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Jornalismo

Na minha coluna no site da Galileu essa semana falo sobre como ações coletivas e processamento de dados podem melhorar o planeta.

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Amanda Palmer fala sobre “A arte de pedir” no vídeo ao final deste texto

A era da filantropia digital
Ações coletivas e uso inteligente de dados podem mudar o mundo em pouco tempo

Dois assuntos aos poucos se impõem como os grandes temas desta nova década: a ação coletiva e a utilização inteligente dos dados que temos sobre tudo. E os dois, juntos, podem mudar completamente as coisas em pouquíssimo tempo.

O primeiro parece uma reação natural da era eletrônica ao mercado de massas, criado pela era anterior e ainda vigente, a industrial. Este período histórico, iniciado com a revolução industrial há dois séculos e meio, foi um gatilho tecnológico que permitiu uma série de melhorias na vida cotidiana das pessoas, aos poucos tirou-as dos campos e transformou as cidades em palcos mundiais enquanto conectava, pela primeira vez, todo o planeta. Foi a época que inaugurou o conceito de conforto, consagrou os papéis de patrão e empregado e permitiu a explosão populacional que vimos nos últimos cem anos. A partir do surgimento da linguagem eletrônica, que tem pouco mais de 50 anos, estes conceitos começaram a ser desafiados pois a industrialização acaba tratando todos como números. A idade eletrônica, cuja influência só começou a ser sentida de fato em nossas rotina neste novo século, inverte essa lógica e possibilidade as potencialidades do indivíduo – inclusive como parte de um coletivo. É o que norteia a tal ação coletiva que faz iniciativas como crowdfunding, crowdsourcing e as redes sociais digitais serem tão populares atualmente.

O outro grande tema encontrou um rótulo no início do século quando foi decidido que o volume de dados disponíveis atualmente podem ser tratados pelo nome de Big Data – que, em muitos casos, reúne um número impossível de ser processado em aparelhos ou programas de porte médio, exigindo computadores mais poderosos. Big Data, na verdade, é fruto do excesso de informações gerado por qualquer ato ou movimento, seja pessoal ou de massa. Há desde gente colecionando dados médicos sobre si mesmos para antecipar problemas futuros com mais agilidade há empresas públicas inteiras tendo que abrir seus balancetes para justificar gastos e investimentos, além da obsessão humana em quantificar e mensurar diferentes tipos de atividade. Assim, há um volume de informações disponível que nunca vimos em toda a história – tema recorrente na coluna do redator chefe de GALILEU, Tiago Mali. A questão agora é o que fazer com esses dados. Mas no cenário atual, temos uma abundância de informação que pode nos ajudar a calcular melhor o que podemos – e queremos – fazer.

Há vários pontos em comum entre estes dois conceitos, mas queria chamar atenção de um deles: o fato de que, para funcionar, eles partem do pressuposto que as pessoas abram mão de algo para conseguir o que querem. No caso do crowdfunding, se abre mão de dinheiro, claro, mas no caso do crowdsourcing, das redes sociais e da disponibilização de dados, o que é oferecido não é mensurável. Estou falando de conhecimento, de disposição para ajudar e para trabalhar, de técnica e expertise, além dos próprios dados. Não quero fechar os olhos para áreas delicadas que são afetadas diretamente por essas mudanças, como a noção moderna de privacidade ou a transparência econômica e política. Mas o fato é que estas duas tendências desta segunda década do século 21 – ação coletiva e Big Data – serão ainda mais eficazes se as pessoas se dispuserem a participar.

Caso isso aconteça, podemos estar no início de uma era em que as pessoas possam começar a ajudar umas às outras sem ficar pensando em recompensas financeiras. E não estou falando em caridade (embora esta também seja importante), e sim de uma certa filantropia digital. E para começar a conseguir que isso ocorra também é importante saber o que é que precisa ser feito – e saber que isso pode começar com cada um de nós. Basta saber o que – e como – pedir.

Por isso encerro a coluna de hoje com o TED que a cantora Amanda Palmer apresentou este ano sobre “A arte de pedir”, abaixo:

Para quem não entende textos em inglês, segue abaixo a transcrição da participação de Amanda no TED em português, feita no próprio site do evento, abaixo:

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Semana passada Luane virou viral com vídeo boca suja, mas o que ela fala – descontando os palavrões – não é bobagem. Foi disso que falei na minha coluna da edição desta semana do Link.

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Parece piada, mas os conselhos de Luane têm fundamento
Apesar dos palavrões vídeo ‘manda a real’

No final do ano passado, a carioca Luane Dias resolveu gravar um vídeo para colocar no YouTube. Não citou nomes porque não queria apontar o dedo para ninguém, mas em pouco mais de três minutos desfilou um rosário de dicas de etiqueta social no Facebook. De fala mole e postura marrenta – uma carioca típica –, Luane, que pelo YouTube se identifica como “californiana2801”, também não poupa palavrões para criticar posturas de conhecidas em redes sociais.

Na semana passada, alguém descobriu o vídeo e ele viralizou. Se popularizou principalmente pelo jeito caricato que Luane dá suas dicas e pela enxurrada de palavrões ditos pela moça. Suas críticas tinham como alvo mulheres que querem passar por bem resolvidas e dizem não lamentar fim de relacionamentos, publicando frases de efeito no Facebook. As dicas de Luane são pérolas que merecem ser destacadas, mesmo relevando os palavrões e descontando o português esculachado:

“Bota que tá solteira, que tá feliz. Caô. Não tá! Sabe que não tá! Termina suave.” “Rasgue as fotos. Chore. Mas não coloque no Facebook.” “Tudo que vai fazer bota no Facebook. Essa porra virou diário agora?” “Como você vai arrumar namorado se todo dia você só quer reclamar?” “Guarde sua vida pessoal pra você.”

O único palavrão citado acima é quase uma vírgula perto das cenas pornográficas e do excesso de baixo calão do vídeo. Mas Luane não quer proibir ninguém de falar nomes feios e nem dar aulas de bons modos. Ela só quer dar um toque para umas meninas que saem publicando a primeira coisa que pensam no Facebook, sem nem pensar na repercussão que aquilo pode ter. “Não fale que tá na onda”, diz ela antes de cuspir outro palavrão e emendar “tá é ridícula”. O vídeo ganha ainda mais graça devido à fala arrastada de Luane, que capricha nos erres e nos esses chiados típicos do sotaque carioca.

Mas ela não está errada, não.

Luane está só verbalizando um sentimento que é próprio da maioria dos usuários da maior rede social do mundo. Você sabe. Basta um amigo ser contrariado para usar o Facebook como muro das lamentações e soltar indiretas como se elas pudessem ser percebidas apenas por quem é seu alvo. É quando paira aquela sensação de vergonha alheia – quando algo é tão constrangedor que envergonha até mesmo os outros. Você põe a mão na cara e abaixa a cabeça, incrédulo – “não é possível que o fulano se exponha dessa forma…”. Como se o Facebook já não fosse palco de outros tantos constrangimentos.

A carioca só pede calma na hora de postar. Ela mesma arrisca dizer que vai sair do Facebook, mas depois fala que não é preciso ser tão radical.

É um dilema da própria internet, não apenas do Facebook. A possibilidade de fazer sucesso a partir de frases polêmicas e opiniões engraçadinhas está ao alcance de qualquer um. E este sucesso é pra lá de relativo – basta que cinco amigos curtam uma frase boba para a pessoa que a publicou comece a se achar influente, transgressora, ousada.

Não, meu amigo, você não é. Na maior parte das vezes, o sentimento que você causa tentando provocar só piora a sua reputação.

Ou, como diz Luane, “se tu ficar de vacilação, alguém vai te cobrar”. Fique na boa!

***

Falei há duas semanas nesta Impressão Digital sobre o documentário Quarto 237, que disseca com diferentes lâminas O Iluminado, o clássico do horror dirigido por Stanley Kubrick em 1980. Ramon Vitral, repórter que cobre cinema no caderno Divirta-se, do Estado, veio me avisar que o filme de Rodney Ascher vai ser exibido no festival É Tudo Verdade, que começa na próxima quinta-feira, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Maiores informações sobre as sessões do filme no site do evento.

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Na minha coluna no site da Galileu essa semana é sobre o tratamento contra a leucemia que, a partir do HIV, consegue exterminar as células cancerígenas do organismo.

Leucemia com os dias contados
Um estudo publicado na semana passada abre novas perspectivas para o tratamento deste tipo de câncer

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A pequena Emily, que se submeteu ao novo tratamento

Tratamentos que retardam o efeito devastador do câncer – ou que em alguns casos chegam a eliminá-lo por vez – aos poucos vêm mudando o peso que a doença tem sobre as pessoas. Até o fim do século passado, o simples diagnóstico da doença era o equivalente a uma sentença de morte. Mas na semana passada tivemos mais uma boa notícia nesta área.

Na quarta da semana passada, dia 20, o doutor Renier J. Brentjens e sua equipe no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em Nova York, publicaram um estudo sobre um tratamento que vêm testando em pacientes com leucemia linfocítica aguda, uma das mais graves variações da doença, que abre novas perspectivas para os pacientes que sofrem deste mal.

O tratamento apresentado usou o vírus HIV como aliado e já havia sido testado por outras equipes médicas. O caso mais notório foi a revolução no estado de Emily Whitehead, menina norte-americana de 7 anos, que foi diagnosticada aos cinco anos com uma das piores variações da leucemia, que costuma ser avassaladora em adultos, mas que também não poupa crianças. A pequena Emily passou por tratamentos quimioterápicos que quase a mataram no início do ano passado, até que seus pais Tom e Kari resolveram apostar em um procedimento experimental que estava sendo desenvolvido no The Children’s Hospital of Philadelphia.

Como ela, doze pacientes que se submeteram ao novo tratamento tiveram seu quadro piorado em pouco tempo após a aplicação da nova prática, mas foi só a primeira mudança em seu quadro médico. Logo em seguida, todos começaram a se recuperar e a maioria teve suas células cancerígenas eliminadas do organismo. Apenas uma outra criança e quatro adultos não tiveram seus quadros completamente revertidos, enquanto em dois outros adultos (a doença é mais agravante quanto mais velho for o paciente), o tratamento não surtiu efeito. Mas, como Emily, cinco outros pacientes não apresentaram mais sintoma da doença desde que o novo processo foi iniciado, em abril do ano passado.

No tratamento, o vírus HIV foi modificado para reprogramar o sistema imunológico, de forma que este possa detectar células cancerígenas e eliminá-las. Ainda em fase experimental, a nova solução custa 200 mil dólares para os que se dispõe a experimentá-la e ainda não pode ser considerado eficaz. “Nosso objetivo é a cura, mas ainda não podemos dizer esta palavra”, declarou, com cautela, o doutor Carl June ao jornal The New York Times no final do ano passado, quando puderam comemorar o estágio atual da criança, que tornou-se símbolo deste novo tratamento. Jung coordena as pesquisas na Universidade da Pensilvânia e liderou o tratamento no caso do grupo de pacientes em que a criança esteve incluída.

Embora ainda seja um dos principais desafios da medicina moderna, os avanços contra este tipo de doença vêm melhorando consideravelmente – e a publicação do estudo realizada na semana passada pode ser o primeiro passo rumo à cura da leucemia. E, quem sabe, do câncer.

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A edição deste mês da revista Galileu traz na capa uma matéria do repórter Rafael Tonon sobre como o que chamamos de livre-arbítrio talvez possa não existir, hipótese cogitada por três livros que estudam o comportamento biológico do cérebro humano. Há também o dossiê sobre o futuro da indústria do tabaco, uma matéria sobre como o TED conseguiu espalhar-se pelo mundo usando o formato TEDx, outra sobre o sucesso do grupo Porta dos Fundos na internet, a entrevista que fiz com o filósofo Slavoj Žižek em sua passagem pelo Brasil, um infográfico que disseca o trabalho escravo no Brasil e uma matéria sobre porque escovar os dentes faz bem para todo o corpo, não só para a boca. Abaixo, a Carta ao Leitor que escrevi na edição deste mês.

Coincidências

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REVISTA EM MÃOS: Žižek folheia a edição do mês passado após entrevista realizada pelo diretor de redação Alexandre Matias

Uma das melhores coisas de se trabalhar numa publicação como a GALILEU é constatar a amplitude dos temas abordados. À medida que vamos pensando em diferentes pautas e matérias — seja na versão impressa ou no site —, nos damos conta de que qualquer tema pode ser abordado por nós, desde que dentro da ótica da ciência e do conhecimento, nossas principais bandeiras. E, justamente por isso, é curioso perceber como, mesmo falando de temas tão amplos e distantes entre si, alguns assuntos acabam se interconectando.

A edição deste mês reuniu uma série destas coincidências. Fui entrevistar o filósofo esloveno Slavoj Žižek, que veio a São Paulo participar de um seminário sobre marxismo, mas queria ouvi-lo falar sobre ciência e tecnologia, e, sem que eu perguntasse nada que pudesse remetê-lo ao tema, em pouco tempo ele começou a falar sobre a conexão entre homens e máquinas e como ela acaba questionando nossa noção de livre-arbítrio, colocando em xeque até mesmo a possibilidade de não ser o nosso consciente quem decide as escolhas que fazemos em nosso dia a dia. Justamente o tema da capa desta edição.

A matéria, escrita pelo colaborador Rafael Tonon, foi conduzida por Priscilla Santos, uma das editoras da revista, que também tomou conta de outra grande matéria desta edição, a tradução que fizemos da reportagem que a revista norte–americana Wired fez sobre o sucesso dos chamados TEDx. Essas conferências-satélite são filhotes do evento-mãe TED (acrônimo para Tecnologia Entretenimento e Design), que acontece há décadas nos EUA, mas que desde 2006 começou a se espalhar: primeiro via web, com íntegras de suas curtas palestras em vídeo, e depois para o mundo offline, por meio dessas franquias que se espalharam por todo o planeta — inclusive por aqui. E aí outra coincidência da edição: o marido de Priscilla, Helder Araújo, não só assiste há seis anos as conferências originais nos EUA como também ajudou a organizar o primeiro TEDx no Brasil, em São Paulo, além do TEDx na Amazônia. Assim, foi inevitável o chamarmos para dar um depoimento que daria um sabor pessoal e brasileiro à matéria estrangeira.

Aproveito a deixa da colaboração do casal na revista para parabenizá-los em público por outra colaboração dos dois, já que em breve serão pais. Congratulações a eles.

Esta edição também é a última que conta com a participação do editor Diogo Sponchiato, que deixou o Jaguaré rumo aos velhos “novos desafios”. Boa sorte, Diogo!

Por aqui, seguimos mudando. Sempre, afinal, as novidades não param. Vamos lá!

matias-por-luis-douradoAlexandre Matias
Diretor de Redação
matias@edglobo.com.br

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Na minha coluna da edição de hoje do Link Estadão, falo sobre como o fim da Trama Virtual tem a ver com nossa atual rotina digital, seja você músico ou não.

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A Trama Virtual e os registros digitais de nossa época
O serviço acaba, seu acervo também

Lembro de quando a Trama Virtual apareceu. Começou quase como um projeto secreto. Seu idealizador, Carlos Eduardo Miranda, já tinha um vínculo próximo às bandas, então não foi complicado fazer essa ponte. Afinal, como veríamos depois, não é fácil fazer um site desta natureza acontecer sem ter o respaldo da comunidade que o usará.

Miranda tinha como inspiração o já falecido site MP3.com, que nos anos 90 surgiu como um grande repositório de música digital nos EUA, antes da popularização massiva do formato após a criação do Napster em 1999. Mas eram outros tempos, principalmente no que diz respeito à velocidade de conexão, e o site minguou. No século 21 a realidade era bem diferente – principalmente por conta da popularização da banda larga. Além da explosão de downloads ilegais de música, uma outra corrente começou a se manifestar quando artistas que não tinham exposição no rádio ou chance de ser ouvidos por executivos de grandes gravadoras perceberam que poderiam utilizar a internet para chegar a um público que nem sabia de sua existência. Artistas dispostos a dar música de graça, mas que não sabiam onde hospedar seus arquivos. Lembre-se de que isso era antes do YouTube e do MySpace.

Foi aí que a ideia de Miranda floresceu. Encontrou artistas que não se viam refletidos no mainstream da época dispostos a mostrar sua música gratuitamente para tornarem-se conhecidos e, aos poucos, estabelecerem uma carreira. O principal nome a sair deste ambiente começou como uma piada – o Cansei de Ser Sexy – mas logo foi catapultado para o exterior. Tornou-se popular graças à música oferecida gratuitamente pelo site, a ponto da própria Trama se interessar em lançar um disco da banda.

Mas o Cansei de Ser Sexy era a ponta do iceberg. Milhares de artistas hospedados na TramaVirtual não conseguiram um milésimo da exposição (e do sucesso e do dinheiro) que o Cansei obteve. Mas seguiam felizes por poder colocar MP3 nos servidores da gravadora e usavam sua página no site como cartão de visitas. Não era mais preciso contratar um webmaster e um designer para construir uma identidade na internet. Bastava colocar suas músicas no site da Trama, fazer uma descrição do estilo musical, subir umas fotos e pronto: qualquer artista tinha seu próprio repositório digital de MP3.

Aí veio o MySpace, chegou e aconteceu, foi vendido para a NewsCorp e em cinco anos tornou-se a maior rede social do mundo e em seguida afundou. Muitos artistas da TramaVirtual também abriram suas páginas no MySpace. E depois que o MySpace se afundou na própria incompetência administrativa, vieram o SoundCloud, o Bandcamp e outros sites de natureza parecida. Até hoje tenho amigos músicos que, na assinatura do seu e-mail, incluem os links para suas páginas nestes serviços.

Eis que, no susto, a Trama decidiu desligar os aparelhos de seu site. Muitos correram para baixar o que ainda dava, mas era irreversível – e muita música deve se perder com essa decisão. O mesmo pode acontecer com outros tipos de site e aí chegamos a um dilema específico: o que acontece com um artista que não registrou sua obra em fita ou disco, deixando tudo no formato digital?

O dilema não é só dos artistas. Essa transição de sites e mídias aconteceu com cada um de nós que dedicou parte de sua vida à digitalização social. Pense em fotografias – no início era o Fotolog, depois veio o Flickr, seguido dos álbuns do Facebook e agora temos o Instagram. Isso vale para textos e vídeos. Muita gente despeja os arquivos em sites e deleta os originais por não ter espaço. Mesmo assim, a manutenção destes arquivos não é tão segura – basta um HD cair no chão para você perder todas os registros de uma viagem.

Mudanças de plataformas, de formatos e de servidores vão seguir fazendo parte de nossa rotina no século 21. Temos de aprender a lidar com isso – para não sermos pegos no susto.

Minha coluna de hoje no site da Galileu é sobre a geração de adolescentes do século 21.

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“Essa juventude está muito mudada”.
Uma nova geração de cientistas adolescentes pode mudar nossa concepção desta fase da vida

Até o século passado, a adolescência não existia. Se a infância foi uma invenção da Inglaterra Vitoriana, a puberdade só passou a ser vista como uma fase anterior à adulta na mesma medida em que o século vinte caminhava, culminando em sua segunda metade, quando os jovens se assumiram protagonistas das revoluções culturais dos anos 60. Foi o suficiente para que fossem estabelecidos uma série de dogmas sobre esta fase da vida que perduram até hoje – quase todos contrapondo pais e filhos.

Afinal, os instintos da puberdade pareciam ativar uma camada de rebeldia e confronto que fez algumas gerações de pais perguntarem-se, em desespero, sobre os rumos que sua prole teria com tal comportamento inusitado. O desespero paterno levou a uma espécie de ceticismo geral que conforma-se com o fato de todo adolescente fazer as coisas sem pensar, sem questionar, pelo puro prazer de fazer. E cada nova geração passa por um momento de frustração ao perceber que a geração adolescente de seu tempo está pior que a anterior.

Claro que é uma questão de perspectiva. Mas uma nova geração, amamentada pelo fácil acesso ao conhecimento graças à onipresença da internet aos poucos reverte essa premissa. São jovens que dedicaram seu tempo livre não ao ócio e à autoindulgência (nada contra), mas à pesquisa e à tentativa de melhorar o mundo. Uns mais ambiciosos que os outros, eles criam novas soluções e põem em prática ideias que, em outros tempos, passariam à distância de seu horizonte.

A edição de 2013 do TED, realizada no início deste mês em Long Beach, na Califórnia, resolveu jogar um holofote nesta geração. A conferência anual sobre novas ideias acontece há décadas mas tornou-se popular desde que suas palestras começaram a aparecer na internet, há pouco mais de cinco anos, e em outras cidades e países, graças à lógica de franquia que foi aplicada a eventos filhotes do original, os chamados TEDx. Na revista Galileu que chega às bancas no fim deste mês de março, falamos mais sobre esta iniciativa. E como tema de sua edição mais recente foi O Jovem, O Sábio, O Desconhecido.

Assim, três palestras específicas cativaram o público global do evento. Aos 18 anos, o norte-americano Taylor Wilson falou sobre como projetou um reator nuclear na garagem de sua casa, quatro anos antes, após perceber que um dos principais problemas do mundo é a produção de energia. Ele já havia participado da edição de 2012 contando sobre seu trunfo anterior, veja abaixo:

Na edição deste ano, Taylor – que já foi chamado de “o Bill Gates da energia” pela revista Forbes – falou sobre um novo projeto, os Reatores Modulares de Fissão Nuclear. São pequenos a ponto de serem transportados para gerar energia para fábricas, prédios de escritórios e lares, com a garantia de uma energia de melhor qualidade. Projetados para serem descartados após 30 anos de uso (sem intoxicar o meio ambiente), eles também foram desenhados para evitar desastres externos, tomando o acidente na usina japonesa de Fukushima, que aconteceu devido a um tsunami em março de 2011, como exemplo. Eles devem começar a ser produzidos e comercializados em cinco anos.

Outro palestrante adolescente desta edição foi de Jack Andraka, que no ano passado ganhou um prêmio da Intel por ter inventado um método de diagnosticar o câncer de pâncreas que era muito mais rápido, barato, sensível e eficaz que o método anterior – com apenas 15 anos. Ao perder um amigo devido à doença, ele começou a pesquisar sobre o assunto no início de sua adolescência, aprendendo tudo que podia. Descobriu, entre outras coisas, que o método de diagnóstico para aquele tipo de câncer tinha sido inventado há 60 anos – “era mais velho que meu pai”, como explicou na palestra. Após ter ganho espaço para trabalhar no laboratório da universidade Johns Hopkins, ele conseguiu criar seu próprio diagnóstico sendo inspirado pelo “lugar mais improvável para a inovação: a aula de biologia do segundo grau”. O projeto de Andraka ganhou o Intel International Science and Engeneering Fair do ano passado e hoje ele quer avançar rumo ao diagnóstico de outros tipos de câncer, problemas no coração e HIV.

O terceiro adolescente a falar no TED deste ano foi o queniano Richard Turere, de 12 anos, que, inconformado com o fato de leões devorarem o gado de sua família, no Parque Nacional do Quênia, onde vive, bolou uma alternativa para afugentá-los. Primeiro usou fogo, mas este facilitava a caça noturna dos grandes felinos. Depois tentou um espantalho, “mas leões são espertos”, disse. Finalmente, ao perceber que os bichos se afastavam quando viam luzes em movimento, inventou um painel de LED que espantava os leões à noite. Desde então, não aconteceram mais ataques. “Há um ano eu era um garoto que vivia na savana. Via aviões no alto e sonhava que um dia entraria num deles. E pude entrar num avião pela primeira vez ao vir para o TED”, contou em sua palestra.

Não são casos isolados. Aqui mesmo, no site da Galileu, volta e meia noticiamos casos de adolescentes versáteis que bolam novas soluções para velhos problemas. E nem isso é propriamente uma novidade. A novidade é que agora é mais fácil ter acesso ao conhecimento e a mostrar o que foi realizado para o resto do mundo. E uma nova geração pode mostrar toda sua capacidade – ou o início de seu interesse – em áreas da ciência e da tecnologia que décadas atrás seriam restritas aos adultos.

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E na minha coluna no Link Estadão dessa semana eu falo sobre o documentário Room 237, sobre O Iluminado de Kubrick, e como o diretor pode ter antecipado uma tendência que, na internet, é plena:

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Kubrick previu uma nova linguagem em ‘O Iluminado’
Filme de 1980 traz múltiplas referências

Stanley Kubrick é dessas poucas unanimidades. Seus filmes estão misturados ao inconsciente coletivo da segunda metade do século 20 e suas cenas de ficção são emblemáticas o suficiente para servir de parâmetro para outras cenas da vida real. Sua obra sempre cutucou parte do tecido comportamental de sua época e foi se tornando esparsa à medida em que sua reputação ia crescendo. Em 46 anos de atividade,o diretor fez apenas 13 filmes – em seus últimos 30 anos de vida realizou apenas quatro.

O Iluminado, de 1980, seu antepenúltimo filme, é festejado como uma das maiores obras-primas do terror no cinema. Os fantasmas de Kubrick eram cenas apavorantes e épicas: duas crianças gêmeas mudas no meio de um corredor, uma onda de sangue saindo de dentro de um elevador, o sinistro quarto 237 e a lenta transformação do personagem de Jack Nicholson – em sua maior atuação – de um correto pai de família a um psicopata enraivecido.

Entre os críticos, há quem reclame da liberdade poética tomada por Kubrick ao adaptar o romance de Stephen King, na época considerado um novo alento à literatura de horror nos Estados Unidos. Mas Kubrick nunca foi considerado fiel às obras originais que se dispôs a adaptar e sempre as usou como plataforma para explorar suas próprias ideias, cenas e concepções. Foi assim com Lolita de Vladimir Nabokov, com Laranja Mecânica de Anthony Burguess, com o conto de Arthur C. Clarke que inspirou 2001 e assim também seria com O Iluminado. Mas um documentário do ano passado une diferentes interpretações para chegar a uma conclusão impressionante sobre o filme de 1980.

Room 237 – ou Quarto 237 -, de Rodney Ascner, mostra que O Iluminado não é apenas um filme de terror. São várias camadas de interpretação que mostram que o filme conta não uma, mas várias histórias: há referências ao holocausto nazista escondidas no roteiro, à chacina do povo indígena norte-americano em diálogos e detalhes da direção de arte, referências à lenda que Kubrick teria forjado o filme da Apollo 11 pousando na Lua, jogos de óptica, a onipresença do número 42, quebra-cabeças, personagens que se superpõem, truques que só podem ser identificados depois que cenas são vistas múltiplas vezes, formas geométricas subliminares, takes que se repetem em referência. Somos apresentados a pontos de vista de críticos, acadêmicos e historiadores. Há evidências que muitas dessas camadas foram deixadas de propósito por Kubrick.

Até que, num dado momento do documentário, alguém cita o dono de um site chamado MSTRMND (“mastermind” sem as vogais) que conta com uma longa dissertação sobre o filme e, em texto, surge um aviso explicando que, mesmo procurado, ele não quis dar entrevista ao documentário. Visitei o site e li não apenas a tese sobre O Iluminado como as diversas reflexões sobre diferentes filmes e um dos pontos principais de suas análises é o fato de que diretores de cinema não lidam apenas com as histórias que cogitam em seus roteiros.

E num dado momento o autor cogita a possibilidade de Kubrick estar antecipando uma nova linguagem que não necessita de palavras – e sim que empilha imagem, som, movimento, referências e, também, texto, que poderia substituir a escrita num futuro próximo.

Lia esse texto no computador quando, num impulso quase inconsciente, acionei o alt+tab e pulei blogs, as timelines do Twitter e do Facebook, alguns tumblrs, páginas de notícias que intercalam texto, áudio e vídeo. E vi que já estamos indo rumo a esta nova linguagem – isso sem contar emoticons, emojis, gifs animados e diferentes tipo de fontes…

Kubrick, mais uma vez, tinha razão.

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Nesta quarta-feira estreei minha coluna semana no site da Galileu. Minha estréia, na verdade, é a inauguração da nova seção de colunistas do site, em que todo mundo da redação ganhou coluna para escrever sobre o que mais lhe interessava. A minha coluna, chamada de Bom Saber, procura uma abordagem otimista em relação às novidades da ciência e da tecnologia e os benefícios que estas trazem para o nosso dia a dia – além de funcionar como uma continuação da minha Carta ao Leitor que vem no início de cada nova edição impressa. Explico melhor abaixo:

Melhorando sempre
As novas colunas GALILEU e um novo otimismo científico

A estreia de novas colunas no site GALILEU talvez seja a primeira grande mudança na minha gestão como diretor de redação desta publicação. Quem acompanha o site e a revista já deve ter percebido as mudanças em andamento, principalmente no que diz respeito à integração e ao aprofundamento do conteúdo em ambas as plataformas, bem como a exposição da marca por outras mídias, para além da internet e do papel. Só neste ano já firmamos parcerias com a Campus Party e com o Fronteiras do Pensamento, além de lançarmos nosso boletim semanal na rádio CBN (todo domingo, às 13h30, dentro do Revista CBN), uma newsletter com as principais novidades do site e uma mudança na abordagem na forma como utilizamos as redes sociais.

Mas o lançamento de seis novas colunas e do blog da editoria de arte é uma ação que mexe internamente com a equipe, pois valoriza as qualidades dos profissionais que fazem GALILEU ser o que é: a publicação mais inteligente do Brasil. Também mostram o quão ampla é sua área de atuação. Grande parte dos diversos assuntos abordados não está automaticamente associada ao que se imagina quando falamos em uma revista de ciência. Talvez porque GALILEU há muito não só é uma revista de ciência — nem acadêmica demais a ponto de deixar leitores leigos fora da discussão, nem superficial demais a ponto de tratar seus leitores como meros curiosos.

Editorialmente, o que nos acostumamos a chamar de ciência também pode ser chamado de conhecimento. E a partir deste março de 2013 começamos a nos dedicar a áreas que fogem dos dois estereótipos acima. Nossa abordagem sobre a ciência diz respeito à vida de cada um de nós. O conhecimento não é uma enciclopédia só consultada em encruzilhadas intelectuais ou uma coleção de causos de almanaque exibidos apenas como cultura inútil.

Para nós, conhecimento e ciência são ferramentas que ajudam a viver melhor. Basta ver os temas escolhidos por cada profissional do título. O redator-chefe Tiago Mali, o capitão da revista impressa e responsável pela seção Numeralha desde a edição de fevereiro, passa a dedicar-se a um de seus temas favoritos – a relação entre dados e fatos, e a importância da transparência ao lidar com ambos. Essencialmente, o tema de Tiago é puro jornalismo, mas aplicado ao século digital, quando surge esta nova subdivisão chamada jornalismo de dados, em que o operário da notícia passa a navegar por planilhas e bancos de dados para descobrir manchetes que ninguém leu e levantar informações que poucos conhecem. Em sua coluna semanal (publicada todos os sábados), Tiago vai falar de temas que importam a todos, mas sempre partindo de um ponto de vista nem sempre fácil de lidar, pois requer paciência e dedicação. E mais do que atuar como um jornalista de dados, ele também cobrirá as transformações nesta área no Brasil e no mundo.

A editora Priscilla Santos tinha um blog sobre como viver bem na cidade grande antes de trabalhar em GALILEU, daí ter se apropriado de seções como Startup e Urbanidade, que edita mensalmente na revista. Pois em sua coluna semanal (publicada todas as quintas-feiras), ela volta a falar do tema sustentabilidade, sempre do ponto de vista do cidadão comum — pessoas que começam a pensar em soluções para os cada vez maiores problemas da cidade moderna.

O editor Tarso Araújo já tem um livro publicado (Almanaque das Drogas, 2012) sobre o tema de sua coluna, mas pedi para que não ficasse numa abordagem tão específica e sugeri ampliá-la para incluir o principal campo de atuação das drogas — lícitas ou não —, o cérebro. E assim, passa a abordar, como ele mesmo diz, “os truques e armadilhas” do órgão que controla nossa individualidade. Sua coluna é atualizada todas as sextas-feiras.

A editora do site GALILEU Débora Nogueira escreve sobre tecnologia e o impacto das novidades digitais em nosso dia-a-dia, sempre observando como um novo serviço ou um novo aparelho podem afetar — e até mesmo mudar completamente — nossos hábitos e comportamentos. Ela escreve todas as terças-feiras. Luciana Galastri, repórter do site, também fala sobre o mundo digital, mas seu foco está na cultura da internet, aquela que mistura ícones, inventa virais e faz todo mundo falar sobre um determinado assunto por horas ou semanas — sua coluna é atualizada toda segunda-feira.

Além destas cinco colunas, ainda há a estreia do blog Dpto de Arte, sob a responsabilidade da editoria de arte GALILEU, comandada pelo diretor de arte da revista, Fabio Dias, que, ao lado da editora Ana Paula Megda e dos designers André Moscatelli e Gabriela Oliveira, mostrarão as referências de design que os ajudam a tornar a revista mais inteligente do Brasil uma das mais bonitas e agradáveis de se ler.

Eu fecho o time de novos colunistas com uma coluna dedicada a mostrar como ciência e tecnologia vêm melhorando — e muito — nossas vidas. A cultura da virada do século 20 para o 21 parece ter nos acostumado a ter uma visão pessimista sobre o futuro — fatores como superpopulação, crise econômica, aquecimento global e estatísticas alarmistas nos induzem a pensar que o mundo está às vésperas de um colapso. Mas não é o que se vê ao observar o contexto. Cada vez menos gente morre pelos motivos que morriam nos séculos anteriores, cada vez mais gente tem melhores condições de vida e perspectivas de melhoria estão por toda a parte. Há um otimismo que falta ser disseminado, muito por conta das melhorias que vieram com a evolução da ciência e da tecnologia — e este será o assunto da minha coluna, que também funcionará como uma extensão digital da minha Carta ao Leitor, que abre todas as edições da versão impressa do título.

Como disse no início, é um passo importante para a GALILEU 2013. As mudanças continuarão, as novidades seguirão aparecendo — mas saber quem são as pessoas que fazem GALILEU é uma parte crucial desta nova etapa.

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Minha coluna no Link de hoje é um comentário – sem spoilers – sobre a segunda temporada de Black Mirror, que cada vez torna-se mais importante.

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O ‘Além da Imaginação’ do novo século digital
Black Mirror: série pode ser melhor produção de TV no ano

Há meio século, quando a televisão era novidade, o formato seriado foi um dos primeiros a propor uma linguagem típica da nova mídia, diferente de programas de auditório e de notícias que imitavam fórmulas consagradas no rádio. A nova mídia já havia se consolidado em lares norte-americanos e logo invadiria as salas de estar pelo mundo. A caixa luminosa e falante aos poucos descobriu as maravilhas da fita gravada, transmitindo pequenos filmes semanalmente para um público que ainda se acostumava ao novo aparelho e à sua linguagem.

O seriado imitava a fórmula narrativa das peças de teatro que já havia sido absorvida pelo cinema e, nos anos 1950, foi adaptada para a televisão. A principal diferença era o fato de que a TV, muito mais do que o cinema e o teatro, falava com milhões de pessoas ao mesmo tempo. Então era preciso diluir a produção para que as histórias fossem simples – e atingir cada vez mais gente.

Mas, há 50 anos, um contador de histórias começou a mexer neste formato. Depois da consolidação do seriado, ele passou a ser submetido a novas possibilidades – e um dos primeiros a puxar a mudança foi o escritor e roteirista Rod Serling. Cansado das restrições que sofria devido aos patrocinadores, resolveu partir para a ficção científica. E assim criou The Twilight Zone (A Zona do Crepúsculo, como bradava seu título original em inglês), conhecido no Brasil como Além da Imaginação.

O seriado aproveitava a novidade que era a TV para propor novos dilemas e situações pitorescas ao cogitar mudanças absurdas ou surreais em cada novo episódio. Histórias com meia hora de duração (chegaram a ter uma hora, mas só na quarta temporada) retratavam perfeitamente o clima da época.

O início dos anos 60 estava ensanduichado entre a década de 50 – que viu a ascensão da classe média norte-americana ao mesmo tempo em que se vivia a paranoia anticomunista, traduzida em histórias de horror e ficção científica – e o nascer do novo decênio, que, ainda sob a sombra da Guerra Fria, assistiu a mudanças nos direitos civis e no tratamento à mulher, além da popularização de substâncias de expansão da consciência e de celebridades em escala global.

Vivemos hoje uma época parecida com o início dos anos 60. A novidade não é mais a TV, mas a internet. Passamos já da fase de deslumbramento com o fato de estarmos em contato com o mundo inteiro instantaneamente. Mas… cadê o nosso Além da Imaginação?

Está na TV – mas ainda não passou na TV brasileira, nem tem previsão, como confirmei com a assessoria de imprensa do canal inglês BBC por aqui. Black Mirror, criado por Charlie Brooker, já comentado neste espaço, teve sua segunda temporada exibida mês passado. São só três curtos episódios, mas que pegam na veia – e no estômago – quando usam, como Além da Imaginação, nossa relação com novas tecnologias e mídias como metáfora para nos atentar para problemas que nos afligem em escala aparentemente menor.

Não vou contar as histórias nem as surpresas (e são muitas) dos episódios Be Right Back, White Bear e The Waldo Momento, mas insisto que merecem atenção, pois talvez sejam a melhor produção na TV em 2013 até agora.

O ano começou há dois meses, mas vai ser difícil alguém tirar este trunfo do seriado de Brooker. Ele aborda temas como política, violência, alienação, amor, marketing, justiça, inteligência artificial, relações familiares, vingança, morte, reality show, mercantilização da experiência humana, parques temáticos e televisão. Tudo filtrado por TVs de plasma enormes, telefones portáteis, redes sociais, transmissões ao vivo, vida digital e avatares. Talvez só não seja perfeito porque não foi criado para a própria nova mídia, como o Além da Imaginação era em seu tempo.

Mas, por outro lado, como assistir a um programa de TV inglês que só foi exibido oficialmente em seu país? Quem sabe, sabe.

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E na minha coluna de hoje do Link, escrevi sobre como o famigerado “Harlem Shake” levou um desconhecido pro topo da parada de sucessos mais respeitada do mundo da música.

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Um artista desconhecido no topo da parada da Billboard
Dança nonsense levou a música ao topo

Na semana passada, a parada de sucessos da revista norte-americana Billboard incluiu mais um item em seu ranking de músicas mais populares dos Estados Unidos. Chamada de Hot 100, a parada elenca desde 1958 as cem músicas mais vendidas e tocadas durante uma semana e sempre foi o termômetro de desempenho comercial dos artistas. Até a chegada da internet.

Antes da rede, era razoavelmente fácil aferir a performance mercadológica de um músico. Somava-se discos vendidos e músicas tocadas nas rádios e, a partir de cálculos específicos, a revista estabelecia qual era o artista mais popular no momento. Ou a banda que, embora não tenha atingido o topo, continuava a fazer sucesso graças às vendas e às execuções no rádio. Com a internet, esses parâmetros se perderam.

Afinal, qualquer um pode baixar quantas músicas quiser sem pagar ou ouvi-las sem que toquem no rádio, o que torna inviável a quantificação. Mesmo descartando os downloads ilegais, aumentam a cada dia as opções para ouvir música de graça (bandas que liberam o download ou serviços de streaming). Um deles, onipresente, é o que está mais perto de se tornar a maior rádio global que já se viu – embora seja uma plataforma originalmente de vídeo. Sim, o YouTube.

E foi exatamente o número de visualizações via YouTube que foi incluído no Hot 100 da Billboard. Mas o destino irônico quis que a novidade surgisse na hora em que a febre musical da vez não tivesse nem mesmo um vídeo próprio.

Se o novo parâmetro tivesse sido habilitado há seis meses, há um ano, há dois, teria elevado nomes como Psy (de Gangnam Style), Carly Rae Jepsen (de Call Me Maybe) ou Rebecca Black (de Friday) ao topo da lista e acelerado sua consagração comercial. São canções que têm videoclipes próprios, em que as imagens e a exposição são de domínio do artista.

Acontece que o hit de fevereiro de 2013 não é sequer uma música inteira. São 30 segundos de uma faixa que muitos nem mesmo podem considerar (por preconceito) uma canção. Harlem Shake, do produtor norte-americano Baauer, sem querer, se tornou o exemplar mais famoso de um gênero em formação chamado trap music.

A classe musical é uma variante sulista do hip hop norte-americano, mais lenta e pesada, que se aproxima de estilos específicos, como a versão dos EUA do dubstep (mais pesada e rápida do que a original inglesa) e o moombahton (colisão entre house music e reggaeton). Há um paralelo inevitável com o chamado “funk ostentação” paulistano, que se tornou objeto de curiosidade antropológica devido ao seu sucesso via internet.

Mas Harlem Shake não é nova – foi lançada em maio de 2012 e até fevereiro não tinha registro comercial. Até que um grupo de adolescentes australianos se vestiu com fantasias ridículas (um de Power Rangers, outro de alienígena, todos de collant) para dançar de forma ainda mais ridícula com a canção de Baauer. “CON LOS TERRORISTAS!”, diz o grito no início da música, que entra numa batida mecânica que se acelera. Aos 15 segundos, um sample diz “do the harlem shake” e a música se esborracha em câmera lenta, com um beat constante e uma base grave, sintética e lenta.

No vídeo dos jovens, a primeira parte da música é dedicada a se mexer sem sair do lugar, balançando a cabeça e os quadris sem tirar o pé do chão. Na segunda, depois de “do the harlem shake”, os moleques se chacoalham por inteiro, com os braços caídos, numa falta de noção típica da adolescência. Virou uma pérola de humor nonsense da internet.

Justamente por isso pegou. E, como outros, começou a ser citado, referido, misturado. E o “do the harlem shake” convidou as pessoas a fazerem seu próprio “Harlem Shake”. O resto é história.

E, de uma hora pra outra, um artista desconhecido, que criou uma música há quase um ano, tem um trecho seu usado ironicamente em um vídeo que se espalha por um motivo idiota e se torna o artista número 1 na Billboard. Esse começo de século 21 é uma época e tanto…