Eis os 25 melhores discos brasileiros da segunda metade do ano segundo o júri de música popular da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte), da qual faço parte.
Ana Frango Elétrico – Little Electric Chicken Heart
Bruno Capinan – Real
Céu – APKÁ
Chico César – O Amor É Um Ato Revolucionário
DEF – Sobre os Prédio que Derrubei Tentando Salvar o Dia
Elza Soares – Planeta Fome
Emicida – AmarElo
Jonnata Doll e os Garotos Solventes – Alienígena
Karina Buhr – Desmanche
Lello Bezerra – Desde Até Então
Lia de Itamaracá – Ciranda Sem Fim
Lucas Santtana – O Céu é Velho Há Muito Tempo
Luiza Brina – Tenho Saudade, Mas Já Passou
Luiza e os Alquimistas – Jaguatirica Print
Lulina – Desfaz de Conta
Marcelle – discoNeXa
MC Tha – Rito de Passá
Nill – Lógos
Rael – Capim-Cidreira
Saskia – Pq
Scalene – Respiro
Selvagens à Procura de Lei – Paraíso Portátil
Siba – Coruja Muda
Teago Oliveira – Boa Sorte
Yamandu Costa – Vento Sul
Além de mim, também fazem parte do júri José Norberto Flesch (Destak), Marcelo Costa (Scream & Tell) e Lucas Brêda (Folha de São Paulo). No primeiro semestre votamos nestes discos aqui.
Conversei com a cantora e compositora pernambucana Karina Buhr sobre o lançamento de seu novo álbum, Desmanche, em uma entrevista feita para a edição de novembro da revista da UBC – que pode ser conferida também no site deles.
Percussão protagonista
Em seu quarto álbum, Desmanche, a cantora e compositora Karina Buhr canta o peso dos tambores e da situação política no Brasil de 2019
Karina Buhr é sucinta quando pergunto quais as principais inspirações para seu quarto álbum, o recém-lançado Desmanche: “Os tambores e o Brasil”. A explicação vem da situação que nosso país vem passando, às trevas dos novos governos, e da velha paixão de Karina pela percussão, colocada em primeiro plano neste seu quarto álbum. “A ideia foi quebrar totalmente com o que vinha fazendo. Mudei completamente a formação da banda e o modo de gravar, foi uma ruptura”, explica.
Desmanche marca a volta da percussão como elemento central em sua composição.
Meu instrumento é o ritmo, todas as músicas que faço partem daí. Nos outros meus três discos solo os tambores foram tirados no momento dos arranjos, embora a ideia rítmica tenha sido mantida. Alguma coisa no espírito que ia pra um lado mais rock fazia isso acontecer naturalmente. Dessa vez resolvi mudar isso e não só manter as percussões nos arranjos finais, como trazer ela de volta comigo pro palco e tirar a bateria. A percussão sempre foi um elemento central nas minhas composições, mesmo não quando não estão aparentes.
Desmanche é um disco político em vários níveis, não apenas no sentido de um disco de protesto.
Sim, na poesia dele tem a violência do estado racista, o descaso com a moradia da população e o respeito ao chão embaixo dos pés. Em “A Casa Caiu” falo de movimentos por moradia e também do crime de Brumadinho, “Sangue Frio” fala da violência do Estado, “Temperos Destruidores” é sobre as das guerras do mundo “por tempero e deuses”, “Lama” fala da realidade de uma cidade, Recife, de festa e violência. Mas também tem um lado manso, que acho que é o ponto de sobrevivência, um banho num rio de uma outra dimensão, coração transposto e não um leito de rio, “Vida Boa é a do Atrasado” é leve, uma brincadeira, “Chão de Estrelas” fala de festa, tem um mistura de tensão e calma.
Qual o papel da cultura e da música especificamente para enfrentar o desmanche cultural que os atuais governos estão implementando no Brasil?
Acho que a música, qualquer tipo de arte tem o poder de levar a gente pra dentro, de tirar da realidade e ao mesmo tempo de dar forças pra enfrentá-la e também instigar as pessoas pra troca de ideia e pra ação. No momento em que pessoas estão juntas num show, falam sobre letras e músicas e filmes uma potência enorme é gerada e mudanças significativas acontecem. Por mais que isso por si só não resolva nada, mexe como mentes, com ideias, move as coisas. É difícil falar sobre isso no Brasil porque vivemos um apartheid e a música não tem como ficar fora desse contexto. Tem música que é considerada melhor, tem passinho e funk criminalizados, Rennan da Penha preso por fazer girar cultura, diversão e dinheiro na favela. É assunto que não cabe numa resposta de entrevista.
Ana Frango Elétrico – “Promessas e Previsões”
Juliana Perdigão – “Só o Sol”
Beabadoobee – “I Wish I Was Stephen Malkmus”
Erik Batista – “Nvvem (Canção pra Vida Adulta)”
Neiva – “Pra Si”
Metronomy – “The Light”
Bárbara Eugenia – “Perdi”
Céu – “Coreto”
Taylor Swift – “I Think He Knows”
Karina Buhr – “Nem Nada”
Siba – “O Que Não Há”
Lulina + Maurício Pereira- “O Que é o Que”
Tyler the Creator – “Are We Still Friends?”
Lana Del Rey – “Hope Is A Dangerous Thing For A Woman Like Me To Have-But I Have It”
Douglas Germano – “Tempo Velho”
Elza Soares – “Lírio Rosa”
Lana Del Rey – “Venice Bitch”
Guaxe – “Desafio do Guaxe”
Angel Olsen – “All Mirrors”
Tyler the Creator – “Earfquake”
Luisa e os Alquimistas – “Furtacor”
Black Alien – “Aniversário De Sobriedade”
BK’ – “O Show Nunca Acaba”
Nill – “Mulher do Futuro Só Compra Online”
John Carpenter – “Night”
Arctic Monkeys – “One Point Perspective”
Teago Oliveira – “Corações em Fúria (Meu Querido Belchior)”
Regrettes – “I Dare You”
Do Amor – “Não Peida no Amor”
Pin Ups – “Damn Right”
Haim – “Summer Girl”
Karina Buhr + Max B.O. – “Filme de Terror”
Lana Del Rey – “Season Of The Witch”
Clash – “The Right Profile”
Sleater-Kinney – “Can I Go On”
Do Amor – “Planeta Fome”
Karina Buhr – “Amora”
Jards Macalé – “Limite”
Juliana Perdigão – “Só o Sol”
Billie Eilish – “My Strange Addiction”
Thom Yorke – “Runwayaway”
Hot Chip – “Melody of Love”
Theophilus London + Tame Impala – “Only You”
Gilberto Gil – “Tempo Rei”
Pato Fu – “O Processo Da Criação Vai De 10 Até 100 Mil”
Of Montreal – “Plastis Wafers”
Silver Jews – “People”
Metronomy – “Walking In The Dark”
Gabriel Thomaz Trio – “Ruradélica”
Karina Buhr – “Chão de Estrelas”
Letrux – “Coisa Banho de Mar (Tin God Remix)”
Daft Punk – “Technologic (Knight Club Remix)”
Chromeo + Toro y Moi – “Come Alive”
Inner City – “Good Life”
Rádio Táxi – “Garota Dourada”
Steven Winwood – “Higher Love”
Cardigans – “Fine”
Céu – “O Morro Não Tem Vez”
João Bosco – “Cobra Criada”
Douglas Germano – “Valhacouto”
Gilberto Gil – “Extra II (O Roque Do Segurança)”
Chico Buarque + A Cor do Som – “Hino do Duran”
Ao pegar pesado nas duas músicas (“Sangue Frio” e “A Casa Caiu“) que usou para anunciar seu quarto disco solo Desmanche, que chega nessa sexta às plataformas digitais, Karina Buhr nos induziu a imaginar que ela viria com um disco agressivo e pesado, subindo o tom em relação ao disco anterior, o forte Selvática (2015). As duas músicas (mais “Temperos Destruidores”) formam apenas um dos sabores do álbum, que também se desmancha em doçura.
“Eu não pensei num tema pra fazer um disco”, ela me conta em uma troca de áudios por WhatsApp. “Fiz as músicas, as letras e ao pensar no nome, achei que Desmanche representava muito, porque ele tem uma coisa tanto de guerrear, de ser agressivo, de ir pra cima e buscar as coisas, o desmanche do país, o desmanche de carro, o imperativo do verbo desmanchar, como também tem uma tranquilidade, um bailar na festa, um carnaval, tem as duas coisas. Eu não parti do nome Desmanche pra criar o disco, mas não tem um tema, são um monte de coisas misturadas. E feminista todo meu disco vai ser, porque eu sou.”
O disco foi criado a partir da tríade que montou com o guitarrista Régis Damasceno (guitarrista do Cidadão Instigado e coprodutor do disco, que vem se reinventando musicalmente de uma forma bem interessante nos últimos anos) e o percussionista Maurício Badê. “Eu faço as músicas partindo da percussão, que é o meu instrumento”, ela me explica. “Não tem muita ordem na hora de fazer melodia ou letra, mas o ritmo tá sempre por perto, mesmo que eu não esteja com o tambor ali, eu toco na mesa, no que tiver, sempre com uma coisa rítmica junto.”
Esse sim é o tema musical de Desmanche, um disco com tambores que pulsam pesados ou com delicadas texturas rítmicas que sustentam os devaneios – alguns deliciosos, outros ríspidos – de Karina. “Nos outros discos, desde que comecei minha carreira solo, mas nos discos isso não aparecia. Eu tirava a percussão quase que totalmente, usava esse material pra mostrar pra banda pra criar os arranjos, mas depois os tambores saíam. E nesse disco resolvi mostrar essa percussão, tirar a bateria, deixar só a percussão. Eu trouxe pra frente e prum lugar de importância uma coisa que sempre foi fundamental, mas que na hora de mostrar e botar na rua, não aparecia.” Além de Badê e Damasceno, o disco conta com participações de outros músicos, como Mestre Nico, Isaar, Sthe Araújo, Lenis Rino, Victor Vieira Branco, Bernardo Pacheco e Max B. O., este último – atual parceiro de vida de Karina – coautor da ótima “Filme de Terror”, um “quase bolero” como diz Karina, que conta com a participação do MC.
“No disco eu aproveitei mais isso, no show vai ter umas bases, mas sou eu e Maurício Badê fazendo percussão”, continua falando sobre o show, que estreia no Sesc Pinheiros no próximo dia 3 (mais informações aqui). “Antes de começar meu trabalho solo, eu sempre cantei tocando percussão, e depois eu descobri essa coisa de cantar sem tocar e descobrir coisas com a voz, que é bem diferente de cantar sem o tamborzão pendurado. Principalmente a alfaia, que eu gosto muito de tocar, que é um tambor de quase dez quilos. Muda muito. Toco mais no show, mas não toco todas as músicas, Maurício faz as percussões e Régis toca guitarra e baixo, enquanto Charles Tixier faz MPC e uma ou outra coisa de teclado.” Aproveitei a deixa do lançamento e pedi para que ela dissecasse-o faixa a faixa.
Desmanche, faixa a faixa
“Sangue Frio”
“Fala sobre extermínio de pessoas pelo exército brasileiro e polícias e como brasileiros que não morrem se colocam diante disso. Ela faz parte – junto com ‘A Casa Caiu’ e ‘Temperos Destruidores’ – do grupo de músicas do disco onde usei o peso dos tambores e levadas influenciadas por caboclinhos e toré, misturando com coco e viradas de maracatu de forma livre e sobreposta criando um tipo de punk rock de tambor.”
“Amora”
“A romântica defeituosa do disco.”
“Lama”
“Caminhada psicodélica de palavras e tambores por Recife, nos bairros de São José, Santo Antônio, Casa Amarela, Bomba do Hemetério. Festa, pesca, leveza, tensão, calor, memórias de carnaval, de dormir no asfalto esperando a hora de tocar na avenida Guararapes, os ônibus lotados das agremiações, escolas de samba, ursos.”
“Temperos Destruidores”
“Sobre os fins dos mundos, as justificativas falsas de guerra e os verdadeiros motivos, os assassinos legalizados que comandam as nações.”
“Nem Nada”
“Calma, mar, falta de pressa, desapego, descanso, esquecimento momentâneo dos gritos, uma zerada, por motivo de sobrevivência.”
“Chão de Estrelas”
“Baile, pista, globo, fumaças, bebidas, luzes.”
“Filme de Terror”
“De verdade só os filmes de terror. E o quase bolero e a rima viva de Max. B.O.”
“A Casa Caiu”
“Sobre latifúndio, ocupação, exploração desenfreada da terra e das pessoas, Brumadinho, revoluções e líderes delas em ação, MST, MTST, MSTC…
“Peixes Tranquilos”
“Jah love, coração transposto num rio que corre no leito original dele, águas mornas e tranquilas, Oxum, Yemanjá, lembranças de Os Sertões com o Teatro Oficina, um mapa no chão.
“Vida Boa é a do Atrasado”
“E quem dirá que não? Côco com Isaar e seu brilho cantando junto”
Depois de uma bem sucedida edição em 2018, o Coquetel Molotov finalmente chega a São Paulo. Depois de se espalhar por algumas cidades do país (como Salvador e BH) e namorar a vinda pra São Paulo há um tempão, o festival pernambucano realiza sua primeira edição paulistana com gosto e reúne Boogarins, Tuyo, Baco Exu do Blues, Maria Beraldo, Edgar, Coletividade Namíbia e um encontro incrível entre Alessandra Leão, Karina Buhr e Isaar nesta sexta-feira, dia 30, no espaço The Week, pertinho do Sesc Pompeia (mais informações aqui). Bati um papo com a criadora do festival, Ana Garcia, que também antecipou os horários dos shows em primeira mão para o Trabalho Sujo (veja abaixo), além de liberar um par de ingressos para sortear entre os leitores do site. Para concorrer, basta comentar abaixo qual a atração que você mais gostaria de assistir e por quê (e não se esqueça de incluir seu email para que eu possa entrar em contato).
O que é a edição paulistana do Coquetel Molotov?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/ana-garcia-o-que-e-a-edicao-paulistana-do-coquetel-molotov
Desde quando você quer trazer o festival para São Paulo e quais foram as principais dificuldades?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/ana-garcia-desde-quando-voce-quer-trazer-o-festival-para-sp-e-quais-as-principais-dificuldades
O que caracterizaria o Coquetel Molotov para o público paulistano?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/ana-garcia-o-que-caracterizaria-o-coquetel-molotov-para-o-publico-paulistano
Fale um pouco de cada uma das atrações e o que esperar de cada show.
https://soundcloud.com/trabalhosujo/ana-garcia-fale-um-pouco-de-cada-uma-das-atracoes-e-o-que-esperar-de-cada-show
Em que outras cidades você está fazendo mais edições do festival este ano?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/ana-garcia-em-que-outras-cidades-voce-esta-fazendo-mais-edicoes-do-festival-este-ano
A intenção é manter a edição paulistana anual?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/ana-garcia-a-intencao-e-manter-a-edicao-paulistana-anual