Trailer da primeira série brasileira do Netflix mostra como funciona a meritocracia agressiva de 3% – postei lá no meu blog no UOL.
O Netflix acaba de lançar o trailer de sua primeira produção brasileira, a série de ficção científica 3%, que começou no YouTube e estreia no dia 25 de novembro. No trailer, é explicada o rígido processo de seleção de uma realidade brasileira futurista que pode ter várias leituras em relação ao nosso presente…
Assisti ao filme do Dr. Estranho e é tanto o filme de super-herói mais lisérgico quanto o mais adulto já feito – escrevi sobre o filme lá no meu blog do UOL.
“Prepare-se para esquecer tudo que já sabe.” A frase, dita em tom ameaçador ao personagem-título do filme Doutor Estranho, que chega aos cinemas nacionais no dia 3 de novembro, também pode servir como aviso para o público acostumado aos filmes de super-herói da Marvel. O Doutor Estranho vivido por Benedict Cumberbatch consegue manter a regra de que o estúdio consegue fazer um filme divertido e empolgante até com personagens desconhecidos do grande público, como já havia feito em Guardiões das Galáxias e o Homem-Formiga. Mas a jornada do neurocirurgião Stephen Strange rumo ao desconhecido supera a expectativa ao apresentar um filme de super-herói para um público adulto, alheio aos uniformes coloridos e aos superpoderes de protagonistas de apelo infantil.
É o filme mais maduro da Marvel até agora e, coincidentemente, sua produção mais psicodélica. Toda aura mística e espiritual do médico que sofre um acidente que o impossibilita de continuar seu trabalho era traduzida em imagens grandiosas e espetaculares nos quadrinhos, publicados principalmente na virada dos anos 60 para os anos 70, auge da experimentação lisérgica da cultura pop. Os autores da Marvel do período – especificamente Steve Dikto, que recebe o crédito de autoria do personagem do novo filme – aproveitavam cores e formas para expandir os limites dos quadrinhos em páginas duplas épicas, cheias de detalhes.
Essa psicodelia é traduzida formidavelmente em imagens de tirar o fôlego pelo diretor Scott Derrickson, que mistura mandalas orientais, o urbanismo surreal de A Origem do diretor Christopher Nolan e uma mecânica transcendental que bebe tanto nas perspectivas inacreditáveis do ilustrador MC Escher quanto dos artistas mais radicais da Marvel para criar cenas de ação caleidoscópicas. Nos trailers, estas cenas deslumbram e encantam – mas nos filmes elas deixam de ser mera (e ousada) decoração para fazer parte da ação, em cenas de luta e perseguição que ganham perspectivas impossíveis.
A psicodelia é sublinhada em vários outros momentos do filme, desde o apreço pelo oriente (a terra encantada dos anos 60) quanto nas referências pop – o acidente que muda a vida de Strange é acompanhado por “aquela” música “daquele” disco do Pink Floyd (não vou estragar a surpresa) e veja se você consegue reparar no livro que Stan Lee está lendo em sua rápida e rotineira participação especial. É interessante notar que a expansão de consciência que a cultura pop foi submetida durante este período também é o momento em que ela começa a abandonar sua juventude rumo a uma nova maturidade.
Esta maturidade é reforçada pelas ótimas atuações do filme. Além de um irrepreensível Cumberbatch (que, mais uma vez, abandona os vestígios de seus personagens anteriores, desde o Khan do segundo Jornada nas Estrelas de J.J. Abrams ao seu clássico Sherlock Holmes), o elenco do filme está muito acima do filme mediano da Marvel. A dupla que Cumberbatch faz com a personagem de Rachel McAdams, Christine Palmer, mantém a primeira meia hora da produção no mundo real, sem misticismo nem megalomania. Tirando a cena inicial, que nos apresenta ao vilão Kaecilius (vivido por Mad Mikkelsen, o Hannibal da série de mesmo nome), o primeiro ato do filme quase não parece um filme de super-herói e sim um drama sobre relacionamentos, sentimentos e prioridades.
Mas uma vez que Strange viaja para Katmandu encontrar seu destino, o filme ganha contornos hiperbólicos e sentidos improváveis num filme de super-herói, ainda graças às boas atuações de Tilda Swinton (a Anciã, que, mesmo não sendo um personagem oriental não compromete a história), Chiwetel Ejiofor (Modor) e ótimo Wong (vivido por Benedict Wong). Como os outros dois filmes de heróis desconhecidos do grande público, Doutor Estranho é um filme autocontido e não é preciso entender nada do universo cinematográfico Marvel ou de filmes de super-herói para apreciá-lo.
Os fãs, no entanto, têm uma série de dicas escondidas, pistas espalhadas e, claro, continuidade na enorme saga Marvel no cinema, prestes a completar uma década. As melhores delas nos apresentam a uma dimensão inteira para o universo já conhecido, nos esfrega uma Jóia do Infinito que estava escondida em nossa cara e traça conexões com outro filme da Marvel que está por vir, além de anunciar a volta de Strange nos próximos filmes (são duas cenas escondidas após os créditos). É o filme mais maduro e mais psicodélico da Marvel – e, por isso mesmo, pode trazer ainda mais gente para o público do estúdio. Não vejo a hora de assistir de novo.
Em sua décima terceira edição, o pernambucano Coquetel Molotov se consolida como um dos melhores do país – escrevi sobre o festival no meu blog do UOL.
Conheço Recife desde os tempos em que o mangue beat ainda era uma novidade recebida com estranhamento pelos próprios pernambucanos, que demoraram para reconhecer que aquela mistura de tradição e modernidade encabeçada por Chico Science aos poucos colocaria a cidade não apenas no mapa musical do Brasil como no atlas da cultura mundial. A natureza tradicionalmente cosmopolita da cidade – resquício da colonização holandesa liderada por Maurício de Nassau no século 17 – havia entrado em estado de hibernação durante os anos 80 e a turma dos caranguejos com cérebro sonhava em voltar a respirar uma cidade que fosse reconhecida por sua rica cultura e mentalidade aberta, não pelos índices de violência e de pobreza.
Um quarto de século depois dos primeiros rascunhos do mangue beat, a décima terceira edição do festival pernambucano Coquetel Molotov foi a materialização daquela utopia imaginada no início dos anos 90, quando os primeiros agitadores culturais que criaram aquele movimento hoje histórico começaram a se conhecer. Eles imaginavam uma Recife conectada ao resto do estado, do país e do mundo sem fazer escalas pela ponte Rio-São Paulo, refletindo a atmosfera naturalmente moderna da capital pernambucana em uma conversa internacional e moderna, colocando artistas e público numa sintonia alheia às demandas ou exigências do mercado.
E foi isso que aconteceu na ampla fazenda colonial Coudelaria Souza Leão, neste sábado, dia 22, que recebeu a melhor safra do pop brasileiro deste ano, desfilando entre os dois principais palcos do dia final do evento, que desta vez teve etapas realizadas nas cidades de Belo Jardim (no interior do Pernambuco) e Belo Horizonte nas semanas anteriores. Quase dez mil pessoas assistiram a shows de artistas de diferentes estados brasileiros e de outros países, mas mais do que as atrações musicais o que realmente determinava a atmosfera do festival era o público.
Um púbico completamente misturado – de diferentes etnias, classe sociais, faixas etárias e gêneros -, respeitoso e exigente, entregues à música fosse ela a hipnose psicodélica dos goianos dos Boogarins, o groove sintético da paulistana Céu, o ativismo dance da curitibana Karol Conká ou a pista pesada dos soteropolitanos do BaianaSystem. Em cada um dos shows o público reagia de forma diferente, mas sempre entrando em sintonia completa com a realidade musical proposta por cada atração. Era uma pequena multidão que ia do transe reverente ao baile apaixonado, da surpresa empolgada ao êxtase corporal, deixando os artistas à vontade para fazer o que melhor sabiam.
Isso potencializou shows naturalmente fortes, como o de Céu e do BaianaSystem, donos de dois dos melhores discos e shows deste ano. Frente ao público do palco principal do festival (dentro de um enorme casarão colonial), os dois suaram sorrindo para fazer apresentações irrepreensíveis, conduzindo a platéia na mão ao mesmo tempo em que se entregavam a ela. Já artistas como o paranese Jaloo, a banda carioca Ventre e os norte-americanos do Deerhoof souberam aproveitar as dimensões menores do palco aberto e fizeram shows de pura adrenalina: Jaloo entregue aos braços da audiência, a baterista Larissa Conforto da Ventre mais uma vez roubou a cena com uma intensa intervenção política e os norte-americanos descarregando eletricidade e ritmo. Shows intensos em que parte dessa energia vinha da cumplicidade quase instantânea entre bandas e público.
Entre os dois palcos, este público também circulava entre um mercado de compras, o terceiro palco do festival (a Rural do Rogê, uma velha caminhonete que abriga shows itinerantes pelo Recife, capitaneada pelo Rogê da antiga Soparia, eternizado na música “Macô” da Nação Zumbi) e um quarto palco, bem menor e sem iluminação, quase uma ocupação, que foi colocado entre os dois palcos principais para receber bandas instrumentais. Música para todo o lugar que você ouvisse, cercando um público que começou a frequentar shows exatamente quando o mangue beat começou a ser incorporado ao mainstream da cidade e o Coquetel Molotov começava a dar seus primeiros passos, ainda sob o epiteto de “o festival indie do Recife”.
Treze anos depois o festival cresceu e seu público também, bem como suas ambições culturais e estéticas. E o que viu-se neste sábado no Recife foi justamente a maturidade completa de uma cena local, aberta para o novo e disposta a se reinventar constantemente, uma vez que a cena já entendeu esta realidade. Para o ano que vem eles tentam um desafio ainda maior: trazer o festival para São Paulo. Não apenas alugar uma casa noturna e desfilar algumas atrações que também levarão para o Recife, mas reproduzir em São Paulo a atmosfera deste que é o festival mais alto astral do Brasil. Um desafio e tanto.
O Cartoon Network decidiu pôr fim a um de seus desenhos mais revolucionários – falei disso lá no meu blog no UOL.
Diga adeus a Finn, Jake, Princesa Jujuba, Rei Gelado, Marceline e todo mundo da Terra de Ooo. O Cartoon Network anunciou que o fim do desenho animado Adventure Time – A Hora da Aventura, como é conhecido no Brasil. Essa morte, felizmente, não é súbita: o canal ainda produzirá as temporadas dos próximos dois anos e quando chegar à sua nona safra de episódios, em 2018, encerrará a produção de um dos desenhos animados mais queridos desta década.
“Adventure Time mudou a definição do que um programa de TV infantil poderia ser e teve um impacto impressionante sobre a cultura popular em todo o mundo”,disse Rob Sorcher, executivo-chefe de conteúdo da emissora paga no comunicado sobre o fim do desenho. “O Cartoon Network tem orgulho de ter reunido este time brilhante de artistas e animadores que ajudaram a fazer de Adventure Time um dos programas de TV mais aclamados pela crítica de uma geração.”
A psicodelia aloprada capitaneada pelo garoto Finn e seu cachorro Jake faz jus ao epíteto de revolucionário e é descendente direto de outros programas igualmente geniais como Simpsons, South Park e Bob Esponja. Só que o universo multicolorido criado por Pendleton Ward aprofunda-se em questões que poucos programas infantis já tinham lidado, como a complexidade dos sentimentos, a pluralidade de pontos de vista, estética radical, sensibilidade artística, conceitos de vanguarda e a imaginação desenfreada, sobre histórias e personagens que deixam até adultos constrangidos. Além das próximas temporadas, o desenho ainda terá programas especiais e minisséries, mas nada foi mencionado em relação à tão aguardada ida do universo para o cinema.
O artista canadense Beddo recriou clássicas capas da Marvel protagonizadas por ícones do hip hop e eu reuni as melhores delas lá no meu blog no UOL.
O ilustrador canadense Beddo resolveu reunir suas duas paixões em uma série de painéis que recriam capas clássicas da Marvel com ícones do rap dos anos 80 e 90. Assim, ele coloca Tupac Shakur como Wolverine em duas situações (posando na capa da primeira edição da clássica Dias de um Futuro Esquecido e na capa de uma das edições de sua primeira minissérie solo), o grupo Wu-Tang Clan assume o papel de todos os heróis da capa da primeira edição de Guerras Secretas, Notorious B.I.G. recria a capa da edição do Homem-Aranha que apresenta o Rei do Crime, Nas aparece como na capa da edição dos Vingadores que apresenta o andróide Visão, o Public Enemy surge homenageando a edição da revista Novos Mutantes que traz pela primeira vez a Frente de Libertação Mutante, Rakim vem como Tony Stark enfrentando o alcoolismo, o A Tribe Called Quest reencena uma capa clássica do Quarteto Fantástico e Lauryn Hill vem como a primeira aparição de Jean Grey como Fênix Negra, nos X-Men. Ficou demais.
Pouco antes do lançamento de Dr. Estranho, a Marvel começa a colocar seu próximo filme na roda – o primeiro pôster oficial do novo filme é este acima e o trailer está lá no meu blog no UOL.
A especulação já estava rolando desde o início do mês – que junto com a chegada do novo filme da Marvel aos cinemas (Dr. Estranho, que estreia dia 3 de novembro) -, o estúdio começaria a revelar mais novidades sobre seu próximo filme, Guardiões da Galáxia 2. A conexão entre os dois filmes já vem sendo especulada há mais tempo, mas o indício de que o primeiro trailer do filme da equipe liderada por Starlord (o hilário herói vivido por Chris Pratt) apareça online antes do lançamento de Dr. Estranho nos cinemas (e que possa vir atrelado ao novo filme, sendo exibido nas telonas já no mês que vem) foi confirmado quando o diretor James Gunn twittou o primeiro pôster oficial do filme. Olha que demais (repara no Groot minúsculo – há boatos que ele deve se tornar adolescente durante o novo filme, um Bart Simpson de madeira):
E o trailer, portanto, deve pintar em breve… Talvez ainda hoje! Atualização: 14h11 Olha o trailer aí!
Pôster final, trailer com mais detalhes da história… Já já o primeiro Guerra nas Estrelas fora das trilogias clássicas estará entre nós. Mais informações lá no meu blog no UOL.
Finalmente a Lucasfilm revela o pôster final e o trailer definitivo do filme Rogue One, o primeiro fora das trilogias da família Skywalker depois que a Disney a franquia. O novo trailer conta um pouco mais de história além da sinopse que já sabíamos (como espiões rebeldes roubaram os planos para destruir a Estrela da Morte) e reforça a aposta que o novo filme deve ser pode ser uma surpresa para o padrão dos filmes da saga.
A série de ficção científica 3% começou no YouTube em 2011 e cinco anos depois vai ser a primeira produção brasileira do Netflix – com estreia marcada para o fim do ano. Falei disso no meu blog no UOL.
A primeira produção brasileira do serviço de vídeos Netflix já tem data de estreia marcada: todos os episódios da primeira temporada de 3%, uma série de ficção científica criada originalmente para o YouTube, poderão ser assistidos a partir do dia 25 de novembro. A série conta a história de um futuro próximo em que a sociedade é dividida em duas castas e a única possibilidade dos integrantes da classe mais populosa – e mais pobre – passar para a elite desta realidade (os 3% que batizam a série) é através de um processo seletivo que é justamente a história do seriado.
A série foi criada originalmente para o YouTube em 2011 e seus três episódios originais continuam online (assista-os ao final deste post). O grupo do seriado original é encabeçado pelo criador de 3%, o jovem Pedro Aguilera (que a partir do sucesso online conseguiu entrar para a produção de filmes como Copa de Elite e Os Homens São de Marte E É Pra Lá Que Eu Vou), que ao lado dos diretores Daina Giannecchini, Dani Libardi e Jotagá Crema, foi chamado pelo veterano Cesar Charlone (ex-O2 Filmes, que trabalhou em Cidade de Deus, Ensaio sobre a Cegueira, O Banheiro do Papa) para transformar a premissa original em um seriado brasileiro com distribuição global.
O principal grupo de atores da série, cuja primeira foto oficial de divulgação (acima) foi divulgada hoje, é composto por novatos, à exceção de Bianca Comparato. Fora dos jovens que tentam passar do Continente (a parte pobre) para o Mar Alto (a parte rica) estão nomes já estabelecidos como João Miguel e Zezé Motta.
Assista abaixo os três episódios da 3% original feita para o YouTube.
Escrevi sobre o show que o Wilco fez no Popload Festival para o meu blog no UOL.
O conceito tradicional de rock clássico diz respeito a uma geração de artistas que viveu seu auge entre o meio dos anos 60 e o final dos anos 70 (incluindo um pouco dos que estouraram nos anos 50 e alguns que desbravaram os anos 80) e que até hoje, quase meio século depois, vive das glórias do passado. Entre artistas decanos decadentes e heróis sobreviventes de uma época muito louca, velhos ídolos revivem seus dias de ouro entre turnês em que reciclam músicas ancestrais para seus contemporâneos e fãs das gerações seguintes, que torram dinheiro para assistir parques temáticos ambulantes sobre seus protagonistas. O melhor exemplo desta abordagem é o festival Desert Trip, que está acontecendo neste fim de semana reunindo, na Califórnia, os líderes daquela revolução cultural – Dylan, Paul McCartney, os Stones, Roger Waters, Neil Young e Who. Os piores são rádios, coletâneas, playlists e bandas cover que insistem numa caricatura disso, preferindo “Ballroom Blitz”, “Bohemian Rhapsody” e os mesmos hits gastos do Kiss e do Bachman-Turner Overdrive para se auto-afirmar como tribo numa clara tentativa de se diferenciar do resto do mundo. O rock clássico como rótulo geracional é o pai do infame roqueiro velho.
Uma abordagem mais propícia, no entanto, é a que trata o rock clássico como gênero musical. Há uma inevitável conexão com a mesma época descrita no início, mas não o compromisso com nomes, discos, músicas, e sim com uma sonoridade específica que evoluiu da colisão inicial do country com o blues que deu origem ao rock’n’roll para um tratamento mais sofisticado e musical. É este o terreno que a banda norte-americana Wilco, que apresentou-se pela primeira vez em São Paulo neste sábado, explora desde a virada do século, quando aos poucos foi largando suas raízes country (ou alt.country, como dizia-se à época) para abraçar a plenitude de um gênero musical aventureiro como os Beatles no estúdio, delicado como o auge dos Beach Boys, pesado e dramático como os vales e montanhas das guitarras de Neil Young, lírico como os arranjos e letras da The Band.
Foi a segunda apresentação da banda no Brasil este ano, após uma apresentação histórica no Circo Voador, no Rio de Janeiro, na quinta passada. O show de São Paulo perdeu para o carioca por motivos óbvios – a arquitetura da casa noturna da Lapa aproxima o público da banda de uma forma muito mais intensa e o show paulista foi dentro de um festival que contava com outras apresentações. Isso não apenas encurtou o tempo da banda no palco como não criou uma atmosfera estritamente focada no show de uma única banda. A favor do público paulista uma atenção e uma entrega muito mais fanática por parte da plateia que, no Rio de Janeiro, ficava conversando sem parar no meio das músicas.
Mas as diferenças entre as duas apresentações foram mínimas, se analisada estritamente a entrega da banda. No show de São Paulo, já familiarizado com o público brasileiro, o líder da banda, o guitarrista e vocalista, Jeff Tweedy, deitava e rolava no calor de sua recém-descoberta popularidade, pedindo para o público repetir o nome do grupo como torcida de time de futebol e entoando o “olê-olê-olê-olê Wilco, Wilco” que havia ouvido antes da banda entrar no palco. “Desculpe termos demorado tanto para vir para cá”, disse sincero para o público, este completamente entregue à banda, cantando não apenas os riffs e os refrões como os cariocas, mas a imensa maioria de todas as letras. No meio do show, Jeff reconheceu César, que subiu no palco carioca para tocar com a banda, e o cumprimentou.
O show seguiu a linha de grandes sucessos da apresentação anterior e foi uma versão compacta do que assistiu-se no Rio. Fora do repertório de São Paulo, infelizmente, canções memoráveis do grupo, como “Theologians”, “Ashes of American Flags” e “California Stars”, mas a clássica “Either Way”, “Dawned on Me”, “Side with the Seeds” e “The Joke Explained” só foram tocadas no palco do Urban Stage, na região norte da cidade. Entre estas aquele desfile de clássicos que os fãs esperavam: “Via Chicago” e “Impossible Germany” logo de cara, “Heavy Metal Drummer”, “Hummingbird”, “Art of Almost”, “Misunderstood”, “Jesus Etc.”, “I Got You (At the End of the Century)” e “Outtasite (Outta Mind)”.
E durante a apresentação do grupo percebe-se que seu conceito de rock clássico não é temporal – e aos poucos eles vão incluindo efeitos eletrônicos, ruídos e cacofonias elétricas, microfonias pós-punk, peso metal, agressividade punk. Isso reflete-se na dinâmica da própria banda e nos papéis de cada um no palco. Jeff Tweedy é o maestro graças a seu inegável carisma, mas também pela forma como conduz a banda do sussurro ao esporro, do assobio ao solo rasgado. Um mestre guitarrista, ele é acompanhado de perto por seu fiel escudeiro John Stirratt, baixista, principal vocalista de apoio e, ao lado de Jeff, único integrante da primeira formação do grupo. A liga entre os dois é o cerne da banda, tudo que acontece no palco é construído a partir da cumplicidade explícita entre Jeff e John.
Ao lado de Jeff, o guitarrista Nels Cline é o franco-atirador da banda, que eleva o título de guitar hero a um nível de pós-doutorado. Cline sozinho é um show à parte e seus solos traçam uma conexão clara entre Tom Verlaine e Neil Young, ampliando horizontes a cada nota sangrada no palco. O guitarrista Pat Sansone – outro guitar hero – é uma espécie de arma secreta do grupo, revezando-se entre teclados, guitarra, banjo e vocais de apoio. O pulso firme do baterista Glenn Kotche certifica-se que está tudo sob controle enquanto o tecladista Mikael Jorgensen prepara a atmosfera necessária para cada canção. Isso sem contar o desfile de guitarras (são 70 instrumentos de cordas, entre guitarras, baixos e violões), um deleite para os fãs do instrumento, e o apreço pelo detalhe – se eles quisessem que ouvíssemos o som de uma agulha caindo no palco ouviríamos. O som, outro ponto alto desta pequena turnê, estava tão cristalino quanto no Rio.
Por ter sido realizado em um festival, o show teve apenas um bis (ao contrário de dois no Rio) e a banda voltou com a intensa “Spiders (Kidsmoke)”, de raiz de rock alemão, em que Jeff incitou o público a cantarolar o riff explosivo, mas escolheu terminar com “The Late Greats”, deixando o público em estado de êxtase após o fim do show. Cravadas duas horas de emoção intensa que lavaram a alma dos fãs que esperaram tanto tempo por esse momento. Resta saber agora o que eles irão fazer em sua última apresentação no Brasil, que acontece neste domingo, no Auditório Ibirapuera. Será que manterão o clima de grandes sucessos dos dois primeiros shows ou farão uma apresentação mais introspectiva? Ou acústica? Ou que se aproveite mais dos silêncios? Mas não importa o que fizerem: farão de forma clássica, como de costume.
O mágico show que o Wilco fez no Circo Voador ainda teve uma participação improvisada de um fã no palco – e o César contou o depoimento sobre como foi tocar no mesmo palco que seus ídolos lá no meu blog no UOL.
Quem esteve no Circo Voador no dia 6 de outubro de 2016 (uma data palíndroma – 6102016 – vejam só) sabe que assistiu a um dos shows de sua vida. Mesmo quem não é fã da banda norte-americana Wilco teve que dar o braço a torcer e comemorar a incrível conjunção de fatores que levaram a tal momento histórico. Mas ninguém teve uma história ou um show melhor do que o fã carioca Cesar do Couto, que subiu ao palco após uma discreta insistência, recebeu uma guitarra do próprio Jeff Tweedy e acompanhou a banda na música “California Stars”, com direto a fazer um solo junto com os ídolos.
Ninguém entendeu nada. Estava combinado? Eles já se conheciam? Quem era esse César? Será que ele iria roubar a cena ou fazer um papelão? Mas à medida em que ele começou a tocar a música que a banda compôs sobre uma letra de Woody Guthrie, os fãs perceberam que estavam vendo um dos seus realizar um sonho: tocar ao vivo com seus ídolos em sua cidade natal e delirou junto com o fã-guitarrista, que não parava de sorrir. Cesar toca na desconhecida banda Mimesis, que apesar do nome de banda hippie tem uma sonoridade equivalente à do Wilco (veja no final desse post), e vem para o show de São Paulo que conseguiu comprar o ingresso – e quer entregar um CD de sua banda para seu grupo do coração (além de ver se alguma alma caridosa lhe arruma ingresso para o show de domingo). Ele contou como foi sua aventura com o Wilco, que reproduzo – junto com algumas fotos dele mesmo – abaixo:
“Alguém saberia dizer a distância entre o sonho e a realidade? Pois bem, ontem (quinta, 6) eu percebi, mais uma vez em minha vida, que é possível nossos sonhos se tornarem realidade.
Minhas emoções estavam afloradas desde o anúncio da vinda do Wilco ao Brasil e isso contagiou as pessoas à minha volta. Como todo fã desesperado, comprei o ingresso no primeiro minuto de venda do festival Popload e desde então começou a contagem regressiva para finalmente assistir os caras ao vivo e em cores.
Logo depois, a surpresa de um show na minha cidade. Fiquei louco! “Mais um show?! Que maravilha!” Da mesma forma, comprei o ingresso no primeiro minuto de venda.
Quis o destino que os irmãos uruguaios tivessem seu show cancelado (César se refere ao show que o Wilco faria no Uruguai à época da vinda ao Brasil, que foi cancelado), e abriu mais uma data na agenda dos caras. E aí vocês já sabem o que aconteceu!
Só estou contando tudo isso, porque foi aqui que nasceu a ideia do que fiz ontem.
Como muitos fãs mortais da banda, montei uma operação para comprar os ingressos para o show do dia 9 de outubro. Minha esposa ficou no aplicativo e eu no PC. Aquele dia foi o momento triste da turnê. Não foi triste só para mim, muitos foram lesados pela incompetência da Popload e Ingresso Fácil. Não preciso entrar em detalhes que todos os fãs, até os que estão com ingresso em mãos, sabem o quanto foi escroto o que fizeram conosco. Minha indignação foi externada no Facebook. Logo percebi que não tinha mais o que fazer; era se conformar e ponto. Então comecei a procurar ingressos, mas… nada! Percebi que iria ficar de fora.
Minha frustração era enorme, mas ‘eu queria sonhar meus problemas pra fora’* e então surgiu a ideia de tentar fazer algo que iria marcar positivamente minha vida.
Eu duvido de que alguém, principalmente músico, nunca tenha sonhado em dividir o palco com seus ídolos referenciais. Eu sempre sonhei isso… e, no dia 6 de outubro de 2016, vislumbrei a oportunidade de realizá-lo. E realizei!
Como tudo em minha vida, dividi com minha esposa Roberta Magalhães e, como sempre, ela prontamente comprou a ideia, apoiou-me e encorajou-me a todo instante. Definitivamente eu ‘senti sua mão tocando a minha, e me dizendo por que deveria continuar trabalhando’. E é por essa e outras que eu a amo tanto.
Daí escolhi a música ‘California Stars’, por ser uma música de que eu sempre gostei, e também é a música que vez ou outra há participações. Além disso, não seria uma música que comprometeria a performance da banda, afinal a única coisa que eu não queria era atrapalhar banda e fãs.
Eu já sabia tocar a música como Jeff (Tweedy, líder da banda), mas eu não iria fazer o que ele faz na música, por isso a estudei algumas vezes. Cheguei a fazer umas linhas de guitarra ao estilo Nels (Cline, guitarrista do Wilco), fiz o solo e tudo! Estava tudo de muito bom gosto.
Minha esposa entrou em cena mais uma vez e fez o cartaz. Partimos cedo para o Circo Voador e ainda vimos a chegada da banda, quando conseguimos tirar uma foto, às pressas, com Jeff. Mas até aí ele nem imaginava que eu tinha um cartaz, quanto mais o que nele estava escrito.
Chegou a hora do show… Eu e minha esposa estávamos em frente ao Jeff. Éramos os primeiros da fila. Começou a todo vapor, e após ‘Art of Almost’ mostrei timidamente o cartaz ao Jeff. Ele leu e deu um sorriso. Eu não queria parecer chato e nem “entrão”, por isso recolhi o cartaz, afinal ele já sabia da minha intenção.
Decidi mostrar o cartaz a todos os integrantes e, quando cada um olhava em minha direção, o mostrava. O John (Stirratt, baixista) também deu uma risada ao lê-lo. Como disse, não queria ficar sufocando os caras.
Antes de iniciar ‘Late Greats’, percebi que Jeff estava com o violão e o capotraste na segunda casa, pensei : ‘babou. Ele vai tocar Califórnia Stars e eu vou ficar de fora.’ Mostrei o cartaz, ele riu e falou: ‘Wait.’ (Espera) Ali, me enchi de esperança… sentia dentro de mim o paradoxo da certeza de que iria rolar e do medo de que não acontecesse.
Eles saíram e eu coloquei o cartaz no palco. Quando voltaram, Jeff olhou e riu de novo. Tocaram ‘Jesus, Etc.’ e, ao terminar, Jeff foi falar com Nels sobre minha intenção, o qual olhou o cartaz, fazendo uma expressão duvidosa, em seguida olhou para mim, que estava com cara de pedinte e mãos de súplica. Talvez por isso, por ter externado meu imenso desejo de estar entre meus ídolos, concordara. Jeff veio me perguntar se eu sabia tocar guitarra e autorizou a minha subida ao palco.
Eu só sabia agradecer. A primeira coisa que falei com ele foi: ‘Obrigado por ter vindo ao Brasil!’ Fiz questão de cumprimentar todos. E aí fui marrento, pedi a ele a guitarra SG. Aquela guitarra é um sonho. Aposto que cairia muito bem em mim! Mas ele disse que aquela não estava preparada, perguntou se eu me importava em usar a Strato – como o cara é humilde! ‘Como assim?! Eu? Me importar? No Problem, Jeff’.
E começou a música. Aí, eu pergunto: ‘Quem, em sã consciência, vai conseguir manter o equilíbrio ao estar do lado de seus ídolos?’ Todo meu estudo foi por água abaixo, então pensei: ‘Vou fazer o trivial, sem medo de ser feliz!’ Afinal, estava me sentindo intimidado com as olhadas do Nels em minha direção. Senti-me sob o julgamento de um professor caxias, mas que, a cada acorde meu, acenava com a cabeça, como quem diz: ‘Você está indo bem, meu aluno’.
Não consegui conter o sorriso, tamanha era a felicidade. Eu só pensava: ‘Não posso decepcionar os caras e nem os fãs’. Eu senti que naquele momento eu devia representar muito bem os fãs brasileiros, deixar a melhor impressão possível, para que eles se sentissem em casa.
Ao terminar aquele momento mágico, só queria mais uma vez agradecê-los. Fiz questão de cumprimentar cada um deles, pois todos têm tamanha importância para a música que fazem. Minhas palavras no palco eram: ‘Thank you, guys! Thank you for coming to Brazil! I love yours songs!’
Foram cinco minutos marcantes na história da minha vida, inclusive acho que consegui desfrutar bem de cada segundo que vivenciei no palco. Ainda deu tempo da minha esposa voar no palco e agradecer também ao Tweddy por ter me oportunizado aquele momento, e em seguida tiramos uma foto.
Dito isso pessoal, gostaria de agradecer a todos os fãs do Wilco que me receberam como um ‘herói’. Senti que vocês ficaram felizes junto comigo. Posso garantir que foram uma plateia sensacional. A energia no palco estava fantástica, era muita vibração boa que estava ali e isso quem proporcionou fomos nós, fãs. Vocês viram a cara deles em cada música? Tipo: ‘Que porra é essa que está acontecendo aqui?’, ‘Que plateia é essa?’, ‘Por que demoramos tanto para voltar?’
Fizemos a nossa parte, pessoal!
Parabéns para todos nós!
E muito obrigado pelo carinho.
PS.: Ainda não tenho ingresso para o show do dia 9 de outubro, se alguém tiver sobrando para vender, eu compro, ou se a Popload se sensibilizar com a minha história, doe-me um par de ingressos, para eu ir com a minha esposa.
Ainda há ingressos para o show de hoje, que acontece dentro do Popload Festival (e, mesmo num festival, terá a duração de mais de duas horas como o show do Rio) e reforço o que disse o Barcinski em sua resenha de estreia aqui no UOL: o preço está salgadaço, mas se você quiser assistir ao melhor show internacional em solo brasileiro em 2016 não perca a oportunidade.
Olha a banda do César aí:
Na torcida pro César conseguir seu ingresso para o domingo. Ou será que ele já gastou sua cota de sorte? Tomara que não.











