eu estar finalmente indo para o Brasil está diretamente ligado ao seu cargo no governo. Não que ele tenha me convidado ou intercedido ao meu favor, mas estamos na mesma sintonia.
Você o conhece?
Não, mas adoraria. Quem sabe, nessa viagem… Também não conheço Sandra de Sá, com quem irei tocar aí, mas acho que terei uma ótima oportunidade para conhecer seu trabalho.
Desde os anos 80, você está atento a outros gêneros musicais e novas técnicas de gravação…
Houve uma época em que eu percebi que o afro-beat poderia se estagnar, parar no tempo. E a música tem que se mover. E, se havia a possibilidade de um ritmo rico e forte como o afro-beat parar no tempo, eu mesmo teria que colocá-lo andando de novo. Por isso comecei a me aproximar de artistas de hip hop, produtores de dub e de dance music.
TONY ALLEN E SANDRA DE SÁ.
Quando: hoje (sábado, 26 de junho de 2004), às 20h30, no Sesc Pompéia (r. Clélia, 93, Pompéia, SP, tel. 0/xx/11/3871-7700), e amanhã, às 15h, no Sesc Itaquera (av. Fernando do Espírito Santos Alves Matos, 1.000, Itaquera, SP, tel. 0/xx/11/6521-7272). Ingressos: R$ 15.
Impossibilitado de viajar em turnês, seja com seu King Crimson ou em seus trabalhos solo, o guitarrista inglês Robert Fripp anunciou que começaria nesta sexta-feira uma série de cinquenta faixas semanais chamada Music For Quiet Moments, em que traz faixas ambient esparsas, avessos ao motor racional de seu trabalho tradicional, quando mistura jazz, música erudita e música contemporânea experimental. A série traz faixas que foram compostas em diferentes momentos de sua carreira e ele inaugurou com a lânguida e delicada – mas hipnoticamente profunda – “Pastorale”, que gravou no dia 3 de junho de 2007 em Mendoza.
Ele escreveu sobre o tipo de música que pretende lançar neste período, uma reação clara à tensão provocada pela quarentena e pela pandemia que assolam o planeta neste ano:
Música para Momentos Quietos…
I
Um Momento Quieto é como vivenciamos um momento: o momento que está aqui, agora e disponível.
Momentos quietos são quando reservamos um tempo para ficarmos quietos;
e também onde os encontramos.
Às vezes, momentos quietos nos encontram.Alguns lugares têm um espírito fixo, onde a quietude é uma característica do espaço:
talvez sejam características naturais das paisagem;
talvez sejam criados intencionalmente, como um jardim;
talvez sejam onde espíritos de lugar surgissem com o tempo, como em um cemitério inglês no campo.A quietude pode ser provada com som e também pelo som;
em um lugar que consideramos sagrado ou até em um metrô lotado rumo ao Piccadilly ou à Times Square.Um Momento Quieto tem mais a ver com a experiência do tempo do que com o som.
Um Momento Quieto prepara o espaço onde o Silêncio pode entrar.
O silêncio é atemporal.
II
Meus Momentos Quietos, com mais de cinquenta e um anos de turnê, muitas vezes ocorreram em locais públicos, onde crescentemente, uma camada de ruído intencionalmente cobriu e saturou o ambiente sônico.
III
Momentos Quietos da minha vida musical, expressos em paisagens sonoras, são profundamente pessoais; ainda que totalmente impessoais: eles abordam as preocupações que compartilhamos dentro de nossa humanidade comum.
Paradoxalmente, eles ocorreram principalmente em contextos públicos hostis e pouco favoráveis ao silêncio.
Algumas dessas paisagens sonoras são voltadas para dentro, reflexivas.
Algumas vão para fora, afirmativas.
Algumas não vão a lugar algum, simplesmente estando onde estão.Robert Fripp
Terça-feira, 28 de abril de 2020;
Bredonborough, Inglaterra
Maravilhoso.
Melhor show que assisti no ano passado, o encontro entre duas forças da música baiana – Gilberto Gil e BaianaSystem – já está disponível para apara audição. Aumenta o som e o astral!
“Vixe, um monte de coisa, eu tinha a turnê de lançamento do Grandeza em Portugal e mais umas 40 datas entre abril e agosto na Europa”, lembra Sessa quando o pergunto sobre seus planos para esse ano que foram atropelados pela pandemia. Quarentenado em São Paulo, começou a trabalhar nos passos seguintes após seu disco de estreia, antecipando planos e lança em primeira mão no Trabalho Sujo o primeiro single após aquele disco, “Sereia Sentimental”.
“‘Sereia Sentimental’ é uma música que eu já vinha arranjando pensando num som novo pra um próximo trabalho, é um registro de um tatear no escuro por esse som”, me explica o músico paulistano por email. “As músicas do Grandeza ficam na minha cabeça muito ligadas ao jeito que eu fiz o disco, compondo e gravando tudo meio junto, misturado, entre turnês, em sessões curtas de um, dois dias. “Sereia Sentimental” eu fui pensando, fazendo com mais calma, aconteceu essa coisa de eu usar uma bateria numa música minha que é algo que eu nunca tinha feito antes, mas veio nesse processo de caçar um som, eu ficava ouvindo esse chimbauzinho sacana…”
A bossinha molenga foi gravada em plena quarentena num processo à distância com os outros músicos, o baterista d’O Terno Biel Basile e o baixista norte-americano Mikey Coulton. “Gravei as coisas em casa aqui na Consolação com a motos passando, ai mandei pro Biel botar a bateria em cima e depois pro Mikey botar o baixo e mixar em Nova York”, ele continua. “Confesso que foi um pouco esquisito, eu nunca tive muito tesão em tocar todos os instrumentos numa música, sabe? Pra mim gravar sempre foi uma coisa de botar um monte de gente junta no estúdio pra ver onde a coisa ia dar, na bagunça. Agora teve que ser diferente, mas foi legal também. ”
Sessa, como muitos, aproveita a quarentena para uma fase inevitavelmente mais introspectiva da vida. “Tenho tentado cuidar da casa, da comida, da cabeça, do corpo e das pessoas próximas. Dias melhores e dias piores, não é? Tenho também tomado cuidado pra não ficar me cobrando pra sair desse período com um disco escrito. Acho isso meio perigoso, encarar tudo o que está acontecendo, sem nem compreendermos direito o que isso é, já é uma tarefa entanto…”, divaga.
E quando pergunto sobre o que ele está achando deste período, ele vai além: “Bom, no Bolsonaristão, acho que sempre vale reiterar que esse período apresenta um problema sério e real: tem um vírus contagioso, sobre o qual não sabemos muito, matando muita gente por ai. Ai também acho que pode ser uma janela para uma lição de humildade. Fiquei triste em ter tantos shows cancelados, e fico preocupado com a grana e a perspectiva de trabalho, é claro, mas acho que ficar focando só na falta e na perda não ajuda também. Acho que esse freio brusco na máquina do mundo é bom em certo sentido pra gente pensar pra que mundo a gente que voltar, e que seja um mundo mais justo e ecológico.” Tá certo.
Confia em mim e diga se esse mashup de “Good Times”, do Chic, com “Rime of the Ancient Mariner”, do Iron Maiden, feito pelo Bill McClintockn não ficou demais.
E ele curte umas misturas bem infames, se liga:
E o pior é que funciona… E tem muito mais no canal dele. Dica do Danilo.









