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Dissecado lá no meu blog do UOL, o novo filme da Marvel, Doutor Estranho, mostra os rumos para o futuro do personagem, da saga principal contada desde o primeiro filme do Homem de Ferro e dos planos de dominação mundial do estúdio.

O grande trunfo de Doutor Estranho, a mais recente produção da Marvel, não é simplesmente o fato de ser o primeiro filme do estúdio de tom menos juvenil (como o segundo Capitão América já tinha sido) nem seus deslumbrantes visuais psicodélicos. Essas duas qualidades ajudam o estúdio a se situar num contexto que parte em busca um novo público, que não assiste filmes de super-herói. Sua principal qualidade reside no fato do diretor Scott Derrickson contar uma história de origem simples e de forma objetiva, concluindo a jornada do protagonista com grandes truques cinematográficos, sem se preocupar em expor as referências e conexões com o contexto original do herói nos quadrinhos ou do cada vez mais complexo universo cinematográfico da Marvel. Estes, no entanto, não são deixados de lado, mas colocados em uma perspectiva que fica em evidência para o público já cativo da editora e do estúdio, respectivamente. Estas referências ajudam inclusive a sacar o rumo que a Marvel está apontando para seus próximos filmes, quando conclui, em três anos e dez filmes (!), sua chamada fase 3.

Preciso dizer que a partir daqui vou entupir o texto de spoilers? Ok, então está dito: seguem umas imagens de fronteiras interdimensionais para você não correr o risco de ler algo que não queira – se você quiser ler uma resenha sem spoilers, escrevi este texto antes da estreia do filme.

As referências mais evidentes são feitas não ao público iniciado, mas justamente para aquele que a Marvel quer ganhar com Doutor Estranho: o fã de cultura pop adulta. Não confunda com o fã adulto de cultura pop – este já forma grande parte da audiência da Marvel no cinema. Ela está em busca de um público que não gosta ou não se identifica com super-heróis – e por mais que Doutor Estranho seja um deles, ele não se encaixa no parâmetro tradicional do herói mascarado com roupa justa e colorida. Seus ícones são heróis que vão de encontro à cultura nerd vigente, seja do lado da ficção científica ou da fantasia. Por isso Doutor Estranho firma-se visualmente sobre pilares modernos do pop adulto.

A principal referência é, claro, a presença de Benedict Cumberbatch. O já eternizado Sherlock Holmes do século 21 fez a Marvel adequar-se à sua agenda para conseguir viver o personagem título e ele o faz de forma primorosa. O momento em que ele veste a capa que lhe caracteriza definitivamente como o personagem dos quadrinhos é a coroação de uma atuação perfeita, a melhor do universo cinematográfico Marvel. O sotaque norte-americano falado pelo ator inglês é só uma das joias de seu trabalho, que equilibra seriedade e humor a ponto de nunca parecer ridículo ao conjurar feitiços ou ao encarar o principal vilão do filme. O resto do elenco mantém o nível embora seja muito pouco exigido. Rachel McAdams, Mads Mikkelsen, Chiwetel Ejiofor e Michael Stuhlbarg são atores de alto calibre que não são tão exigidos quanto poderiam. A própria Tilda Swinton se contenta em uma atuação protocolar, que não constrange mas não brilha. O que não garante que eles não sejam utilzados em filmes futuros.

Outro elemento pop e adulto óbvio é a psicodelia. Ela vem sutilmente escancarada na ponta feita por Stan Lee, que aparece gargalhando ao ler uma edição dos anos 50 do clássico As Portas da Percepção do escritor Aldous Huxley. No livro, o visionário autor de Admirável Mundo Novo conta sua experiência com a mescalina, droga que teria uma enorme influência na renascença lisérgica da década seguinte. O título foi tirado de um verso de William Blake que fala que “quando as portas da percepção estiverem abertas, tudo parecerá como realmente é: infinito” e foi inspiração para Jim Morrison batizar sua clássica banda.

Não é a única referência à psicodelia tradicional. A cena do acidente que tira o movimento das mãos de Strange começa com “Interstellar Overdrive”, primeira música do lado B do primeiro disco do Pink Floyd, The Piper at the Gates of Down, de 1967. Ao contrário de grande parte da discografia do Pink Floyd, este primeiro disco foi batizado em ácido lisérgico, quando a banda ainda contava com seu fundador, o visionário Syd Barrett. A faixa instrumental era conhecida como uma longa jam session nas intermináveis noites psicodélicas da Londres do final dos anos 60 e o disco foi gravado em um dos estúdios de Abbey Road no exato momento em que os Beatles gravavam seu clássico Sgt. Pepper’s.

A música não foi colocada apenas por esta referência. Na montagem da capa do segundo disco da banda (o último com Barrett, que saiu do grupo por ter se tornado uma vítima do LSD), Saucerful of Secrets, podemos ver uma sequência de planetas vista por um rosto isolado no canto esquerdo superior. Repare:

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Esta imagem é parte de um quadrinho de página inteira da edição 158 da revista Strange Tales, publicada em julho de 1967 (um mês antes do lançamento do disco anterior), em que o Doutor Estranho é apresentado à onipotente entidade cósmica Tribunal Vivo, que é justamente o rosto na parte de cima da capa do disco. O próprio Doutor Estranho aparece no quadrinho, mas foi retirado da colagem da capa.

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Outra referência óbvia é a progressão geométrica que o diretor e seu diretor de fotografia Ben Davis dá aos devaneios urbano-surreais de Christopher Nolan em Inception – A Origem. As dimensões paralelas são um dos muitos truques de cinema que ele e Derrickson exploram durante todo o filme – sem dúvida, o de maior impacto. Pisos em mosaicos, correores que se aprofundam, catedrais que se transformam em engrenagens e a arrebatadora visão de Nova York ao cubo – tudo isso é parente direto das cidades distorcidas por Nolan em seu filme de 2010 e os realizadores de Doutor Estranho não negam. Davis também cita o psicodélico Fantasia, de Walt Disney, como outra referência para os visuais do filme, além, claro, do túnel interdimensional do ato final de 2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick.

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Outro filme que está na base de Doutor Estranho é Matrix. Desde o papel meio Morpheus da Anciã vivida por Tilda Switon (que começa várias frases como “e se eu te dissesse…?”) à jornada do escolhido feita por Stephen Strange, o filme de 1999 dos irmãos Wachowski está espalhado por todo o filme da Marvel. O treinamento de Strange no Tibet alude de forma descarada ao primeiro filme da trilogia: a tonalidade esverdeada do salão em que Strange conhece a Anciã, o momento de revelação sobre o mundo místico ao simples toque na testa de Strange, a relação mestre e pupilo entre os dois, a forma como as artes marciais são apresentadas.

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Outras referências pop não são propriamente adultas, mas trazem o filme para uma realidade diferente da dos nerds de lojas de quadrinho, ao mencionar diferentes artistas pop atuais (Beyoncé, Eminem, Adele) em uma cena hilária entre Strange e Wong (vivido por Benedict Wong). A menção à Beyoncé foi, inclusive, sugerida por Cumberbatch, fã da cantora:

Já as alusões ao universo dos quadrinhos do Doutor Estranho são bem mais sutis. Com a exceção das vestimentas de Strange e da dimensão paralela criada por um dos desenhistas mais clássicos da história da Marvel, Steve Ditko. A Dimensão Negra nos quadrinhos é assim:

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A forma como Derrickson e Davis colocam essa terra surrealista em movimento é outro desses truques de cinema que aumentam a moral do filme.

Além disso, são citados vários outros personagens do universo de Strange no papel. O vilão Kaecilius (vivido por Mads Mikkelsen) é um personagem secundário nos quadrinhos e no filme assume um papel que normalmente é do Barão Mordo (personagem ainda em construção, vivido no filme por Chiwetel Ejiofor) e é acompanhado de capangas que contam, entre eles, com Tina Minoru (vivida pela atriz Linda Louise Duan), personagem que faz parte do grupo Fugitivos nos quadrinhos. Outro personagem que vemos brevemente é o guardião do Sanctum de Nova York, que é nos apresentado como Daniel Drumm (vivido por Mark Anthony Brighton), que na prequel em quadrinhos é identificado como irmao de Jericho Drumm, o Irmão Vodu. Outros personagens coadjuvantes são levemente distorcidos para marcar presença, como a hora em que somos apresentados ao Mestre Hamir (um dos primeiros gurus de Strange nos quadrinhos, cujo aparição é apenas mencionada no início do filme) ou o nome do par romântico de Strange (vivido por Rachel McAdams), que é Christine Palmer, uma das Enfermeiras da Noite, entidade que já tem uma de suas encarnações, Claire Temple (vivida por Rosario Dawson) em ação no universo Netflix (as séries Demolidor, Jessica Jones e Luke Cage, até agora). Alguns dos personagens principais são bem modificados: além da polêmica ocidentalização da Anciã (mais polêmica que sua mudança de gênero), Wong passa a usar magia (nos quadrinhos ele apenas luta) e Modor ainda não é o vilão.

Mestre Hamir, nos quadrinhos

Mestre Hamir, nos quadrinhos

Ainda há os inúmeros artefatos místicos, alguns mostrados sorrateiramente (como o bastão do Tribunal Vivo e o Livro de Vishanti), outros protagonistas da ação (como o Manto da Levitação, que ganha vida na versão cinematográfica). Um bom meio-termo disso é a Vara de Watoomb, que é apresentada rapidamente para logo depois virar a arma de Wong na luta final.

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Livros também são protagonistas das histórias de Doutor Estranho e se seu constante Livro de Vishanti aparece apenas rapidamente, o Livro de Cagliostro tem um papel central na história. Tudo isso é reforçado para mostrar a natureza do universo místico de Strange. Ao mesmo tempo em que os novatos vão conhecendo estes novos nomes e referências, os veteranos vão reconhecendo as homenagens e a atenção ao detalhe.

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E há também referências a histórias específicas de Strange, especificamente “Into Shamballa”, que Dan Green e J. M. DeMatteis fizeram em 1986, e a recente “The Oath”, que Brian K. Vaughan e Marcos Martin escreveram em 2007. “Shamballa” entra na piada da senha do Wi-Fi:

shamballa

“The Oath”, por sua vez, é o roteiro básico do filme e conta com uma cena especificamente tirada dos quadrinhos, quando a projeção astral de Strange ajuda Christina Palmer operá-lo:

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A referência a The Oath foi anunciada antes mesmo do filme ser feito, quando Cumberbatch entrou em uma loja de quadrinhos em Nova York a caráter e pediu para o atendente tirar uma foto em que ele mostrava a capa da revista, que publicou em seguida na internet:

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A cena foi filmada pelas câmeras de segurança da loja e tem um quê surreal:

Outra referência de “The Oath” é o médico que opera Strange após o acidente, que é referido apenas como “Nick” (vivido por Michael Stuhlbarg), que é ninguém menos que Nicodemus West, o médico que opera o neurocirurgião naquela em quadrinhos.

nicodemuswest

E, claro, o grande vilão Dormammu, representado de forma diferente dos quadrinhos (sem corpo, onipotente), mas mantendo o mesmo rosto listrado da versão clássica:

dormammu

A forma como Strange derrota Dormammu – com um truque de lógica, não com magia – é mais um aceno para o fã de cultura pop adulta, enquanto a cena da destruição final apresentada apenas de trás pra frente é outro grande trunfo da direção de Derrickson.

E, finalmente, temos as referências ao resto do universo Marvel no cinema. São citações mencionadas quase de passagem e se você não conhece a história completa que inclui os outros filmes nem conhece nada de super-heróis não interfere em nada ao assistir apenas a este filme. A primeira delas é a presença da Torre dos Vingadores na paisagem de Nova York. Serve para nos lembrar que estamos no universo Marvel e que os eventos ocorrem após o primeiro filme dos Vingadores.

Olha ela ali em cima

Olha ela ali em cima

Outra citação, ainda mais no início do filme, nos ajuda a situar Doutor Estranho na linha do tempo da Marvel. Não, sua origem não acontece após os incidentes de Guerra Civil, o filme anterior do estúdio. É uma trama paralela que vem se desenvolvendo há mais tempo e quando Strange declina alguns casos pouco antes de sofrer o acidente que imobiliza suas mãos, ele deixa passar um acidente envolvendo um soldado que teve a parte inferior de sua espinha dorsal destruída por um equipamento bélico experimental. Muitos acharam que era uma referência ao personagem vivido por Don Cheadle, James Rhodes, o Máquina de Combate, que é abatido em combate em Capitão América: Guerra Civil e quase perde os movimentos das pernas. Mas a idade mencionada (35 anos) e o fato da armadura de Rhodes não ser mais experimental tira a possibilidade de Stephen Strange não ter começado sua transformação em mago depois dos acontecimentos deste filme.

Na verdade, a cena parece mais pertencer ao segundo filme do Homem de Ferro, no julgamento de Tony Stark (Robert Downey Jr.) no início do filme, em que ele mostra vídeos que provam que o fabricante de armas Justin Hammer vem fabricando versões fracassadas de sua armadura, inclusive uma cena bem parecida com a descrita na ligação para Strange (veja quando o relógio do vídeo abaixo chega aos dois minutos):

Então é possível que o acidente que dá início à história do Doutor Estranho aconteça ainda na primeira fase do universo cinematográfico Marvel, antes do segundo filme do Thor, antes do primeiro do Capitão América e do primeiro filme dos Vingadores. Como seu treinamento levou mais do que meses, como mencionado no próprio filme, é possível ele tenha durado justamente o período de tempo entre os dois filmes dos Vingadores para o próprio Estranho pudesse enfrentar uma grande ameaça, ao final de seu filme. Uma ameaça que, por ter sido desfeita quando Strange consegue retroceder o tempo, não foi percebida por ninguém no planeta. Mas a conversa com Wong sobre o papel dos feiticeiros em relação a forças místicas que agem contra a Terra, em que os Vingadores são mencionados nominalmente, deixa claro que o final do filme acontece mais próximo da época atual.

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É curioso pensar que Strange dispensou outros dois casos, além deste que pode ser o do segundo filme do Homem de Ferro. Ele ouve falar de “uma mulher com um implante elétrico no cérebro para tratar de esquizofrenia que havia acabado de ser atingida por um raio” e “uma senhora com um dano no tronco encefálico”. Será que são personagens que nem conhecemos cujas histórias ocorrem neste mesmo período? Por que a primeira descrição me faz lembrar da Capitã Marvel? Hmmm…

Outra referência óbvia ao universo Marvel já havia sido cogitada antes do lançamento do filme que era a possibilidade de o Olho de Agamotto, o artefato místico fundamental para Strange, ser uma das Jóias do Infinito, pedras preciosas que vêm sendo reunidas desde os primeiros filmes do estúdio. Vamos recapitular: a primeira delas foi o Tesseract (a Joia do Espaço, de cor azul) no primeiro filme do Thor, a segunda foi o Éter (a Joia da Realidade, de cor vermelha) no segundo filme de Thor, depois veio o Orbe (Joia do Poder, de cor roxa) no primeiro filme dos Guardiões das Galáxias, seguida pela Gema (a Joia da Mente, de cor amarela) que apareceu no segundo filme dos Vingadores e agora temos o Olho de Agamotto (a Joia do Tempo, de cor verde) neste novo filme. A única joia que falta ter seu paradeiro revelado é a da Alma (de cor laranja), que deve surgir em um dos filmes da Marvel no ano que vem (acho que em Guardiões da Galáxias 2, mas é só uma aposta).

agamotto

Três referências sorrateiras que localizam Strange no universo Marvel, sua origem em relação ao resto dos personagens, e sua conexão com o fio da meada que estamos acompanhando até aqui. As duas cenas no fim dos créditos apontam para os próximos passos tanto do Doutor Estranho neste universo quanto para onde este começa a apontar uma vez que entramos de vez em seu terceiro capítulo.

A primeira delas mostra Strange conversando com um certo deus nórdico, que dispensa o chá em troca de sua bebida preferida numa curta sequência engraçadinha. Thor (vivido por Chris Hemsworth), depois de constatar que “a Terra agora tem feiticeiros” explica que tem uma “questão familiar” para resolver, referindo-se ao desaparecimento de seu pai Odin (Anthony Hopkins) e ao que tem aprontado seu meio-irmão Loki (Tom Hiddleston) e Strange oferece-se para ajudá-lo. A cena confirma uma especulação que já estava quente quando o ator Daley Pearson (que interpretou o colega de quarto de Thor no hilário curta que explicou onde estava o deus do trovão durante os acontecimentos de Capitão América: Guerra Civil) twittou a seguinte foto nos bastidores do terceiro filme de Thor, Ragnarok, que estreia no ano que vem:

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Na foto, Thor mostra um cartão com o endereço “177A Bleecker St”, que todo fã da Marvel sabe que é o endereço da base de Strange, o Sanctum Sanctorum de Nova York, o que abriu a especulação que Doutor Estranho estaria no terceiro filme de Thor. A primeira cena após os créditos de Doutor Estranho vem confirmar isso, transformando Thor: Ragnarok no filme da Marvel que talvez tenha o melhor elenco até agora: além de Hemsworth, Hiddleston, Hopkins e agora Cumberbatch, o filme ainda terá o Hulk de Mark Ruffalo, Tessa Thompson como Valkyrie, Cate Blanchett como Hela, Karl Urban como Skurge, Jeff Goldblum com o Grão-Mestre e a volta de Idris Elba como Heimdall. Nada mal.

A segunda cena escondida confirma a transformação do personagem de Mordo em Barão Mordo, que começa ao final do próprio Doutor Estranho quando o personagem de Chiwetel Ejiofor frustra-se com o uso que a Anciã faz de magia negra. A cena final define a reviravolta em sua personalidade quando ele encontra-se com o personagem vivido por Benjamin Bratt, o ex-paralítico Jonathan Pangborn, que deu o caminho das pedras para Strange descobrir a magia. Pangborn, aprendiz místico, desistiu do mundo da feitiçaria e contenta-se em usar o que aprendeu apenas para conseguir andar novamente. No encontro com Mordo, este retira os superpoderes do mago novato e diz que “há muitos feiticeiros” na Terra, o que reforça seu papel de antagonista no próximo encontro que terá com Strange. Quando ele ressurgirá na telona é a dúvida desta cena: será no terceiro filme de Thor, no terceiro filme dos Vingadores, que deverá ter mais Doutor Estranho, ou numa óbvia continuação (ainda não anunciada) do filme de Strange?

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As duas cenas finais, no entanto, concordam que a chegada de Doutor Estranho ao universo cinematográfico Marvel confirma a entrada do elemento místico na história. Até então superpoderes e super-heróis eram explicados pela ciência e pela tecnologia, à exceção de Thor, um elemento isolado justamente por não ser terráqueo. Com a chegada do Doutor Estranho, a Marvel inclina-se mais para este lado, que deve dar a tônica desta terceira fase e, possivelmente, dos próximos dois filmes dos Vingadores. As primeiras produções do estúdio em 2017 – a série Punhos de Ferro feita com o Netflix e o segundo Guardiões da Galáxia (que já tem uma conexão aberta com Strange através de um brinquedo Lego e desenhos de pré-produção do filme) – também devem ir para este lado, o que abre a possibilidade para novas adaptações de sagas em quadrinhos, novos personagens e novos vilões – estes que ainda são o calcanhar de Aquiles da Marvel.

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O primeiro trailer da versão filmada do clássico japonês – que agora chama-se Vigilante do Amanhã – é bem fiel ao original, pelo menos visualmente – escrevi sobre isso no meu blog no UOL.

E não é que a versão filmada para o clássico oriental Ghost in the Shell parece convincente? Se há críticas sobre o fato de sua protagonista ser vivida por uma atriz ocidental, o primeiro trailer da adaptação mostra que o diretor Rupert Sanders parece ter acertado a mão ao adaptar o visual do mangá e do anime para o cinema. E a presença de Scarlett Johansson na tela (ainda identificada apenas como Major, sem o nome oriental Motoko Kusanagi da versão origina) prova que o filme pode transpor a polêmica e levar uma complexa história de ação sobre robótica, cibernética e inteligência artificial para as massas. O título em português também foi atualizado – da adaptação do anime para o português como O Fantasma do Futuro, o novo filme, que estreia em março do ano que vem, chama-se Vigilante do Amanhã. O ponto baixo do trailer é o uso brega da excelente “Enjoy the Silence”, do Depeche Mode, gravado em versão pós-apocalíptica à la Jogos Vorazes pelo cantor Ki: Theory. Mas o visual é impressionante:

Além do trailer também foram divulgadas imagens inéditas do filme:

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Escrevi lá no meu blog no UOL sobre a importância de não lamentar a morte do homem que nos ensinou o que é ser adulto.

Vamos deixar de mimimi. Não venha com “2016, que ano horrível”. Leonard Cohen já havia avisado que estava pronto para morrer. Dias depois voltou atrás, falando que iria viver até os 120 anos, provavelmente depois de ter tomado um puxão de orelha de alguém mais próximo. “Não, não fala uma coisa dessas”, alguém deve ter dito. Mas ele sabia. Estava com 82 anos, ergueu uma trajetória ímpar, cronista da constante consciência da maturidade. Provavelmente olhou para o curto futuro e falou “é isso”. Cumpriu seu papel. Encerrou seu ciclo. Hora de acabar. Tudo bem.

Não o envergonhem com emoticons chorosos, lamúrias autoindulgentes, um luto egocêntrico que parece mais festejar a importância do sofredor do que a obra do morto. A morte é o único destino definido, o outro momento (após o nascer) que nos define como seres humanos. É uma determinação biológica, não escolhe vencedores. Todo fã – ou mero ouvinte – de Leonard Cohen devia saber disso. O fim é inevitável, o que importa acontece antes.

Ouvi-lo dizer que estava “pronto para morrer” me causou uma sensação indescritível de respeito. Não sei se ele sofria de alguma doença terminal ou se estava apenas farto (acontece) de repetir a rotina interminável entre despertares e adormeceres. Olhou para o rastro que deixou em sua existência e suspirou contente. Creio que Lou Reed deva ter passado por sensação semelhante. David Bowie. Prince, embora ainda mais precoce. A sensação de ter deixado sua marca na história da humanidade só deve ser próxima à da criação de tal legado. Como deve ser compor “Heroes”? “Purple Rain”? “A Perfect Day”? “Suzanne”? “Bird on a Wire”? I’m Your Man”?

Cohen, temporão, começou sua carreira fonográfica aos 34 anos, idade que qualquer diretor artístico, empresário ou produtor desaconselharia um início de carreira na música pop. Acadêmico, romancista e poeta, já havia publicado vários livros no início dos anos 60 e, depois de desistir das letras impressas, resolveu abraçar a canção. Associou-se à Factory de Andy Warhol e no mítico 1967 de Sgt. Pepper’s, The Piper at the Gates of Dawn, do primeiro do Velvet Underground, dos Doors e de Jimi Hendrix, lançou seu disco de estreia, o irretocável Songs of Leonard Cohen, que dizia com seu timbre essencialmente masculino, embora não másculo, que era hora de começar a amadurecer.

Sua grande contribuição à história do pop é justamente a consciência da maturidade, algo que artistas contemporâneos começavam a tatear. Os Beatles, Dylan, The Who, os Kinks, o próprio Velvet Underground e as Mothers of Invention de Frank Zappa olhavam para um futuro próximo à medida que deixavam a adolescência. Mas Cohen já vislumbrava os quarenta anos e sua base literária contemplava um futuro em câmera lenta, de timbre áspero, sonoridade gasta. Cohen dava adeus à eletricidade, à pressa, ao ritmo frenético e ao refrão inevitável. Cantava como contava, cronista de seu tempo, flertando com o cinema (Robert Altman nos anos 70) e a TV (Miami Vice nos anos 80, True Detective nos 2010) sem nunca perder o prumo de sua identidade musical. Sempre cético e cru, pavimentou o caminho para autores modernos do calibre de Tom Waits, Nick Cave, Patti Smith, Bruce Springsteen, Cat Power, Jeff Buckley, Ben Harper, Father John Misty, Laura Marling, Elliott Smith, Elvis Costello e PJ Harvey.

Nos anos 80 compôs seu grande hit, “Hallelujah”, eternizado por vozes tão diferentes quanto Jeff Buckley, Rufus Wainwright e John Cale, que lhe pagava as contas ao figurar em hits modernos como Shrek e a versão cinematográfica de Watchmen. “Hallelujah” era a “Imagine” de Cohen, a versão mais adocicada dele mesmo que lhe dava liberdade para compor o que quisesse.

E manter-se com o cigarro, uma dose de destilado, o terno bem cortado, a penumbra, dores e amores. “Primeiro, Manhattan; depois Berlim” – o tom grave e solene cantava delírios de grandeza, dores de crescimento, seduções latentes, devaneios arruinados, desilusões amorosas, fins de relacionamentos. “Vida que segue”, parecia murmurar cúmplice ao ouvinte, entornando outra dose gorda de scotch.

Ao final de sua vida, compôs discos que, vistos em retrospecto, soam como manifestos e epitáfios simultâneos: Old Ideas, de 2012, e You Want it Darker, lançado há pouco mais de um mês. Discos que, sabendo do capítulo final de sua biografia, ganham um contexto e uma profundidade a mais, como o último capítulo de David Bowie, Blackstar.

Não há, no entanto, tristeza, nem lamento, nem arrependimento, nem dor. Velho desde jovem, Cohen morre tão enfático, decidido e sutil quanto em seus primeiros discos, uma alma quase fantasmagórica que agora vive para sempre em uma curta (14 discos em quase meio século) mas profunda obra.

Por isso não chore. Não ceda às emoções. Não entregue-se ao pessimismo. A morte de Leonard Cohen era tão certa quanto foi seu nascimento. Não sofra por um futuro sem ele, iríamos viver isso. Aproveite este último capítulo para celebrar sua existência e comemorar a sua própria maturidade.

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Separei lá no meu blog no UOL umas imagens do livro Star Wars Propaganda – A History of Persuasive Art in the Galaxy, inspirado na propaganda política do universo Guerra nas Estrelas.

Aproveitando a proximidade do lançamento de Rogue One, o ilustrador norte-americano Pablo Hidalgo reuniu uma série de cartazes de recrutamento e propaganda política do ameaçador Império Galático de Guerra nas Estrelas no livro Star Wars Propaganda – A History of Persuasive Art in the Galaxy, que foi lançado no mês passado pela editora Harper Collins, nos EUA. São ilustrações e pôsteres que ecoam a propaganda política dos Aliados e dos nazistas na Segunda Guerra Mundial como ironizam a guerra ao terror pós-11 de setembro. Eis algumas imagens do livro:

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O grupo de Dave Grohl está presente na caixa de aniversário do clássico 2112 fazendo uma versão para “Overture” – mais detalhes sobre a caixa no meu blog no UOL.

O trio canadense Rush anunciou o lançamento de várias versões especiais comemorativas de seu primeiro disco clássico, a ópera-rock 2112, lançada em 1976. E entre os inúmeros extras que aparecem em diferentes versões do box set especial está a versão que Dave Grohl e Taylor Hawkins, dos Foo Fighters, gravaram ao lado do produtor Nick Raskulinecz para a faixa de abertura do épico. Os três já haviam tocado a música ao vivo quando o Rush foi aceito no Rock’n’Roll Hall of Fame, em 2013. O próprio Rush compareceu e tocou seus hinos “Tom Sawyer” e “The Spirit of Radio”.

Pouco antes da apresentação ao lado do Rush, o próprio Dave Grohl falou da importância do Rush em um discurso apaixonado de puro nerdismo rock’n’roll, assista abaixo, em inglês:

E no ano passado o grupo de Grohl convidou um fã para cantar “Tom Sawyer” acompanhado por eles.

A caixa especial de aniversário, que conta com vinis, LPs, DVDs, pôsteres e um monte de outras coisas, já está à venda no site da banda e, além da versão Grohl, Hawkins e Raskulinecz para “Overture”, a caixa ainda conta com versões feitas por Alice in Chains (“Tears”), Billy Talent (“A Passage to Bangkok”), Steven Wilson, do Porcupine Tree (“The Twilight Zone”), e Jacob Moon (“Something for Nothing”).

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A versão atual para “Overture” pode ser ouvida no programa de rádio online The Strombo Show neste link (mova o cursor para os 46 minutos para ir direto para a versão). O programa também conta com uma entrevista com o guitarrista do Rush, Alex Lifeson.

A volta de Jesus!

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John Turturro descobriu uma forma de ressuscitar seu clássico personagem do Big Lebowski – falei sobre a ideia dele lá no meu blog no UOL.

“Nobody fucks with the Jesus!”, desmerecia o excêntrico Jesus Quintana, erguendo seu indicador em direção a Walter, Donny e ao Dude em uma das inúmeras cenas clássicas do épico chapado O Grande Lebowski, que os irmãos Coen dirigiram em 1998. Nem mesmo o próprio John Turturro, criador de um dos personagens coadjuvantes mais memoráveis da filmografia dos dois irmãos (o que não é pouco), poderia manchar a reputação de um tipo tão memorável. Vestido com seu macacão púrpura, suas mãos cheias de aneis e o ar sexualmente tenso de sua relação com o boliche, Jesus Quintana tem poucos minutos de duração na tela, todos memoráveis.

O que deixou Turturro ansioso para continuar o personagem, que desde o filme original vem cogitando uma continuação ou filme derivado, mas nunca achou o momento correto. Até agora. Ao penar para criar o protagonista de seu novo fime, sua sexta incursão na direção, o ator da série The Night Of teve uma revelação.

O filme que está dirigindo é uma adaptação norte-americana do filme francês Les Valseuses (Corações Loucos, em português e Going Places, em inglês) de 1974, um jornada sexual na estrada vivida pelo trio de personagens interpretados por Gérard Depardieu, Patrick Dewaere e Miou-Miou. Turturro atua como o personagem vivido originalmente por Depardieu, chamado Jean-Claude, e o ator não conseguia chegar a uma personalidade específica para o papel.

“Eu ficava chamando-o de ‘JC’ e ele me lembrou de um personagem que eu havia feito em uma peça há muitos anos que inspirou Joel e Ehtan (Coen) a escrever o personagem Jesus Quintana”, disse o ator em entrevista ao site Screen Daily. “Então eu pensei: ‘Uau! Sempre falamos em fazer algo com Jesus Quintana mas era sempre besta’. Eu comecei a brincar com isso e pensei que podia chegar em algo com a ironia e a irreverência do personagem.”

“Eu o conheço de uma forma muito mais complexa do que o que as pessoas viram no filme, que era uma versão trailer do personagem”, continua o ator. Convicto da ideia, foi apresentá-la aos Coen, que gostaram da reviravolta. “Eles meio que piraram. Eles acharam uma ótima ideia e me disseram: ‘pegamos um personagem de uma peça de teatro e agora você quer colocá-lo em um filme francês que foi inspirado nos road movies norte-americanos.’

Going Places, o filme de Turturro, também contará com Bobby Cannavale (da série Vinyl) vivendo o personagem que foi de Patrick Dewaere, Audrey Tautou vivendo o papel que era da atriz Miou-Miou, além de Susan Sarandon e da brasileira Sonia Braga. Ele está sendo filmado em Nova York e ainda não tem data de lançamento, apenas uma sinopse e a foto de divulgação abaixo:

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John Turturro vive Jesus Quintana em Going Places, um filme sobre um trio de desajustados cuja dinâmica irreverente e sexualmente carregada evolui para uma surpreendente história de amor enquanto sua atitude irreverente e espontânea sobre o passado e futuro sai pela culatra de vez em quando, mesmo quando eles sem querer fazem o que é certo. Ao se tornarem inimigos de um cabelereiro armado, sua jornada se torna uma constante fuga da lei, da sociedade e do cabelereiro, enquanto os vínculos de sua família incomum se tornam mais fortes.

Jeff Bridges já tinha dito que gostaria de fazer uma participação neste filme, mas até agora não há nenhuma menção ao nome do Dude…

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O primeiro trailer da continuação do clássico dos anos 90 também traz uma nova versão do monólogo de abertura – coloquei tudo lá no meu blog no UOL.

Prontos para acompanhar o que aconteceu com as vidas de Renton, Sick Boy, Begbie e Spud? Eis o primeiro trailer de fato do novo Trainspotting, que nos recepciona logo na entrada de 2017, previsto para estrear em janeiro. Nele vemos o que aconteceu com os personagens de Irvine Welsh vividos por Ewan McGregor, Jonny Lee Miller, Robert Carlyle e Ewen Bremner, além de reencontrarmos com Diane (vivida por Kelly McDonald, que também está na nova temporada de Black Mirror), par romântico de Renton no primeiro filme. O trailer também traz uma nova versão para o monólogo de abertura, em que parcelas na compra de imóveis, tocadores de CDs e ternos são substituidos pelas redes sociais, reality show e revenge porn:

Abaixo, em uma tradução livre:

“Escolha a vida
Escolha o Facebook, o Twitter, o Instagram e espere que alguém em algum lugar se importe
Escolha olhar para os velhos tempos, querendo ter feito tudo diferente
E escolha ver a história se repetir
Escolha seu futuro
Escolha programas de reality TV, humilhar mulheres, usar pornô como vingança,
Escolha um contrato de trabalho sem mínimo de horas, uma ida de duas horas para chegar ao trabalho
E escolha o mesmo para seus filhos, só que pior, e alivie a dor com uma dose desconhecida de uma droga desconhecida feita na cozinha de alguém
E então… Respire fundo
Você é um viciado, por isso se vicie
Vicie-se em outra coisa
Escolha o que você ama
Escolha seu futuro
Escolha a vida”

E você lembra do clássico monólogo de abertura, não?

“Escolha a vida.
Escolha um emprego.
Escolha uma carreira.
Escolha uma família.
Escolha uma porra de uma televisão grande.
Escolha máquinas de lavar, carros, tocadores de CD e abridores de lata elétricos.
Escolha boa saúde, colesterol baixo e plano dentário.
Escolha prestações fixas para pagar seu imóvel.
Escolha onde morar.
Escolha seus amigos.
Escolha roupas de lazer e uma bagagem que combine.
Escolha um terno para alugar feito com o melhor tecido de merda.
Escolha fazer as coisas você mesmo e pensar quem diabos você é em uma manhã de domingo.
Escolha sentar no sofá assistindo game shows que anestesiam a mente, entupindo a própria boca com comida-lixo.
Escolha apodrecer no fim de tudo, passando seus últimos dias numa casa miserável, nada mais que possa envergonhar os moleques egoístas que você gerou para te substituírem.
Escolha seu futuro.
Escolha a vida.
Mas por que eu iria querer algo assim?
Escolhi não escolher uma vida: eu escolhi outra coisa.
E a razão? Não há razões.
Quem precisa de motivos quando se tem heroína?”

E será que batizaram o novo filme de T2 (em vez de Trainspotting 2) pra que a geração crescida nos anos 90 confundisse com o segundo filme do Exterminador do Futuro?

loveless

A obra-prima atemporal do My Bloody Valentine completa um quarto de século e tive que falar sobre o disco lá no meu blog no UOL.

Em seu clássico visionário de 1977, Bruits: Essai Sur L’Economie Politique de la Musique (Barulho: Um Ensaio sobre a Economia Política da Música), o acadêmico e teórico francês Jacques Attali usa a música como metáfora para a evolução da humanidade da barbárie rumo à civilização. O que diferencia o barulho de música é nossa capacidade de abstração – e é justamente o que nos torna, mais que humanos, civilizados. A humanidade começa a evoluir a partir do momento em que, consciente de sua capacidade de fazer barulho, começa a organizá-lo em música. O barulho é o estágio animal do ser humano, violento, que ao tornar-se música mostra sua faceta requintada, elegante, educada. Attali também explica que este ato – fazer música – antecipa uma série de mudanças políticas e econômicas que ocorrem com a sociedade, cogitando a possibilidade de que a música funcione como uma atividade presciente dos acontecimentos que se desenvolvem nesta evolução.

Este momento – a cristalização do barulho em música – dificilmente é registrado em disco, devido à natureza desta transformação, que é mais própria de shows e ensaios do que estúdios de gravação. Mas é claro que vários artistas se dispuseram a explorar esta possibilidade, registrando a transformação de frequências sonoras brutas em uma musicalidade nova, para além dos conceitos clássicos de melodia. Eruditos do início do século 20 exploraram esta transição quase sempre de forma conceitual: a orquestra de ruído do futurista italiano Luigi Russolo, os experimentos com silêncio de Marcel Duchamp, as colagens sonoras de Edgard Varèse, as peças de John Cage, a musique concrète de Pierre Schaeffer, o pioneirismo eletrônico de Karlheinz Stockhausen.

Foi na música popular que as transições mais memoráveis destes experimentos aconteceram. Da produção wall-of-sound de Phil Spector, ao free jazz de Ornette Coleman, passando pelas aventuras dos Beatles e de Brian Wilson no estúdio até gestos mais artísticos como o primeiro disco do Velvet Underground ou do Frank Zappa com suas Mothers of Invention, a vontade de registrar o momento em que algo ruidoso torna-se melódico esteve na raiz laboral do pop, dando origem a gêneros inteiros (ambient, drone, noise, industrial, no wave, glitch), até que o advento do sampler nos anos 80 – que permitia disparar sons pré-gravados como bases musicais – trouxe o ruído para a base do pop atual. Mas nenhum disco registra tão bem este momento específico quanto o influente Loveless, a obra-prima que a banda irlandesa My Bloody Valentine lançou exatamente há 25 anos, no dia 4 de novembro de 1991.

É deixar o disco começar, esperar as quatro batidas iniciais que parecem elevar a expectativa, e deixar fluir um som… Que som é esse? Um riff circular de guitarra preenche o ambiente com ondas elétricas inusitadas, frequências sonoras que dissolvem-se logo que o entra doce vocal da faixa de abertura “Only Shallow”. São quantas guitarras? Que pedais são usados? Como essa gravação foi microfonada? E esse riff de abertura? Logo no início Loveless grita e sussurra, canta e berra, seduz e agride. É um meio-termo perfeito entre as grossas camadas de microfonia do Jesus & Mary Chain e a estratosfera onírica dos Cocteau Twins, criando uma sonoridade nova, completamente moderna e eterna. Vinte e cinco anos depois de seu lançamento, Loveless continua igualmente ímpar e alienígena – e, da mesma forma, envolvente e hipnóptico com há um quarto de século. Ele criou um universo musical que ninguém além do próprio My Bloody Valentine soube habitar, embora seja influência direta em algumas das principais bandas do rock alternativo nos anos seguintes (Smashing Pumpkins, Nine Inch Nails, Radiohead), além de ter sido festejado por músicos exigentes como Robert Smith e Brian Eno à época de seu lançamento.

Por toda sua extensão Loveless é um sonho tocado no último volume. O estranho assobio produzido pela forma de tocar guitarra de seu líder Kevin Shields é apenas um dos elementos únicos que definem a banda, como a onipresente parede elétrica de microfonia anestesiada, os doces vocais que sussurram no abismo, o acúmulo de instrumentos, a presença quase sutil de uma bateria montada na pós-produção, em loop eletrônico, o efeito entortado que o uso da alavanca de tremolo dá aos acordes secos e multiplicados, as eventuais ondas de ruído que parecem funcionar como abóbodas de catedrais. Músicas como a sequência final do lado A – “When You Sleep” e “I Only Said” -, a primeira música do lado B – “Come In Alone” – e a faixa que fecha o disco – “Soon” – são hinos celestiais em pele de banda de rock.

My Bloody Valentine: Kevin Shields, Bilinda Butcher, Debbie Googe e Colm Ó Cíosóig

My Bloody Valentine: Kevin Shields, Bilinda Butcher, Debbie Googe e Colm Ó Cíosóig

Loveless também é o fruto perfeito do trabalho mais obsessivo da história da música pop. Kevin Shields fundou a banda em 1983 com seu velho amigo Colm Ó Cíosóig na bateria, com quem já havia tocado em outras bandas desde o final dos anos 70. A baixista Debbie Googe entrou logo após a fundação da banda, que havia partido das guitarras açucaradas do Jesus & Mary Chain rumo à sua própria sonoridade. A entrada da vocalista Bilinda Butcher mudou radicalmente os rumos da banda, quando ela começou a tocar guitarra ao mesmo tempo em que Kevin Shields começava a dividir os vocais. Aos poucos a banda assume uma sonoridade repetitiva e cheia de microfonia que seria rotulada a partir da postura de seus integrantes no palco. Mais preocupados em fazer barulho para si mesmos do que em conquistar o público, passavam a maior parte do tempo olhando para baixo – shoegazing, olhando os próprios sapatos, em inglês -, o que deu origem ao termo que definiria aquele novo gênero musical – shoegaze. O marco zero deste foi justamente o primeiro disco do My Bloody Valentine, Isn’t Anything, lançado após alguns singles e EPs, em 1988. Um sucesso comercial na Inglaterra, o disco fez outras bandas inglesas como Slowdive, Chapterhouse, Swervedriver e Ride (influenciadas tanto pelo MBV quanto pelos Smiths, Jesus & Mary Chain, Cocteau Twins, Hüsker Dü, Sonic Youth, Bauhaus e Galaxie 500), se juntarem a esta nova cena, The Scene that Celebrates Itself, criada ao redor do novo gênero. O que fez Kevin Shields querer ir mais além.

E aí entra o épico parto que foi a gravação do disco. Gravado em quase vinte estúdios diferentes e com mais de uma dúzia de técnicos e engenheiros de som, Loveless gastou horas de estúdio como poucos discos na história e a lenda diz que seu preço chegou a 250 mil libras, provocando a falência de sua gravadora, a indie Creation. As histórias sobre a gravação do disco incluem vocais gravados às sete da manhã, Kevin cantando as partes agudas e Bilinda cantando as partes graves, camadas e mais camadas de guitarras superpostas e o fato de Colm não ter conseguido gravar as baterias devido a uma questão de saúde, o que fez Kevin picotar trechos de suas gravações e montar as bases rítmicas no estúdio. A gravação de Loveless também é conhecida por ter semanas gastas na gravação de um único riff, tornando constante as brigas entre Shields, os técnicos de som e os executivos da gravadora. O resultado foi um disco que transcende até mesmo o gênero criado no disco anterior, que, ao ser lançado no hoje mítico 1991, foi ofuscado pelo repentino sucesso do Nevermind do Nirvana, frustrando as expectativas de sucesso comercial da gravadora.

Isso é o de menos. A marca que o disco deixou na história da música é indiscutível. Um som que soa distante do presente mesmo 25 anos depois de gravado – e provavelmente continuará desta forma por pelo menos mais 25 anos. É um disco sem vínculos temporais nem estéticos, de uma natureza própria, que equilibra ruído e melodia de tal forma que evoca a escala geológica. Não é apenas uma banda de rock fazendo melodias doces soarem muito altas graças a experimentos no estúdio – é o som de geleiras se desfazendo, vulcões sopranos, baleias apaixonadas, do vento atravessando infinitas planícies ermas, um sentimento oceânico, bolhas de lava. O exato momento em que o ruído torna-se música, capturado. E que aponta o rumo do pop do futuro. Até hoje.

lego-submarine

Que tal essa versão de montar do Submarino Amarelo? Falei sobre ela no meu blog no UOL.

Ao criar a seção Ideas em seu site, a fábrica dinamarquesa Lego estreitou ainda mais sua relação com seus fãs, pedindo para que eles cogitassem temas e versões para serem montadas com seus tijolos de plástico. Os projetos ficam expostos no site e seus criadores fazem campanha para receber votos para que a fábrica transforme seu sonho em brinquedo. E um de seus projetos mais legais já está à venda – a versão Lego para o desenho animado Submarino Amarelo dos Beatles, que foi fabricada depois de receber 10 mil votos online. Olha como ficou massa:

Que viagem:

j-j-abrams

A confirmação ainda não é oficial, mas fontes indicam que o filme A Partícula de Deus faz parte do mesmo universo do monstro que invade Nova York e do bunker paranoico de Rua Cloverfield 10 – falei mais disso no meu blog no UOL.

Vocês lembram que no começo do ano J.J. Abrams tirou o segundo volume de sua série Cloverfield do nada, em menos de um mês do lançamento de seu Guerra nas Estrelas, revelando ao mundo que um pequeno filme de sua produtora Bad Robot chamado de The Cellar era, na verdade, a continuação de seu filme de monstro de 2008? A estreia do diretor Dan Trachtenberg contava com um pequeno e ótimo elenco formado por John Goodman, Mary Elizabeth Winstead e John Gallagher e a expectativa entre os dois meses do lançamento do trailer até o do filme gerou todo tipo de especulação que pudesse conectar um filme que mostra Nova York sendo destruída por um monstro que veio do fundo do mar e outro em que um lunático mantinha dois reféns em um abrigo subterrâneo dizendo ter salvo os dois do pior, que estaria na superfície.

O jogo de realidade alternativa que havia dado início às especulações sobre a origem do monstro no primeiro filme foi reativado, mostrando que o personagem de Goodman havia sido funcionário da mesma empresa que estaria envolvida no aparecimento do monstro. Mas quando Rua Cloverfield 10 foi lançado, nenhuma conexão direta entre os filmes foi estabelecida, com fãs discutindo a presença de um modelo moderno de iPhone, que indicaria que os acontecimentos do segundo filme teriam acontecido depois – e não em paralelo, como muitos desconfiavam – do primeiro filme. Muitos passaram a crer que Cloverfield fosse apenas uma marca que Abrams usaria para contar casos fantásticos, como outros autores fizeram em antologias como Histórias Maravilhosas, Além da Imaginação, The Outer Limits e Black Mirror (depois eu falo disso, não esqueci não!).

Mas é claro que os fãs foram investigar outras produções da Bad Robot e encontraram o filme de ficção científica God’s Particle (A Partícula de Deus), que será lançado no ano que vem e que conta a história de um grupo de astronautas em órbita que faz uma descoberta que altera os rumos da realidade, como diz a sinopse do filme. E agora uma fonte ligada à produção confirmou para o site The Wrap que God’s Particle é o terceiro volume da antologia Cloverfield – e que, talvez, explicaria a conexão entre os três filmes.

Sem o elemento-surpresa que foi seu principal aliado nos dois primeiros Cloverfields, resta saber qual será a próxima cartada de Abrams neste seu Partícula de Deus.