A íntegra da entrevista que fiz com o “Moot”, do 4chan, que saiu na capa do Link de hoje. Quinta-feira estarei mediando o papo com ele no YouPix.
Moot exclusivo
Em entrevista exclusiva, criador do 4Chan fala sobre Facebook, anonimato e o Anonymous, movimento político surgido dentro do fórum criado por ele aos 15 anos
É sua primeira vez no Brasil. O que você sabe sobre o País?
Eu não sei nada muito específico, mas sei que, depois dos Estados Unidos, é um dos países que melhor entendem a natureza da internet. Tanto o 4chan quanto o Canvas têm muitos acessos vindo do Brasil. E sei que é um país forte em redes sociais e em jogos sociais, e que é um dos países que mais se envolvem com novas tecnologias e com a cultura da internet.
Você se vê como uma autoridade digital?
Eu não sou uma autoridade, mas um ponto de vista alternativo contra o consenso emergente que é a favor da identificação online e pró-Facebook. Eu me vejo como uma pessoa que se dedicou a ter uma opinião diferente, mas não uma autoridade.
Mas você sente alguma responsabilidade ao assumir esse papel? Seu público o vê como alguém próxima da geração digital, em vez de ser um CEO querendo vender algum produto…
Sim, acho que um dos motivos pelos quais eu tenho falado em público sobre assuntos como identidade e privacidade online é porque não há muitas pessoas que advogam a favor de alternativas. O 4chan se encaixa naturalmente nisso, mas quando eu o comecei há sete anos, quando tinha 15 anos, a questão do anonimato não era tão discutida e eu nem poderia prever que o fórum se tornaria um paraíso para quem posta sem se identificar. Mas o percurso até aqui foi muito esclarecedor e educativo nesse sentido; eu aprendi muito e passei a valorizar esse tipo de comunidade e a interação que esse estado de liberdade permitia. E assim fui parar em um lugar bem diferente de onde está o consenso vigente e acabei me tornando uma voz que vai ao encontro a essas tendências.

Ilustração de Fernando Bueno e infotipográfico de Jairo Rodrigues publicados na edição do Link de 19 de abril de 2010, que teve o 4chan na capa.
Como você se sente diante do rótulo de anti-Mark Zuckerberg?
Não gosto desse título. Primeiro porque é importante separar o Mark do Facebook, quem ele é como pessoa e quais são os interesses de sua empresa, embora ambos se confundam. Ele tem uma opinião, eu tenho outra e tenho certeza de que há muitos assuntos em que concordamos e outros tantos em que discordamos. Eu não acho que ele queira que o mundo seja apenas de um jeito, e é claro que ele favorece o que ele imagina que é o Facebook, que é uma plataforma de identidade. E é claro que ele quer que todo mundo a utilize. Por mim, tudo bem, podem usar, mas acho que não deveria ter apenas uma dessas e sim várias alternativas. As pessoas acabam colocando a gente em pólos diferentes – ele como um cara que é 100% a favor da indetificação e eu como um cara 100% a favor de todo o tipo de anonimato, e ambas afirmativas são falsas. Concordamos em muitos pontos e não somos tão diferentes assim. Estamos em pontos opostos deste espectro, mas não nos mais extremos.
Você, portanto, não se considera o líder do movimento pró-anonimato.
É. Gosto de dizer que sou apenas uma voz de uma parte da história que não tem tanta representação. Há muitos que defendem a necessidade de se identificar online e, infelizmente, poucos que veem as coisas de outra forma.
O Facebook virou uma rede global depois de começar atuando só em universidades, depois só nos EUA e, finalmente, atingindo o resto do mundo. Já o 4chan sempre foi global, desde o início. Por quê?
Um dos motivos que tornou o 4Chan multicultural desde o início é o fato de ele usar imagens como principal meio de comunicação. E imagens transcendem a barreira da linguagem e da cultura. E elas também são inclusivas, permitindo que todos possam entender sem precisar ter o contexto da linguagem. Acho que isso, principalmente, e o fato de seu funcionamento ser muito simples, até para quem mal entende inglês. Basta sair clicando no site para entender como ele funciona.
Há também o fato de boa parte do texto nestas imagens é escrito num inglês mal-falado. Costumo brincar que o idioma universal não é o inglês, mas o inglês mal-falado.
(Ri) É verdade.
E foi difícil sair do anonimato e se assumir como uma pessoa pública?
Foi sim, eu sou muito na minha. Mas por outro lado, vi que era inevitável, que uma hora ia acontecer, se eu não me revelasse, alguém iria fazer isso. Quando vi que, aparecendo em público, eu poderia falar com a revista Time ou com o Wall Street Journal e falar o meu lado da história, sem que alguém falasse por mim.
O que você do grupo de hackers Anonymous, que começou dentro do 4chan?
Acho fascinante. Eu mesmo nunca participei de nada deles, só era o dono do lugar em que a apareceu uma fagulha que depois virou incêndio. Não tenho nada a ver com eles e sou apenas um observador casual, como qualquer um. Mas é fascinante observar uma organização tão pioneira e com motivações básicas, formada basicamente por jovens, aparecer de uma hora para a outra na internet. E o que os torna ainda mais especiais foi a rapidez que eles conseguiram não só dominar a internet mas também sair dela, transformar a presença online em presença de fato. E isso é algo que pouquíssimos conseguiram. Por isso acho que vai ser algo que as pessoas vão se referir daqui a dez anos ou mais como um marco importante na história do ativismo online.
Há quem trate isso apenas como modismo, algo passageiro…
Um modismo? (Pausa para pensar) Ativismo não é nada novo e as pessoas se organizam em prol de causas pela internet desde que ela existe. Acho que a cada dez anos esse idealismo assume uma nova forma e acredito que essa é a nova forma que está sendo apresentada hoje e que deve funcionar entre 2010 e sei lá quando, mas, fundamentalmente, é a mesma lógica, o mesmo ativismo, de formas diferentes.
E qual é a sua opinião sobre o WikiLeaks e Julian Assange?
Eu também não me considero um especialista nesse assunto. Mas eu não vejo motivos para, por exemplo, o Anonymous ter um só porta-voz. O que aconteceria se apenas uma pessoa fosse presa ou tivesse problemas? Vimos o que aconteceu quando isso aconteceu quando pegaram um deles, que foi silenciado e censurado, e isso fez o WikiLeaks perder muito de sua auto-estima e também de seu momentum e Julian hoje vive sob forte escutínio. Eu gostava mais do WikiLeaks quando os via como um grupo de indivíduos que se reuniam em prol de um único objetivo, não acho que Julian Assange represente esse grupo, que considero mais democrático.
Você não temia que isso também pudesse acontecer com você em relação ao 4chan? Não achava que, ao assumir que era o dono do fórum, você pudesse representar valores diferentes do grupo que representa?
É sempre possível que alguém venha dizer que nós fizemos algo errado, mas nós não violamos nenhuma lei, nem sequer hospedamos arquivos que possam infringir direitos autorais, por exemplo. Temos uma regra número 1 no site que é “não infrinja a lei”.
O que seus pais acham disso?
Eles me apoiam, acho. Não é um assunto que vem à tona o tempo todo e a reação deles é quase sempre “que interessante” (ri). Às vezes eles vêem algo nos jornais e vêm me perguntar, mas não é um assunto recorrente. Mas eles sempre me apoiaram.
Eu queria que você falasse um pouco sobre sua primeira empresa. Como vai o Canvas?
Estamos indo bem. É bom diferenciar o Canvas do 4chan, mas estamos trabalhando num software de comunidade, que é um produto e que, além disso, exige que você se registre e se identifique, mesmo você tendo a opção de aparecer como anônimo nos posts. A ferramenta também é diferente, pois tem recursos de edição e remix dentro do próprio sistema, que permitem incluir links externos, vídeos, imagens e outras formas de interação online.
O 4chan foi concebido para ser o site mais simples possível de usar, estamos trabalhando o Canvas da mesma forma, só incluindo recursos mais modernos. E há também o fato do software ser bancado. Eu banquei o 4chan pelos últimos anos e o fórum apenas se sustenta, não fatura milhões de dólares mas também não perde milhões de dólares. É cada vez mais um hobby para mim. Já o Canvas é uma empresa com dinheiro de investidores – nos últimos 14 meses nós arrecadamos US$ 3,6 milhões. E aí com esse dinheiro você começa a ter de pensar em uma equipe, em ritmo de trabalho e é claro, com as expectativas – que, em nosso caso, apostam em uma grande plataforma milhões de jovens meio parecida com o 4chan, mas diferente de muitas formas. É uma experiência muito nova para mim, é a primeira vez em que eu me vejo envolvido com uma equipe de verdade, acionistas, funcionários, todos pensando em construir algo.
É um universo bem diferente do que você lidava quando era apenas do 4chan. Já chegou a se chatear?
Tivemos a sorte de ter um dos melhores financiadores dos EUA. A maior parte do nosso dinheiro foi levantado pelo Fred Wilson, da Union Square, que foi um dos prmeiros a investir no Twitter, na Zynga, no Foursquare. Ele é um cara ótimo e tivemos sorte de pegar um investidor que entende o nosso negócio e quer nos ajudar. Então é justamente o contrário, não dá para ficar chateado: cada vez que você senta para conversar com esses caras, aprende algo novo sobre o mercado, os negócios ou o produto. É um aprendizado diário.
Tanto o Canvas quanto o 4chan apostam na comunicação através de imagens e colagens visuais. Você acha que esse tipo de comunicação – junto com vídeo e voz – podem mudar o aspecto ainda escrito da web?
Acho que você tem razão. A linguagem visual tem um apelo maior. O texto está conosco há muito tempo na web e ele parece, de alguma forma, achatado, sem dimensão e, portanto, enfadonho. Mas com recursos multimídia, qualquer um hoje pode fazer fotos, vídeos ou material em áudio e assim criar experiências multimídia, às vezes até sem perceber.
Eu não vou me surpreender se a linguagem visual – foto e vídeo – se tornar a principal forma de comunicação da internet. Estamos vendo, pelo menos nos EUA, um grande mercado para fotos e vídeos. Em 2004 ou 2005, quando o Flickr e o YouTube apareceram, nós vimos um grande interesse nisso porque as câmeras digitais haviam ficado mais baratas e melhores e isso foi um fator determinante para que o que chamamos de web 2.0 decolasse. As pessoas começaram a entender que um site não precisava ter apenas texto, que poderia ter fotos e vídeos, e começaram a produzir esse tipo de conteúdo. Tenho a sensação de que isso está acontecendo de novo. Não que seja a web 3.0, mas é como se fosse uma segunda corrida do ouro em busca de fazer aplicativos que tenham um apelo maior junto à cultura visual e multimídia.
E, para terminar, há algo que você queira fazer no Brasil, especificamente?
Eu não tenho muitos planos, na verdade. Estou muito animado, pois tenho um amigo que foi para São Paulo há dois anos, Anthony Volodkin…
Sim, do Hype Machine. O entrevistei quando ele esteve por aqui.
O Anthony é ótimo e ele só tinha coisas boas para dizer sobre o YouPix, a cidade e as pessoas que conheceu. Disse que teve uma experiência incrível. Sei que boa parte do público que consome cultura de internet no Brasil é da periferia, que eu sei que existe, mas não conheço nada. Queria ver se consigo fazer algo intenso, um curso intensivo de realidade brasileira.
Escrevi no caderno Internacional do Estadão de hoje sobre o pacote de medidas do governo inglês que pretende tirar os manifestantes de Londres da internet.
Londres ameaça um direito humano, o acesso à internet
O que aconteceu na capital britânica não diz respeito apenas à mobilização online
Revoluções árabes no Facebook, o Twitter incomodando o Irã, a China invadindo e-mails do Google. O universo digital vem andando de mãos dadas com a cena política mundial desde que as redes sociais se tornaram parte da rotina. Houve um tempo em que era comum querer saber qual era a utilidade desse tipo de serviço. Esse tempo passou.
Hoje, as redes sociais fazem parte da comunicação da maior parte dos moradores das grandes cidades. Popularizaram-se tanto quanto os telefones celulares. E por mais que tenham tentado rotular os levantes em Londres como “a revolta BBM” – em referência ao programa de bate-papo dos celulares BlackBerry, que foram usados pelos manifestantes para organizar ataques e fugir da polícia –, o que aconteceu na capital britânica não diz respeito apenas à mobilização online.
Como ocorreu antes nos países árabes, na Espanha, no Chile e até no Brasil (não dá para dissociar o Churrascão da Gente Diferenciada ou as marchas que tomaram a Paulista este ano de suas intenções políticas), as mídias digitais foram utilizadas por ser populares. Se não fossem os celulares e as redes sociais, outras formas de comunicação os substituiriam. Ninguém chamou a Revolução Iraniana, de 1979, de “o levante das fitas cassetes”, ainda que essa mídia tivesse sido usada para mobilizar os cidadãos daquele país.
A tentativa do primeiro-ministro britânico, David Cameron, de banir manifestantes das redes sociais para tentar conter os tumultos não condiz com a tradição democrática daquele país e mais lembra atos de Estados ditatoriais. É censura e controle. Primeiro, tira-se as redes sociais, depois, proíbe-se o uso de celulares e, em pouco tempo, confina-se todos em um gueto. Já vimos essa história.
Numa época em que o acesso à internet é defendido como um direito humano pela própria ONU, tal decisão soa autoritária e drástica. Uma vergonha para a tradição do país.
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Minha coluna no 2 de domingo foi sobre o papel contínuo – e não contido – do artista no século 21, tomando Kassin como exemplo.
A estreia de Kassin
O primeiro disco, depois de muitos
Sonhando Devagar é o primeiro disco solo do músico, cantor, compositor e produtor Alexandre Kassin. É um artista com mais de 15 anos de atuação, com participação em diferentes bandas, trilhas sonoras e que tem até CDs individuais no currículo. São quase duas dezenas de discos com a marca do artista. Então por que o disco de 2011, que pode ser ouvido no site da gravadora (www.coqueiroverderecords.com/kassin/) é considerado seu primeiro trabalho solo?
Talvez porque Kassin seja um dos melhores exemplos, no Brasil, de um novo tipo de artista. Alguém que já entendeu que música, no século digital, não é produto – é processo. Por isso disco, show e canção – antes fundamentos básicos de um músico no século 20 – tornaram-se apenas algumas das peças na construção de uma carreira.
Assim, antes de lançar seu primeiro disco solo, ele já tinha alguns discos no seu nome. O primeiro deles, composto apenas com bases eletrônicas produzidas num GameBoy, foi lançado sob o nome de Artificial. Outro foi lançado sob o nome Kassin + 2, mas que não poderia ser considerado um trabalho individual, e sim do trio + 2, formado por Kassin, Moreno Veloso e Rodrigo Domenico (cada um deles lançou um disco com seu próprio nome).
Também assinou a trilha sonora do anime Michiko e Hatchin, mas preferiu não tratá-la como disco solo. Fora os discos e espetáculos que produziu, de artistas como Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto, Los Hermanos, Mallu Magalhães, Thalma de Freitas, Vanessa da Mata, Grupo Corpo e Terruá Pará.
O novo disco pode ser considerado sua estreia pois ele reúne os conceitos pelos quais passa desde que era só o baixista da banda Acabou La Tequila: rock e ritmos caribenhos, música eletrônica e arranjos sofisticados, ficção científica e timbres anos 80, vida doméstica e Japão. Por quase 15 anos, ele passou sua carreira reunindo referências para criar uma obra contínua, em movimento. Agora, as concentra todas em um mesmo disco, como se, só agora, começasse sua história. E talvez seja isso mesmo.
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Mallu ao vivo
Blogando vida e obra
“Último dia de mixagem. Terminamos Moreno do Cabelo Enroladinho e fizemos Lonely. Amanhã é o dia de refazer o que falta ou precisa. Temos uma ou duas prioridades, mas estamos contentes com o resto. Acho que estou prestes a sofrer aquela tristeza do pós-disco… Aquele vazio, aquela insegurança… Preciso arrumar o que fazer… Acho que vou inventar de gravar uns clipes.”
Assim Mallu Magalhães chega aos finalmentes de seu terceiro disco, num post em seu blog publicado na sexta passada, resumindo o dia anterior. “Dia 27 de julho de 2011… #54 em estúdio” é o título do post, um dos muitos em que, em seu site, mallumusic.com, descreve o diário da gravação do novo álbum.
Mas não apenas um diário de gravação. É o diário de Mallu. É um blog no sentido mais essencial do formato. Não são notícias, informações que poderiam render notinhas ou análises sobre qualquer conjuntura atual. São pequenas epifanias caseiras, recortes de um cotidiano íntimo, às vezes pessoal demais, que transbordam para a internet. No mesmo post em que comemora e lamenta o fim do processo de gravação, ela divaga: “Enquanto Victor (Rice, técnico de som do disco) timbrava os últimos detalhes de Moreno do Cabelo Enroladinho, eu bordava numa das aquarelas que havia pintado ontem. E um feixe de luz colorido veio banhar minha obrinha. Não demorou, Vic ficou também impressionado e sugeriu novas posições. Fotografei o tal arco-íris nos meus pés, cabeça e à minha volta. Só pode ser um bom e lindo sinal de alegria para o Pitanga.”
Muita gente torce o nariz, acha forçado, acha fake, acha bobo. “Haters gonna hate”, repete o meme-mantra da internet que pode ser traduzido como “sempre vai ter alguém que odeie”. E Mallu, coitada, sempre foi alvo desses ‘haters’. Desde que surgiu empunhando seu violãozinho aos 15 anos, cantando Dylan e Johnny Cash com sua vozinha frágil e virou um dos melhores exemplos brasileiros de uma artista que usou a internet para se estabelecer, ela é alvo de brincadeiras, chacotas, paródias e pragas. As coisas não melhoraram quando ela começou a namorar Marcelo Camelo – outro que, ainda nos Los Hermanos, cansou de ser vítima da fúria de um público xingando tudo confortavelmente nos computadores de casa. Juntos viraram motivo para piadas de toda a sorte – algumas boas, a maioria bobas. Mas não os abalou.
E, mais que isso, não abalou Mallu. Prestes a completar 19 anos, ela deixa o mesmo ar lúdico de suas letras e melodias invadir seu blog, abrindo seu coração e mente sem medo de se expor ao ridículo. Ela não bloga porque ajuda no marketing, porque o empresário pediu ou porque cai bem com o público. Não que esses motivos não existam, mas ela mantém o blog pelo mesmo motivo que faz música: é natural para ela. Portanto, como reza outro mantra online, “deal with it” (“lide com isto”).
O escritor norte-americano James Gleick é um Harold Bloom da ciência – como o inglês faz com a cultura, ele reorganiza tudo para tirar novos pontos de vista, mas sem zerar cânones ou destrui-los, criando genialmente novas formas de interpretação do passado a partir da justaposição de temas. Tivemos o prazer de publicar, no Link, um trecho de seu novo livro, The Information, em que levanta a possibilidade da informação (o dado, a mensagem, o código) ser a base de tudo no universo. A ilustra da página dupla, reproduzida acima, é do Jairo, que sai fora para um longo sabático (boa sorte, compadre!). Segue um trecho do artigo:
“Aquilo que jaz no coração de todas as coisas vivas não é uma chama, nem um hálito quente, nem uma ‘faísca de vida’, e sim a informação, palavras, instruções”, declarou Richard Dawkins em 1986. Já consagrado como um dos maiores biólogos da evolução, ele tinha capturado o espírito de uma nova era. As células de um organismo são nódulos numa rede de comunicações, sempre transmitindo e recebendo, codificando e decodificando. A própria evolução é a encarnação de uma troca contínua de informações entre organismo e meio ambiente. “Se quiser compreender a vida”, escreveu Dawkins, “não pense nas gosmas e melecas pulsantes e fluidas, e sim na tecnologia da informação”.
A ascensão da teoria da informação foi facilitadora e cúmplice de uma nova forma de enxergar a vida. O código genético – não mais uma simples metáfora – estava sendo decifrado. Os cientistas falavam com grandiosidade numa biosfera: uma entidade composta por todas as formas de vida da Terra, transbordando de informação, replicando-se e evoluindo.
Jacques Monod, biólogo parisiense que dividiu um Prêmio Nobel em 1965 – por desvendar o papel desempenhado pelo RNA mensageiro na transmissão das informações genéticas –, propôs uma analogia: assim como a biosfera paira sobre o mundo da matéria não viva, um “reino abstrato” paira sobre a biosfera. Os súditos deste reino? As ideias.
“As ideias retiveram algumas das propriedades dos organismos”, escreveu. “Como eles, as ideias tendem a perpetuar sua estrutura e a se reproduzir; elas também podem se fundir, se recombinar, segregar seu conteúdo; de fato, também elas podem evoluir e, nesta evolução, a seleção sem dúvida desempenha um papel importante.”
As ideias têm um “poder de contágio”, destacou – “poderíamos chamá-lo de capacidade de infecção” –, e nisso algumas são mais fortes do que outras. O neurofisiologista americano Roger Sperry tinha apresentado uma ideia parecida anos antes, defendendo que as ideias seriam “tão reais” quanto os neurônios que elas habitam:
“Ideias interagem entre si e com outras forças mentais no cérebro, em cérebros vizinhos e, graças à comunicação global, em cérebros à distância. E elas também interagem com o meio externo que as cerca para produzir ao todo um rápido e imediato surto evolutivo que supera qualquer coisa que já tenha chegado à cena evolucionária.”
E acrescentava: “Não me arrisco a propor uma teoria da seleção das ideias”. Não precisava. Outros o fariam.
Dawkins deu seu próprio salto da evolução dos genes para a evolução das ideias. Para ele, o papel de protagonista cabe ao replicador, e isso não tem nada a ver com química. “Um novo tipo de replicador surgiu recentemente neste mesmo planeta”, proclamou Dawkins em seu primeiro livro, O Gene Egoísta, em 1976. “Ele está nos encarando. Ainda em sua infância, vagando desajeitado em seu caldo primordial, mas já está atingindo um ritmo de mudanças evolucionárias que deixa o velho gene para trás.” Esse “caldo” é a cultura humana; o vetor de transmissão é a linguagem, e o ambiente de reprodução é o cérebro.
A íntegra você lê aqui. The Information ainda não saiu no Brasil.
A minha coluna no Caderno 2 de ontem foi sobre os três bate-papos que realizei na Expo Y, semana passada.
O papel da opinião
O que é importante na internet
A velocidade e o excesso de informações da era digital tira o prumo de muita gente, tanto de quem começa a correr atrás de qualquer pequena novidade ao menor movimento quanto para quem se fecha completamente para o que se passa entre computadores e celulares. Talvez justamente por isso a opinião se torne um dos valores mais prezados desta época.
Por um lado, parece que todo mundo tem a obrigação de ter opinião sobre qualquer assunto – e, claro, usá-la nas caixas de comentários de blogs, redes sociais e outros ambientes virtuais. Por outro, os assuntos também vão ficando cada vez mais repetitivos e parecidos, caindo no problema indicado pelo escritor norte-americano Eli Pariser em seu livro The Filter Bubble. Ele alega que, à medida que as pessoas só querem falar sobre os mesmos assuntos de sempre, acabam se fechando nos temas de sempre e, aos poucos, fogem dos debates que interessam à sociedade.
Daí a importância de se ter opinião e de valorizá-la. Esse foi o tema debatido nas três entrevistas que fiz, em nome do caderno que edito, o Link, durante o evento Expo Y, que ocorreu na semana passada, no Pavilhão da Bienal, em São Paulo.
Para conversar sobre o assunto, chamei três nomes que já se tornaram referência em suas áreas: Bia Granja, organizadora do festival de internet YouPix, Tiago Dória, do blog que leva seu nome, e Carlos Merigo, editor-chefe do blog Brainstorm9. Cada um deles se tornou autoridade nos assuntos com que lidam diariamente, em seus veículos. O YouPix, de Bia Granja, começou como uma revista e se tornou o maior evento de cultura de internet no Brasil (ela faz questão de frisar a diferença entre “cultura de internet” e “cultura digital”. O Tiagodoria.com era um blog de links interessante que, aos poucos, foi começando a falar de suas principais áreas de interesse – comunicação e tecnologia – e em menos de uma década se tornou uma das principais referências online sobre as transformações que acontecem no jornalismo com a chegada das mídias digitais. Caminho parecido com o traçado por Merigo, que se especializou em publicidade, sua área de atuação.
Os assuntos abordados foram os mais diversos dentro de suas áreas, mas todos chegaram a um mesmo consenso: que não adianta ter opinião sem ter responsabilidade sobre ela, que ser transparente e franco é uma obrigação e que é preciso respeitar o leitor e que isso não necessariamente quer dizer publicar o que ele quer ler, mas também o que ele nem sequer imagina que quer ler. Valores que já tinham sido estabelecidos no mundo offline e que, aos poucos, começam a fazer a diferença também online.
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O Brancatelli fez uma matéria sobre como os aplicativos feitos a partir de dados públicos podem facilitar a vida da cidade e do cidadão no Metrópole de quinta-feira – e me pediu para dar uma força e falar do contexto mais amplo desse cenário.
Dados abertos: em prol da qualidade de vida
A internet, para muitos, vem como uma ameaça. Afinal, tanto o antigo CEO do Google Eric Schmidt, quanto o dono do Facebook, Mark Zuckerberg, já avisaram que a privacidade acabou. A WikiLeaks de Julian Assange paira sobre a cabeça do status quo com a possibilidade de desvendar segredos bem guardados a qualquer minuto. Hackers ativistas do grupo Anonymous avisam: “Não tentem consertar suas duas caras escondendo uma delas. Em vez disso, tentem ter só um rosto – honesto, aberto.”
Há uma mudança drástica, sutil e otimista no meio dessa paranoia. Afinal, ela requer mais dados abertos para a maioria das pessoas, transparência de governos, empresas e, por que não, do cidadão. E esses dados podem melhorar ainda mais a qualidade de vida das pessoas, principalmente em uma cidade como São Paulo.
Imagine se todos os motoristas pudessem dizer onde estão seus carros? Isso tornaria mais fácil a localização de engarrafamentos. E se pudéssemos detectar mais facilmente pontos de alagamento na época de chuvas? Ou acompanhar o orçamento de obras públicas desde o início? O mundo pode melhorar – e bastante.









