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A primeira vez no Bona

Por incrível que pareça, esta quarta marcou a primeira vez que o Metá Metá tocou no Bona. Integrantes da melhor banda do Brasil já haviam passado pelo palco da casa do Sumaré em outras formações, mas as duas apresentações que marcaram para esta semana foram as primeiras que Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França fizeram juntos naquele palco, espalhando o já conhecido e arrojado feitiço musical forjado em São Paulo – embora nenhum de seus integrantes seja paulistano – para os ouvidos atentos que foram ouvi-los no meio desta última semana de janeiro. O repertório é o mesmo que apresentam há anos, juntando músicas de seus três álbuns com versões para canções de Jards Macalé, Maurício Pereira, Siba Veloso, Douglas Germano e Itamar Assumpção – que deixaram para tocar no bis, com a assertiva “Tristeza Não” -, sempre deixando violão, sax e vozes ganhar corpo próprio e dominar todos os presentes. Sempre aquele descarrego energético feito pra gente voltar leve pra casa.

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Reverenciando Itamar no aniversário de São Paulo

Foi um dia antes do aniversário da cidade, mas deu pra lavar a alma da pequena multidão que se aglomerou debaixo do vão do Masp no sábado para assistir a Suzana Salles, Juçara Marçal e Kiko Dinucci iapresentar o espetáculo que fazem há anos ao redor do repertório de Itamar Assumpção. Especial ouvir “Sampa Midnight” ao lado do Trianon e sob o vão do museu citados na música, mas mais forte ainda perceber o quanto a obra de Itamar vai cada vez mais perdendo a aura equivocada de maldito para assumir seu lugar como arcano maior da sensação de paulistanidade evocada naquele encontro, reunindo três ícones da música da cidade. Para ganhar a estatura exata, o show no entanto precisaria estar num palco alguns metros mais alto (apenas cem centímetros já melhoraria bastante a experiência) e com o som poucos decibéis acima. Mas mesmo esses pequenos revezes ampliavam a presença da cidade ao redor – a conversa das pessoas, o som do trânsito, o barulho das árvores, a fina garoa que insistia cair em pleno verão -, o que não chegou a comprometer um sensacional sábado à tarde. E ouvir Juçara e Suzana conduzindo os vocais do público para entoar “Nega Música” com o violão de Kiko como único acompanhamento instrumental foi maravilhoso…

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Saudando Xangô numa sala de concertos

É muito bom quando a música transpõe barreiras que muitos consideram pétreas, demolindo paredes imaginárias para mostrar que tudo é música, tudo é som. É o que tem acontecido com frequência na Sala São Paulo, quando a clássica sala de concertos paulistana abre espaço para músicos de diferentes frentes da música popular, transformando a imponência e austeridade da sala, quase sempre associadas à música erudita, em celebrações que passam longe da afetação típica dos concertos. A série Encontros Históricos é um dos melhores exemplos disso e só esse ano a São Paulo Big Band recebeu encontros inacreditáveis entre Gabriel Sater e Sá & Guarabyra, Ivan Lins e Gustavo Spínola, João Bosco e Adriana Moreira, Rosa Passos e Vanessa Moreno, Péricles e Arlindinho, entre outros, encerrando sua temporada 2025 neste sábado ao trazer Marcelo D2 e Juçara Marçal juntos para aquele mesmo palco. A Big Band deu a tônica da noite ao começar com um arranjo uma versão instrumental para “Se Não Fosse o Samba”, do Bezerra da Silva, antes de chamar os convidados para o palco. D2 e Juçara dividiram vocais em algumas músicas (a maioria da carreira solo de Marcelo, como “Kalundu”, “Povo de Fé”, “Tempo de Opinião” – que tem a participação do Metá Metá, grupo que Juçara faz parte), mas a maior parte da apresentação foi composta de músicas isoladas de cada um deles com a Big Band. Juçara cantou “Vi de Relance a Coroa” de seu Delta Estácio Blues, “Ladeira” que gravou com o Sambas do Absurdo, “Jardim Japão” de Rodrigo Campos e “Orunmilá” e “São Jorge”, clássicos do Metá Metá, enquanto D2 cantou “Tô Voltando”, “Fonte Que Eu Bebo” (quando quebrou o protocolo e desceu para a plateia, para dançar com sua esposa, Luiza Machado), “Até Clarear”, “Maldição do Samba” e, pegando todos de surpresa, “Mantenha o Respeito” do Planet Hemp. Mas apesar da boa intenção, o resultado foi apenas protocolar, com a Big Band trabalhando com arranjos comportados e sem aproveitar a química musical que o encontro parecia pedir, com os pés na roda de samba, no terreiro e na periferia que poderiam abrir possibilidades jazzísticas ousadas. Mas apesar disso não ter acontecido, foi uma noite feliz e os dois encerraram cantando juntos mais uma música do Metá Metá, fazendo a saudação a Xangô de “Obá Iná” ecoar pelas paredes da quase centenária estação Júlio Prestes, transformada em sala de concertos há um quarto de século.

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Transcendendo entre o orgânico e o sintético

Maravilhoso o encontro entre Juçara Marçal e Thais Nicodemo que aconteceu nesta terça-feira no Centro da Terra. De frente uma pra outra, elas vinham em suas estações sonoras díspares: Juçara, além de cantar, soltava samples inusitados (sobrou até pro Hermeto!) e criava texturas eletrônicas estranhas, enquanto Thais, passeando por seu piano preparado, dava ao instrumento acústico timbres improváveis e tortos, além de ela mesma também cantar. Foi assim que atravessaram mais de uma hora no palco com seu espetáculo A Gente Se F* Bem Pra Caramba, usando canções para criar cápsulas de tempo para seguir o roteiro de cada música e desvirtuá-lo no percurso. Assim, a dupla abriu começou a noite com uma música da própria Juçara (“De Reis”, que ela escreveu para a peça Avenida Paulista, de Felipe Hirsch) e seguiu com músicas do Clima (“Isso É o Que Se Diz Irmão” em parceria com Guilherme Held, “Não Reparem”, esta com Juçara, e “Eu Não Duro” de seu primeiro disco solo), Rodrigo Campos (“Cavaquinho” e “Japonego”, outra parceria com Juçara), Brigitte Fontaine (“Il Se Passe des Choses”), Maria Beraldo (“Maria”), Manu Maltez (“Gasolina Cabaré”), Kau (“Merecedores”), Negro Leo (“Eu Lacrei”) e Kiko Dinucci (“Quem Te Come” e a música que dá título ao show, que encerrou a primeira parte da noite com o público sussurrando o mantra do refrão), além de “Hermética”, de Ava Rocha, que funciona como um bom exemplo da transposição da escritura original rumo à transcendência sonora criada a partir do atrito entre sons orgânicos e sintéticos. Um arraso musical que ainda pode contar com o chiaroscuro da luz de Olívia Munhoz como alicerce cênico.

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Juçara Marçal + Thais Nicodemo: A Gente Se F* Bem Pra Caramba

Satisfação poder receber o encontro de Juçara Marçal e Thais Nicodemo no palco do Centro da Terra nessa sexta-feira, quando unem forças musicais – Juçara com sua voz, synth e sampler, Thais no piano preparado – para passear por canções contemporâneas de autores como Eduardo Climachauska, Rodrigo Campos, Maria Beraldo, Brigitte Fontaine, Negro Leo, Kiko Dinucci, entre outros. No espetáculo A Gente Se F* Bem Pra Caramba elas ao mesmo tempo em que exploram o encontro dos timbres acústicos e eletrôncos que dominam, entre a canção e o improviso livre. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos já estão à venda no site do Centro da Terra.

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Hipnose coletiva

Uma viagem sem sair do lugar. Em uma hora cravada de som, Luciano Valério – apresentando-se como MNTH -, Juçara Marçal e Douglas Leal – com o codinome Yantra – levaram o público do Centro da Terra nesta segunda-feira a uma outra dimensão de sensibilidade, trazendo diferentes sentimentos e sensações sem precisar movimentar centímetros no palco. Cada um em seu canto, Juçara com sua voz transcendental e seus apetrechos de luxo, Valério com o synth em camadas de texturas e Douglas trocando flautas e batendo percussão criaram uma longa faixa de hipnose coletiva coberta pelas luzes bruxuleantes que Mau Schramm criava sobre os três, trabalhando tonalidades e sombras enquanto esculpia seu lazer pela lateral do palco a partir da fumaça que lentamente tomava a apresentação, mais uma noite incrível proporcionada pela maturidade do selo Desmonta, que está ocupando as segundas de outubro no teatro. Foi de arrepiar.

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Abrindo os trabalhos

Fui na abertura do novo espaço da Casa de Francisca nesta quinta-feira, desbravado naturalmente por dois veteranos do lugar que conheciam tão bem a primeira versão da Casa, ainda nos Jardins, quanto já frequentaram em inúmeras formações os atuais dois palcos do Palacete Tereza, no Centro. Como de praxe, o próprio Rubens Amatto, que idealizou e realizou esse sonho forte, foi quem abriu os trabalhos recepcionando os 44 presentes (mesmo número de lugares do velho endereço) no novíssimo terceiro palco do lugar, orgulhoso não apenas de estar ampliando sua visão como de ter dois camaradas pra começar essa nova fase. E por mais que Juçara Marçal e Kiko Dinucci sejam familiares do lugar e tenham optado por seu tradicional show de vozes e violão baseado no histórico álbum-encontro Padê de 2008, os dois passearam por outras canções de seu repertório comum até incluir novas versões, como o samba-enredo “Paulistano da Glória” de Geraldo Filme e a pesada “Batuque” de Itamar Assumpção. E por mais que o novo espaço seja intimista e acolhedor, os dois não tiveram problema em ultrapassar os decibéis possíveis, seja com a bateria embutida no violão de Kiko ou nos limites inalcançáveis da voz de Juçara. A Sala B é outra experiência da Casa e mesmo com outro show bombando no salão principal, ela manteve-se inabalável em seu intimismo.

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Desmonta: 18 Anos

Satisfação começar o mês de outubro no Centro da Terra com a temporada que celebra a maioridade da produtora e selo Desmonta, comandada pelo herói de Guarulhos Luciano Valério, que lança discos e realiza shows de artistas e estrangeiros que exploram as fronteiras sônicas possíveis e que povoa as segundas deste mês com parte de seu elenco. Nesta primeira segunda, ele reúne o percussionista e baterista dos Deaf Kids, Sarine, em um transe experimental com as luzes de Giorgia Tollani. Na outra segunda, dia 13, o anfitrião é Kiko Dinucci, que explora novas texturas em seu violão – e outros instrumentos que podem vir no percurso – em busca de novas sonoridades para seus próximos trabalhos. Na terceira semana assistiremos ao encontro do próprio autor da temporada em seu projeto MNTH ao lado de Juçara Marçal e Douglas Leal, dos Deaf Kids (que apresenta-se como Yantra) e as luzes de Mau Schramm. O final da temporada vem com a presença massiva do grupo fluminense Crizin da Z.O., mais uma vez testando os limites do ruído. Os espetáculos começam pontualmente às 20h e os ingressos já estão à venda no site do Centro da Terra.

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Mais um espaço de shows na Casa de Francisca

Quem mora em São Paulo sabe do luxo que é ter a Casa de Francisca em nossas vidas, mas vamos precisar de uma senhora distância histórica para medir a importância da antiga menor casa de shows de São Paulo e seu impacto na vida cultural da cidade e do Brasil. Quem acompanha o heróico trabalho de Rubens Amatto sabe o quanto ele se entrega à sua meta de tornar música e cultura cada vez mais parte de nossas vidas e sua recente mas intensa mudança para o atual Palacete Tereza, a um quarteirão da Sé (que inclui a incrível sobrevivência às trevas da pandemia e a nova fase da Casa, que abriu um porão para shows e festas e as portas para a rua para discotecagens ao ar livre), é só mais um capítulo de uma longa jornada que ano que vem completa 20 anos. Atualmente como uma média de 600 shows por ano, inaugura mais um palco, desta vez tão pequeno e intimista quanto a primeira versão da Casa, nos Jardins, exatamente com o mesmo número de lugares, 44. A Sala B começa a funcionar nessa semana, sempre às terças e quartas, e abre com Juçara Marçal e Kiko Dinucci (dias 7 e 8 de outubro), Douglas Germano (tocando um dos melhores discos do ano, o excelente Branco, dias 14 e 15), Arrigo Barnabé (21 e 22) e Alaíde Costa (cantando outro grande disco do ano, seu Uma Estrela para Dalva, dias 4 e 5 de novembro) e mostra que crescer não é sinônimo de quantidade, citando o “que na poesia José Paulo Paes chamou de ‘menorme'”. Os ingressos já estão à venda no site da Casa.

Centro da Terra: Outubro de 2025

Outubro já começou e a programação de música do Centro da Terra neste mês vem pesada! Começamos com a celebração da maioridade de uma das mais ousadas produtoras musicais brasileiras em cena, a Desmonta, que comanda por mais um herói de Guarulhos, o sagaz Luciano Valério, lança discos e realiza shows de artistas brasileiros que desafiam as fronteiras do som, além de trazer grandes nomes da exploração sônica para o Brasil. Durante as segundas de outubro, assistiremos a quatro apresentações intensas pautadas pelo selo, que reforçam a característica coletiva e de resistência cultural que lhe é característica. A primeira segunda-feira (dia 6) reúne o multiinstrumentista Sarine (que toca bateria nos Deaf Kids) à iluminadora Giorgia Tollani para, na segunda seguinte (13) trazer Kiko Dinucci experimentando sozinho novas sonoridades. Na terceira segunda do mês (20), o próprio Valério traz seu projeto MNTH ao lado do vocalista e guitarrista dos Deaf Kids, Douglas Leal, que solo apresenta-se como Yantra, da magnífica Juçara Marçal e das luzes chapantes de Mau Schramm. A temporada Desmonta 18 encerra no dia 27 com uma apresentação pesada do Crizin da Z.O. Nas terças-feiras, as apresentações começam no dia 7, com o compositor e multiinstrumentista mineiro Clóvis Cosmo abrindo a cortina para seu universo fantástico que se localiza num triângulo mineiro devastado pelo agroapocalipse num espetáculo batizado de Do Prognejo ao Vastopasto. Na segunda terça do mês (dia 14) é a vez da banda Repentina, formada a partir do encontro de Rafael Castro com Juliana Calderón, quando os dois fundiram suas carreiras solo num novo trabalho, que volta agora depois de um longo hiato com formação que inclui Ga Setúbal e Gongom numa noite chamada de Música de Amor. Na terça seguinte (21) é a vez de Juçara Marçal e Thais Nicodemo mostrarem seu encontro desafiador – Juçara cantando e soltando efeitos e Thais em seu piano preparado – no espetáculo A Gente Se F* Bem Pra Caramba. A última terça do mês (28) recebe o Duo Zimbado – formado pela vocalista e vibrafonista Marina Kono e pela pianista Amanda Camargo – que traz um repertório autoral entre o jazz brasileiro, a MPB e o samba-canção no espetáculo Zimbadoguê. As apresentações começam pontualmente às 20h e os ingressos já estão à venda no site do Centro da Terra.