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As fronteiras da imagem e do som

Depois de transformar o palco do Centro da Terra em pista de dança, Juliana Perdigão misturou música e imagem com sua comadre Ciça Lucchesi, com quem já fez várias apresentações. Mas nesta terça-feira, segunda noite de sua temporada Em Caráter Experimental, elas ressuscitaram o projeto Versom, em que ambas mesclam suas disciplinas específicas num espetáculo sinestésico de altíssimo nível. Mais do que simplesmente improvisar conjuntamente, elas apresentaram módulos de som e imagem que funcionavam, ao mesmo tempo, como clipe e canção – muitas vezes distanciando-se do formato tradicional desta última para trabalhar novas criações em durações de tempo específica, mostrando possibilidades diferentes para o casamento da música com o cinema. A imagem era projetada na tela de cinema do teatro, enquanto as duas, às vistas do público na coxia da primeira fila, iam trabalhando com seus instrumentos o que víamos na tela, que passava de fotos de São Paulo a abstrações geométricas. O ponto alto da apresentação foi quando Juper subiu ao palco para tocar “Crack pra Ninar” de Kiko Dinucci seu clarinete em frente à tela, enquanto Ciça fazia um holofote às avessas com a imagem, antes de entrar no poema “Só Com Muito Vento” de Bruna Beber e outras duas instrumentais próprias que acabaram de levar todos para uma outra dimensão. Foi incrível.

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Palco/pista

O público que chegou no Centro da Terra nesta segunda-feira para assistir ao início da temporada Em Caráter Experimental que Juliana Perdigão, agora assinando como Juper, estranhou não ser direcionado para as poltronas do teatro e sim para o palco. Lá chegando, aos poucos foram entendendo que o show já havia começado e que, à medida em que a audiência entrava e via Juper e Dudu Tsuda (assinando como DJ Shima) soltando loops e beats em cima de synths, teclados e computadores (com o clarinete da dona da temporada temperando a eletrônica) sob um globo de espelhos, que transformava o palco do teatro numa pista de dança. Mas passado o estranhamento inicial, que fez o público ficar paralizado como se estivesse entrando numa instalação artística (com as luzes sempre fantásticas do Paulinho Fluxuz), logo as pessoas começaram a dançar e entraram no clima da recém-lançada dupla Kombini, que deve fazer mais pistas em breve. E isso foi só o início da temporada…

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Juper: Em Caráter Experimental

Maior satisfação trazer Juliana Perdigão – ou Juper, como assina desta vez – para tomar conta das segundas-feiras de outubro no teatro com sua temporada Em Caráter Experimental, em reúne-se a cada apresentação com alguém diferente para testar processos no palco a dois. A primeira delas, neste dia 5, chama-se Kombini, em que apresenta-se ao lado de Dudu Tsuda (que apresenta-se como DJ Shima), transformando o palco do teatro em uma pista de dança pra exorcizar as energias ruim em movimento. Nas semanas seguintes, ela traz primeiro o projeto Versom, ao lado dos visuais de Ciça Lucchesi (dia 13, porque dia 12 cai num feriado), depois a noite Sung Songs, ao lado de Gustavo Infante e finalmente no Passeio Macio, no final da temporada, quando toca ao lado do conterrâneo mineiro Davi Fonseca. Os ingressos já estão à venda no site do Centro da Terra e os espetáculos começam pontualmente às 20h.

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Centro da Terra: Outubro de 2026

Outubro começa esta semana e eis a programação da curadoria de música deste mês no Centro da Terra. Quem toma conta das segundas-feiras de outubro é a maga Juliana Perdigão, que decidiu assinar a temporada Em Caráter Experimental como Juper, reunindo duplas diferentes a cada semana. Na primeira, dia 5, ela apresenta a noite Kombini com Dudu Tsuda e transforma o teatro numa pista de dança. Na semana seguinte (quando apresenta-se na terça, 13, pois dia 12 é feriado), ela vem com Versom, ao lado de Ciça Lucchesi, buscando a relação entre som e imagem criados ao vivo. Na outra segunda, dia 19, ela vem ao lado de Gustavo Infante na noite Sung Songs, em que os dois misturam loops de fita cassete e poemas em guardanapos, criando canções em tempo real. Depois ela junta-se ao conterrâneo mineiro Davi Fonseca para explorar seus respectivos cânones pessoais. Na primeira terça do mês, dia 6, quem estreia no Centro da Terra é a banda paulistana Inês é Morta envereda pela história do pós-punk brasileiro amadurecendo seu próprio som num disco que será lançado em breve e que será testado ao vivo pela primeira vez no espetáculo Sala de Espelhos. Na terça-feira dia 20 é a vez da ex-Crime Caqui May Manão explorar seu trabalho solo em que atende apenas por seu sobrenome e expande sua sonoridade para além do rock, adicionando elementos eletrônicos e visuais a uma noite chamada de Drama House. O último espetáculo do mês é da dupla carioca Kartas, que resume sua apresentação ao casal central do projeto – a poeta Marcela Mara e o músico Zozio – no espetáculo (Dois Triângulos) dedicado ao próprio processo de criação dos dois. Os espetáculos começam sempre pontualmente às 20h e os ingressos já estão à venda no site do Centro da Terra. Você pode apoiar o Centro da Terra e ganhar descontos na hora da compra do ingresso – saiba mais em https://centrodaterra.org.br/apoio

Ava coletiva

Ava Patrya Yndia Yracema é um dos discos brasileiros mais importantes da década passada não apenas por revelar sua autora, Ava Rocha, como uma supernova de criatividade intensa, mas por reunir, ao seu redor, a cena que orbitava ao redor da primeira encarnação da casa de shows Audio Rebel e que, a partir deste disco, começou a explodir, por isso o show de aniversário que fez neste sábado frio e chuvoso na Casa Rockambole foi uma celebração coletiva. Ava estava à frente da mesma banda que tocou no disco – Marcelo Callado na bateria, Marcos Campello e Eduardo Manso nas guitarras (o último também tocando synth), Felipe Zenicola no baixo e participações do baixista Pedro Dantas e do percussionista e baterista Thomas Harres – e convidou um grandessíssimo elenco para a festa que anulou o tempo feio do lado de fora, transformando a noite numa extensa ebulição criativa (mais de duas horas de show!), tocando o disco com uma constelação absurda de astros: do produtor Jonas Sá ao eterno companheiro Negro Léo, passando por Iara Rennó, Assucena Assumpção, Brisa Flow e Ana Frango Elétrico, esta última caçula daquela geração que entrou para acompanhá-la numa versão “London Calling” para “Hermética” e emendaram a parceria que fizeram juntas anos depois daquele disco, “Mulher Homem Bicho”. Mas mais do que músicos e convidados, a força da noite era Ava, esse vulcão humano que domina o palco e transforma qualquer gesto em performance, dando vida a qualquer objeto (uma taça de vinho, um lenço ou sua clássica máscara de facas), transcendendo a racionalidade enquanto faz o público levitar apenas com sua voz (não por acaso terminou o show puxando o clássico suspiro de Zé Celso). Além do repertório do disco, ela também passou por “Canoa Canoa” de Milton Nascimento (que estava no repertório do show original, dez anos atrás) e encerrou a noite puxando todos os convidados – e alguns da plateia, como Juliana Perdigão, Dinho Almeida e Luiza Lian – para o bis, que começou com “Beijando Todos Vocês” (de seu último disco, Néctar), passou por uma das recém-lançadas parcerias com os Boogarins (“Memórias”) e encerrando com o hit “Você Não Vai Passar”, quando dividiu os vocais com Luiza Lian. Que noite!

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Tecla Torta

E essa série de shows idealizada pela Anna Vis para a Casa de Francisca? Tecla Torta reúne quatro cantores e quatro pianistas em datas diferentes para explorar os limites entre a canção, o improviso e o piano experimental. No primeiro encontro, dia 1º de setembro, ela reúne Chicão e Ná Ozzetti. Depois, dia 29, é a vez de juntar Arrigo Barnabé e Negro Leo. No dia 20 de outubro é vez de Henri Daio e Juliana Perdigão e a temporada encerra com o encontro de Cida Moreira e Ava Rocha. Só lamento ser na terça-feira, que é bem um dos dias que faço os shows no Centro da Terra e não consigo ir… Os ingressos para o primeiro show já estão à venda.

Cerâmica transcendental

Surreal o concerto-instalação Mineral, que está passando pelo Sesc Vila Mariana nestas quinta e sexta depois de uma pequena turnê pelo interior de seu estado de origem, Minas Gerais. Concebido a partir de mais de duas décadas do trabalho do artista plástico e ceramista Máximo Soalheiro, o espetáculo consiste de um conjunto de mais de cem vasos de cerâmica tocados por oito músicos diferentes, que dividem-se entre criar texturas harmônicas e rítmicas a partir da vibração destes objetos, que conversam com outros instrumentos tocados por estes mesmos músicos: o diretor musical Pedro Durães dispara eletrônicos, enquanto Camila Rocha toca contrabaixo acústico, Davi Fonseca toca piano preparado, Juliana Perdigão traz sua clarineta, clarone e apitos, além de cantar, Kristoff Silva canta e toca escaleta e João Pedro Drummond e Yuri Vellasco percutem moringas – só Leandro César fica apenas com as cerâmicas. O som transcendental dos vasos percutidos coletivamente como um grande instrumento que toma conta de todo o palco, eleva o conjunto de músicos para um patamar quase surrealista, passeando por canções de Hermeto Pascoal, Santiago Vazquez, Björk, Dave Brubeck e Milton Nascimento,este último representado por um versão mágica para “Um Gosto de Sol”, que ainda contou com a interpretação maravilhosa da cantora Loreta Colucci, convidada desta apresentação. Ainda tem ingressos para o show de sexta, pode ir que é uma das melhores coisas que você assistirá num palco este ano.

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Hipnose guiada

Encabeçado por dois mestres do improviso da noite paulistana, a dupla Qmar pousou mais uma vez no Centro da Terra mostrando como a química musical entre Paula Rebellato e Cacá Amaral é um lento fogo contínuo que busca novas fronteiras sem exceder na intensidade, diferente dos trabalhos anteriores que os dois fizeram. O nível de conexão sonora pode até levar a picos de tensão de ruído, mas sempre dentro de uma mesma amplitude musical, mais interessada em ampliar sua área de atuação do que chocar pelos gritos, modulações eletrônicas ou microfonias elétricas. E mesmo que estes elementos façam parte da paleta artística da apresentação, eles nunca transbordam, o que fez a presença das madeiras da convidada da noite Juliana Perdigão, que participou do início e do final do espetáculo com seus clarinete e clarone, encaixando-se magicamente com o enlace musical de Cacá (entre a bateria e a guitarra) e Paula (entre os synths, vocais, eletrônicos e baixo) e provocando quase uma sessão de hipnose guiada no público. A luz sem cores de Karin Santa Rosa deixou esse encontro ainda mais implacável.

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Cabeça Dinossauro vivo!

Juliana Perdigão se propôs um senhor desafio – recriar o Cabeça Dinossauro dos Titãs em seu aniversário de 40 anos, materializado neste fim de semana no palco do Sesc 14 Bis. Reuniu um grupo de malucos pela música e pelo trabalho do ex-octeto paulistano que era um verdadeiro ataque aos sentidos. A banda formada por Alana Ananias (bateria), Mari Crestani (baixo), Moita Mattos e Vitor Wutzki (guitarras), Chicão (teclados) e Barulhista (eletrônicos) era encabeçada por Danislau (do Porcas Borboletas), Jonnata Doll, Sophia Chablau e a própria Juliana, que além dos vocais e de dirigir o show, batizado de Urro!, também desdobrava-se entre seus instrumentos de sopro. Tocada na ordem original do disco (como todo show em homenagem a um álbum deveria se prezar), a apresentação começou com a faixa-título abrindo a noite com um solo de bateria, que foi sendo incorporado lentamente pela banda até que os vocalistas entraram com os pedestais dos microfones erguidos como tacapes, repetindo o mantra agressivo da música de abertura que, sem pausas, foi emendada com a dadaísta “AA-UU”. Sem conversas com o público, o show seguiu emendando as músicas do disco, mantendo o clima austero e brutal e o recondicionando para 2026, com interferências de vanguarda que os Titãs não fizeram em 1986, mas que faziam parte de seu universo sonoro e artístico, como os solos de sola de sapato de Jonnata Doll antes de uma versão esticada para “A Face do Destruidor”, as interferências sonoras de Barulhista no início de “Polícia” ou “Família” deixar de ser um reggae. A movimentação do grupo no palco conversava diretamente com a performance da banda na época do disco (I was there…) e a luz forte de Olívia Munhoz – com o vermelho mais pesado que já vi num palco e o contraponto de cores intensas – inverteu o preto e branco da arte do disco para um universo visual gritante, que só aumentou a importância desta noite. E num Brasil em que ninguém lembra de “Bichos Escrotos” (não é bizarro isso?), esse show é urgente.

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Mergulho na poesia

Era o dia do aniversário de Gustavo Galo, mas quem ganhou o presente foi o público, quando ele reuniu sua nova banda Tudo a Ver – formada por quatro autores solo: Juliana Perdigão, Bruna Lucchesi, Vitor Wutzki e o próprio Galo – como segunda noite de sua temporada Um Bis no Abismo, que está fazendo nas segundas de junho no Centro da Terra. O grupo foi criado para aproximar os dois universos que seus integrantes habitam – o musical e o poético – e na apresentação desta segunda, convidou outros poetas para subir ao palco e ver seus poemas virar canções. Apesar de ser uma banda, a Tudo a Ver restringe-se a quatro guitarristas que também cantam, abrindo mão de linhas de baixo e de instrumentos percussivos. As únicas variações são o instrumento de Bruna que em vez da guitarra vai de violão elétrico e o fato de Juliana por vezes puxar seu clarinete em algumas canções, mas a formação simples também permite que os quatro trabalhem diferentes formatos como grupo, podendo seus autores mostrarem-se solo, em duetos, trios, quartetos e, finalmente, quintetos, ao chamar cada um dos convidados da noite por vez, para que cantar suas contribuições. E assim foram perambulando entre poemas de autores tão diferentes quanto Ledusha, Alice Ruiz, Rainer Maria Rilke e Renato Negrão e dos respectivos convidados, Marcelo Ariel, Angélica Freitas, Dimitri BR e Fabricio Corsaletti, cada um deles entrando por vez. A participação de Fabrício seria o encerramento do show, mas o início do público puxando bis transformou-se em um “Parabéns a Você” que obrigou Galo a improvisar um novo número, emendando dois hai-kais de Alice Ruiz como encerramento da noite.

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