
Na minha coluna no Link desta semana falei sobre o tal Google Glass – agora apenas Glass – que saiu da fase 1 na semana passada.

Os novos óculos do Google e um futuro sem usar as mãos
Glass responde a instruções de voz
Quando, no meio de 2012, Sergey Brin apareceu usando um estranho par de óculos com uma pequena telinha transparente no lugar de uma das lentes, a surpresa foi geral. Mostrado em uma convenção cujo público era formado por desenvolvedores, o Google Glass causou uma pequena comoção entre os presentes e, principalmente, um estranhamento geral da maioria das pessoas que não é do mundo da tecnologia. Essa reação se dividia entre ceticismo e a sensação de estar vendo algo mais próximo da ficção científica.
Afinal, são óculos que permitem adicionar uma camada digital ao mundo analógico. É uma extensão drástica do conceito de realidade aumentada, aquela que, através da câmera de seu celular, identifica o que está ao redor para acrescentar informações àquilo que se vê. Olhe para uma rua e a realidade aumentada identifica o que há em cada prédio.
O Google Glass iria além, porque não apenas reuniria informações do que se vê, mas também funciona como câmera, dispositivo de acesso à internet e canal de comunicação. Acionado apenas pela voz, ele faria a maioria das coisas que seu celular pode fazer hoje, mas sem que seja preciso manuseá-lo.
Eis que semana passada os óculos voltaram a aparecer. Agora se chamam apenas Glass e no site google.com/glass seu funcionamento é detalhado com ênfase nas atividades cotidianas. A empresa já mira no público final e não mais nos desenvolvedores. E reuniu diferentes atividades em vídeo para mostrar como seria fácil utilizá-los. Basta falar “Ok, Glass” e o aparelho está pronto para obedecer a diferentes comandos: “Filme isto”, “tire uma foto e mande para esses amigos” ou “mostre o melhor caminho para chegar num determinado lugar”.
Parece que o Google está pronto para partir para uma etapa ainda mais distante. Mas o Glass é apenas o ponto final de convergência de uma série de recursos que a empresa vem mudando em sua organização interna. O Google Plus aos poucos interligou os diferentes serviços da empresa, que aproveitou para unificar suas ramificações e deixar tudo com uma cara mais parecida e conversando melhor entre si.
Isso inclui mudanças de interface no YouTube, no Gmail, no Google Docs (que virou Drive), no Google Calendar, no Android Market (que virou Google Play), no Google Maps, entre outros serviços, inclusive em suas buscas. E também a aproximação entre os ambientes digitais no desktop, celular e tablet. Tudo isso converge para o Google Now, um assistente pessoal que interliga todo o ecossistema digital da empresa. Só faltava fazer as pessoas não terem de colocar as mãos num teclado, os dedos numa tela, encher bolsos e bolsas com máquinas que, por mais finas e leves, ainda pesam.
É aí que está o Glass: um aparelho que funciona como um celular ativado por voz mas que não precisa ser carregado nem funciona como uma tela que nos distrai da realidade ao redor. Não que o Google vá abandonar celulares, computadores e desktop de uma hora para outra – vide o recém apresentado Chromebook Pixel, um laptop que será lançado em abril. Se a transição dos desktops e laptops para tablets e celulares ainda está em andamento, a mudança que nos leva até os óculos do Google deve durar ainda um bom tempo.
E não pense que isso é exclusividade do Google. Na semana passada, segundo o site Mashable, a Apple teria registrado a patente de um relógio de pulso que pode funcionar como um iPhone – já o chamam de iWatch.
O futuro sem computador está em andamento, graças à era da internet móvel e dos smartphones. O Google nos convida para um futuro em que nem precisamos utilizar as mãos para interagir com novos aparelhos. E, como já escrevi em outra coluna, não custa lembrar que o projeto original do Google Glass era uma lente de contato. O que quer dizer que o futuro desses aparelhos também pode ser o início da era em que homem e máquina começam a se fundir de fato.

Música como assunto na capa da Galileu é mais uma das mudanças que estamos engrenando na publicação. Entre as outras novidades do mês, vale ressaltar a parceria com o evento Fronteiras do Pensamento, a estreia do boletim do título na rádio CBN (no primeiro domingo de março, dentro do Revista CBN), o lançamento das colunas de toda a redação e um novo funcionamento das redes sociais. A revista de capa amarela que chega às bancas neste fim de semana, além do tema música livre em uma matéria escrita pelo Ronaldo, traz o Dossiê sobre o cenário das startups brasileiras, a força da indústria do álcool frente aos governos do mundo todo, guloseimas criadas em laboratório, um salmão transgênico, a geração de filhos únicos na China, como muda o museu com o século 21 e um ranking de celebridades brasileiras medido por aparições publicitárias na TV. Abaixo, a carta ao leitor que abre a revista, em que conto um pouco dos bastidores do fechamento desta edição.

NA CASA DA TULIPA: O diretor de arte Fábio Dias aproveitou a sessão que a fotógrafa Camila Fontana fez com a cantora para tirar a foto acima
Antes do Carnaval, reunimos toda a equipe GALILEU para uma foto. Ao lado da fotógrafa Camila Fontana, o diretor de arte Fábio Dias fazia as vezes de diretor de cena, reposicionando um, ajeitando a roupa de outro, pedindo para alguém levantar ou abaixar o rosto. Era a foto que ilustra as novidades desta edição. Mas para Fábio e Camila era só o finzinho do trabalho para nossa capa do mês.
Durante uma semana, eles foram aos quartéis-generais dos principais personagens de uma matéria que, embora seja protagonizada por artistas, fala de tecnologia e economia — e não apenas de cultura. Visitaram alguns dos nomes mais importantes desta nova cartografia musical brasileira, que vem reinventando o diálogo entre ídolo e fã, mercado e consumidores, gravadoras e ouvintes. E, no percurso, Fábio começou a pegar o espírito da pauta. Não só para saber como ficariam as fotos na matéria, mas para imaginar o conjunto das páginas e, inevitavelmente, a imagem da capa.
Eu havia pensado em pôr os artistas na própria capa — havia inclusive cogitado a possibilidade de juntarmos todos para tentarmos uma homenagem ao quadro Operários, de Tarsila do Amaral, pelo fato de esta ser uma geração que põe a mão na massa. Testamos algumas opções, mas o repórter Ronaldo Evangelista, autor da matéria, me mandou o recém-lançado clipe da banda mineira Graveola e o Lixo Polifônico, que recria o quadro de 1933 como um Sgt. Pepper’s, o clássico disco dos Beatles, à brasileira.
Partimos para uma nova opção e começamos a pensar em um objeto para ilustrar o tema — um rádio, um disco, um instrumento… E ao chegarmos ao fone de ouvido, Fábio veio com um trocadilho visual, usando o arco do assessório como a haste curva de um cadeado, mostrando que a música agora está livre — de suportes, de um modelo único, de formatos preestabelecidos. A princípio a imagem era um ícone, essencialmente gráfico, que acabou evoluindo para a ilustração de Marcus Penna, o Japs, que está nesta capa.
Corta para o sétimo andar do prédio da editora, onde nos reunimos para a foto da equipe, e vendo Fábio dirigir a fotografia, posto uma foto desta cena online. Seus amigos aos poucos comentam a imagem, usando frases típicas do gaúcho: “Tchê, sei não…”, “Não sei se gosto…”, “Que tu acha?”. Frases que traduzem sua já clássica inquietação em relação à qualidade visual da revista — que vai da ilustração às fotos e ao design das páginas —, rumo à tal mudança em câmera lenta que estamos empreendendo neste 2013. Ela está por toda a revista, mas detalhamos algumas delas mais pontualmente em nosso Ecossistema (págs. 10 e 11). Vamos lá!
Alexandre Matias
Diretor de Redação
matias@edglobo.com.br

Minha coluna desta semana no Link relaciona a renúncia do papa à recente discussão sobre o vazio cultural brasileiro deste século.

A nova cultura brasileira é produzida na internet
O novo Tom Jobim não vai sair do trio elétrico
Eu havia acabado de reabastecer meu copo de caju amigo quando me conectei à internet. Era segunda de carnaval e estava longe da rede, num canto do litoral paulista em que o celular só pega na praia. Estava pronto para fotografar uma rara manhã de sol deste verão quando a notícia chegou, nem lembro se por Twitter, Facebook, e-mail ou Instagram.
Em poucos minutos, todos estes ambientes falavam do mesmo assunto: o papa tinha renunciado. Comentei com a minha mulher e sua primeira pergunta foi a mesma que tive: “E pode?”. Li algumas manchetes para ela, conversamos preguiçosamente sobre o tema e voltamos a lagartear sob o sol.
Só quando voltei do feriado me deparei com a avalanche de piadas, paródias, remixes, mashups, montagens, memes e todo tipo de gracinha que a internet nos premia diariamente. Segundo o site Know Your Meme, melhor catálogo dessas manifestações, a primeira piada visual sobre a renúncia do papa foi uma foto de Bento XVI acompanhada da legenda: “Escolhido por Deus. Desiste”.
Mas em pouco tempo as piadas saíam do âmbito religioso, político e sexual (afinal é inevitável associar a notícia aos casos pedofilia envolvendo integrantes da igreja), até chegar ao puro nonsense típico deste humor da internet.
Entre as brincadeiras, estavam os inevitáveis mashups de outros memes. O cartaz de Keep Calm & Carry On virou Keep Calm & Resign. O “Hope” – esperança, em inglês – com a cara de Barack Obama foi substituído por “Pope” – papa – ou “Flop” – fracasso, – com a cara de Joseph Ratzinger.
Outra piada aproveitava a semelhança física do papa com o Imperador da trilogia original de Guerra nas Estrelas para rir de uma “coincidência” entre a renúncia e o anúncio sobre os três novos filmes da grife de George Lucas. Já o usuário do Twitter Six Form Poet escreveu: “o papa dificilmente é a primeira pessoa a perder o interesse em seu trabalho depois que entrou no Twitter”.
Como milhões todos os dias, me inteiro das novidades da sucessão papal entre posts no Facebook, imagens que amigos me mandam por e-mail ou links no YouTube, ao mesmo tempo em que rio das piadas. São uma válvula de escape para a enxurrada de notícias a que somos submetidos diariamente e que logo deixam de ser novidade.
No começo essas apropriações humorísticas eram tímidas e aconteciam aos poucos. Mas, à medida se multiplicam, começam a se cruzar, a se autorreferir, a brincar umas com as outras. Quase todo mundo que está online percebeu que piadas e brincadeiras com notícias e modinhas foram se sobrepondo depois que Facebook e Twitter se firmaram como as principais forças sociais na internet.
A novidade é que isso não é simplesmente um monte de piadinha trocada por alguns conhecidos que, graças à internet, ganharam projeção global. É a produção cultural atual. Na semana passada, uma série de artigos, matérias e entrevistas questionou uma dita parca produção cultural brasileira, que no século 21 estaria rodando em parafuso. Os exemplos citados quase sempre esbarravam na música – artistas como Michel Teló e Gusttavo Lima.
Nem quero entrar no mérito da qualidade ou do bom gosto (réguas beeeem subjetivas), mas é sério que estão esperando encontrar o novo Tom Jobim em um trio elétrico? Ou que o novo Glauber Rocha saia de um best-seller bancado pela Petrobrás?
As cabeças que questionam a ausência do novo sofrem da síndrome de nostalgia ilustrada por Woody Allen na sua fábula Meia-Noite em Paris. Elas se irritam quando ligam o rádio, mas não buscam artistas novos e muitas vezes não sabem nem baixar MP3. E caçam novidades em livros, discos, filmes e peças de teatro quando é provável que elas não venham empacotadas nestes formatos.
O exemplo das piadas produzidas após a renúncia do papa é apenas um. Toda semana tem outros tantos. E o Brasil é uma potência nesse sentido. Só não vê quem não quer.

E na minha coluna de segunda-feira no Link, falei sobre o lançamento do disco novo do My Bloody Valentine (que saiu sem o “y” no título da versão impressa, como dá pra ver abaixo):

Duas décadas depois, um novo disco do My Bloody Valentine
Anúncio derrubou o site oficial da banda
Fevereiro de 2013 mal tinha começado quando surgiu uma notícia inesperada: o grupo inglês My Bloody Valentine finalmente lançou seu novo álbum. A notícia já seria motivo de espanto, afinal o MBV é um dos grupos mais míticos da Inglaterra nos anos 90 e tinha a fama de demorar para lançar novo material devido ao perfeccionismo de seu líder e fundador, o guitarrista e produtor Kevin Shields.
Construindo paredes de barulho com camadas e camadas de microfonia de guitarra, o som do My Bloody Valentine é carregado de uma inusitada doçura, que vem das melodias sussurradas por vocais melancólicos e pelos timbres das mesmas guitarras distorcidas. Loveless, de 1991, sua obra-prima, foi um dos últimos suspiros da existência da banda.
Eles realmente tinham todo tempo do mundo. Shields juntou-se ao grupo Primal Scream para shows em 2004 (inclusive com passagem pelo Rio de Janeiro e por São Paulo, naquele ano) e três anos depois ressuscitou o My Bloody Valentine para shows esporádicos, sempre com músicas tocadas num volume tão extremo que eram distribuídos protetores auriculares na entrada. Em 2008, os dois principais álbuns da banda, Isn’t Anything e Loveless, foram relançados em edições luxuosas. No ano passado foi a vez dos EPs serem reunidos em uma edição caprichada.
A reintrodução do My Bloody Valentine ao cenário musical foi tão gradual que, aos poucos, o lançamento de um disco virava uma nota de rodapé engraçadinha sobre a nova fase da banda.
Até que, no fim de 2012, começaram a aparecer notícias que o disco já estava gravado e seria lançado logo. Kevin Shields, em entrevista, disse que sairia até o fim do ano, mas devido ao histórico de atrasos, o anúncio foi visto com bastante descrença. Na véspera do Natal, o grupo anunciou em sua página do Facebook que o disco sairia em breve. Em um show no fim de janeiro, o primeiro desde 2009, o My Bloody Valentine tocou uma música inédita, batizada informalmente de “rough song” (canção crua, em inglês). Os indícios ficavam mais fortes. Mas o que ninguém esperava aconteceu uma semana depois: o grupo lançou seu novo disco, mais de 20 anos depois de Loveless.
Chamado apenas de MBV (as iniciais da banda e como os fãs se referem ao grupo), o novo disco de capa azul surgiu em 2 de fevereiro também numa mensagem via Facebook. A notícia apontava para o recém-inaugurado mybloodyvalentine.org, que trazia diferentes opções para comprar o disco: em vinil, CD e download em pacotes e formatos variados. A notícia espalhou-se e em questão de minutos o site saiu do ar – tanto fãs quanto curiosos ficaram se perguntando nas redes sociais onde é que dava para ouvir o disco novo. O site voltou a funcionar na madrugada do domingo e versões gratuitas do disco começaram a aparecer em sites de download. O próprio grupo cedeu à audição gratuita e colocou todo o seu disco no YouTube, um vídeo para cada faixa.
Artisticamente, MBV pode ser dividido em duas partes: no “lado A”, repete-se a fórmula de duas décadas atrás; no “lado B”, o grupo mostra seu lado mais ousado, experimental, burilando texturas e percussão. Mas isso é o que menos importa. O importante é que, como o Radiohead fez ao lançar o disco In Rainbows gratuitamente em 2007, o My Bloody Valentine quebra um paradigma crucial na era digital.
O lançamento de MBV, no entanto, não é o segundo exemplo desta série. No mês passado, ninguém menos que David Bowie anunciou um novo disco com um clipe no Vimeo de uma música, sua primeira inédita em uma década. O feito do grupo de Kevin Shields chama atenção por dois motivos: o fim de uma espera gigantesca e o fato de não terem lançado seu disco com uma gravadora, fazendo-o por conta própria.
A tendência é que essas exceções tornem-se regra – e o imediatismo da era digital venha a se sobrepor de vez às etapas do processo de produção industrial a que ainda estamos acostumados.

E por falar em Campus Party, escrevi justamente sobre a boa edição deste ano, que terminou na semana passada, na edição do Link desta segunda-feira:

Sem celebridades, a melhor edição da Campus Party
Evento se adaptou às mudanças tecnológicas
Acompanho a Campus Party desde sua criação. Em 2008, a banda larga não era tão disseminada. Lembro de matérias da época sobre gente que ainda usava conexão discada em São Paulo porque a internet rápida não estava disponível em seu bairro. Portanto fazia sentido um evento em que a conexão veloz fosse a grande atração. Mas a Lei de Moore – aquela que comenta a progressão geométrica da evolução da tecnologia – já antevia que a velocidade deixaria de ser um atrativo em poucos anos e eu já me perguntava o que a Campus Party poderia oferecer no futuro.
A primeira edição aconteceu no Pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera, no coração de São Paulo. Um evento em que as pessoas levam seus computadores para passar dias acampados jogando videogame e compartilhando conteúdo naturalmente geraria curiosidade. Assim, a primeira edição funcionou como um cartão de visitas daquele novo universo digital para toda a cidade.
Foi a única que aconteceu ali. As três edições seguintes foram para o Centro de Exposição Imigrantes. Numa região afastada do centro e do metrô, as Campus Party de 2009, 2010 e 2011 aconteceram longe do olhar da cidade. E ali o evento cresceu de forma atrapalhada, com filas e problemas de infraestrutura, segurança, temperatura e barulho.
O público, contudo, relevava. Para os participantes, a Campus Party era um acampamento de verão sem os perrengues e com conexão 24 horas. Tudo bem que não dava para ouvir os debates ou que houvesse uma goteira. O importante era estar conectado.
Neste tempo, o mundo fora da Campus Party mudou. As conexões domésticas melhoraram e hoje baixa-se um filme em menos tempo do que o tempo para assisti-lo, algo considerado incrível na época do primeiro evento. Ao mesmo tempo houve a expansão do Facebook e a popularização dos smartphones, que aceleraram a aproximação de muito mais gente para o digital. Ao completar cinco anos, a Campus Party não parecia mais um evento feito para um nicho de tarados por downloads.
Se a conexão rápida aos poucos deixava de ser um atrativo, coube ao evento repensar no que poderia substituí-la – e por anos assistimos a um desfile de celebridades do universo digital. Nomes como Tim Berners-Lee e Steve Wozniak garantiram uma audiência considerável, mas apostar em nomes famosos também poderia ser um beco sem saída. Afinal, não são muitas as celebridades neste universo e os maiores nomes, como Mark Zuckerberg e Bill Gates, são executivos com agendas lotadas.
Em 2012 o evento mudou para um lugar de acesso fácil, o Parque Anhembi, e algumas questões pareciam ter sido resolvidas. As atrações não eram tão famosas assim: o físico Michio Kaku e o jornalista e matemático Alex Bellos, executivos da empresa do Angry Birds e integrantes do Occupy Wall Street. Mas aos poucos profissionais entenderam que o encontro também era um bom lugar para procurar novos talentos.
Chegamos a 2013 e a edição da semana passada foi, sem dúvida, a melhor da história. Os erros serviram como aprendizado e os palcos foram colocados no centro do pavilhão, causando menos barulho. Com este desafogamento, foi possível abrir mais espaço para quem trouxesse seu computador e, ao dissipar estas pequenas multidões, o ruído diminuiu. O aspecto comercial do evento chegou a um consenso à medida que novas startups e grandes empresas começaram a dialogar entre si usando a Campus Party como ponto de partida. Os convidados desta edição não tinham o peso da fama dos anos anteriores e sua importância não ofuscava o resto das atrações.
É possível que a Campus Party tenha, enfim, chegado à maturidade e entendido sua vocação. Pode ser, por outro lado, que esteja surfando na onda das startups, e que, uma vez que esta onda passe, pode ter de repensar seu rumo. Mas o fato é que houve mais acertos que erros – e isso é digno de parabéns.
Conversei na semana passada com Nolan Bushnell, o fundador da Atari e pai do entretenimento eletrônico doméstico com o conhecemos hoje, que veio para São Paulo como uma das atrações da Campus Party na semana passada. Segue a íntegra abaixo:

Conversamos com o pai do Atari
Nolan Bushnell, um dos convidados da Campus Party 2013, falou a Galileu sobre videogames e educação, como inspirou a Apple e a Nintendo e como quase popularizou a internet dez anos antes
Em uma Campus Party com poucas atrações célebres, Nolan Bushnell, que completa 70 nesta terça-feira, dia 5 de fevereiro, talvez seja o nome mais famoso do evento que encerrou suas portas neste domingo. Ele só divide atenções com o ex-astronauta Buzz Aldrin. Mas enquanto o segundo lugar de Aldrin – o segundo homem a pisar na Lua – não foi o suficiente para lhe garantir lugar na história (Neil Armstrong, que morreu no ano passado, sempre será o grande astronauta da Nasa, pelo menos no século 20), a prata de Bushnell não foi tão problemática. Afinal, ele foi o segundo empresário a lançar uma linha comercial doméstica de jogos eletrônicos, no início dos ano 70. O primeiro console da história, o Magnavox Odyssey, lançado seis meses antes, não sobreviveu, enquanto o por Bushnell, o pai do Atari, por um bom tempo foi sinônimo de videogame. E é da fama do Atari que este norte-americano vive até hoje – foi ela que o trouxe à Campus Party 2013 e que me permite entrevistá-lo quarenta anos depois de seu grande feito.
Quando refiro-me a ele como uma lenda viva, ele graceja: “Sempre pergunto às pessoas que dizem isso: ‘O que tenho feito recentemente para você?’”, ri. E, realmente, depois que vendeu a Atari para o grupo Warner no meio dos anos 70, Nolan Bushnell saiu do holofote mundial e deixou o mundo dos games comerciais para dedicar-se à educação. Sua atual empresa, a Brainrush, foi criada para aproveitar-se de um momento em que, graças aos meios digitais e à internet, o autoaprendizado torna-se não apenas complexo quanto divertido.
Foi disso que falou durante sua apresentação na Campus Party, sobre como o formato de aula tradicional restringe o aprendizado ao capturar a atenção apenas nos minutos iniciais. Bushnell crê no que ele chama de “tempestade perfeita”, uma situação de condições ímpares que irá acelerar o aprendizado em dez – “talvez vinte”, completa – vezes nos próximos cinco anos. “A aproximação entre software onipresente, redes robustas, hardware barato e ciência do cérebro irá provocar algo que nunca vimos antes, será uma mudança sem precedentes”, explicou, enfatizando que sua empresa aposta bastante no último ingrediente desta equação – a exploração do cérebro humano. “Hoje já fazemos testes que conseguem medir o quão rápido é o seu aprendizado. E sabe o que é engraçado? As crianças que estão tirando as piores notas hoje em dia são, na verdade, aquelas que aprendem mais rápido. Mas elas se chateiam mais rápido e por isso não conseguem mostrar um bom desempenho”, explica.
Embora afastado do universo do comércio digital, Bushnell sabe de sua importância para este mercado. “Acho que não foi por acaso, por exemplo, que Steve Jobs e Steve Wozniak trabalharam para a Atari. Eles construíram o primeiro computador Apple com partes de um Atari… Gosto de pensar nisso como raízes comuns para esta cultura de criatividade e inovação que une a computação pessoal aos videogames”, explica.
O fortalecimento desta indústria do outro lado do planeta também tem influência do trabalho de Bushnell na Atari, empresa norte-americana que adotou um nome japonês apenas pela sonoridade. Anos após se tornar a principal empresa de games dos EUA, a Atari viu surgiu, no Japão, sua primeira grande concorrente, a Nintendo, que impulsionou toda a indústria por lá. “Pong foi o jogo que deu origem ao negócio de jogos eletrônicos para o consumidor no Estados Unidos”, explica. “Mas, no Japão, como eles têm famílias menores, um jogo para duas pessoas não fez tanto sucesso, pois eles não têm o hábito de chamar amigos para jogar em casa. Então era preciso que um jogo bom para ser jogado sozinho e foi Breakout, justamente o jogo que Jobs desenvolveu, que deu origem ao mercado de jogos eletrônicos para o consumidor naquele país.”
A lógica dos jogos o acompanha desde o tempo da faculdade, antes de aplicá-la aos computadores. “Paguei minha faculdade como gerente de um parque de diversões. Eu trabalhava no verão e estudava no inverno, era uma combinação perfeita de empregos. E foi isso que me fez pensar em jogos. Desenvolvi uma sensibilidade ao ver milhares e milhares de pessoas jogando todos os dias. Via o que elas gostavam e o que elas não gostavam. Quando você empreende qualquer tipo de negócio, você tem de ter uma certa flexibilidade para lidar com seu público e acredito que minha experiência em parques de diversão me ajudou muito com isso”, explica.
Além de inspirar Apple e Nintendo, a Atari poderia ter acelerado a popularização da internet em pelo menos uma década. “A internet foi criada pelo governo e depois se tornou privada, mas 1976, tínhamos um projeto chamado Ataritel, em que construímos os modems mais rápidos no mundo e iríamos construir uma rede de troca de informações através das linhas de telefone. A ideia era reunir jogadores de uma região que tivesse o mesmo código de área em uma central que conversasse com outras centrais de outras regiões com códigos de área diferentes, de forma que as pessoas não tinham que pagar interurbano para jogar com pessoas de outros estados. Acontece que esta é exatamente a arquitetura da internet (ri)!”
Ele culpa o fracasso do projeto à venda da Atari para a Warner, naquele período. “Eles achavam que não tinha sentido fazer as pessoas jogarem games através de linhas telefônicas, que era uma ideia estúpida”, ri, sem graça. “A Atari é um dos raros casos – talvez o único – em que uma companhia que era líder em seu segmento cometeu
suicídio!”, lamenta. “Não foi homicídio, foram engravatados idiotas que trabalhavam na empresa que mataram a própria Atari.”
Pergunto se isso não tem a ver com a lógica corporativa industrial, que parece perseguir, em vez de incentivar, a inovação. “Acho que quem faz sucesso sem saber porquê tem muito medo de perder este status. Eles acham que qualquer tipo de mudança é perigosa e, por isso resistem a mudanças. Por isso que a próxima grande batalha que está vindo acontecerá nas escolas e universidades. Quem hoje é o detentor do conhecimento, que diz querer ajudar as pessoas, está completamente alheio e fechado às novas tecnologias que ensinam muito mais rápido do que um cara com um giz na frente de uma pequena multidão. Nos próximos anos vamos ver isso mudar muito rápido, na medida em que pessoas que não assistem aulas e não frequentam cursos começarem a superar as pessoas que frequentam escolas”, profetiza, voltando para seu tema atual favorito, a educação.
Mas é inevitável que o assunto volte aos jogos eletrônicos, uma vez que são justamente eles que o motivam a enveredar pela educação. Para Bushnell, são os games que vão salvar a educação da chatice. “Jogos fazem parte da textura psíquica dos seres humanos, desde que nós éramos homens das cavernas e brincávamos com fogo, até os dias de hoje. E à medida em que a tecnologia evolui, os jogos dão um jeito de se inserir nela. E do mesmo jeito que a tecnologia melhora, os jogos também melhoram. Eu me sinto muito mais um veículo deste fluxo do que um criador”, conclui.

Acompanho e participo da Campus Party desde a primeira edição, quando aconteceu no Ibirapuera, e para a edição deste ano estarei em diferentes atividades no evento, que desde o ano passado acontece no Anhembi. Hoje, no Palco Guttenberg, às 15h45 apresento a primeira mesa da Galileu na Campus Party, o debate E-books à Brasileira, que fala do mercado editorial no Brasil às vésperas da popularização do formato digital. A discussão será mediada por um dos editores da revista, Diogo Sponchiato, que escreveu matéria sobre este assunto na edição de janeiro, e ainda conta com a presença de Carlo Carrenho, do Publishnews; Sergio Herz, CEO da Livraria Cultura; Karine Pansa, presidente da Câmara Brasileira do Livro e Roberto Bahiense, diretor da Biblioteca on-line Nuvem de Livros. Às 17h participo do debate A Comunidade Conectada, que conta com a presenta de Dinho França, fundador da agência Dharma; Carol Romano, do AsBoasNovas, Rodrigo Masuda, da rede itsNOON e Patricia Santin, da Fundação Telefonica Vivo. Na sexta, às 11h, Palco Gutenberg, medio a discussão Jornalismo Reloaded, sobre como a mídia tradicional está se adaptando às novas tecnologias, que acontece entre Adriana Garcia Martinez criadora do serviço online da Reuters no Brasil; Gustavo Faleiros, do InfoAmazônia; Gilberto Dimenstein, do CatracaLivre; Beth Saad, da ECA-USP; e Leandro Machado, da Folha de S.Paulo. Na mesma sexta, também no Palco Gutenberg, a mesa Isso é Bizarro, sobre o interesse de leitores online por este tipo de tema, conta com a participação da repórter da Galileu Luciana Galastri, que toca o blog Buzz; da Carol Castro, do Ciência Maluca, da Superinteressante e de Juliana Emy Yokomizo, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. A outra mesa proposta pela Galileu acontece no sábado, às 14h30, no Palco Gutenberg, e discute a Contracultura digital no trânsito, sobre como a tecnologia pode nos ajudar a nos locomover pela cidade de maneira mais eficiente, sustentável e menos estressante. A mesa tem mediação da editora da revista Priscilla Santos, e conta com a participação de Paulo Hilário Nascimento Saldiva, do Laboratório de Poluição da USP; Arthur Costa Lima; sócio da Jurema, empresa de pesquisa e desenvolvimento de produtos baseados na internet; Marcelo Romera Dell Osso, gerente de comunidade do aplicativo Waze, e Marcio Henrique Nigro, do site Caronetas. A agenda completa da Campus Party tá aqui.

Eis a segunda edição da Galileu comigo no comando. A matéria de capa, pauta sobre medicina integrativa conduzida pelo editor Diogo Sponchiato já vem causando polêmica da parte daqueles que sempre trataram terapias alternativas como acupuntura, fitoterapia, homeopatia e musicoterapia como charlatanismo, cobrando rigor científico – e é justamente este o assunto da capa, como a medicina vem reconhecendo este tipo de tratamento através de comprovações científicas. Além da capa, a edição de fevereiro ainda traz reportagens sobre o mistério da ressaca, a falta de criatividade em Hollywood, o primeiro livro de Julian Assange, a solução dos telhados verdes para as grandes cidades, um zoológico de clones de animais extintos no Brasil, um cemitério de aviões, o RPG de South Park, a morte de Aaron Swartz, pessoas que monitoram o próprio corpo para detectar doenças, como o sedentarismo é pior que o cigarro, hotéis feito para hospedar astrônomos amadores, uma bicicleta elétrica que pode tirar os carroceiros do trânsito, como as palavras podem provocar dores físicas, o mapa da corrupção no mundo, um biólogo de games, a primeira impressora 3D comercial do Brasil, dicas para economizar na conta de luz e uma entrevista que fiz com Cory Doctorow. E além da pauta, essa edição marca também um início de mudança no site do título, que ganha um reajuste de layout, como sua presença para além das bancas de revista e da internet – e a equipe Galileu estará não só cobrindo mas também participando de cinco mesas durante a Campus Party, que começa essa semana. Falo mais disso no meu editorial desta edição, reproduzido abaixo.

À medida em que vamos fechando as páginas de GALILEU, este quadro, no meio da redação, vai sendo atualizado
Ainda não me acostumei com o ritmo de publicação de uma revista. Vim de jornal, onde o pique é acelerado e a pressa é companheira do fechamento, por isso sempre pergunto a alguém da redação se um determinado assunto cabe ou não na edição, se vale a pena cortarmos uma matéria que já está pronta e na página para a substituirmos por outra sobre algum assunto que acabou de acontecer. Conto sempre com a opinião do redator-chefe Tiago Mali para saber se vale investir nessa ou naquela pauta que acabaram de pintar.
Quase sempre repasso essas pautas para a Débora Nogueira, editora do site Galileu. A Paula Perim, diretora do núcleo que abrange GALILEU, fala que este jet lag entre os fusos horários dos fechamentos de jornal para a revista normalmente se estabiliza após três meses de casa. Tomara. Mas quando ficamos sabendo do suicídio de uma das mentes mais brilhantes do universo digital, Aaron Swartz, a pressa do jornalismo diário falou mais alto e invadiu o fechamento mensal, dedicando duas páginas da edição para celebrarmos sua importância.
Essas mudanças estão aos poucos entrando no dia a dia da redação. Nesta edição, dá para perceber outros pequenos detalhes que fizemos no percurso do fechamento. São mudanças discretas, mas que aos poucos mostram que 2013 será um ano bem agitado para o título.
Para começar, ao virar a página, você perceberá que a seção Online, antes dedicada às novidades do site da revista, mudou de nome. Agora ela chama-se Ecossistema Galileu, pois tratará da revista para além de sua edição impressa.
É claro que também estamos falando do site — mas não só. A nova seção mostra, por exemplo, que o título estará presente na próxima Campus Party, que acontece em São Paulo a partir do dia 28 de janeiro até o dia 3 de fevereiro, no Anhembi. Além de cobrirmos o evento, Galileu também estará presente com dois debates propostos pela revista: um sobre a influência do mundo digital no trânsito, idealizado e mediado pela editora Priscilla Santos, e outro sobre o mercado editorial brasileiro na época do e-book, que fica sob a batuta do editor Diogo Sponchiato. Nas próximas edições, você verá que a marca irá aparecer em outros lugares — e nossa equipe estará cada vez mais presente.
Outra mudança também anunciada nesta nova seção é a nova cara do site Galileu, que entra no ar a partir de fevereiro. É só a primeira das novidades que apresentaremos na área digital. Nos próximos meses, traremos ainda mais.
O ano de 2013 está só começando — e Galileu vai longe. É só acompanhar. Vamos lá!
Alexandre Matias
Diretor de Redação
matias@edglobo.com.br
Eis a entrevista que fiz com o Cory Doctorow para a Galileu deste mês.

O que acontece quando se é banido da internet
Um romance para ilustrar os riscos da vigilância online
Cory Doctorow vive uma vida dupla. É um escritor de ficção científica que usa elementos da nova era digital para pensar num futuro próximo. E também é ativista digital empenhado em não permitir que as mudanças na internet possam interferir na liberdade individual. Em seu novo livro, Cinema Pirata (Galera Record, R$ 47,90), ele junta as duas faces ao desenhar um cenário que para muitos parece inofensivo, mas que pode ser tenebroso em poucos anos. Ele conta a história do adolescente Trent McCauley, que mora no norte da Inglaterra e tem como passatempo remixar filmes de um velho galã do cinema para recontextualizá-lo em situações constrangedoras — e sem o consentimento do autor. Isso o torna um infrator digital e a pena resulta no fim do acesso de sua família à internet, o que quer dizer que seus pais não podem mais procurar emprego ou pagar impostos em casa, nem sua irmã pode estudar. Frustrado, foge para Londres onde começa a entender a natureza por trás de sua punição. Conversei com Doctorow no fim de 2012, quando, atarefado com os filhos pequenos, preferiu responder em áudio às perguntas que fiz por e-mail.
Cinema Pirata é um romance, mas também funciona como um alerta, afinal o futuro distópico do livro não é tão distante de nossa realidade atual…
O que a ficção científica faz de melhor é colocar movimento e sangue em um argumento que, de outra forma, soaria frio e abstrato. Antes de George Orwell escrever o romance 1984, era difícil explicar por que ter uma câmera filmando por cima do seu ombro era tão perturbador. Graças a ele podemos importar aquela narrativa para entender por que toda essa vigilância suprime a nossa liberdade e por que só somos felizes, saudáveis e completos em uma sociedade livre. É muito fácil ser abstrato ao se tratar a internet como um sistema de TV por assinatura melhorado e dizer coisas como “qual é o problema de se regular a internet para excluir pessoas que assistem à TV de forma errada?”. O que quis mostrar no livro é o que isso significa tanto emocional quanto politicamente, como é sentir a pena de morte da era digital, ter seu acesso à internet tirado em um mundo em que quase tudo que você faz envolve a internet e que, em breve, tudo que você fará irá exigi-la.
Como a guerra contra a pirataria pode nos levar a esse estado de vigilância e restrição da liberdade?
O motivo para os computadores estarem na linha de frente do debate sobre direitos autorais não se deve apenas ao fato de serem máquinas de fazer cópias e destruírem o modelo de negócios da indústria do entretenimento, mas em razão de os legisladores acreditarem que eles podem ser legislados. Acham que basta fazer leis que digam como os computadores e a internet devem funcionar, que conexões podem ou não fazer, que programas podem rodar. O problema é que não há como inventar esse tipo de função, tecnicamente falando. Não dá para criar um computador que execute todos os programas menos um que lhe aborrece. O mais próximo disso são computadores que permitem fazer tudo, mas vêm repletos de softwares-espiões que vigiam o que é feito e tentam parar o usuário quando ele quer fazer algo proibido. Quando uma máquina vem de fábrica com esses recursos, há muitos desvios mal intencionados que podem também vir com eles. Se alguém entrar naquele software, pode prejudicar o usuário de muitas formas. Imagine, por exemplo, um carro que se dirige sozinho e que dispõe de uma trava digital que não permite que você carregue seus próprios softwares ou que não possa ver o que o software está fazendo. Se essa trava for comprometida, alguém pode alterar o software do carro e, em vez de ele não permitir que você corra, pode fazer seus freios pararem de funcionar. Os computadores foram concebidos para podermos ver o que eles estão fazendo e pará-los de fazer algo quando não queremos.
Há futuro para o direito autoral?
Antigamente, dizíamos que era possível controlar a indústria do entretenimento ao controlar a possibilidade de se fazer cópias, pois todo mundo que poderia fazer isso estaria necessariamente trabalhando em escala industrial. Hoje em dia, um computador faz cópias milhares de vezes ao dia e isso não torna todos que usam computadores parte desta indústria. Assim, temos uma indústria do entretenimento que insiste em leis ancestrais feitas para serem interpretadas por advogados corporativos e que devem ser obedecidas por todas as pessoas que trabalham com cópias. Ou seja, na era da internet, isso significa quase todo mundo. Não existe um conjunto de leis que seja flexível o suficiente para que a Warner licencie os direitos de Harry Potter para que a Universal faça um parque temático sobre o personagem e que, por outro lado, seja simples o suficiente para permitir que uma garota de 12 anos no porão da casa dos pais faça um site de fã sobre Harry Potter. Acho que a única maneira de resolver isso é criar outra definição para o que chamamos de processo industrial, que não seja apenas fazer cópias, algo que realmente represente só o que a indústria faz e, a partir disso, um novo conjunto de leis. Isso, no entanto, não quer dizer que não teremos regras culturais que nos digam como devamos usar essas coisas entre nós mesmos, de formas não-comerciais ou não-industriais. Mas não serão as mesmas leis que controlarão a indústria, da mesma forma que hoje temos leis que controlam o sistema financeiro e os bancos e elas não se aplicam quando precisamos emprestar dinheiro de um amigo ou pagar um almoço para ele.
Seus livros sempre foram lançados no formato tradicional, de texto. Você não tem intenção de explorar a interatividade ou o aspecto multimídia da narrativa?
Meu primeiro emprego de verdade foi em uma editora de CD-ROMs chamada Voyager, onde fui programador e desenvolvedor multimídia por alguns anos. Ainda não encontrei motivação de usar tais recursos na ficção, embora haja alguns projetos com os quais trabalho hoje que poderiam ter este formato. Mas, até agora, no que diz respeito à arte, eu tenho uma estética irredutível e um sentimento que está na minha cabeça e no meu coração e que eu quero levar para a sua cabeça e para o seu coração. E os recursos artísticos que melhor domino para transferir esses sentimentos são as palavras em ordem sequencial. Isso não quer dizer que eu não faria outro tipo de linguagem. Recentemente, lancei um livro ilustrado para crianças, algo que nunca tinha feito.
Conte-nos a história do site em que você escreve, o Boing Boing.
Meu primeiro contato com o Boing Boing foi como vendedor, quando eu ainda morava em Toronto e trabalhava em uma livraria — e o Boing Boing era uma revista de papel. Ela tinha sido criada por dois futuros amigos meus, Mark Frauenfelder e sua esposa Carla Sinclair, e alguns colegas deles, em uma época em que pequenas revistas estavam começando a ter distribuição internacional. Mas, alguns anos depois, a distribuidora que cuidava da revista faliu e a revista não conseguiu sobreviver. Conheci Mark anos depois, quando ele trabalhava em uma revista chamada Industry Standard, e foi convidado a testar um novo produto digital chamado Blogger. Para fazer o teste, pegou o domínio que já tinha de sua velha revista (boingboing.net) e instalou o Blogger lá. Ele ficou muito empolgado, mas não conseguiu emplacar a matéria na publicação, que pensava que esse novo serviço era só um modismo, uma nota de rodapé engraçadinha. Mas Mark gostou e continuou, conseguindo reunir algumas centenas de leitores até que ele conseguiu um furo jornalístico de médio porte. Havia muita especulação sobre uma invenção que estava para ser anunciada: uma empresa havia declarado que tinha desenvolvido um novo dispositivo inventado por Dean Kamen, que havia atraído o interesse de muitos investidores e quem o havia visto dizia que a invenção revolucionaria o mundo — Steve Jobs era um destes —, mas ninguém sabia direito o que era. Mark, sendo engenheiro, foi atrás das patentes registradas por Kamen e acertou corretamente sobre o que era o dispositivo, o Segway. Assim, a CNN publicou o Boing Boing no programa da noite e o blog teve milhares de novos leitores. Mark estava para sair de férias e me perguntou se eu estaria interessado em ser o editor convidado do site por uma ou duas semanas. Eu topei, ele gostou e, quando voltou, pediu para que eu continuasse. Trouxemos alguns amigos que tinham escrito na Wired — Xeni Jardin e David Pescovitz — e continuamos por cinco ou seis anos trabalhando basicamente por amor. Só que chegamos a um ponto em que não poderíamos trabalhar de graça, porque tínhamos alguns custos, como a banda de internet, que passava de US$ 50 mil dólares por mês… então resolvemos adotar publicidade. E falamos com nosso amigo, John Battelle, que estava começando uma empresa de publicidade online, chamada FM Publishing, e resolveu usar o Boing Boing como protótipo de como sua companhia iria funcionar. E assim continuamos crescendo. Acho que nossa fórmula secreta — o que fazemos melhor do que os outros — é que nós escrevemos apaixonadamente sobre as coisas em que acreditamos e nada mais. Não buscamos leitores, nossos interesses são nossas paixões. Provavelmente teríamos mais leitores se escrevêssemos sobre assuntos que eles gostariam de ler, mas tais pessoas viriam e iriam embora. Acho que onde nós acertamos é no fato de escrevemos sobre as coisas que realmente nos interessam.
Como você vê esta era da mídia social? Acha que o Facebook e o Twitter chegaram a um auge?
Se Facebook ou Twitter chegaram ao auge, isso não quer dizer que o mesmo tenha acontecido com a era da mídia social. O que provavelmente acontecerá com um lugar puramente social, como o Facebook, é que ele se tornará bastante tóxico. É o que parece sempre acontecer quando tentamos articular nossos contatos na internet e derrubar todas as barreiras entre as diferentes facetas de nossa personalidade, as diferentes pessoas que somos para nossos amigos, nossos familiares, nossos colegas de trabalho e por aí vai. Quando tentamos falar com todas essas pessoas ao mesmo tempo, isso começa parecendo ser libertador, mas com o tempo fica opressor e logo vamos para algum lugar em que não precisamos ser a mesma pessoa o tempo todo.
Foi o que aconteceu com o Facebook, que pegou todo mundo que estava no MySpace, que por sua vez pegou todo mundo que estava no Friendster. Parece ser uma regra que se repete o tempo todo e acredito que isso também acontecerá com o Facebook. Mas este tipo de serviço chegou para ficar e logo surgirão outros novos, todos tentando achar um equilíbrio entre como fazer dinheiro com seus usuários — às vezes às custas deles, forçando-os a derrubar as barreiras de suas identidades sociais — e como fazer dinheiro de outras formas, assim evoluindo para algo melhor. O Twitter, no entanto, não pertence ao mesmo universo do Facebook e se ele acabar será porque alguém entendeu como fazer o que o Twitter faz melhor do que eles. É parecido com a TV: quando a televisão apareceu, todos aqueles filmes que funcionavam melhor nesse formato se tornaram programas de TV. Aí, quando o YouTube apareceu, os programas de TV que funcionavam melhor na telinha se tornaram vídeos do YouTube. E acho que isso pode acontecer com o Twitter. Agora, mesmo que isso aconteça e que o público do Twitter vá para outro serviço, acredito que ele continuará como veículo para as coisas que têm mais a sua cara.
Qual dos dois devemos temer mais: Google ou Facebook?
Acho que o Facebook. O Google pelo menos parece ter alguma consciência da dimensão social do que ele faz. Não é que ele sempre faça as coisas melhor ou que leve seu slogan de não fazer o mal tão rigidamente, mas ao menos eles têm uma ideia empresarial sobre como o que eles fazem afeta a vida das pessoas. E a saúde da internet está ligada à saúde do Google. Já o Facebook parece não ter nenhuma dimensão moral ou ética. Não é que ele seja imoral, mas, sim, amoral. Eles não medem as consequências de seus atos se o assunto é faturar dinheiro. E quando articulam qualquer tipo de filosofia moral é sempre o Zuckerberg [seu criador] falando coisas bizarras ou estúpidas, como as pessoas devem ter apenas uma personalidade ou mostrar todas as facetas de sua identidade a todo mundo. Isso é de uma estupidez e arrogância monumental. Fora que as pessoas continuam empilhando uma quantidade enorme de informações sobre si mesmas que podem colocá-las em risco — informações que, se alguém mais fica sabendo, podem causar problemas no trabalho ou com a polícia. Esses dados eventualmente vazam ou são hackeados, e eles [do Facebook] não estão nem aí. O quanto antes o Facebook acabar, melhor.
Você acha que os problemas políticos e empresariais relacionados à internet vêm do fato de que seus líderes não entendem a rede porque nasceram em outra época?
Não sei se dá para apenas dividir isso por faixas etárias. É claro que quem é mais velho nunca vai conseguir entender o que é crescer em um mundo em que tudo está conectado. Mas, dito isso, também é verdade que há muitos jovens que não se lembram da internet mais aberta e livre, que nasceu de um esforço coletivo e onde tudo que fazíamos parecia de certa forma heroico, onde todos se sentiam parte de um grande projeto humano que tornaria o mundo um lugar melhor. E algumas pessoas mais velhas sempre têm isso em mente. Acho que precisamos achar esse equilíbrio, entre a internet como um projeto que nos torne a todos melhores e a internet como uma ferramenta que deve ser tratada de forma sensível.
Gostaria que você falasse um pouco do que conhece sobre o Brasil e nossa política digital.
Acompanho bem o Brasil, mas não tanto quando estava na Organização Mundial da Propriedade Intelectual, vinculada a ONU. A delegação brasileira era tão boa que eu aprendi muito sobre a política do país. Claro que também tive contato com o Gilberto Gil [então Ministro da Cultura], Sérgio Amadeu [sociólogo e pesquisador da cultura digital], o pessoal do movimento dos Telecentros… O Brasil é central para o movimento do software livre e dos Creative Commons… Mas sei muito desse lado politizado, mas não do Brasil como um todo, o que é uma pena. E uma das tragédias de se morar na Inglaterra é que muito pouca coisa é traduzida para o inglês, e o pouco que é tem de competir com esse enorme pool de produção em inglês nativo. Aí, é difícil se informar em outro idioma a não ser o inglês.
Minha coluna desta semana no Link foi sobre a segunda temporada de Black Mirror, que foi anunciada na semana passada.

Se a tecnologia é um vício, quais são os efeitos colaterais?
‘Black Mirror’, série critica efeitos da tecnologia na sociedade
Uma voz monótona repete frases sem emoção: “Viva mais. Conecte-se mais. Viaje mais. Compartilhe mais. Procure mais”. Pessoas sorriem em situações cotidianas com seus tablets ou celulares. A iluminação é perfeita, a fotografia é de publicidade. Todos são lindos.
De relance, um outdoor eletrônico transforma empolgação em ameaça – “O futuro que você merece” – e seguem os imperativos: “Consuma mais. Pense mais. Experimente mais. Lembre mais. Veja mais. Compartilhe mais. Aprenda mais. Faça mais. Lute mais. Faça mais. Conecte-se mais”. As imagens mudam, os sorrisos tornam-se falsos e celulares filmam cenas violentas – confrontos, espacamentos – vistas por uma criança debaixo de seu cobertor.
“Deixe de ser você”, diz a voz robótica antes de surgir uma avenida tomada por pedestres que filmam, sem reação e com seus celulares, uma enorme nuvem de poeira que vem em sua direção. É inevitável a associação com a mórbida nuvem que tomou as ruas de Nova York depois da queda do WTC.
“O futuro está quebrado.” É o trailer da nova temporada de Black Mirror (espelho preto), do jornalista inglês Charlie Brooker, anunciada semana passada. Eu já havia comentado sobre a série em uma Impressão Digital no fim de 2012, mas apenas comentei a força de seu título, mais do que seu tema.
Black Mirror não é um seriado, mas três pequenos filmes exibidos pela Canal 4 da BBC inglesa. Seu autor, Charlie Brooker, é um notável crítico de mídia conhecido por sua abordagem nada sutil e pela franqueza agressiva que usa para expor suas opiniões, uma espécie de Michael Moore menos bonachão. É um inglês cínico cujo sotaque é tão pesado quanto a forma como ele trata os temas que escolhe. Ele explora como burrice, vaidade, ganância e banalidade derretem nossa civilização ao tratar inteligência como excentricidade e aparência como lastro de confiança.
O que une os três primeiros episódios de Black Mirror, exibidos no fim de 2011, é um dos principais alvos das críticas de Brooker – a tecnologia. Sua abordagem é simples: a tecnologia é a droga mais consumida do mundo hoje e estamos todos viciados nela. Todo o ecossistema criado pela internet e novos aparelhos não apenas nos permite consumir conteúdo em qualquer lugar como também faz que nossas vidas possam ser transformadas em conteúdo para ser consumido. A partir desta constatação, Brooker quer descobrir quais são os efeitos colaterais desse vício.
Em três episódios, três choques: no primeiro (Hino Nacional) o primeiro-ministro inglês vê-se chantageado para fazer sexo com um porco em cadeia nacional. No segundo (15 Milhões de Méritos), um operário de uma fábrica do futuro – que parece uma academia de ginástica – tenta ajudar uma desconhecida a comprar sua vaga em um programa de reality show. No terceiro (Toda a História de Você) uma tecnologia permite que você grave e reveja as próprias lembranças e isso pode ser catastrófico para as nossas relações.
Black Mirror ainda é inédita no Brasil e o canal BBC HD, recém-lançado no País, poderia nos presentear com sua exibição (como já fez com a excelente série Sherlock, adaptada pelo bamba Steven Moffat), antes de os três episódios da próxima temporada – que começam a ser filmados no mês que vem e ainda não têm data de exibição – irem ao ar no Reino Unido.
Do pouco que se sabe dos próximos episódios, num deles o namorado de uma viciada em redes sociais consegue voltar a ter contato com ela depois de sua morte graças à internet; no outro, um personagem de programa infantil concorre a um cargo político e começa a soar menos estúpido que seus concorrentes; e no último, uma mulher acorda numa casa em que não conhece para descobrir que as pessoas se tornaram voyeurs sem motivo, filmando os outros o tempo todo e não fazem mais nada.
Não parece tããããão diferente da nossa própria realidade…