E por falar em Andy Gill, ressuscito aqui a entrevista que fiz com ele quando o Gang of Four veio para o Brasil, em 2006, que transformei em depoimento em primeira pessoa para uma edição da Bizz safra Ricardo Alexandre em que eu cuidei da capa – que era sobre o ativismo político de John Lennon logo que ele saiu dos Beatles. Para combinar com o tema, pedi para o Gill falar da influência da política em sua vida e arte.
***
“Eu comecei a ouvir música pop quando era garoto, ainda no rádio, mas não tinha consciência nenhuma sobre política, algo que só fui me dar conta à medida em que fui crescendo, como acho que é com todo mundo. E aconteceu à medida em que eu fui conhecendo outros artistas, como Jimi Hendrix – acho que Hendrix foi a primeira coisa que realmente me interessou no rádio –, os Rolling Stones, The Band, Dylan e, depois, mais tarde, dub e Velvet Underground.
Não sei se houve uma revelação política propriamente dita, algo que ficasse marcado na minha memória. Fui deixando de ser adolescente e percebendo meu lugar no mundo, questionando as coisas, acho que isso é bem natural para qualquer um. Mas havia algo nestas bandas que não era muito político, propriamente dito.
Eles pareciam usar a política como uma pose. Eu via os Rolling Stones cantando ‘Street Fighting Man’ e não parecia que eles estavam querendo fazer o que diziam na música. Era mais para acrescentar outro elemento de perigo à banda, coisa que eles já vinham fazendo desde o começo dos anos 60. Não era pra valer.
Outro aspecto era o de bandas como o MC5, que mandava tudo à merda, e parecia que estava apenas sendo panfletário contra ‘o sistema’, mais interessado em ir contra a sociedade careta do que em discutir política, de um jeito ou de outro. Esse era um problema muito específico em relação a várias bandas, que pareciam ter vagamente uma tendência de esquerda, anarco-alguma coisa, mas que não tinham vocação política e eram mais rock do que qualquer outra coisa.
E você tem artistas de esquerda mais tradicional, que cantam músicas de antes de terem nascido. Ou mesmo que componham estas músicas, como o Billy Bragg faz até hoje, não parecem atingir o coração das pessoas. Não me parecem relevantes hoje, nem me pareciam nos anos 80. Mesmo John Lennon, que queria se comunicar com as pessoas, estava preso no fato de ser uma superestrela.
Assim, foi fácil saber o que queríamos quando montamos o Gang of Four. Já tínhamos base para saber o que não queríamos. Não queríamos soar panfletários, nem partidários. Não queríamos soar de esquerda ou de direita. Queríamos que as pessoas pensassem em política de uma forma menos maniqueísta. Quando falamos de política, parece que estamos falando apenas dos políticos, mas quem vota neles somos nós e podemos fazer política o tempo todo, em qualquer lugar ou hora.
O fato de termos surgido durante o punk nos deixou ainda mais vacinado em relação a isso. Logo as pessoas estavam tachando o punk de político, Malcolm McLaren lançou esse conceito na primeira hora. Mas era exatamente a mesma coisa de antes. Não era política, era um assessório chamado política. Não queríamos isso.
Quando eu e o Jon (King, vocalista da banda) começamos, nos perguntávamos: ‘O que motiva as pessoas? O que as faz fazerem o que fazem?’. É claro que você pode resumir isso em apenas ‘economia’, mas não é só isso. As pessoas ainda estão fazendo as mesmas coisas que faziam no século passado, o marido ainda trazia o dinheiro para casa enquanto a mulher cuidava da comida e dos filhos. O mundo havia mudado, mas essas relações ainda não. Pelo contrário, elas haviam se tornado prisões: família, emprego, propriedade. As pessoas se prenderam nisso de uma forma que acham que isso é a vida delas.
Temos uma música chamada ‘Natural’s Not In It’ que fala exatamente sobre isso. Tudo aquilo que chamamos de “natural”, na verdade, é artificial, é criado pelo homem. Seja a sociedade, o conceito de justiça, de bom senso… Tudo isso é invenção humana, nada disso é natural. As idéias não são naturais. Qualquer uma delas, todas elas – são inventadas.
E não queríamos ser os portavozes da nova esquerda. Para isso, tiramos todas as referências de política de nossas letras e títulos – você vê os nomes das músicas e não diz que o conteúdo delas é política –, tudo que pudesse lembrar a política dos jornais tava fora. Não queríamos dizer ‘você está certo’, ‘você está errado’, ‘você é de esquerda’, ‘você é de direita’. Não queríamos nos separar das outras pessoas. Queríamos, sim, lembrar pra elas que, esquerda ou direita, estamos nesse barco juntos.
Mas a forma que você colocou é bem razoável. É isso: o Gang of Four não era uma banda de protesto, mas uma banda de crítica. Uma crítica à sociedade, à forma que vivemos, à música, ao rock, ao punk rock, às outras bandas, a nós mesmos. Era mais ou menos como o Situacionismo dos anos 60, não queríamos nos levar a sério, mas não queríamos só isso.
E aí tem o outro elemento que, pra nós é crucial, que foi o ritmo. Não queríamos soar como rock, não queríamos ser mais uma banda de rock. E tanto eu quanto Jon já vínhamos pensando em experimentar com ritmo, somos fãs de dub até hoje, de krautrock, do James Brown. Mas seria ridículo tentar recriar a atmosfera de qualquer um desses artistas na Inglaterra dos anos 70.
Por isso partimos do zero, da tela em branco, e fomos acrescentando as coisas à medida em que começamos a tocar. E as coisas foram se encaixando. O legal é que não pensamos nessas coisas, elas simplesmente foram entrando em seu lugar. Põe um prato aqui, um bumbo ali, um riff mais à frente. Começava com um baixo solto, entrava a bateria reta, a guitarra fazendo ruídos e o vocal – mesmo que a letra importasse – funcionava como um instrumento. As coisas iam entrando em sintonia sem que pensássemos nisso. Em vez de fazer canções de amor, fazíamos canções de antiamor – o que é diferente de uma canção de ódio, veja bem.
Foi quando começamos a por elementos de disco music na mistura. Primeiro porque adorávamos disco. A cena começou a ficar ruim devido à forma que a mídia explorou o tema, com filmes como ‘Os Embalos de Sábado à Noite’ e todo o tipo de banda gravando disco music. Mas antes de ficar massificado, era uma cena bem interessante e – como você colocou – política, por libertar a canção de um formato estagnado e deixar as pessoas mais soltas, em vários sentidos.
Eu entendo perfeitamente a raiva que as pessoas que gostam de rock tem com a dance music. Eles vêem um DJ tocando e acham que ele não é um músico. Eles vêem as pessoas se entregando à dança e acham que elas estão se alienando. Mas eles não percebem que a disco music – que depois se subdividiu nas diversas formas de música pop que hoje dominam o mercado, do novo rock ao hip hop – é tão ou mais rock’n’roll do que o próprio rock. Porque liberta as pessoas de diversas amarras e, se na época do punk, o rock já dava sinais de conservadorismo, hoje ele é o próprio sistema. Por isso, apesar de entender a raiva do rock, eu a acho ridícula.
Tanto que fomos vítimas dessa raiva quando, no nosso terceiro disco (Hard), fomos acusados de sermos traidores, só porque queríamos mexer com música pop e com sintetizadores. Na verdade, o disco não saiu legal, porque quem ia nos produzir era o Nile Rodgers, mas ele foi substituído em cima da hora devido a uma confusão da gravadora. E o produtor que entrou no lugar, não sabia nada da gente, então o Hard é um disco que eu não gosto tanto, embora algumas faixas – como ‘A Man with a Good Car’ ou ‘Woman Town’ são faixas que eu gosto. Mas os fãs odiaram! Embora hoje muita gente goste deste disco, o que eu acho ao mesmo tempo estranho e interessante, esse poder do tempo”.
E quando as redações começarem a virar assunto?
A pergunta surgiu no meio do debate da Campus Party que eu participei, feita pelo Gil Giardelli, e a Ana Brambilla discordou num dos pontos em que eu e o Forastieri concordamos (o Vinícius comenta o debate melhor do que eu, além de linkar os vídeos). Pra mim, WikiLeaks é jornalismo, ponto.
Se é bom ou mau jornalismo, isso é outra história – mas agora que temos um player jogando no ventilador notícias que não vêm via release de assessoria de imprensa nem com post-it grudado escrito “leia com atenção”. Sim, há a possibilidade de haver interesses escusos e de que seu criador estaria guiando a mídia tradicional de acordo com a sua agenda, mas o não dá para fugir que o site de Julian Assange propõe ao jornalismo tradicional o mesmo enigma digital que a indústria fonográfica enfrentou com o Napster, que pairou com o YouTube sobre o cinema e a TV, que o mercado editorial começa a ter de lidar com o Kindle. São os papéis do Pentágono e Watergate numa mesma tacada, sem intermediários e com um posterboy ególatra o suficiente pra se deixar virar ícone (pessoalmente, não grilo com isso, mas há quem se incomode).
E, na longa véspera de uma revelação que o site promete desde o ano passado sobre um grande banco americano, começam a sair as primeiras reações da mídia tradicional ao contar como foi lidar com Assange. Quem começou foi Bill Keller, editor-chefe do New York Times, que escreveu um texto gigantesco para a capa de sua revista dominical, lembrando a tradição de seu jornal, acusando Assange de manipulador, dizendo que WikiLeaks não é jornalismo e defendendo a imparcialidade sobre a notícia. Chama o jornal inglês Guardian, um dos veículos escolhidos por Julian para expor seus segredos de “abertamente de esquerda” e desqualifica Assange como excêntrico:
“He was alert but dishevelled, like a bag lady walking in off the street, wearing a dingy, light-coloured sport coat and cargo pants, dirty white shirt, beat-up sneakers and filthy white socks that collapsed around his ankles (…). He smelled as if he hadn’t bathed for days.”
O Guardian, por sua vez, veio com sua versão dos fatos, peitando principalmente o fato do WikiLeaks mudar a paisagem do jornalismo em tempos digitais, citando a Hillary, e do site ter mirado nos EUA. Escreve seu editor-chefe Alan Rusbridger:
Unnoticed by most of the world, Julian Assange was developing into a most interesting and unusual pioneer in using digital technologies to challenge corrupt and authoritarian states. It’s doubtful whether his name would have meant anything to Hillary Clinton at the time – or even in January 2010 when, as secretary of state, she made a rather good speech about the potential of what she termed “a new nervous system for the planet“.
She described a vision of semi-underground digital publishing – “the samizdat of our day” that was beginning to champion transparency and challenge the autocratic, corrupt old order of the world. But she also warned that repressive governments would “target the independent thinkers who use the tools”. She had regimes like Iran in mind.
Her words about the brave samizdat publishing future could well have applied to the rather strange, unworldly Australian hacker quietly working out methods of publishing the world’s secrets in ways which were beyond any technological or legal attack.
Little can Clinton have imagined, as she made this much praised speech, that within a year she would be back making another statement about digital whistleblowers – this time roundly attacking people who used electronic media to champion transparency. It was, she told a hastily arranged state department press conference in November 2010, “not just an attack on America’s foreign policy interests. It is an attack on the international community.” In the intervening 11 months Assange had gone viral. He had just helped to orchestrate the biggest leak in the history of the world – only this time the embarrassment was not to a poor east African nation, but to the most powerful country on earth.
O debate segue em aberto, mas eis um novo efeito colateral: sobre o jornalismo. Cada vez mais os bastidores do jornalismo se tornarão notícia e interesse geral e um filme sobre WikiLeaks (cada vez mais palpável) poria a público como as coisas realmente funcionam nas redações como o filme sobre o Facebook começou a expor as entranhas do Vale do Silício. Mas antes de entrarmos na paranóia sobre quem detém o monopólio da notícia, o que é exclusividade no século 21 e a velha discussão entre transparência e segurança, deixo o recado do professor Timothy Garton Ash, que foi ao Fórum Econômico de Davos justamente pra falar sobre WikiLeaks:
“Every organization should think very hard about what it is you really need to protect. You’re probably protecting a whole lot you don’t need to. And then do everything you can to protect that smaller amount”
Ou seja, quem tem, tem medo. Se não tem, é bom ter. Como digo: paranóia é precaução.
Mas se fosse fácil não tinha graça.
Impressionante. Dica do Jesse.
Um filme de Nanda Fernandez Brédillard e Lucas Mancione. Dica da Ana.
Lembro quando a Dani tava terminando a parte dela na noite fantástica da semana passada, ela me cutucou e disse: “Vou tocar Pulp”. Sorri de volta: “Qual?”. “‘Babies’, adoro ‘Babies'”. Quem não adora? Mas acho que devo ter feito alguma cara meio torta, porque logo em seguida ela voltou pro iPod (ela discoteca de iPod, doida) e gaguejou: “Será que eu toco ‘Disco 2000’?”. Aí resolvi interferir (como não…): “Toca o hit”. “O hit?”, e o dedo dela escorregou para “Common People”. Sorri de volta.
Eu e Dani temos uma cumplicidade de festa desenvolvida nos idos de 2006, quando, em sua terra-natal, numa sexta ou sábado pós-carnaval, tiramos uma festa da cartola num quintal de um restaurante árabe, com toda torcida contra na argumentação de que, depois do carnaval, Recife não saía de casa. Dani acionou os “teens” como disse com aquele “t” agudo do sotaque pernambucano, escrevendo SMS por meia hora para, na meia hora seguinte, o quintal estar lotado. Foi a primeira vez que eu vi o poder social do celular em ação (mentira, um amigo meu já havia me deixado assombrado no ano anterior, quando digitava mensagens segurando o celular com a mesma mão que ficava sobre o volante, olhando para a tela apenas para conferir o que havia escrito). Foi a mesma clássica noite em que o Fred disse pra gatinha do psy que havia esquecido seu case de trance em casa às quatro da manhã – quando eu disse pra tocar Chico Psyence. Foi o carnaval do nascimento do Vida Fodona, outro dia eu lembro disso aqui melhor.
Mas quando ela cogitou “Common People” lembrei da vez em que ela tocou “Like a Prayer” em uma das primeiras vezes que discotecou aqui em São Paulo, nos tempos em que a Gente Bonita era quinzenal no Bar Treze, em frente à Faap. Era o prenúncio de que a noite seria de uma categoria superior. Depois ela mandou “Cheia de Charme” pra eu continuar (segui com “Fuck You”), mas aí é outra história.
E em homenagem à grande volta desse ano (2010 = Pavement, 2011 = Pulp), vou martelar a banda do velho Jarvis aqui de tempos em tempos. Só pra ser.
E já há quem diga que o Jeneci vai pegar a trilha pop que o Camelo deixou pra trás. Mas eu não duvido que o próprio Camelo tope retomar isso a partir do Jeneci… Será seu momento Little Joy? Tomara, eu acho o Sou tão chato…
Marcelo Camelo + Marcelo Jeneci – “Doce Solidão“ (MP3)




