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Hipnose guiada

Encabeçado por dois mestres do improviso da noite paulistana, a dupla Qmar pousou mais uma vez no Centro da Terra mostrando como a química musical entre Paula Rebellato e Cacá Amaral é um lento fogo contínuo que busca novas fronteiras sem exceder na intensidade, diferente dos trabalhos anteriores que os dois fizeram. O nível de conexão sonora pode até levar a picos de tensão de ruído, mas sempre dentro de uma mesma amplitude musical, mais interessada em ampliar sua área de atuação do que chocar pelos gritos, modulações eletrônicas ou microfonias elétricas. E mesmo que estes elementos façam parte da paleta artística da apresentação, eles nunca transbordam, o que fez a presença das madeiras da convidada da noite Juliana Perdigão, que participou do início e do final do espetáculo com seus clarinete e clarone, encaixando-se magicamente com o enlace musical de Cacá (entre a bateria e a guitarra) e Paula (entre os synths, vocais, eletrônicos e baixo) e provocando quase uma sessão de hipnose guiada no público. A luz sem cores de Karin Santa Rosa deixou esse encontro ainda mais implacável.

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Cabeça Dinossauro vivo!

Juliana Perdigão se propôs um senhor desafio – recriar o Cabeça Dinossauro dos Titãs em seu aniversário de 40 anos, materializado neste fim de semana no palco do Sesc 14 Bis. Reuniu um grupo de malucos pela música e pelo trabalho do ex-octeto paulistano que era um verdadeiro ataque aos sentidos. A banda formada por Alana Ananias (bateria), Mari Crestani (baixo), Moita Mattos e Vitor Wutzki (guitarras), Chicão (teclados) e Barulhista (eletrônicos) era encabeçada por Danislau (do Porcas Borboletas), Jonnata Doll, Sophia Chablau e a própria Juliana, que além dos vocais e de dirigir o show, batizado de Urro!, também desdobrava-se entre seus instrumentos de sopro. Tocada na ordem original do disco (como todo show em homenagem a um álbum deveria se prezar), a apresentação começou com a faixa-título abrindo a noite com um solo de bateria, que foi sendo incorporado lentamente pela banda até que os vocalistas entraram com os pedestais dos microfones erguidos como tacapes, repetindo o mantra agressivo da música de abertura que, sem pausas, foi emendada com a dadaísta “AA-UU”. Sem conversas com o público, o show seguiu emendando as músicas do disco, mantendo o clima austero e brutal e o recondicionando para 2026, com interferências de vanguarda que os Titãs não fizeram em 1986, mas que faziam parte de seu universo sonoro e artístico, como os solos de sola de sapato de Jonnata Doll antes de uma versão esticada para “A Face do Destruidor”, as interferências sonoras de Barulhista no início de “Polícia” ou “Família” deixar de ser um reggae. A movimentação do grupo no palco conversava diretamente com a performance da banda na época do disco (I was there…) e a luz forte de Olívia Munhoz – com o vermelho mais pesado que já vi num palco e o contraponto de cores intensas – inverteu o preto e branco da arte do disco para um universo visual gritante, que só aumentou a importância desta noite. E num Brasil em que ninguém lembra de “Bichos Escrotos” (não é bizarro isso?), esse show é urgente.

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Mergulho na poesia

Era o dia do aniversário de Gustavo Galo, mas quem ganhou o presente foi o público, quando ele reuniu sua nova banda Tudo a Ver – formada por quatro autores solo: Juliana Perdigão, Bruna Lucchesi, Vitor Wutzki e o próprio Galo – como segunda noite de sua temporada Um Bis no Abismo, que está fazendo nas segundas de junho no Centro da Terra. O grupo foi criado para aproximar os dois universos que seus integrantes habitam – o musical e o poético – e na apresentação desta segunda, convidou outros poetas para subir ao palco e ver seus poemas virar canções. Apesar de ser uma banda, a Tudo a Ver restringe-se a quatro guitarristas que também cantam, abrindo mão de linhas de baixo e de instrumentos percussivos. As únicas variações são o instrumento de Bruna que em vez da guitarra vai de violão elétrico e o fato de Juliana por vezes puxar seu clarinete em algumas canções, mas a formação simples também permite que os quatro trabalhem diferentes formatos como grupo, podendo seus autores mostrarem-se solo, em duetos, trios, quartetos e, finalmente, quintetos, ao chamar cada um dos convidados da noite por vez, para que cantar suas contribuições. E assim foram perambulando entre poemas de autores tão diferentes quanto Ledusha, Alice Ruiz, Rainer Maria Rilke e Renato Negrão e dos respectivos convidados, Marcelo Ariel, Angélica Freitas, Dimitri BR e Fabricio Corsaletti, cada um deles entrando por vez. A participação de Fabrício seria o encerramento do show, mas o início do público puxando bis transformou-se em um “Parabéns a Você” que obrigou Galo a improvisar um novo número, emendando dois hai-kais de Alice Ruiz como encerramento da noite.

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Ave Varda!

Fila pra pegar fila pra pegar senha pra pegar ingresso: era inevitável que o encontro de Juçara Marçal com a obra da fotógrafa e cineasta Agnès Varda no Instituto Moreira Salles iria causar uma procura gigantesca de curiosos querendo ver as conexões entre estas duas forças artísticas – e a cantora carioca reverenciou a diretora francesa, pioneira da nouvelle vague e falecida em 2019, como gesto final da exposição imperdível (que fica só até domingo, se liga) no próprio IMS, numa programação que o instituto chamou de “comentário musical”, numa esperta justificativa para contrapor autoras distintas – e semelhantes. A própria Juçara contou que teve um certo ceticismo quando recebeu o convite, mas ao mergulhar na obra de Varda, encontrou vários pontos em comum com a sua obra: a atenção ao cotidiano, o olhar voltado para o efêmero, a atenção para o oprimido e o ponto de vista aguçado sobre as conexões da África com o mundo moderno. Dividida em três partes, a apresentação começou com Juçara cantando “Poeira” (de Mariana Aydar e Nuno Ramos) e emendando-a com a sua “Odoyá” e com um ponto pra Oxum, antes de puxar duas canções de uma cantora negra francesa retratada por Vardas, Toto Bissainthe, de quem cantou “Papa Loko” e “Lamize Pa Dous”. Sempre acompanhada de seu compadre Kiko Dinucci na guitarra e da irmã Juliana Perdigão no sax e clarinete, que criavam ciclos musicais repetidos, deixando Juçara à vontade para disparar samples e soltar efeitos. Finda a primeira parte, foi exibido o curta A Ópera-Mouffe (1958) sem a participação dos músicos, que voltaram na parte em que Juçara conectou outra musa inspiradora – Brigitte Fountaine, artista tema de um espetáculo que ela faz com Kiko e a pianista Thais Nicodemo, que também trabalhou com Vardas. Nesta parte cantou o hit “Comme à La Radio” e outra chamada “Brigitte”, entremeando-as com a indefectível “Oi Cats”, do poeta carioca Tantão. E depois da exibição do documentário Os Panteras Negras (1968), ela arrematou a noite com uma sequência arrebatadora de canções brasileiras que cantam “estratégias de resistência” do povo afrodescendente no país, enfileirando uma versão absurda para “Negro Drama” dos Racionais (que ela já havia gravado com seu antigo grupo Vésper Vocal, no disco Ser Tão Paulista, em 2004), outra para “Vela no Breu” do Paulinho da Viola e arrebatando com “Batuque”, de Itamar Assumpção, que terminou com o escárnio do velho Ita à lei áurea assinada pela Princesa Isabel: “Papé!” Que noite!

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Agnès Varda via Juçara Marçal

Juçara Marçal e Agnès Varda num mesmo momento: me belisca porque parece que eu tô sonhando. São duas apresentações no IMS de São Paulo nos dias 7 e 8 de abril, quando a cantora mistura as canções próprias, de artistas brasileiros e do espetáculo que faz em homenagem a Brigitte Fontaine, além de outras de Toto Bissainthe, artista haitiana que morava em Paris e foi registrada pela cineasta e fotógrafa francesa, acompanhada por Kiko Dinucci e Juliana Perdigão, sobre a exibição dos curtas A Ópera-Mouffe (1958) e Os Panteras Negras (1968), da homenageada da noite, que ainda terá a exibição de fotografias dos filmes Salut les Cubains (1963), La Pointe Courte (1954) e Papa Bon Dieu (1958). As apresentações fazem parte da excelente mostra Fotografia Agnès Varda Cinema, que está sendo realizada no Instituto. A entrada para os shows é gratuita, com senhas distribuídas uma hora antes das apresentações (que começam às 19h30) e cada pessoa só pode retirar uma senha. Programaço!

Transcendência sonora

A simples reunião de Maurício Takara, Carla Boregas, Marcelo Cabral, Juliana Perdigão e Philip Somervell num mesmo palco já basta por si. Cinco dos principais improvisadores instrumentais da cena contemporânea paulistana, cujo amplo espectro de atuação sonora só é comparável aos saltos no escuro dados por eles mesmos em inúmeras situações ao vivo nos últimos anos, os cinco estiveram reunidos nesta terça-feira em mais uma das já tradicionais apresentações anuais da dupla Takara e Boregas no Centro da Terra, quando convidaram o contrabaixista, a clarinetista e o pianista para um transe de temas inéditos. Fora a primeira parte da noite, quando os dois anfitriões deram início à apresentação sozinhos, todo o resto do espetáculo Par Expandido foi sobre novos temas compostos pela dupla e experimentados pela primeira vez ao vivo ao lado dos três convidados. O êxtase estático que os cinco conduziam as atenções compenetradas do público até tiveram intervalos que suscitaram aplaudos entre determinadas passagens, mas por quase uma hora, o quinteto improvisado esticou o tempo em vastas paisagens de transcendência sonora, por vezes interrompidas por impulsos rítmicos ou circulando em sequências hipnóticas, numa noite à altura da reputação dos cinco. Magistral.

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M. Takara + Carla Boregas: Par Expandido

Nesta terça-feira recebemos mais uma vez no palco do Centro da Terra a dupla M. Takara e Carla Boregas, que tocam juntos desde 2018 e retornam ao teatro do Sumaré ampliando sua formação com participações especialíssimas. No espetáculo Par Expandido, os dois ampliam seu instrumental para além de eletrônicos e percussão, recebendo o contrabaixo de Marcelo Cabral, o clarinete e clarone de Juliana Perdigão e o piano de Philip Somervell para uma noite que vai do improviso à ambiência, percorrendo diferentes fronteiras da música e do ruído. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos já estão à venda pelo site do Centro da Terra.

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Transe torto

Impressionante – e com o dobro da duração habitual – a versão turbinada que o trio Tranca fez para sua apresentação nesta terça-feira no Centro da Terra. Ao contrário da meia hora de intervenções que Juliano Gentile, Bernardo Pacheco e Juliana Perdigão improvisam entre si – Berna e Gentile nas guitarras, Juliana com seu clarinete -, os três tiveram o auxílio visual do coletivo MeioLAB, que montrou retroprojetores em frente ao palco e, de costas para o público, controlavam duas telas circulares que faziam diferentes objetos e texturas circularem junto com os loops e riffs repetidos pelos três – ou quatro, quando contaram com a participação de Murilo Kushi, que, tocando um sanshin, uma espécie de banjo de três cordas da ilha de Okinawa, no Japão, dava uma camada de estranheza ainda mais densa ao encontro dos três timbres originais, obrigando o público a decifrar aquele transe torto com os dois lados do cérebro ou simplesmente desligá-lo por inteiro durante por toda a apresentação.

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Tranca: Trinta Tons de Tranca

Nesta terça-feira temos o prazer de receber no palco do Centro da Terra o trio Tranca, formado pela clarinetista Juliana Perdigão e pelos guitarristas Bernardo Pacheco e Juliano Gentile, que, no espetáculo batizado de Trinta Tons de Tranca, convidou o grupo audiovisual MeioLAB e o músico Murilo Kushi, que pilota um instrumento japonês chamado sanshi, para uma noite de improviso livre. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos estão à venda no site do Centro da Terra.

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Centro da Terra: Novembro de 2025

Novembro se avizinha e aos poucos vamos encerrando 2025 – e com o ano vamos encerrando mais uma safra de apresentações musicais no Centro da Terra, pois este é o último mês em que ocuparemos todas as segundas e terças do mesmo mês, já que dezembro temos menos datas para shows. Quem faz a última temporada do ano, batizada de Paisagens e Conexões, é o mestre percussionista Ari Colares, que reúne novos e velhos para noites em que coloca todo mundo em sua Canoa, cada semana com um time diferente de músicos, juntando nomes tão diferentes quanto Benjamim Taubkin, Lari Finocchiaro, Ricardo Zoyo, Lenna Bahule, Toninho Carrasqueira, Viviane Pinheiro , Vanille Goovaerts, Ricardo Herz, Ariane Rodrigues, Alexandre Ribeiro e Heloísa Fernandes, criando diferentes formações por apresentação. Na primeira terça-feira do mês (dia 4) quem segura a noite é o trio Tranca, formado por Juliana Perdigão, Bernardo Pacheco e Juliano Gentile, que convida o grupo audiovisual MeioLAB e o músico Murilo Kushi, tocando o instrumento japonês sanshi, para uma noite de improviso livre chamada de Trinta Tons de Tranca. Na segunda semana (dia 11), Felipe Vaqueiro apresenta Ensaios Diamantinos, em que mergulha no universo do garimpo da Chapada Diamantina, pela lente do ex-garimpeiro Leôncio Pereira, apresentação solo acústica que funciona como piloto do projeto Saga Diamantina, que se transformará em um álbum visual lançado por seu grupo Tangolo Mangos. A terceira terça-feira do mês (dia 18) fica por conta do guitarrista Caio Colasante, que apresenta o espetáculo Atropelado, em que mostra as canções solo que estarão em seu primeiro disco solo, ainda em construção, que exploram o cotidiano urbano e suas camadas entre a sátira, o romantismo e a introspecção, misturando referências tão distintas quanto King Krule, Stereolab, João Donato e Moreira da Silva. A programação do mês encerra-se com Preto no Branco, que a pianista Julia Toledo apresenta na última terça de novembro (dia 25) suas primeiras composições solo para além do repertório de sua banda anterior, o Trio Cordi, agora explorando os limites da canção com o improviso e a música erudita, amém do potencial de comunicação da palavra e do som. As apresentações começam pontualmente às 20h e os ingressos já estão à venda no site do Centro da Terra.