Publiquei no meu blog no UOL um vídeo em que o ex-baixista do Pink Floyd, Roger Waters, aponta sua munição para o recém-eleito presidente dos EUA, Donald Trump.
Desde os tempos do Pink Floyd, o músico e compositor Roger Waters usa sua música para fazer comentários sobre política – tanto sobre a natureza política do ser humano (em discos como Dark Side of the Moon e Animals), quanto sobre a classe política em si (especificamente em The Wall, quando comparou o conceito do astro de rock a um ícone fascista). Mas desde que saiu em carreira solo, ele é mais proeminente sobre questões específicas, desde a recontextualização de seu The Wall no local da queda do Muro de Berlim quanto à discussão em relação à questão palestina. E, na sexta passada, dia da posse de Donald Trump como novo presidente norte-americano, o baixista postou em sua página do Facebook um vídeo para lembrar que “a resistência começa hoje.
O vídeo traz a apresentação do músico na Cidade do México, no ano passado, quando, em frente a 300 mil pessoas, comparou o personagem descrito em sua “Pigs (Three Different Ones)”, do disco Animals, a Donald Trump. A faixa faz parte do antepenúltimo disco da formação clássica Pink Floyd, lançado há quarenta anos, inspirado no livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell, e descreve um personagem “palhaço” e “que é quase uma piada”. Donald Trump apareceu projetado nos telões do show, sempre ridicularizado e comparado a Adolf Hitler.
A briga promete, pois Roger Waters dá início à nova Us and Them, que atravessa a América do Norte entre maio e setembro. E, como avisou, não deve diminuir o tom.
Escrevi no meu blog no UOL sobre a série que James Cameron irá produzir sobre a evolução da ficção científica.
A importância de James Cameron para a ficção científica ainda não pode ser medida exata pois ele está em pleno processo de criação. Ao entrar no cânone com uma obra-prima realizada como um filme B (o primeiro Exterminador do Futuro), o diretor canadense deu alguns dos principais passos de sua carreira dedicando-se a contar histórias fantásticas que se passam no futuro ou no espaço com embasamento científico. Aliens – O Resgate, o segundo Exterminador do Futuro, o subestimado O Segredo do Abismo e, claro, o universo em expansão de Avatar são exemplos perfeitos de como o gênero pode cativar multidões e render rios de dinheiro sem necessariamente simplificar histórias ou fazer pouco da inteligência do espectador. Claro que Cameron é reconhecido por outras obsessões (como o navio Titanic, filmes de James Bond e explorações submarinas), mas sua paixão pela ficção científica e sua maestria em transformá-la em ouro pop o tornam um dos principais autores vivos do gênero.
Por isso, ele é uma escolha mais do que apropriada para contar a escalada ascendente deste tipo de narrativa, que começou no ocaso da era vitoriana, embrenhou-se em livros baratos no início do século passado e descobriu no cinema o melhor parceiro para atingir o grande público. É isso que ele vai fazer em uma série de seis episódios de uma hora encomendada pelo canal AMC ao diretor, segundo o site Hollywood Reporter. O nome de trabalho do seriado é James Cameron’s Story of Science Fiction (A história da ficção científica de James Cameron), deve estrear só no ano que vem e será centrado nas grandes questões levantadas pelo gênero.
“Quando eu era garoto, eu basicamente lia qualquer livro com uma nave na capa e vi 2001 – Uma Odisseia no Espaço muitas, muitas vezes. O filme me inspirou a ser cineasta. Eu gostei dos efeitos especiais mas o que eu amei foram as ideias e as questões por trás deles: como o mundo vai acabar? A tecnologia irá nos destruir? O que significa ser humano?”, disse o diretor em entrevista ao site. “A ficção científica nunca temeu lidar com estes temas. Com esta série, nós vamos voltar às origens da ficção científica, seguindo o DNA destas ideias até a fone. Sem Júlio Verne e H.G. Wells não teríamos Ray Bradbury ou Robert A. Heinlein e, sem eles, não haveria (George) Lucas, (Steven) Spielberg, Ridley Scott nem eu. Como um cineasta que se especializou em ficção científica, eu estou interessado em contar as lutas e os triunfos que tornaram possíveis estas histórias incríveis e ver como a arte imita a vida, bem como a ficção científica imita e algumas vezes informa a ciência.”
No dia da posse de Donald Trump, Netflix anuncia a data da volta de Frank Underwood. Postei lá no meu blog no UOL junto com um teaser da nova temporada.
O serviço de vídeos em streaming Netflix esperou passar a posse do novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para anunciar a data de estreia de sua quinta temporada, que acontece no dia 30 de maio deste ano. O teaser que anuncia a nova safra de episódios ergue a bandeira norte-americana de cabeça pra baixo sob um céu completamente cinzento.
Não custa lembrar que em sua quarta temporada, a série fechou o tempo de uma forma surpreendente, reunindo tensões que envolviam imprensa, corrupção, política internacional e terrorismo, atingindo um patamar de tensão que nunca havia chegado perto nas temporadas anteriores. Resta saber se Frank Underwood, o presidente norte-americano fictício vivido por Kevin Spacey, é páreo para o personagem que agora senta no Salão Oval na Casa Branca da vida real.
A ideia de que todos os filmes da Pixar se passam no mesmo universo ganha um reforço do próprio estúdio de animação – veja o curta que postei lá no meu blog no UOL.
Muitos já conhecem a Teoria Pixar, criada pelo jornalista norte-americano Jon Negroni, que cogita a possibilidade de que todos os filmes da Pixar sejam interconectados e se passam em momentos diferentes da mesma linha do tempo. A teoria cogita um universo em que animais, seres humanos e máquinas vivem uma constante disputa territorial e que os filmes do estúdio de animação mostrariam diferentes momentos desta história ao contar a evolução de uma humanidade bem diferente da nossa. Esta teoria, por maiores que sejam as evidências encontradas para comprová-la, ainda não foi admitida oficialmente pela Pixar.
Mas este curta recém-lançado pelo estúdio reforça a teoria ao localizar uma série de cenas escondidas em diferentes filmes do estúdio que contém personagens e referências a outros filmes, como o urso Lotso do terceiro Toy Story em uma cena de Up ou o dinossauro de O Bom Dinossauro em uma cena de Monstros S/A. Olha que legal:
Isso não quer dizer que a Pixar tenha confirmado que a tal Teoria Pixar seja verdade, embora deixe esta dúvida no ar. Aos que não conhecem esta teoria, há um site dedicado a explicá-la, como vários vídeos (como este abaixo, em inglês). O jornalista Ramon Vitral traduziu para o português a teoria logo que ela foi divulgada, em 2013:
O primeiro disco solo do vocalista do Mombojó, Felipe S., chega às plataformas digitais na semana que vem e ele antecipa em primeira mão para o Trabalho Sujo sua faixa de abertura, a tensa canção de protesto “Anedota Yanomâmi”. “Comecei a fazer a Anedota em 2013, durante as manifestações”, explica o vocalista, que produziu todo o disco. “Nasceu de más lembranças, de ver um amigo sendo agredido por um branco careca enrolado numa bandeira do Brasil. Em 2015 o disco Mulher do Fim do Mundo, da Elza Soares, me marcou bastante e me fazia refletir sobre essa composição ainda não finalizada. E também me lembro de finalizar a letra logo depois do acidente de Mariana no fim de 2015. Tudo isso envolvido por uma sensação de que nós seres humanos não sabemos viver juntos e que a ganância está em alta, vindo numa nuvem reacionária que toma o mundo. É como se eu estivesse num sonho e um índio estivesse tentando me explicar a desilusão de quem mata ou rouba nesse nosso mundo opressor, mas numa lingua que eu não compreendesse. O filme O Abraço da Serpente” foi também uma grande inspiração pra essa música. E tô com os índios na filosofia de que a natureza é a nossa dona e não nós os donos dela.”
Escrevi no meu blog no UOL sobre o documentário Axé – Canto do Povo de um Lugar, que traça as origens e avalia a importância do pop feito na Bahia dos anos 80 para cá, que estreia neste fim de semana.
A força da axé music pode ser medida tanto pela forma como ela foi aceita como quanto ela foi rejeitada. O próprio rótulo que a batiza foi criado de forma irônica, desmerecendo pejorativamente a vontade daquela cena musical ser consumida fora do Brasil. Na pesquisa que fiz para o especial de 30 anos da axé music para o UOL há dois anos, as menções à axé music se dividiam em dois grandes grupos: reportagens criticando a ascensão popular daquela sonoridade como um entrave que a indústria fonográfica havia criado para a “boa música” – em sua grande maioria reclamações feitas por bandas e produtores de rock – e anúncios sobre a realização de inúmeros shows com todos os artistas que hoje formam o panteão da axé. Não havia uma tentativa de entender ou contextualizar aquela enorme transformação musical baiana e seu impacto na cultura brasileira ou entrevistas com seus protagonistas para que eles falassem sobre tudo aquilo.
O documentário Axé: Canto do Povo de um Lugar, de Chico Kertész, que estreia neste fim de semana em circuito comercial, vem suprir esta lacuna. É um filme que mergulha na origem daquela cena musical, acompanha seu desenvolvimento e seu apogeu a partir de entrevistas com todos os nomes que fizeram sua história. Ouvimos as histórias sendo contadas em primeira mão por seus grandes ícones (Daniela Mercury, Carlinhos Brown, Luiz Caldas, Chiclete com Banana, Olodum, Ivete Sangalo), os coadjuvantes mais conhecidos (Araketu, Asa de Águia, Banda Mel, Claudia Leitte, Netinho, Sarajane), sempre enfatizando a influência dos blocos afro. Ainda há entrevistas com as vacas sagradas Gilberto Gil e Caetano Veloso, que entram menos como padrinhos musicais e mais como testemunha de alguns momentos desta história, e com produtores e empresários, que explicam uma questão abraçada pelos artistas e pelo próprio documentário: axé music não é um gênero musical, e sim uma forma de fazer música pop de sucesso em escala industrial a partir de Salvador.
Mas o Axé: Canto do Povo de um Lugar vai além da fórmula básica do documentário sobre música produzido no Brasil neste século, que enfileira entrevistas e as alterna com fotos e reproduções de manchetes e páginas de jornais e revistas. A pesquisa audiovisual do filme mergulha na gênese histórica da axé e volta com cenas em movimento dos primeiros trios elétricos, do embate dos blocos afro com os trios no início dos anos 80 e apresentações do início de carreira – e entrevistas – de quase todos os artistas mencionados. Em vários momentos, a cena descrita pelos entrevistados é exibida logo em seguida, provocando pequenas revelações visuais no decorrer do filme.
Este nem é seu grande mérito. A força do documentário persiste justamente em contextualizar uma movimentação cultural que começou a sacudir Salvador para além do carnaval na virada dos anos 70 para os 80 e como esta movimentação foi percebida por uma nova geração de artistas que entendeu que poderia conquistar o Brasil sem precisair da Bahia. Até então, se um artista quisesse atingir sucesso nacional, teria que se mudar para São Paulo ou, principalmente, para o Rio de Janeiro, que até os anos 80 era a capital cultural brasileira. A axé music inverte esse paradigma e obriga Rio e São Paulo a olharem para a capital baiana sempre em busca do próximo sucesso do verão.
Tanto que todos os protagonistas são categóricos ao afirmar que o pai da axé music não é um músico, um compositor ou um intérprete, e sim um produtor musical. Wesley Rangel, falecido no início do ano passado, foi quem viu a viabilidade comercial daquela música e transformou seu Estúdio WR no coração de mãe que reunia todos artistas, novatos e veteranos. Foi ele também quem estabeleceu a ponte entre Salvador e o Rio de Janeiro, tornando possível a explosão nacional de Luiz Caldas, o Elvis Presley daquele rock’n’roll baiano.
O filme também é didático ao explicar as diferenças entre os gêneros musicais de cada artista, falando em samba-reggae, fricote, galope, pagode. Na matriz de todos eles está o chamado “samba duro”, gênero musical característico da região do recôncavo baiano, menos malemolente que o samba carioca, mais pronunciado e empolgante. Alguns dos grandes momentos do documentário estão quando pioneiro Gerônimo (autor de “Eu Sou Negão”) e o maestro Letieres Leite fazem a genealogia musical daquela cena – ou quando vemos a história da criação do repique de percussão característico do samba-reggae. E, claro, a clássica passagem sobre como Daniela Mercury parou São Paulo no histórico show sob o vão do Masp, na Avenida Paulista, em 1992 – e com imagens deste show.
A presença dos artistas – e seu aprofundamento pessoal para além dos personagens que eles criaram no palco – é outra grande qualidade do documentário. Da sempre inspiradora Daniela Mercury ao hilário Gerônimo, passando pelo senso comercial do Cumpadi Washington e de Beto Jamaica e por depoimentos inspirados de heróis locais desconhecidos no resto do país como Vovô do Ilê, Márcio Vitor, Lazinho, Tatau e Tonho Matéria, a forma como as entrevistas são conduzidas permite entender melhor a manha baiana, um jeitinho específico que está nas entrelinhas dos hits e dos refrões.
Axé só peca por sua extensão, mas isso não é propriamente um defeito. Ao querer ser o filme definitivo sobre esta cena, ele debruça-se sobre a história de cada bloco, dando atenção a atrações menores do ponto de vista histórico como a Banda Mel, Banda Beijo e o Harmonia do Samba. Num dado momento estamos assistindo Ricardo Chaves (do hit “É o Bicho”) contar sobre sua trajetória ou ouvindo falar sobre a importância atual de Saulo Fernandes (ex-Banda Eva), o que destoa da história principal, mas não chega a incomodar.
No fim das contas, Axé: Canto do Povo de um Lugar é uma aula de história mais do que um filme sobre uma cena musical. Insiste em buscar a nascente e explicar como a música pop produzida em Salvador entre os anos 80 e 90 dominou o país e chamou atenção do resto do mundo, levando o Olodum ao Central Park em Nova York e Michael Jackson ao Pelourinho. É um filme obrigatório para quem gosta de música brasileira, mesmo aos que repudiam a axé.
Escrevi sobre o ótimo musical irlandês Sing Street, sobre formar uma banda de rock durante os anos 80 lá no meu blog no UOL.
Quando Stranger Things foi lançada e tornou-se um fenômeno da noite pro dia no meio do ano passado, a reação à explosão de popularidade dizia que a série havia sido “fabricada” a partir de algoritmos de audiência do Netflix (sendo que ela tinha sido rejeitada mais de dez vezes por outras emissoras de TV, antes de ser descobertas pelo serviço de vídeo online) e que o sucesso da série estava intrinsecamente ligado ao acúmulo de referências a um recorte específico do cinema pop dos anos 80. A maioria dos críticos do sucesso da série simplesmente ignorou o fato do seriado ser um ponto de luz otimista no breu de pessimismo que domina o inconsciente coletivo do mercado de entretenimento.
Em Stranger Things, os personagens eram criados para que pudéssemos nos identificar com eles e só – e não para vê-los morrer de uma forma agressiva e súbita. A valorização da amizade, a preocupação com o outro, o fascínio pelo desconhecido, a segurança da retribuição, o prazer de agir coletivamente – debaixo de uma história de horror e ficção científica a respeito de uma ruptura na realidade que dá acesso a uma dimensão negativa, havia uma ode à camaradagem e à afeição, ao respeito e à ternura, itens raros no mercado pop nestes ríspidos anos 10. Todas as referências aos filmes de Spielberg, John Carpenter e Stephen King eram uma cobertura açucarada sobre uma história cujo lema é uma verdade pétrea que parece provocar o nível de relação pessoal das redes sociais: “Amigos não mentem.”
Se foi exatamente isso que lhe fez sorrir em Stranger Things, prepare-se para a dose de otimismo ideal para começar 2017. O musical Sing Stret escrito e dirigido pelo irlandês John Carney é um dos grandes filmes de 2016 e estreou sem muito alarde no Netflix brasileiro na virada do ano. A história é aquela velha conhecida de um cara que quer montar uma banda para conquistar uma garota, mas a forma como ela é conduzida, a relação que vai criando entre os diferentes personagens e uma trilha sonora de primeira garantem quase duas horas de um tipo raro de diversão atualmente.
A história se passa nos anos 80 e poderia tranquilamente ser contemporânea de outro musical que se passa no mesmo período e na mesma cidade, The Commitments, de 1991. Mas enquanto os Commitments miravam em seu futuro profissional, a banda que batiza o filme só quer fazer parte de uma turma fazendo música. São pré-adolescentes como os Goonies, mas como a história se passa em Dublin, as referências são bandas new wave e pós-punk como Duran Duran, The Cure, Joy Division e Simple Minds.
O filme começa quando Conor (o ótimo Ferdia Walsh-Peelo) muda de escola e tem que criar um círculo social. Entre brigas no refeitório e problemas com a direção católica do novo colégio, ele vê uma garota perto da escola (Raphina, vivida por Lucy Boyton) e para impressioná-la, diz que tem uma banda. A partir daí acompanhamos a história quase mítica de formação de uma banda, envolvendo diferentes clichês como a dupla de cantores e compositores, os lendários primeiros encontros, a mitologia sobre o surgimento das canções e as agruras em relação ao showbusiness.
Mas estas são as referências pop do filme, não seu cerne principal. A viga de sustentação da história acontece no vínculo de amizade entre os integrantes da banda e, principalmente, na relação entre Raphina e Conor, que desenvolve-se bem à medida em que o filme se desenrola, e entre Conor e seu irmão mais velho, Brendan (Jack Reynor), que age como mentor rock’n’roll, autor de frases lapidares como “rock’n’roll é um risco: o risco de ser ridicularizado”, “nenhuma mulher pode amar de verdade um homem que ouve Phil Collins” e “os Sex Pistols sabiam tocar? Você não precisa saber tocar. Quem é você, Steely Dan? Você precisa aprender a não tocar, Conor. Esse é o truque. Isso é rock’n’roll. E isso… requer prática.”
Fora isso há as ótimas músicas originais da banda Sing Street, além de músicas do Clash, Joe Jackson, The Jam, Hall & Oates e vários outros na trilha sonora. Um filme para sair assobiando após o final.
Postei lá no meu blog no UOL mais um teaser da nova temporada da clássica série de David Lynch, cuja terceira temporada estreia dia 21 de maio – e é a primeira vez que nos reencontramos com o agente Cooper…
David Lynch está atiçando a expectativa de todos a cada novidade sobre a volta de Twin Peaks. E depois de anunciar estreia da terceira temporada do seu clássico seriado para 21 de maio deste ano – um quarto de século depois da segunda temporada -, ele agora nos reapresenta a seu ótimo protagonista, o agente Dale Coooper, vivido novamente por Kyle MacLachlan, num curto teaser:
A nova temporada terá 18 episódios e reunirá praticamente todo o elenco original, entre eles Sherilyn Fenn, David Patrick Kelly, Richard Beymer , Miguel Ferrer, Sheryl Lee, Dana Ashbrook, Ray Wise e o próprio David Lynch. Além destes, a nova série ainda terá a presença de nomes conhecidos tanto da música pop (como Trent Reznor, Eddie Vedder, Sky Ferreira e Sharon Van Etten) quanto do cinema (como Amanda Seyfried, Laura Dern, Tim Roth, Naomi Watts, Michael Cera, Monica Bellucci e Ashley Judd). O primeiro episódio será duplo e o canal Showtime liberará o terceiro e o quarto episódio em sua plataforma de streaming logo após a exibição dos dois primeiros.
Escrevi lá no meu blog no UOL sobre Low, o disco que mudou a carreira de David Bowie e inaugurou sua trilogia de Berlim, que completa quatro décadas neste sábado.
À beira de um colapso mental, David Bowie fugiu de Los Angeles para Berlim, no final de 1976, para escapar de uma possível tragédia. O inglês vivia seus dias mais intensos e pesados, atraindo para perto de si todo tipo de má referência e carga negativa enquanto encarnava mais um personagem inventado artisticamente: o Thin White Duke era uma espécie de versão má do próprio David Bowie e ao mesmo tempo em que se entupia de cocaína e estudava o satanista Aleister Crowley, aplaudia o fascismo, chamava Hitler de “o primeiro rockstar” e aprofundava-se nas ciências ocultas. O resultado daquele período, o disco Station to Station, é uma das obras-primas do artista, que ele não alegava não ter nenhuma recordação do período de sua gravação ao mesmo tempo em que declarava ser sua obra com mais referências ao ocultismo, conexão que ele lamentava ter sido solenemente ignorada pela crítica.
Era um artista no auge. Depois de anos tentando entrar no panteão do rock clássico vestindo diferentes personas, ele finalmente tornou-se um ícone pop ao inventar a história do alienígena Ziggy Stardust, que vem para o planeta Terra e torna-se um popstar. O personagem criado em 1972 dera ao artista inglês as possibilidades de explorar os limites da música, como a geração da qual era caçula, compondo, tocando, cantando e produzindo as próprias músicas. Mas, além disso, lhe conseguira permissão para reinventar-se quando queria, elevando as transformações de personalidade que a geração do rock dos anos 60 atravessou em declarações estéticas. Cada disco era uma nova chance de começar tudo de novo e reunir novas referências, novas inspirações, novos padrões artísticos. Seus inúmeros interesses pessoais eram a desculpa perfeita para criar uma múltipla personalidade em público, encarnando, como um ator pós-moderno, as tendências que pairavam sobre o inconsciente coletivo.
E foi o instinto artístico de Bowie que o salvou de se tornar Elvis de si mesmo nos proverbiais cinco anos da faixa que abria o disco Ziggy Stardust. Em vez disso, mudou-se de Los Angeles para Berlim com Iggy Pop a tiracolo, querendo mudar radicalmente a paisagem. E apesar dos inúmeros excessos que a dupla inevitavelmente causaria na cidade alemã, à época ainda dividida pelo muro construído após a Segunda Guerra Mundial, ninguém ligava. O que causava ultraje e gerava manchetes na capital do showbusiness norte-americano era visto de forma trivial pelos habitantes da cidade alemã. Era só um roqueiro inglês e seu amigo americano fazendo besteiras. Tanto faz.
Essa reação quase esnobe foi um choque para David Bowie. Em Berlim ninguém se interessava por ele, sua fama era artificial, um sucesso de plástico criado e alimentado pela indústria de entretenimento visto como um teatro vazio que não impressionava uma cidade escorraçada por duas guerras mundiais. Aquilo fez que Bowie começasse a repensar quem ele realmente era, por baixo de tantas máscaras. O fato de Berlim ser uma cidade intocada pela cocaína obrigou o artista a parar de cheirar e a droga preferencial da cidade, heroína, não batia com a cabeça do inglês. Foi o início de um processo de introspecção e amadurecimento que ficou conhecido anos depois como “a trilogia Berlim”, formada pelo conjunto de três discos inspirados pela cidade e o primeiro deles foi lançado há exatos 40 anos. Low, que chegou às lojas menos de uma semana após o aniversário de 30 anos de seu autor, mudou o pop definitivamente, embora esta mudança não tenha sido assimilada de uma vez só.
Gravado em sua maioria no Castelo de Hérouville, na França (onde Bowie havia gravado, em julho de 1973, o disco de versões Pin Ups e produzido o primeiro disco solo de Iggy Pop, The Idiot), e parte no Hansa Studio em Berlim, Low é um disco cujas raízes já podem ser encontradas em Station to Station. O disco do ano anterior funciona como um preâmbulo à trilogia Berlim e a paixão de Bowie pela sonoridade alemã daquele período – de grupos de rock progressivo tortos como Neu!, Can, Tangerine Dream e o essencialmente eletrônico Kraftwerk – já podia ser ouvida nas composições da fase Thin White Duke. É aquele tipo de som – sintético, metronômico, intenso e absorto que os alemães chamavam de Kosmiche Musik e os ingleses de krautrock – que faz Bowie escolher Berlim como sua visão de futuro – ou pelo menos de seu próprio futuro.
Mas Bowie foi pego de surpresa ao descobrir uma cidade e um elemento estético que não queriam ser emulados. Para isso, chamou dois velhos amigos para encarar esta nova jornada: Brian Eno, ex-tecladista do Roxy Music que estava começando a compor seus primeiros discos solo criando um gênero chamado ambient music (compondo obras para funcionarem como trilhas sonoras para aeroportos e supermercados), e Tony Visconti, produtor com quem Bowie já vinha trabalhando desde o final dos anos 60 (e que produziria seu derradeiro disco, ★).
Apesar dos dois terem créditos de produção, o papel de ambos foi bem diferente durante as gravações. Eno trabalhou mais como um diretor artístico do disco, conduzindo David Bowie para uma sonoridade que transcendia as amarras do rock – e até mesmo da canção. Personificada principalmente no lado B do disco, a presença de Brian Eno aludia justamente às condições frias e sem rodeios da personalidade alemã, mas sem ritmo, sem letra, sem refrão. O experimento que os Beatles fizeram no final de seu álbum branco, quando John Lennon, George Harrison e Yoko Ono superpuseram vários pedaços de fita emulando uma colagem de vanguarda musical chamada “Revolution 9”, atingia um novo patamar no segundo lado de Low. As faixas “Warszawa” (a faixa mais embleática do disco, composta por Eno e com vocais sem letra improvisados por Bowie), “Art Decade”, “Weeping Wall” e “Subterraneans” pareciam vir de um outro planeta, uma outra dimensão, desenhando um horizonte improvável para o futuro da música pop.
O lado A voltava-se para o soul plástico do Thin White Duke do ano anterior, mas a presença pesada da erma paisagem criada por Bowie e Eno no lado B pairava sobre os momentos mais tradicionais do disco, como as faixas “Breaking Glass”, “What in the World” – com vocais de Iggy Pop -, “Always Crashing in the Same Car” e “Be My Wife”, além de, claro, o hit “Sound and Vision”. O lado era cercado por duas instrumentais que não deixavam dúvida sobre o rumo do disco: as deliciosamente repetitivas “Speed of Life” e “A New Career in a New Town”, que respectivamente abrem e fecham o primeiro lado de Low são as tentativas mais próximas da banda de Bowie – formada à época pelos guitarristas Carlos Alomar e Rick Gardiner, o baixista George Murray, o tecladista Roy Young e o baterista Dennis Davis, além do próprio Bowie (que tocava de saxofone e xilofone a “violoncelos de fita”) e de Brian Eno (tocando diferentes tipos de sintetizadores) – de soar como as bandas alemãs. Acrescente isso a produção de fato de Tony Visconti, que, auxiliado por um aparelho chamado Eventide Harmonizer (que repetia partes recém-gravadas, como um pré-sampler, criando um eco alienígena por todo o disco), criava naquele e nos dois discos seguintes da trilogia (“Heroes” lançado ainda em 1977 e Lodger, de 1979) toda uma sonoridade que ficaria reconhecida na década seguinte como pós-punk. Os timbres de bateria cheios de eco e peso às guitarras cruas e reluzentes ao baixo quase sempre pronunciado depois encontrariam discípulos em bandas tão diferentes e contemporâneas como Cure, R.E.M., Joy Division, Sonic Youth, Echo & the Bunnymen, Talking Heads e Smiths.
À capa, Bowie, de perfil, aparecia em uma imagem tirada do filme de Nicolas Roeg O Homem que Caiu na Terra, estrelado por ele no ano anterior, repetindo a mesma fórmula de Station to Station. Mas ao chamar o disco de Low e colocar-se de perfil logo abaixo do título, Bowie criava um trocadilho visual para explicar que naquele disco ele preferia a estética minimalista, em busca de sua essência como cantor e compositor ao mesmo tempo em que ampliava os próprios limites estéticos – e, simultaneamente, os da cultura pop. Seu lado B revela-se a cada ano mais eterno e profético, mostrando que até a sonoridade de vanguarda pode ser pop – e não necessariamente agressiva. Um disco que não só salvou David Bowie de uma possível tragédia pessoal como reinventou sua carreira – e, mais uma vez, ampliou os horizontes do pop.
Conversei, lá no meu blog no UOL, com o Lô Borges sobre a recriação de seu clássico disco de estreia, tocado pela primeira vez ao vivo neste fim de semana no Sesc Vila Mariana.
“A coisa mais certa que eu podia fazer foi a largar a indústria fonográfica aos vinte anos de idade depois de compor 25 músicas para dois álbuns, para o Clube da Esquina e pro disco do tênis”, lembra o mineiro Lô Borges, em entrevista por telefone, sobre o início de sua carreira em 1972. “Foi a melhor coisa que eu fiz! Se eu continuasse gravando um disco a cada seis meses, eu ia enlouquecer! Eu não queria sobreviver de música, eu queria que a música sobrevivesse em mim!”
Um dos principais nomes da cena mineira que se revelou no disco Clube da Esquina, Lô Borges era o segundo autor do disco que reunia músicos e compositores que hoje são bastiões da música brasileira, como Flávio Venturini, Toninho Horta, Fernando Brant, Beto Gudes, Wagner Tiso e Milton Nascimento. Creditado a ele e Milton, o disco apresentava uma nova cara para o pop mineiro, recriando-o a partir de influências da então novíssima MPB e do rock contemporâneo à época, hoje reverenciado como clássico. E após o lançamento do disco, Lô seguiu a boa fase lançando seu primeiro disco solo quase em seguida. Batizado apenas com seu próprio nome, o disco de 1972 é conhecido pelo par de tênis em sua capa e por aprofundar-se ainda mais nas profusões musicais daquela cena criando um registro que hoje é clássico da psicodelia brasileira. Um disco que nunca foi tocado ao vivo por seu autor, falha que será corrigida a partir deste fim de semana, quando Lô recria o clássico disco em três shows – já com ingressos esgotados – no teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo.
“O disco do tênis nunca se misturou ao meu repertório ao longo dessas décadas todas. Ele ficou preservado. Nunca toquei músicas do tênis nos setlists dos meus shows, que contemplam quase todos discos meus, mas nunca entraram músicas do tênis”, explica o músico e compositor. O motivo é tão simples quanto revelador: uma vez submetido às pressões do showbusiness, Lô teve que tirar um disco que se comprometeu a lançar por contrato a fórceps e depois de terminado, decidiu abandonar tudo para viver a vida.
“Esse disco não teve lançamento. Quando eu acabei de gravar o disco, eu era um pouco mais que um adolescente, eu tinha vinte anos. Tinha feito o Clube da Esquina no começo de 72 e o disco do tênis no meio de 72 e ele foi feito como se fosse uma oficina criativa instrumental e poética, mas também feita no sufoco”, continua relembrando. “Eu tinha um contrato com uma gravadora que dizia que eu fizesse um disco logo depois do Clube da Esquina. Sabe o que eu tinha? Eu não tinha música nenhuma! Eu assinei o contrato sem ter música nenhuma! O processo do disco do tênis era o seguinte: eu fazia a música de manhã, meu irmão (Márcio Borges) fazia as letras à tarde e à noite ia pro estúdio, fazia os arranjos e gravava tudo valendo! Foi um disco muito urgente! Eu não tinha vinte, quinze anos de composição, eu tava compondo há dois anos e minhas músicas foram canalizadas pro Clube da Esquina. Então foi uma loucura! A música ‘Pensa Você’, por exemplo, eu cheguei no estúdio sem ter nada e compus a música no estúdio, no dia de gravar.”
A pressão responsável pelo processo de criação do disco também lhe deu uma aura colaborativa, em que todos entraram no ritmo em que criação, composição, arranjos e gravação faziam parte de um mesmo processo, nada linear. “Eu acho que uma das características mais legais do disco do tênis é a coisa de ele ter sido feito caoticamente. Eu não tinha as músicas e tinha que criar. Isso botou minha cabeça pra funcionar de um jeito que ela nunca funcionou”, continua Lô. “Eu tive a curiosidade de ver a ficha técnica desse disco anos depois e vi que a produção é do Milton Miranda e Maestro Gaia, que já devem ter falecido há mais de trinta anos, mas eu nunca vi nem o Milton Miranda nem o Maestro Gaia no estúdio quando estávamos gravando. A gente produziu tudo sozinho. Eu ficava meio na direção musical, apresentando as músicas e as ideias e os meus amigos, os músicos, acrescentavam as ideias delas às minhas. Foi uma oficina de cooperação criativa. Agradeço demais a todos que contribuíram na gravação, porque se não fossem eles, não teria acontecido esse disco.”
“É um disco totalmente inspirado que aponta pra vários lados: tem baião, tem canção, tem música que eu canto quase chorando…”, ri. “Acho que ele sugere muitas tendências que estavam contidas na minha cabeça. É meio psicodélico, meio progressivo, tem uma coisa meio Hermeto Pascoal.” A tônica do disco foi embalada pela expansão da consciência típica do período. “As drogas tiveram total influência nisso, porque o mundo estava vivendo em estados alterados de consciência. Todos os artistas, os ingleses, os americanos, Jimi Hendrix, os Beatles, os Rolling Stones, os Emerson Lake & Palmer, os Crosby Stills Nash & Young… O mundo inteiro usavam substâncias alteradoras de consciência, como eu e a turma que gravou comigo também. Todo mundo o tempo todo com o estado de consciência alterado. Eu gostava muito das lisérgicas, tinha gente que gostava mais de álcool, tinha gente que gostava mais de maconha e tinha gente que gostava de tudo o tempo todo”, lembra.
E depois de gravar o disco, em vez de colocá-lo na rua, ele preferiu largar tudo. “Sabe quem foi pra rua? O Lô Borges”, continua. “Eu fiz o disco e larguei tudo. Falei que não queria saber mais de gravadora, não queria saber mais de carreira, de disco, vou voltar pra Belo Horizonte e fazer as coisas que as pessoas da minha geração estão fazendo. Eu virei hippie! Fui pra Arembepe na Bahia, pra Porto Alegre, não sei onde mais, viajando pelo Brasil de ônibus com alguns exemplares do disco que eu entregava pras pessoas nas rodinhas de violão. Eu praticamente abandonei minha carreira.”
Lô não se arrepende do surto, que considera a melhor decisão que fez em sua carreira, retomada quase seis anos depois, com o disco A Via Láctea, de 1979. “Passei cinco anos na vida libertária de hippie e me estruturando como compositor. Quando eu voltei, seis anos depois, eu tinha música pra caramba!”, recorda-se. “Não tinha que fazer música de manhã, letra de tarde e gravar à noite. Quando eu voltei com o Via Láctea em 78 eu tinha música pra caramba, eu ensaiei o disco, que foi produzido pelo Milton, foi muito mais relaxado.”
A decisão de abandonar o meio artístico surgiu logo após ele ter finalizado seu disco de estreia, por isso em vez de seu rosto, há o par de tênis na capa. “A ideia do tênis da capa é minha. Quando o disco ficou pronto e fomos discutir a capa, eu disse que estava saindo da indústria fonográfica e queria colocar o tênis pra simbolizar isso. Não ter colocado a minha cara e sim um tênis, que era eu dizendo que ia pegar a estrada: eu vou pegar a estrada e tô saindo do Rio de Janeiro, tô saindo do showbusiness, tô saindo do circuito. Eu tenho vinte anos apenas e não quero essa obrigação de gravar um disco a cada seis meses. Até hoje eu autografo o disco do tênis dizendo ‘com um pé na estrada’.”

Lô Borges (em frente, ao centro) em frente à banda montada por Pablo Castro (segundo à esquerda) para reproduzir o clássico disco de 1972
Trancado na própria memória de Lô, o disco nunca mais voltou aos palcos ao mesmo tempo em que criava sua reputação de forma paralela, tanto no Brasil quanto no exterior. Até que, no ano passado, após um show, alguns músicos haviam lhe perguntado sobre a importância do disco, o que lhe fez voltar a pensar no álbum. Mas a decisão de voltar ao disco surgiu quando ele conheceu o músico mineiro Pablo Castro. “Ele é um cara que escreveu dez páginas do meu songbook e que fui conhecer num show que eu fiz com o Samuel Rosa num festival aqui em Belo Horizonte quando ele tocou antes de mim e do Samuel. Eu fiquei interessado no som dele, trocamos ideias ali no camarim. Depois eu convidei ele pra minha casa, gostei muito do disco dele, e qual a minha surpresa quando ele pegou um violão e começou a tocar todas as músicas do disco do tênis! E tocou todas as músicas dos lados Bs dos discos meus, ele era um especialista em lados B de Lô Borges.”
A ideia de recriar o disco começou a ser gestava, mas havia um agravante: “Refazer o disco do tênis é um processo tão complexo, porque o disco é uma engenharia, uma oficina instrumental, em que a gente botou cravo, Hammond, pedais, pianos acústicos… E pra reconstruir o disco do tênis teria um trabalho muito grande. Mas ele disse, ‘Lô, eu sou um cara que teve por anos bandas cover de Beatles, além de ser cantor e compositor eu sou especializado em reconstituir discos, toquei no Cavern Club em Liverpool, em Nova York. Se você quiser eu faço isso com a minha banda!”‘
Pablo, que além do próprio trabalho autoral, também teve três bandas cover de Beatles em Minas Gerais, The Silver Beatles, Sgt. Pepper’s Band e Free as a Beatle, fala sobre esta experiência e como ela lhe aproximou ao disco do tênis. “É um estudo muito interessante reproduzir à risca um arranjo. Primeiro porque estimulamos o ouvido a memorizar e decodificar o som. Segundo porque é uma prática de banda muito específica, onde há um efeito preciso a se almejar, incluídos aí os vocais, sua timbragem, harmonização, jeito de interpretar, etc. Terceiro, porque os detalhes são importantes para a fruição dos aficcionados. É uma espécie de ‘música de concerto’, só que popular. E, em última instância, valorizar o arranjo, em vez de apenas a canção, é uma maneira de homenagear todos os músicos envolvidos criativamente na confecção de uma faixa, não apenas os compositores. Tudo isso foi uma experiência valiosa para meu trabalho de direção musical no show do disco do tênis. Evidentemente, as harmonias de Lô são mais complexas e arrojadas do que as dos Beatles. Mas a análise dos timbres, camadas de instrumentos, texturas, frases, tudo isso é importante nesse tipo de reconstituição. Penso que a experiência com os Beatles me ajudou nesse aspecto.”
“O mais difícil nesse tipo de reconstituição são as partes que, na gravação original, foram meio que improvisadas, não seguem um padrão definido, mas que abrilhantam a faixa”, continua Pablo. “Os solos de guitarra são o exemplo mais evidente disso, mas normalmente os solos estão em primeiro plano, de forma que não é tão difícil transcrevê-los. Mais complicados são aqueles detalhes de instrumentos não solistas mas cujas frases aparecem aqui e ali, e contribuem para o efeito geral da música. Além disso, o disco do tênis tem vários vocais de 4 vozes, às vezes mais, e não é tão simples fazer isso funcionar no palco. É preciso ensaiar bem pra timbrar, equilibrar e afinar tudo a contento no palco. Outro aspecto importante, e dos mais criativos nesse tipo de trabalho, são adaptações de finais para as músicas que originalmente terminam em fade-out. Isso quase nunca funciona no palco, de forma que fizemos finais completos para essas faixas no show. Tenho gostado de todas, mais acho que ‘Aos Barões’, por ser uma música tão inusitada, meio perturbadora, está entre as mais instigantes do disco e do show. ”
Lô deu a carta branca para Pablo tocar o disco e depois foi chamado para assistir à execução. “Comecei a participar dos ensaios em dezembro. No primeiro ensaio eu não acreditei, eu tava em 1972 e não sabia! Eu nem toquei, só escutei! Tudo igualzinho! As guitarras do Beto Guedes, as minhas guitarras, os Hammonds do Tenório Júnior, os violões do Nelson Ângelo, o baixo e a guitarra do Toninho Horta. Eles fizeram a reconstituição fidedigna igual. Aí eu entrei na história e virou o projeto e a história de tornar público nosso encontro.”
Pablo explica que manteve a concisão do disco que tem 15 músicas e pouco mais de meia hora de duração. “Há algumas canções com as formas expandidas, mas não muitas. Não queríamos descaracterizar o aspecto hai-cai dessas canções . É um charme uma composição incisiva que passa rápido como uma borboleta em vôo. Faremos também, na segunda metade do show, todas as canções de Lô do disco Clube da Esquina, igualmente em seus arranjos originais, de forma que o show, além de repleto de outras canções decisivas na obra de Lô, não será tão breve quanto o disco do tênis.”
Depois dos shows em São Paulo, o grupo quer rodar com o disco pelo país. “Cair na estrada!”, comemora Lô, que ainda não tem shows agendados para esta nova fase, embora a próxima apresentação deva acontecer em alguns meses, em Belo Horizonte.














