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Johnny Marr lança seu livro de memórias e conta como os indies mais importantes da história quase voltaram em 2008 – publiquei o trecho do livro que conta essa história lá no meu blog no UOL.

Os Smiths são a banda inglesa mais influente das últimas décadas e é impossível imaginar o cenário pop mundial sem a breve e determinante carreira da banda liderada pela dupla formada por Morrissey e Johnny Marr. O fim da banda, em 1987, foi considerado abrupto e precoce, mas determinou uma carreira e discografia perfeitas e estabeleceu a impossibilidade de retorno da banda à ativa. A negativa em relação a uma possível reunião da banda era tão categórica que Morrissey, vegetariano convicto, falou que seria mais fácil comer os próprios testículos a voltar com os Smiths.

Mas, por um breve momento, no final de 2008, a volta dos Smiths quase foi uma realidade. Pelo menos é o que conta o guitarrista Johnny Marr em trecho de suas memórias, que serão lançadas na Inglaterra na próxima sexta-feira. No livro Set The Boy Free, a ser pela editora inglesa Century, o guitarrista lembra toda seu tempo com a banda e do encontro há quase dez anos que quase fez os Smiths quebrarem seu encanto. “Eu não tenho nada contra Morrissey de maneira alguma – só acho que não precisamos disso”, contou o guitarrista, que completa 53 anos nesta segunda, ao jornal inglês Guardian. “Uma das coisas que tínhamos em comum era que vivíamos para trabalhar e estamos muito ocupados fazendo o que estamos fazendo hoje.”

Abaixo, o trecho da biografia de Marr que foi republicado no jornal The Guardian:

“Infelizmente para os Smiths, não fui consultado quando nosso catálogo foi remasterizado para CD nos anos 90. Os discos soavam mal e eu estava determinado a acertar as coisas. Depois de uma longa luta, consegui chegar a um acordo com Morrissey e a Warner. Eu remasterizaria todos os discos novamente com um engenheiro de primeira de forma que nosso catálogo soaria como deveria, de uma vez por todas.

Quando eu analisei os discos, fiquei impressionado sobre como a banda era boa e como éramos jovens. Eu me lembrei da intenção e emoção exatas de cada nota e palavra e escrevia para Morrissey e Andy Rourke dizendo ‘dá para ouvir o amor de verdade nisso.’ Tive boas respostas de ambos.

As negociações com a Warner significavam que Morrissey e eu estávamos num raro período de comunicação. Um dia, em setembro de 2008, nós estávamos apenas a alguns quilômetros de distância no sul de Manchester e armamos de nos encontrar em um pub da região. Eu estava feliz em vê-lo – fazia dez anos ou mais da última vez que nos vimos. Falamos sobre nossas próprias notícias e famílias e sobre como sentíamos saudade.

E então nossa conversa foi para assuntos mais profundos. Morrissey começou a falar sobre como nossa relação havia sido dominada pelo mundo exterior, normalmente de forma negativa. Nós fomos definidos um pelo outro nas maiores partes de nossas vidas profissionais. Gostei de ele ter mencionado isso, porque era verdade.

As bebidas continuavam vindo e nós falamos por horas. Falamos, como sempre fazemos, sobre os discos que amamos e finalmente fomos para ‘aquele assunto’. Havia boatos por anos que os Smiths estavam prestes a voltar à ativa e eles sempre eram falsos. Eu nunca fui atrás de nenhuma oferta.

De repente, estávamos falando sobre a possibilidade de voltar com a banda e naquele momento parecia que, com a intenção certa, poderia funcionar e até mesmo ser ótimo. Eu poderia continuar trabalhando com os Cribs em nosso disco e Morrissey também tinha um disco para lançar. Ficamos juntos por mais um tempo e mesmo depois de muito suco de laranja (para mim) e muito mais cerveja (para ele) nós nos abraçamos e nos despedimos.

Eu estava genuinamente feliz de voltar a entrar em contato com Morrissey e falei com os Cribs sobre a possibilidade de eu fazer alguns shows com os Smiths. Por quatro dias foi um probabilidade muito real. Nós teríamos que arrumar alguém novo para tocar bateria, mas se os Smiths quisessem voltar fariam um monte de gente muito feliz e com toda nossa experiência seria bem melhor do que antes.

Morrissey e eu continuamos a conversar e planejamos nos encontrar mais uma vez. Eu fui para o México com os Cribs e de repente silêncio. Nossa comunicação havia terminado e as coisas voltaram a ser como elas eram antes e como sempre imaginei que sempre seriam.

Comecei a trabalhar no estúdio em horas incomuns, por volta das cinco ou seis da manhã. Um dia, em 2010, no caminho de volta depois de deixar minha filha Sonny na escola, eu estava pensando em como o David Cameron havia dito que ele era um fã dos Smiths. Qualquer um que era fã da banda saberia que nós éramos contra tudo que ele e o partido conservador representavam. Mas se ele quisesse dizer que gostava dos Smiths, o que eu poderia fazer?

Sem pensar muito, peguei meu telefone e tuitei: ‘David Cameron, pare de dizer que você gosta dos Smiths. Você não gosta. Eu te proibo de gostar.” Satisfeito com o meu protesto, fui tirar um cochilo.

Algumas horas depois, fui acordado por uma ligação de Joe, meu agemte. ‘O lance do Cameron’, ele disse, ‘o negócio do Twitter. Está maluco.’ Enquanto eu estava dormindo fui retuitado por milhares de pessoas e consegui imprensa em todo o mundo. O próprio Cameron foi chamado para comentar durante as perguntas feitas ao primeiro ministro. Com os planos do governo de aumentar as taxas de ensino para as universidades, o parlamentar trabalhista Kerry McCarthy levantou-se e disse: ‘Os Smiths são, claro, a arquetípica banda de estudantes. Se ele vencer a votação de amanhã à noite, que canções ele acha que os estudantes irão ouvir? ‘Miserable Lie’ (mentira desgraçada), ‘I Don’t Owe You Anything’ (eu não devo nada para você) ou ‘Heaven Knows I’m Miserable Now’ (Deus sabe como estou desgraçado agora)?’ (Em referência a títulos de musicas dos Smiths.)

Cameron aproveitou a oportunidade para mostrar suas verdadeiras credenciais indie: ‘Eu achava que se eu aparecesse, eu pelo menos não ouviria ‘This Charming Man’ (Este homem charmoso)’

Boa. Tudo muito feliz e totalmente bizarro.

2010-protesto

Quando 50 mil manifestantes marcharam por Londres, fiquei orgulhoso de ver os estudantes cobrando os políticos por suas promessas quebradas. As coisas chegaram ao extremo na Praça do Parlamento no diaem que as novas leis passaram. No dia seguinte, me mandaram uma foto de uma manifestante chamada Ellen Wood que estava confrontando a polícia com uma camisa dos Smiths. Eu olhei para a foto, para seu olhar, para as Casas do Parlemento. O significado de ela estar usando uma camiseta dos Smiths causou um impacto enorme em mim. Me ocorreu que, além da música que fazemos, esta foto talvez fosse o testamento mais forte do legado dos Smiths.

A única outra pessoa que eu sabia que poderia entender isso da mesma forma era Morrissey e então lhe mandei a foto por email. Não havíamos feito contato entre nós por um bom tempo, mas recebi sua resposta em minutos. Ele não havia visto a foto e havia ficado tão surpreso e impressionado quanto eu. Continuamos conversando por um ou dois dias, mas apesar de sentir que havíamos criado um momento de amizade, um ar de descontentamento e desconfiança permaneceu entre nós. Uma pena.”

Stranger Peanuts

strangerpeanuts

Que incrível esse mashup de Stranger Things com a turma do Charlie Brown que eu publiquei lá no meu blog no UOL – saca lá.

E se Charlie Brown vivesse sua infância nos anos 80, numa pequena cidade do interior dos Estados Unidos em que ocorrem fenômenos paranormais, experimentos do governo e uma fenda interdimensional atrai monstros de uma outra realidade? Os animadores Leigh Lahav e Oren Mendez resolveram misturar o seriado sensação Stranger Things com os personagens de Charles Schulz e o resultado é esse impagável mashup, veja só:

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George Miller lança a versão em preto e branco para o quarto volume de sua saga pós-apocalíptica – comentei sobre a nova versão lá no meu blog no UOL.

“Witness!” Finalmente está entre nós a esplendorosa e visionária versão em preto e branco do western moderno Mad Max: Estrada da Fúria – e não feita por um fã em cima de um boato, mas por seu próprio diretor. Especulada como uma excentricidade do criador da série Mad Max, a versão “Black and White Chrome” de um dos melhores filmes da década era, na verdade, a primeira opção do diretor para retomar sua grife dos anos 80.

Ao receber a negativa do estúdio, Miller foi para o extremo oposto e torrou a intensidade das cores do filme para os tons de laranja e azul mais fortes que pode filmar, definindo, nas duas tonalidades, a essência do deserto (a areia, o céu e mais nada), além de ironizar a predileção dos filmes comerciais atuais por paletas de cores que forçam bastante a saturação. O filme foi um sucesso muito maior do que todos podiam esperar e o diretor pode então transformar sua versão original em realidade, que já pode ser assistida em streaming no site da Amazon e que chega à versão física no inicio de dezembro. O trailer abaixo compara as duas versões para mostrar que o trabalho não é como assistir um filme colorido em uma TV preto e branco.

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Show reúne ex-colaboradores da temporada paulistana de Júpiter Maçã em homenagem ao seu mítico álbum – falei mais sobre isso no meu blog no UOL.

O gaúcho Júpiter Maçã, que morreu no final do ano passado, é um ícone da música brasileira cuja influência ainda precisa ser medida. Se hoje vivemos uma renascença da psicodelia brasileira que faz bandas como Cidadão Instigado, Supercordas, Boogarins e O Terno se verem como parte de uma linhagem que inclui Mutantes, Zé Ramalho, Ave Sangria, Módulo 1000, Secos e Molhados e Violeta de Outono é porque Júpiter Maçã provocou, em plenos anos 90 da microfonia, do hip hop e da tríade pagode-axé-sertanejo, uma ressignificação da psicodelia brasileira à luz do cânone internacional, servindo referências nacionais ao lado de clássicos do gênero como Beatles, Rollng Stones e o Pink Floyd de Syd Barrett e à linhagem do pop inglês estabelecida por bandas como Kinks e Who. E fez isso com um gesto simples, lançando um disco sujo e grandioso, épico e desbocado, chapado e consciente da própria importância. A Sétima Efervescência, que foi produzido por Egisto Dal Santo e teve os irmãos Glauco (bateria) e Emerson Caruzo (baixo) como principais músicos, ao lado de Júpiter, será revivida nesta sexta, no Sesc Pompeia, pela mesma banda que homenageou o gaúcho na Virada Cultural deste ano.

“O show foi ótimo, muita emoção, vários convidados, pessoas que fizeram parte da carreira e da vida do Júpiter, muita gente na plateia e todo mundo cantando emocionado”, lembra-se o baterista Clayton Martin, único paulistano no grupo cearense Cidadão Instigado, que foi um dos idealizadores do tributo. Ao lado do tecladista Astronauta Pinguim, os dois ex-colaboradores de Júpiter reuniram nomes afeitos à musicalidade do gênero, com instrumentistas que haviam tocado com ele, como os guitarristas Ray Z e Dustan Gallas, o vocalista Tatá Aeroplano, o baixista Julio Cascaes, além de Clayton e Pinguim em seus instrumentos. Esta é a banda que celebra os vinte anos do disco, que foi gravadode forma independente em agosto de 1996 e lançado por uma gravadora multinacional no ano seguinte.

Flávio Basso, o Júpiter Maçã (Divulgação)

Flávio Basso, o Júpiter Maçã (Divulgação)

A Sétima Efervescência é um marco central na psicodelia brasileira. Primeiro por ter consagrado a nova e definitiva persona do gaúcho Flávio Basso, que já havia passado por encarnações que iam do rock oitentista do TNT ao glam boca-suja dos Cascavaletes, além da psicodelia garagem à frente dos Pereiras Azuis ou da faceta folk Woody Apple. Como Júpiter Maçã ele se reinventava como um ícone da psicodelia mundial, traçando paralelos entre sua Porto Alegre, São Paulo e Londres, funcionando como um farol para os novos psicodélicos da última década do século. E também por ter retomado uma narrativa musical que parecia fadada a desaparecer – a de discos brasileiros completamente birutas.

“O Sétima é um disco que inaugurou uma nova modalidade de musica underground popular brasileira, no sentido de ter traduções do que seria uma cultura de rock britânico aqui no Brasil, herdando os Kinks, Beatles, Pink Floyd, etc.”, continua o baterista. “Muitas pessoas não sabiam que era possível fazer isso. Assim, foi um disco que realmente provocou uma efervescência de várias inspirações para todos os lados. É meio que um disco básico para quem quer se inteirar sobre esse assunto.”

Clayton lembra do primeiro contato com o gaúcho: “Conheci o Flavio em 1994 por recomendação de um amigo (o produtor Carlos Eduardo Miranda), que disse que tinha um cara que ia fazer um show no Bixiga que era uma mistura de Syd Barrett com Roberto Carlos da Jovem Guarda e que tirava uns timbres de surf music de uma guitarra Rickenbaker. Era a época do Júpiter Maçã & Os Pereiras Azuis”, recorda-se. “Mais tarde, entre 1997 e 1998, ele morou uns quatro meses na minha casa justamente para divulgar e fazer shows do Sétima Efervescência. Depois disso tocamos juntos como um trio de 2001 até mais ou menos 2003 ao lado do Ray Z e gravamos muitas coisas aqui no meu estúdio, um disco meio engavetado, gravado num porta estudio de quatro canais chamado Sugar Doors e várias demos de músicas que viriam a ser do disco Tarde na Fruteira (de 2008)”.

Clayton lembra que deve ter muito material inédito de Júpiter por aí devido à sua alta produtividade. “Também tenho um disco inédito aqui só com voz e violão. Não era para ser assim, ele queria que eu produzisse com ele. Um dia pretendo fazer um “Free as a Bird” (em referência à música que os Beatles gravaram depois da morte de John Lennon), gravando por cima da base dele”.

O show tributo terá a íntegra do disco clássico (incluindo hinos lisérgicos como “Um Lugar do Caralho”, “As Tortas e as Cucas”, “Querida Superhist x Mr. Frog”, “Pictures and Paintings” e “Miss Lexotan 6mg Garota”) e outras músicas da carreira de Júpiter. Ele acontece nesta sexta, 28, na Choperia do Sesc Pompeia (Rua Clélia, 93. Pompeia), em São Paulo, a partir das 21h30. Os ingressos custam R$ 20 (mais informações no site do Sesc).

tarantino

É uma proposta de um fã em um abaixo assinado, mas faz sentido – escrevi sobre a ideia lá no meu blog no UOL.

O hilário Deadpool é um dos melhores filmes de super-herói desta década e seu inusitado sucesso no início do ano fez sua continuação se transformar numa das grandes apostas do gênero. A expectativa sobre o novo filme acabou sacrificando o diretor da sequência, Tim Miller, que, na semana passada, abandonou o cargo possivelmente devido a problemas com o ator Ryan Renolds. Mas sua saída deu origem a uma ideia fabulosa: e se o diretor do próximo Deadpool for Quentin Tarantino?

A conjunção Deadpool/Tarantino começou na cabeça do fã norte-americano Carl Champion Jr., que criou um abaixo-assinado online para chamar atenção para sua ideia. “Se há alguma chance de ver Tarantino fazer um projeto que é quase garantido que fature um bilhão de dólares é esta”, explicou na página, que já conta com mais de treze mil assinaturas. “Tivemos um ótimo gosto do que pode vir a partir de Kil Bill, mas imagine um cara como Quentin Tarantino escrevendo diálogos para o mercenário tagarela! Seria glorioso!”

“Quentin Tarantino é o mestre de escrever diálgoos e Ryan Reynolds um mestre em dizê-los. Tarantino faz filmes ultraviolentos que faz você amar os personagens, com linguagem chula, mulheres gostosas e um vilão que NUNCA seria esquecido. Me diz se a Marvel não precisa de algo disso?”, continua Champion Jr.

A probabilidade disso acontecer, no entanto, é quase nula, mesmo porque Tarantino saiu falando mal da Disney (dona da Marvel) no ano passado pois o lançamento do episódio mais recente de Guerra nas Estrelas (que também é da Disney) atrapalhou o lançamento do filme mais recente do diretor, Os Oito Odiados. Mas além de compartilhar um humor histérico, cínico e violento como o do anti-herói da Marvel, Tarantino também é fã de quadrinhos desde a infância. E Ryan Reynolds é conhecido por ficar atento aos pedidos, sugestões e exigências dos fãs. Por isso se você gostou da ideia, assine o abaixo assinado (neste link aqui) e torça para que uma conjunção de improbabilidades aumente ainda mais a moral – já alta – do segundo Deadpool.

3porcento

Trailer da primeira série brasileira do Netflix mostra como funciona a meritocracia agressiva de 3% – postei lá no meu blog no UOL.

O Netflix acaba de lançar o trailer de sua primeira produção brasileira, a série de ficção científica 3%, que começou no YouTube e estreia no dia 25 de novembro. No trailer, é explicada o rígido processo de seleção de uma realidade brasileira futurista que pode ter várias leituras em relação ao nosso presente…

Psicodelia Marvel

estranho

Assisti ao filme do Dr. Estranho e é tanto o filme de super-herói mais lisérgico quanto o mais adulto já feito – escrevi sobre o filme lá no meu blog do UOL.

“Prepare-se para esquecer tudo que já sabe.” A frase, dita em tom ameaçador ao personagem-título do filme Doutor Estranho, que chega aos cinemas nacionais no dia 3 de novembro, também pode servir como aviso para o público acostumado aos filmes de super-herói da Marvel. O Doutor Estranho vivido por Benedict Cumberbatch consegue manter a regra de que o estúdio consegue fazer um filme divertido e empolgante até com personagens desconhecidos do grande público, como já havia feito em Guardiões das Galáxias e o Homem-Formiga. Mas a jornada do neurocirurgião Stephen Strange rumo ao desconhecido supera a expectativa ao apresentar um filme de super-herói para um público adulto, alheio aos uniformes coloridos e aos superpoderes de protagonistas de apelo infantil.

É o filme mais maduro da Marvel até agora e, coincidentemente, sua produção mais psicodélica. Toda aura mística e espiritual do médico que sofre um acidente que o impossibilita de continuar seu trabalho era traduzida em imagens grandiosas e espetaculares nos quadrinhos, publicados principalmente na virada dos anos 60 para os anos 70, auge da experimentação lisérgica da cultura pop. Os autores da Marvel do período – especificamente Steve Dikto, que recebe o crédito de autoria do personagem do novo filme – aproveitavam cores e formas para expandir os limites dos quadrinhos em páginas duplas épicas, cheias de detalhes.

Essa psicodelia é traduzida formidavelmente em imagens de tirar o fôlego pelo diretor Scott Derrickson, que mistura mandalas orientais, o urbanismo surreal de A Origem do diretor Christopher Nolan e uma mecânica transcendental que bebe tanto nas perspectivas inacreditáveis do ilustrador MC Escher quanto dos artistas mais radicais da Marvel para criar cenas de ação caleidoscópicas. Nos trailers, estas cenas deslumbram e encantam – mas nos filmes elas deixam de ser mera (e ousada) decoração para fazer parte da ação, em cenas de luta e perseguição que ganham perspectivas impossíveis.

A psicodelia é sublinhada em vários outros momentos do filme, desde o apreço pelo oriente (a terra encantada dos anos 60) quanto nas referências pop – o acidente que muda a vida de Strange é acompanhado por “aquela” música “daquele” disco do Pink Floyd (não vou estragar a surpresa) e veja se você consegue reparar no livro que Stan Lee está lendo em sua rápida e rotineira participação especial. É interessante notar que a expansão de consciência que a cultura pop foi submetida durante este período também é o momento em que ela começa a abandonar sua juventude rumo a uma nova maturidade.

Esta maturidade é reforçada pelas ótimas atuações do filme. Além de um irrepreensível Cumberbatch (que, mais uma vez, abandona os vestígios de seus personagens anteriores, desde o Khan do segundo Jornada nas Estrelas de J.J. Abrams ao seu clássico Sherlock Holmes), o elenco do filme está muito acima do filme mediano da Marvel. A dupla que Cumberbatch faz com a personagem de Rachel McAdams, Christine Palmer, mantém a primeira meia hora da produção no mundo real, sem misticismo nem megalomania. Tirando a cena inicial, que nos apresenta ao vilão Kaecilius (vivido por Mad Mikkelsen, o Hannibal da série de mesmo nome), o primeiro ato do filme quase não parece um filme de super-herói e sim um drama sobre relacionamentos, sentimentos e prioridades.

Mas uma vez que Strange viaja para Katmandu encontrar seu destino, o filme ganha contornos hiperbólicos e sentidos improváveis num filme de super-herói, ainda graças às boas atuações de Tilda Swinton (a Anciã, que, mesmo não sendo um personagem oriental não compromete a história), Chiwetel Ejiofor (Modor) e ótimo Wong (vivido por Benedict Wong). Como os outros dois filmes de heróis desconhecidos do grande público, Doutor Estranho é um filme autocontido e não é preciso entender nada do universo cinematográfico Marvel ou de filmes de super-herói para apreciá-lo.

Os fãs, no entanto, têm uma série de dicas escondidas, pistas espalhadas e, claro, continuidade na enorme saga Marvel no cinema, prestes a completar uma década. As melhores delas nos apresentam a uma dimensão inteira para o universo já conhecido, nos esfrega uma Jóia do Infinito que estava escondida em nossa cara e traça conexões com outro filme da Marvel que está por vir, além de anunciar a volta de Strange nos próximos filmes (são duas cenas escondidas após os créditos). É o filme mais maduro e mais psicodélico da Marvel – e, por isso mesmo, pode trazer ainda mais gente para o público do estúdio. Não vejo a hora de assistir de novo.

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Em sua décima terceira edição, o pernambucano Coquetel Molotov se consolida como um dos melhores do país – escrevi sobre o festival no meu blog do UOL.

Conheço Recife desde os tempos em que o mangue beat ainda era uma novidade recebida com estranhamento pelos próprios pernambucanos, que demoraram para reconhecer que aquela mistura de tradição e modernidade encabeçada por Chico Science aos poucos colocaria a cidade não apenas no mapa musical do Brasil como no atlas da cultura mundial. A natureza tradicionalmente cosmopolita da cidade – resquício da colonização holandesa liderada por Maurício de Nassau no século 17 – havia entrado em estado de hibernação durante os anos 80 e a turma dos caranguejos com cérebro sonhava em voltar a respirar uma cidade que fosse reconhecida por sua rica cultura e mentalidade aberta, não pelos índices de violência e de pobreza.

Um quarto de século depois dos primeiros rascunhos do mangue beat, a décima terceira edição do festival pernambucano Coquetel Molotov foi a materialização daquela utopia imaginada no início dos anos 90, quando os primeiros agitadores culturais que criaram aquele movimento hoje histórico começaram a se conhecer. Eles imaginavam uma Recife conectada ao resto do estado, do país e do mundo sem fazer escalas pela ponte Rio-São Paulo, refletindo a atmosfera naturalmente moderna da capital pernambucana em uma conversa internacional e moderna, colocando artistas e público numa sintonia alheia às demandas ou exigências do mercado.

E foi isso que aconteceu na ampla fazenda colonial Coudelaria Souza Leão, neste sábado, dia 22, que recebeu a melhor safra do pop brasileiro deste ano, desfilando entre os dois principais palcos do dia final do evento, que desta vez teve etapas realizadas nas cidades de Belo Jardim (no interior do Pernambuco) e Belo Horizonte nas semanas anteriores. Quase dez mil pessoas assistiram a shows de artistas de diferentes estados brasileiros e de outros países, mas mais do que as atrações musicais o que realmente determinava a atmosfera do festival era o público.

Um púbico completamente misturado – de diferentes etnias, classe sociais, faixas etárias e gêneros -, respeitoso e exigente, entregues à música fosse ela a hipnose psicodélica dos goianos dos Boogarins, o groove sintético da paulistana Céu, o ativismo dance da curitibana Karol Conká ou a pista pesada dos soteropolitanos do BaianaSystem. Em cada um dos shows o público reagia de forma diferente, mas sempre entrando em sintonia completa com a realidade musical proposta por cada atração. Era uma pequena multidão que ia do transe reverente ao baile apaixonado, da surpresa empolgada ao êxtase corporal, deixando os artistas à vontade para fazer o que melhor sabiam.

Isso potencializou shows naturalmente fortes, como o de Céu e do BaianaSystem, donos de dois dos melhores discos e shows deste ano. Frente ao público do palco principal do festival (dentro de um enorme casarão colonial), os dois suaram sorrindo para fazer apresentações irrepreensíveis, conduzindo a platéia na mão ao mesmo tempo em que se entregavam a ela. Já artistas como o paranese Jaloo, a banda carioca Ventre e os norte-americanos do Deerhoof souberam aproveitar as dimensões menores do palco aberto e fizeram shows de pura adrenalina: Jaloo entregue aos braços da audiência, a baterista Larissa Conforto da Ventre mais uma vez roubou a cena com uma intensa intervenção política e os norte-americanos descarregando eletricidade e ritmo. Shows intensos em que parte dessa energia vinha da cumplicidade quase instantânea entre bandas e público.

Entre os dois palcos, este público também circulava entre um mercado de compras, o terceiro palco do festival (a Rural do Rogê, uma velha caminhonete que abriga shows itinerantes pelo Recife, capitaneada pelo Rogê da antiga Soparia, eternizado na música “Macô” da Nação Zumbi) e um quarto palco, bem menor e sem iluminação, quase uma ocupação, que foi colocado entre os dois palcos principais para receber bandas instrumentais. Música para todo o lugar que você ouvisse, cercando um público que começou a frequentar shows exatamente quando o mangue beat começou a ser incorporado ao mainstream da cidade e o Coquetel Molotov começava a dar seus primeiros passos, ainda sob o epiteto de “o festival indie do Recife”.

Treze anos depois o festival cresceu e seu público também, bem como suas ambições culturais e estéticas. E o que viu-se neste sábado no Recife foi justamente a maturidade completa de uma cena local, aberta para o novo e disposta a se reinventar constantemente, uma vez que a cena já entendeu esta realidade. Para o ano que vem eles tentam um desafio ainda maior: trazer o festival para São Paulo. Não apenas alugar uma casa noturna e desfilar algumas atrações que também levarão para o Recife, mas reproduzir em São Paulo a atmosfera deste que é o festival mais alto astral do Brasil. Um desafio e tanto.

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O Cartoon Network decidiu pôr fim a um de seus desenhos mais revolucionários – falei disso lá no meu blog no UOL.

Diga adeus a Finn, Jake, Princesa Jujuba, Rei Gelado, Marceline e todo mundo da Terra de Ooo. O Cartoon Network anunciou que o fim do desenho animado Adventure Time – A Hora da Aventura, como é conhecido no Brasil. Essa morte, felizmente, não é súbita: o canal ainda produzirá as temporadas dos próximos dois anos e quando chegar à sua nona safra de episódios, em 2018, encerrará a produção de um dos desenhos animados mais queridos desta década.

“Adventure Time mudou a definição do que um programa de TV infantil poderia ser e teve um impacto impressionante sobre a cultura popular em todo o mundo”,disse Rob Sorcher, executivo-chefe de conteúdo da emissora paga no comunicado sobre o fim do desenho. “O Cartoon Network tem orgulho de ter reunido este time brilhante de artistas e animadores que ajudaram a fazer de Adventure Time um dos programas de TV mais aclamados pela crítica de uma geração.”

A psicodelia aloprada capitaneada pelo garoto Finn e seu cachorro Jake faz jus ao epíteto de revolucionário e é descendente direto de outros programas igualmente geniais como Simpsons, South Park e Bob Esponja. Só que o universo multicolorido criado por Pendleton Ward aprofunda-se em questões que poucos programas infantis já tinham lidado, como a complexidade dos sentimentos, a pluralidade de pontos de vista, estética radical, sensibilidade artística, conceitos de vanguarda e a imaginação desenfreada, sobre histórias e personagens que deixam até adultos constrangidos. Além das próximas temporadas, o desenho ainda terá programas especiais e minisséries, mas nada foi mencionado em relação à tão aguardada ida do universo para o cinema.

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O artista canadense Beddo recriou clássicas capas da Marvel protagonizadas por ícones do hip hop e eu reuni as melhores delas lá no meu blog no UOL.

O ilustrador canadense Beddo resolveu reunir suas duas paixões em uma série de painéis que recriam capas clássicas da Marvel com ícones do rap dos anos 80 e 90. Assim, ele coloca Tupac Shakur como Wolverine em duas situações (posando na capa da primeira edição da clássica Dias de um Futuro Esquecido e na capa de uma das edições de sua primeira minissérie solo), o grupo Wu-Tang Clan assume o papel de todos os heróis da capa da primeira edição de Guerras Secretas, Notorious B.I.G. recria a capa da edição do Homem-Aranha que apresenta o Rei do Crime, Nas aparece como na capa da edição dos Vingadores que apresenta o andróide Visão, o Public Enemy surge homenageando a edição da revista Novos Mutantes que traz pela primeira vez a Frente de Libertação Mutante, Rakim vem como Tony Stark enfrentando o alcoolismo, o A Tribe Called Quest reencena uma capa clássica do Quarteto Fantástico e Lauryn Hill vem como a primeira aparição de Jean Grey como Fênix Negra, nos X-Men. Ficou demais.