Às vésperas de dois grandes lançamentos, seu primeiro disco de inéditas em mais de quinze anos e uma exposição sobre os 50 anos de sua banda, o baixista do Pink Floyd Roger Waters abre o jogo sobre sua relação com o ex-companheiro de grupo David Gilmour – falei mais sobre isso no meu blog no UOL.
Às vésperas de dois lançamentos importantes, o ex-baixista do Pink Floyd não está muito preocupado em manter as aparências para ajudar a publicidade. “Dave e eu não somos amigos, nunca fomos e duvido que um dia seremos”, disse Roger Waters em entrevista ao jornal inglês Telegraph, em referência ao ex-parceiro de banda, o guitarrista David Gilmour. “E tudo bem, não há razão para sermos”.
“Você pode ser criativo sem ser amigo”, acrescentou. “David e eu fizemos ótimos trabalhos juntos, que nunca teria acontecido nós dois não estivéssemos lá.” O baixista está prestes a lançar seu primeiro disco solo em mais de dez anos e para isso convocou o produtor do Radiohead, Nigel Godrich, para ajudá-lo a polir sua nova sonoridade. O disco Is This the Life We Really Want? está agendado para ser lançado no início de junho e o músico já apresentou o primeiro single, “Smell the Roses”, que ecoa bons momentos de seu grupo original.
Além do novo disco, Roger também está por trás da exposição The Pink Floyd Exhibition: Their Mortal Remains, que será inaugurada no próximo sábado, dia 13, no museu Victoria and Albert Museum, em Londres, e celebra o cinquentenário da banda reunindo todo tipo de memorabilia sobre a banda inglesa, de objetos pessoais de seus integrantes a equipamentos de shows e gravação, passando por rascunhos de canções e capas de discos, entre outras curiosidades. O jornal inglês The Guardian publicou algumas imagens que estarão na exposição, que reproduzo abaixo:

A bengala usada para punir fisicamente os alunos da escola Cambridgeshire quando Roger Waters, Syd Barrett e Storm Thorgerson (que depois iria fazer as capas do Pink Floyd) estudavam lá

O Azymuth Coordinator, uma espécie de controle de som quadrafônico criado para um show da banda no Queen Elizabeth Hall, em maio de 1967
Mais um teaser da volta do clássico seriado de David Lynch revisita endereços conhecidos mais de um quarto de século depois – veja lá no meu blog no UOL.
Estamos a menos de vinte dias da volta ao universo estranho e vulgar criado por David Lynch ao redor da pequena cidade fictícia de Twin Peaks, no noroeste dos Estados Unidos. O diretor volta à série, que deu início à era de ouro da televisão que ainda vivemos hoje, em uma improvável mas esperada terceira temporada, que além de trazer todo o elenco original ainda reúne nomes de peso para esta nova safra. Sua estreia acontece no dia 21 de maio, no canal norte-americano Showtime, que lançou mais um teaser da nova temporada. Depois de nos fazer reencontrar com a trilha de Angelo Badalamenti e com o próprio Agente Cooper, é a vez de voltarmos à própria cidade que batiza o seriado, nos reencontrando com a delegacia, a casa de Laura Palmer, suas florestas fantasmagóricas, o restaurante Double R e até o estacionamento de trailers Fat Trout.
Parecem cenas de época, mas se você reparar nos carros estacionados em frente ao restaurante perceberá que, realmente, mais de um quarto de século se passou e a cidade parece ter continuado a mesma.
O mashup Princess Leia’s Stolen Death Star Plans – que postei na íntegra no meu blog no UOL – é uma obra-prima pós-moderna.
Hoje é 4 de maio, o tradicional dia que os fãs da saga Guerra nas Estrelas criaram para celebrar esta religião moderna a partir de um trocadilho infame (o quatro de maio, em inglês, chama-se “May the Fourth”, que soa como o eterno lema Jedi “May the Force be with you” – “que a Força esteja com você”) e que tal revisitar a pedra fundamental da história imaginada por George Lucas pelo ponto de vista do mais clássico disco dos Beatles? Hein?
Foi o que fez a dupla norte-americana Palette-Swap Ninja, formada pelo vocalista Dan Amrich e pelo tecladista Jude Kelley, revisitando todo o Episódio IV, o primeiro filme que George Lucas fez sobre a saga (que completa 40 anos este ano), como uma paródia construída sobre o Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles (que completa 50 anos também este ano). Um mashup épico e meticuloso, que pode ser baixado gratuitamente no site da dupla, mas que funciona ainda mais quando assistimos à sua versão em vídeo, Princess Leia’s Stolen Death Star Plans é uma obra-prima pós-moderna.
Fico pensando em quais discos poderiam funcionar com os próximos filmes… O Álbum Branco com o Império Contra-Ataca? Tenso!
O primeiro episódio da série inspirada no primeiro romance de Neil Gaiman fez valer a espera – escrevi sobre ele no meu blog no UOL.
Se havia motivos para desconfiar da adaptação do primeiro romance de Neil Gaiman, American Gods, para o formato seriado, estes desaparecem em seu primeiro episódio, que estreou no domingo nos Estados Unidos e pode ser visto desde ontem no mundo inteiro pelo serviço Prime de vídeos da loja Amazon. O episódio piloto do seriado não aprofunda-se em nenhuma história, funciona apenas para sintonizar os novos espectadores em um novo universo bem como prestar satisfação ao séquito de fãs do autor, uma religião que começou quando ele escrevia sua minissérie em quadrinhos Sandman e que amadureceu com sua passagem para o mundo dos livros. Abaixo comento sobre seu primeiro episódio sem dar maiores spoilers sobre o seriado.
American Gods fala sobre como os deuses do passado se perderam com a mudança dos povos da Europa para os Estados Unidos e como o nascimento de um novo país viu surgir deuses característicos de lá. Mas o embate entre o velho e o novo, mola-mestra para os acontecimentos do livro, ainda não é aprofundado neste episódio de abertura, apenas sugerido – e só perto da cena final. Antes disso, somos apresentados aos seus dois principais personagens, além de conhecermos três divindades distintas, em situações diferentes.
Não sem antes começar no passado. American Gods acena para os fãs de Game of Thrones logo em sua primeira cena, resgatando a chegada dos vikings à América pré-colombiana numa sequência de imagens que mostra que a série não está para brincadeira. O tom pesado e cru da primeira história contada no episódio pode nos ter apresentado discretamente um de seus principais personagens, mas funciona mais como termômetro lógico e cênico do que como introdução à história em si.
Esta começa com a libertação do personagem Shadow Moon (um ótimo e quieto, como deve ser, Ricky Whittle), que é solto da cadeia apenas para descobrir uma dura surpresa do destino. Em seu desdobramento, ele é acompanhado de perto de um intrigante Wednesday, um personagem que parece ter sido escrito para seu intérprete, o excelente Ian McShane. Os dois formam uma dupla perfeita no momento em que se encontram e é nesse vínculo que reside toda a força da narrativa do livro. Se o embate mitológico que é apenas mencionado no primeiro episódio é o motivo da história existir, o elo formado entre os personagens de Whittle e McShane é o motivo de continuarmos a acompanhando e o grau de empatia da dupla está à altura daquele imaginado por Gaiman (que, por sua vez, é consultor e produtor executivo do seriado).
Além da dupla, também conhecemos outros três deuses: o fanfarrão Mad Sweeney vivido por Pablo Schreiber em uma briga em um bar que parece ter saído de um filme de David Lynch (Coração Selvagem, especificamente); o pentelho Technical Boy vivido por Bruce Langley (e seus capangas saídos do Laranja Mecânica) e a intensa Bilquis vivida por Yetide Badaki, protagonista da principal cena do primeiro episódio, uma das cenas mais antológicas do livro. Os três seguram bem seus personagens e, assim, o seriado explora diferentes fronteiras em um mesmo episódio.
E é tudo muito pesado – e quente. Sexo e violência coexistem como é a tendência em alguns dos principais seriados atualmente, mas ambos são abordados por vias pouco ortodoxas. E é exatamente essa abordagem incomum – compare os três banhos de sangue do episódio e perceba como eles são distintos – que torna o piloto tão instigante. Agora é hora de começar a contar a história.
Resgatei, lá no meu blog no UOL, uma entrevista que Belchior deu em 1976 que captura a essência do Dylan cearense falecido no fim de semana.
“Viver é melhor que sonhar” – se conseguisse escolher um único verso para lembrar da importância de Belchior seria esse, parte do monumento chamado “Como Nossos Pais”, esse pequeno livro de contos em forma de canção eternizado por Elis Regina e também uma das melhores músicas da história de nosso país. Morto neste fim de semana, o ícone cearense finalmente foi eternizado após seu sumiço definitivo, em vez de ironizado como tantas vezes foi em outros sumiços recentes. Inevitavelmente o preço de seus discos em vinil irá disparar, mas felizmente ele pode ver seu clássico Alucinação ser reverenciado como um dos grandes discos da nossa história recente. Como acontece quase sempre, sua morte servirá de gatilho para entusiastas se debruçarem sobre sua obra, neófitos vagarem com mais atenção por sua discografia e para apresentá-lo para pessoas que só o reconheciam pelo nome – ou pelo indefectível bigode.
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Não vou emendar mais um texto sobre sua importância (deixo este a cargo de seu atual biógrafo, o grande Jotabê Medeiros, que escreveu a análise definitiva sobre o autor). Em vez disso, chamo o próprio compositor para falar em seu nome, resgatando uma entrevista que ele deu há mais de quarenta anos, à revista Hit Pop, quando lançava seu já festejado segundo álbum e destrinchava a filosofia daquele verso favorito meu, citado ao início: “O que é velho tem, realmente, que morrer”, reforçava na entrevista. Encontrei-a a reprodução do texto de Eduardo Athayde no ótimo blog Velhidade (vale perder umas duas horas fuçando em suas tags) e transcrevo-a a seguir:
Belchior: O que me interessa é amar e mudar
A cara larga de vaqueiro. A fome insaciável pelo novo. A rebeldia. A provocação. O indiscutível talento. Tudo isso somado, resulta em Belchior, nascido Antonio Carlos Gomes Belchior Fontinelli Fernandes, cearense de 29 anos.
E afirma, apenas, que é um “rapaz latino-americano”. E eu digo que isso quer significar três coisas: não cede, não concede, se impõe.
O seu novo LP, intitulado Alucinação, vai fazer a cabeça de todos os que estiverem atentos à música e principalmente à letra. É o LP do ano, não tenho a menor dúvida. Quem não se tocar, dançou. Reparem no repertório selecionado, todo de lavra sua: “Apenas um Rapaz Latino-Americano”, “Velha Roupa Colorida”, “Como Nossos Pais”, “Sujeito de Sorte”, “Como o Diabo Gosta”, “Alucinação”, “Não Leve Flores”, “A Palo Seco”, “Fotografia 3 x 4”, “Antes do fim”.
Vou pecar pela repetição, mas acho que o trabalho de Belchior se resume no verso: quero que meu cantotorto feito faca corte a carne de vocês. O torto, no caso, talvez se reflita na simplicidade do fraseado musical. Mas o afiada da faca pinta em cada um dos versos que ele faz, ele que é um letrista da pesada.
É esse Belchior que vem com tudo – seu canto torto e sua lâmina afiada – nesta entrevista concedida com exclusividade para o Hit-Pop. É um papo comprido, do geral ao particular, sempre denso de ideais e ideias. Eu dou fé.
É possível rotular sua música?
Olha. Fundamentalmente, eu faço música nordestina contemporânea. Transo de xaxado, xote, baião. Mas não dispenso o elemento eletrônico e tampouco as influências que recebi. E foram várias, variadas: Luiz Gonzaga, Beatles, cantadores de feira, ciganos nas estradas do Ceará, música de igreja. Some esses elementos todos e você terá, digamos, uma arte mestiça…E a latinidade? Qual é, de fato, a dimensão deste (novo) elemento musical chamado som latino-americano ou influenciado por ele?
O que me impressiona é a possibilidade de nós, latino-americanos, podermos nos comunicar com uma linguagem nova, comovente, revolucionária. Aliás, o tango argentino é a autêntica linguagem das minorias latino-americanas. É claro que não sou contra o blues, forma de expressão dos negros americanos. Nem sou contra o samba ou contra o rock – um grito da juventude. O que eu não gosto – de músicas ou letras apenas contemplativas, passivas. Eu falo – e devo falar – dos enganos que nós, os jovens, sofremos por ver nossas esperanças caírem por terra. Assim, não abro mão da agressão. Acho que é preciso fazer um trabalho irreverente e insolente. Caso contrário, vira aquele negócio de música de fundo de restaurante, sabe como é? As pessoas estão comendo e a arte serve apenas de relaxante, entretenimento. Facilitador da digestão.
Se o meu canto vai chegar a todas as pessoas, eu não sei. O que eu sei é que mantenho meu trabalho sob controle absoluto. Eu digo: “sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco. Por favor, não saque a arma no saloon, eu sou apenas o cantor…”Você imagina ter sua obra imortalizada, assim com os clássicos da música popular brasileira?
Não me interessa, como artista, produzir e criar pensando na eternidade da obra. Eu quero dar toques, e isso é fundamental para mim, pois o homem é o fim e o objetivo de si mesmo. Eternidade não é um dado humano, comum. Aliás, em qualquer nível é uma farsa, uma mentira. Sou contra. Eternidade é o tédio dos deuses, que gostariam de ser mortais. Minha ligação é com a terra, ouça: “Eu não estou interessado em nenhuma teoria, em nenhuma fantasia, nem no algo mais. Longe o profeta que a Laranja Mecânica anuncia. Amar e mudar as coisas me interessa mais!” Essa é a minha proposta. Isto é, suportar o dia-a-d-a e a experiência com coisas reais.Seu novo LP está na praça, seu talento é reconhecido, a crítica elogia. Como você encara o sucesso?
O sucesso me interessa porque me dá possibilidade dedizer e cantar até chegar às pessoas. O disco é a chance que o artista tem, em se oferecer integralmente, com suas ideias, mensagens, reflexões. Neste momento, estou montando minha banda, para correr todo o Brasil. Já estou com o Liminha, o Áureo de Souza, o Rick, só busco um tecladista.
O meu disco tem um título que eu gosto, Alucinação. Sabe, viver é mais importante que pensar sobre a vida. É uma forma de delírio absoluto, entende? A alegria, a ironia, a provocação, são tão importantes quanto sorrir, brincar, amar. Acho importante provocar. Um trabalho novo só aparece através da agressividade. Eu estou tranquilo quanto às consequências do meu trabalho. Acho importante que ele cause polêmica. É para desafinar mesmo! Desafinar sempre, que esse é o desafio. Hoje em dia, já não se pode mais criar sem correr riscos. E eu quero enfrenta-los. Minha expectativa é para os jovens compositores. Sobre eles, recaem todas as dificuldades pra fazer qualquer coisa. E também costumo tomar o trabalho de compositores mais velhos como marco para começar tudo de novo. Artista reconhecido é importante, claro, mas no momento eu quero dar as mãos a Fagner, Alceu Valença, Luís Melodia, Ednardo, Marcos Vinícius… A todo o pessoal dessa geração violentada. Temos que encontrar uma forma de mostrar que estamos vivos. E isso só se consegue fugindo do convencional, optando definitivamente pela juventude. A cultura precisa se rejuvenescer sempre voltada para a nossa realidade. O que é velho tem, realmente, que morrer. Até agora, com raras exceções, a música tem sido uma forma artística com tendências à fuga, à evasão. Meu trabalho é uma colocação do real, pois nada muda por si mesmo…Essas transas de misticismo, ioga, oriente… Elas têm significado pra você?
Fui criado comendo boi com abóbora, no interior do Ceará. Por isso, tenho a mente aberta para ver se existe algo, nisso tudo que você fala. Mas sou completamente desinteressado. Não acredito, não quero nenhuma nova teoria que me decepcione depois. Sou um cara mais preocupado com toques imediatos, do presente. A arte não pode viver de ilusões. Sinto necessidade de falar das aspirações imediatas: dormir, comer, sentir alegria, dor, prazer, tristeza, coisas claras, entende? Não sou, de fato, místico. Sou mal comportado por opção: “Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve: correta, branca, suave, muito limpa, muito leve. Sons, palavras, são navalhas e eu não posso cantar como convém sem querer ferir ninguém.”Como é que foi sua vinda para o sul, a barra que você encarou?
Minha família é nordestina, patriarcal. Somos 23 irmãos, vendo com grandeza e honradez o trabalho que fazíamos com as mãos. Aos 16 anos, eu não aguentei a barra, saí de casa, tentando buscar uma alternativa… Não vejo mal nenhum em sair por aí, botar o pé na estada. O nordestino tem a alma de emigrante, é uma ave de arribação, como diz Luiz Gonzaga, em “Asa Branca”. O jovem nordestino quer, um dia, voltar para lá, mas sempre tem necessidade de sair. Agora, quem põe o pé na estrada precisa estar preparado para aguentar a barra. De 1971 até hoje, o negócio não foi fácil. Dormi em muita calçada. Segurei de perto a barra da Lapa (RJ). Senti fome e frio. Fiquei de pires na mão, nas salas de espera das gravadoras. Hoje, comparando, digo que fazer beicinho porque o papai não deu grana pro cinema é a mais completa infantilidade. Não passa disso. As soluções estão dentro da gente, é lá que a gente deve ir buscá-las. É como digo em “Fotografia em 3 x 4: “Em cada esquina que eu passava, um guarda me parava, pedia meus documentos e depois sorria, examinando o 3 x 4 da fotografia e estranhando o nome do lugar de onde eu vinha.”Qual a alternativa que você sugere?
Cada um tem a sua. Pelo amor, sexo, conhecimento, experiência de vida, o jovem, isolado, terá tempo de refletir e encontrar o seu próprio caminho. É o toque que eu dou, por exemplo, na música “Como o Diabo Gosta”.
A Fox ainda acredita em Arquivo X, tanto que renovou com o criador e os protagonistas do clássico seriado por mais uma temporada – falei sobre isso no meu blog no UOL.
Agoniza, mas não morre. A emissora norte-americana Fox acaba de encomendar mais uma batelada de dez episódios de Arquivo X, a extensa saga sobre investigadores do FBI que lidam com casos sobrenaturais, segundo a revista Variety. Criada por Chris Carter nos anos 90, Arquivo X tornou-se uma das principais referências para o formato televisivo que levou à atual era de ouro da TV, em que seriados são tão importantes (em alguns casos, bem mais importantes) do que filmes de Hollywood. O casal protagonista Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Anderson) são ícones da cultura pop da virada do século, bem como sua obsessão por conspirações governamentais e alienígenas.
A próxima safra de episódios começa a ser filmada ainda este ano e deve estrear na temporada de séries do final de 2017, continuando no início de 2018. O problema é que a safra de episódios exibida em 2016, que ressuscitou o Arquivo X depois de mais de uma década esquecido, não só não chegou aos pés da expectativa, como trouxe alguns dos piores episódios da história do seriado, além de terminar com um final que aparentemente é um beco sem saída para a essência do seriado. Mas mesmo com uma história fraca, a temporada teve bons números de audiência, o que fez a emissora insistir no revival.
Abaixo, a imagem de divulgação da nova ressurreição de Mulder e Scully.
Show dos Talking Heads dirigido pelo recém-falecido Jonathan Demme também redefiniu o conceito de música com imagens – escrevi sobre isso no meu blog no UOL.
Jonathan Demme, cuja morte foi anunciada nesta quarta-feira, era um diretor de trajetória única na história do cinema. Foi cult e pop, célebre e desconhecido, comercial e alternativo, embora não tenha uma filmografia robusta para exibir. É autor de filmes importantes como Filadélfia e O Silêncio dos Inocentes ao mesmo tempo em que flerta com o trivial em comédias aparentemente leves (Totalmente Selvagem, Melvin e Howard e O Casamento de Rachel) ou com o meramente comercial (como o remake desnecessário – mas bem executado – de Sob o Domínio do Mal). Do ponto de vista estritamente cinematográfico, ele é um Ridley Scott menos comercial, um Ron Howard com voz própria, um Spielberg menor. Mas sua importância cresce quando vemos que sua relação com a cultura vai além do cinema e que ele é destes raros cineastas que entende tanto de cinema quanto de música.
Demme dirigiu videoclipes no início de sua carreira, como o de “The Perfect Kiss” do New Order, o da versão de “I Got You Babe” que o UB40 fez com a Chrissie Hynde nos anos 80 e o de “Streets of Philadelphia” de Bruce Springsteen, que trouxe para a trilha sonora de seu filme sobre Aids, o primeiro a tratar do assunto. Sua relação com a música seguiu nos anos seguintes, quando dirigiu uma trilogia de documentários com Neil Young (Neil Young: Heart of Gold, Neil Young Trunk Show e Neil Young Journeys), outro sobre o músico inglês Robyn Hitchcock e acompanhando a turnê do disco mais recente de Justin Timberlake, em seu último filme, Justin Timberlake + the Tennessee Kids, do ano passado.
E, claro, sua grande obra, Stop Making Sense, que também é o melhor registro em filme de uma banda ao vivo, gravado com os Talking Heads em 1984. É por O Silêncio dos Inocentes que Demme sempre será lembrado, principalmente por levar o grand slam do cinema comercial norte-americano ao ser dos raros filmes que ganharam os cinco prêmios principais do Oscar (melhor filme, melhor ator, melhor atriz, melhor diretor e melhor roteiro). A sombra da influência do filme que conta a história de um canibal elegante paira sobre nossa cultura pop até hoje – desde a sobriedade firme dos agentes do FBI depois da Clarice Starling de Jodie Foster até a violência gratuita e gráfica que permeia as principais obras norte-americanas deste século.
Mas Stop Making Sense, o filme em que Demme filma um show dos Talking Heads em seu auge, é mais do que isso: é a obra-prima de Demme. Ele está sim contando uma história, a história não-verbal que é um show de rock. Vai desenvolvendo um crescendo literal ao colocar músico a músico no palco ao mesmo tempo em que mostra um show sendo montado no palco, com os instrumentos entrando pouco a pouco enquanto o palco também vai sendo montado. É como se o show fosse também o making of do show.
Ele também encontra em David Byrne o ator perfeito para seus delírios visuais. O gestual de Byrne e seu olhar perdido, sua dança robótica e sua interação com o público (“alguém tem alguma pergunta?”, diz após o súbito fim de uma música) acompanhada de um groove pós-punk pesado, em que a edição e a forma como os músicos são mostrados acompanha o ritmo de perto. O ritmo do show é incessante e tanto a banda quanto seus convidados (o tecladista do Parliament-Funkadelic Bernie Worrell, o guitarrista dos Brothers Johnson Alex Weir, o percussionista Steve Scales e as vocalistas Lynn Mabry e Ednah Holt) não param de dançar um minuto. Sem contar os elementos de palco inventados pelo diretor junto com a banda, como os telões monocromáticos, o hoje clássico enorme paletó de David Byrne ou a inclusão de um abajur como objeto cênico – e parceiro de dança.
Stop Making Sense é como o show reage a era do videoclipe, novidade comercial do mundo da música no início dos anos 80, mas também reposiciona o espectador de volta à plateia. Antes dele, filmes de shows clássicos – como o Last Waltz que Scorsese dirigiu para a The Band ou The Song Remains the Same do Led Zeppelin – colocam o espectador bem próximo da banda, criando uma cumplicidade inexistente em shows daquela proporção. São filmes que mostram o público como a banda o vê, uma situação que, de verdade, a audiência nunca irá passar. Demme posiciona a maioria de suas câmeras no público e assistimos ao show como se estivéssemos na plateia. E assim ele isola uma sensação que a maioria dos diretores de shows tenta recriar até hoje: a que realmente estamos assistindo a um show como se estivéssemos lá. Poucos diretores chegaram perto disso (Scorsese mesmo é um deles, principalmente no Shine a Light que filmou com os Stones), mas nenhum conseguiu de forma tão empolgante quando o falecido Johnathan Demme.
Veja com seus próprios olhos:
Escrevi sobre como o novo filme da Marvel é de chorar – sem estragar surpresas – lá no meu blog no UOL.
O ideal é assistir a filmes sem saber nada sobre o que vai ser visto. Em muitos casos, até a mais simples sinopse pode entregar o susto de uma cena, uma reviravolta inesperada, a expectativa por um determinado tom ou conclusão. Ainda mais hoje em dia, quando os trailers, na ânsia de chamar atenção, trazem todas as principais cenas do filme para aquele minúsculo curta que deveria funcionar apenas como um aperitivo para o filme. Por isso, se você quer mesmo ter o prazer completo do segundo volume da série de filmes Guardiões da Galáxia, pare de ler este texto agora e apenas o retome após tê-lo assistido. Mesmo que eu vá comentar o filme sem entregar nada grave sobre o filme, tudo que eu possa descrever a seguir pode interferir na fruição da obra. Mas se você precisa ser convencido a assistir ao novo filme de James Gunn e não liga de ter uma ideia geral antes de assistir a um filme, vamos lá.
Guardiões da Galáxia 2 não chega a superar as expectativas porque sua mira foca em um rumo completamente inusitado. A ação e a comédia continuam lá, intactas e até melhoradas em relação ao primeiro filme, mas este segundo filme não diz respeito apenas ao grupo de mercenários que virou herói sem querer – e sim a cada um de seus indivíduos. A história principal acompanha a fuga do grupo após uma brincadeira de Rocket, o guaxinim modificado geneticamente dublado por Bradley Cooper, mas ela pouco importa e serve apenas como gancho para o principal trunfo do filme: Guardiões da Galáxia 2 é uma aventura sentimental.
E o melhor: sem sentimentalismo barato de cunho romântico. Todos os personagens passam por momentos em que eles entram em contato com suas próprias dores internas, revelando que aquela gangue é, antes de tudo, uma reunião de desamparados. Todos têm seus momentos profundamente terapêuticos em frente às câmeras; uns mais do que os outros. A Gamora de Zoe Saldana não consegue expor seus próprios sentimentos; o Drax de Dave Bautista tem uma profundidade intensa por trás da casca abobada; personagens coadjuvantes como a Nebula de Karen Gillan e o Yondu de Michael Rooker ganham um vínculo emocionante com o grupo principal que não era nem aventado no primeiro filme. A nova personagem Mantis, vivida por Pom Klementieff, tem poderes que basicamente atuam sobre o lado sentimental do grupo. Até o cinismo cruel de Rocket, despido racionalmente em outra sessão de análise grupal, é exposto sem rodeios.
Mas é o drama pessoal do Peter Quill de Chris Pratt a grande mola-mestra do filme. Se havia comparações entre o primeiro filme e o Guerra nas Estrelas original, lançado há 40 anos, não há dúvida que este segundo filme é um Império Contra-Ataca. Mas ao contrário do que poderíamos prever, seu tom não é mais sinistro, violento e sombrio – pelo contrário. É um dos filmes mais coloridos da Marvel, de causar repulsa ao fã da DC que mora naquele universo de Zack Snyder em que o sol só sai durante quatro horas por dia. Guardiões da Galáxia 2 é solar, reluzente, diurno até mesmo em suas cenas sob o infinito do espaço. Mas ele têm seus momentos “Luke, eu sou seu pai” – forçando em cima de várias questões paternais mal-resolvidas de Peter Quill.
São cenas em que a trilha sonora rouba a atenção – tornando a sensação provocada pela cena ainda mais emotiva. Não vou mencionar que músicas ou intérpretes para deixar que a surpresa tome conta do momento. É uma das armas secretas do filme, utilizada de forma ainda mais precisa do que no primeiro filme. Nestas cenas específicas Guardiões da Galáxia 2 deixa de ser um filme de super-herói ou uma comédia de ficção científica e faz o público segurar o fòlego para não desaguar no choro. James Gunn maneja magistralmente as emoções do público – e usa a trilha sonora como o arco de seu violino.
Isso sem contar Baby Groot. O personagem dublado por Vin Diesel rouba a cena toda vez em que ele aparece – e isso não é exagero. Na verdade, é deixado bem explícito logo na primeira cena, uma espetacular cena de luta filmada de um ponto de vista extraordinário, temperada com uma música que é o motivo para a Electric Light Orchestra ter existido. Uma cena que pouco traduz o clima do resto do filme – é uma montanha-russa de pura diversão -, mas que mostra exatamente o drama sentimental daquele pequeno ser vegetal: ele é um filhote indefeso e todos os Guardiões estão tomando conta dele. É uma das grandes cenas do filme, mas não se iluda – é apenas uma grande cena para ter trechos utilizados no trailer.
Durante o filme, vimos a aparição de novos personagens vividos por velhas caras conhecidas – nem leia quais são estes novos atores para não se divertir com as surpresas. E eles aparecem até mesmo nas cenas dos créditos finais.
Guardiões da Galáxia 2 funciona tanto como uma sequência perfeita (em alguns momentos melhor que o filme original) como um filme que pode ser visto por qualquer um, mesmo sem saber nada sobre o universo Marvel. Há pistas que o envolve aos poucos com este universo (tive a impressão de ver algo do terceiro filme do Thor num momento em que a nave “pula” pelo hiperespaço) e este talvez seja seu único problema, que ele não parece se encaixar no resto da história que envolve todos os heróis da Marvel. Era uma das expectativas para este filme, mas até as cenas escondidas (são cinco – e o pato Howard não está em nenhuma delas) parecem apontar mais para o terceiro Guardiões da Galáxia do que o futuro próximo da Marvel. Mas isso não é propriamente um problema. A não ser que os personagens vistos na aparição de Stan Lee tenham a ver com a história principal desta nova fase.
O primeiro filme de 2017 da Marvel deve desfazer facilmente a má impressão causada pelo Punho de Ferro (que foi lançado em parceria o Netflix no mês passado) e deixar o caminho livre para que o estúdio siga bem o resto do ano como seu novo filme do Homem Aranha e o terceiro Thor, ambos com trailers tão divertidos quanto o trailer deste novo Guardiões. Resta saber se eles guardam algumas surpresas, como este Guardiões nos revelou.
Até o final da semana eu comento o filme com as referências, citações e relações do filme com o resto do universo Marvel. Enquanto isso, pode ir pro cinema sem medo que a diversão é garantida.
Remix recria o trailer do clássico suspense de Johnathan Demme, desvirtuando-o de seu contexto original – o vídeo foi publicado no meu blog no UOL.
Um dos filmes mais tensos de todos os tempos, O Silêncio dos Inocentes, de 1991, leva este título não apenas por suas referências a canibalismo, sadismo e nos detalhes pesados sobre assassinatos requintados, mas também pela forte fricção entre as personalidades de seus dois principais personagens, a agente do FBI Clarice Starling (vivida por Jodie Foster) e o psiquiatra Hannibal Lecter (vivido por Anthony Hopkins). Mas e se a tensão entre os dois tivesse um cunho mais romântico do que a relação entre presa e predador? É o que imagina o site Cinefix, ao recriar o trailer do filme de Jonathan Demme como se fosse uma comédia romântica.
Clássico que consolidou os Beastie Boys como ícone cultural completa um quarto de século – escrevi sobre o disco lá no meu blog no UOL.
É difícil pensar num mundo sem os Beastie Boys. O trio de punks nova-iorquinos largou o hardcore no meio dos anos 80 para surfar a onda do hip hop e se transformou no veículo perfeito para popularizar ainda mais a maior revolução cultural dos últimos trinta anos. A atitude foda-se típica da pós-adolescência combinava-se perfeitamente com a ostentação de galhofa que o Mike D, Ad-Rock e MCA assumiam ao se reinventarem rappers e os clipes das músicas de seus hits do disco de estreia (Licensed to Ill, de 1986, um disco que até hoje é o mais vendido da banda) eram versões pós-modernas dos filmes dos Irmãos Marx, com citações e referências (e samples) que os localizavam cronologicamente na história do rock.
Mas sua importância vai muito além do contexto hip hop – que não é pouco. O grupo ajudou a moldar a mente (e os quadris) de pelo menos duas gerações perdidas após a contracultura hippie e a contracultura punk. Usando o rap como idioma, os Beastie Boys ressignificaram toneladas de referências culturais, invertendo pontos de vista, comparando universos distintos, contrapondo gêneros musicais. Forçaram os fãs que os seguiram fiéis após o fracasso comercial do segundo disco (o mágico Paul’s Boutique, de 1989, um dos discos mais importantes da história do som gravado) a expandir horizontes, a sair da bolha, a olhar para os lados e abrir a cabeça. A consolidação desta personalidade musical aconteceu justamente em seu terceiro disco, o cúmplice Check Your Head, lançado exatamente há vinte e cinco anos, no dia 21 de abril de 1992.
Desde seu primeiro instante o disco é uma carta de propósitos. O primeiro som que escutamos no disco é a voz de Robin Zander, vocalista da banda de rock farofa Cheap Trick, extraída do meio do lado B do disco que a banda gravou ao vivo no teatro Budokan, no Japão: “A próxima é a primeira música no nosso disco novo”, brada o vocalista antes de sua “Surrender” entrar no disco original, cortada para a base de “Jimmy James”, esta sim a primeira música do então disco novo dos Beastie Boys. Em seguida, entra a bateria da música “I’m Chief Kamanawanalea (We’re The Royal Macadamia Nuts)”, uma paródia que o grupo americano Turtles fez para as músicas dos povos indígenas de seu país, encaixada no groove da versão de “Happy Birthday” de Jimi Hendrix, cuja guitarra de “Foxy Lady” ainda dá um rasante antes da entrada do vocal. São referências apenas para iniciados, piadas internas seríssimas que passam batido ao ouvinte casual – mas sem excluí-lo. O disco começa justamente com o trio saudando todos os ouvintes: “E aí pessoal, como estão, um novo dia está nascendo”, diz MCA. “Para a mãe terra é uma manhã novinha”, segue Mike D. “Por tanto tempo, houve tanta espera”, continua Ad-Rock, antes dos três dizerem juntos: “Mas agora que o sol está brilhando, vamos recolher o toldo!” É a mensagem explicitada no título do disco, referida mais uma vez no início de “Pass the Mic”, “se você pode sentir o que estou sentindo é uma obra-prima musical / Se você pode ouvir com o que estou lidando é no mínimo legal”.
Check Your Head é um parque de diversões de referências musicais, mas, principalmente, é um parque de diversões. Por ele os Beastie Boys perambulam despreocupados, andando de skate e voltando a tocar instrumentos (Ad-Rock na guitarra, MCA no baixo, Mike D na batera), acompanhados de perto de três seus novos compadres – o produtor brasileiro Mario Caldato, o DJ Hurricane e o tecladista nipo-mexicano Money Mark. Neste novo cenário, a banda começa a mergulhar em referências obscuras trazendo-as à tona em forma de canções que vão de raps diretos a jam sessions despreocupadas, colagens engraçadinhas e mensagens profundas. Tinham a favor o fato de ninguém estar nem aí para seu próximo disco.
O sucesso do álbum de estreia colocou as expectativas em relação ao segundo disco muito altas – o que permitiu que a banda fizesse o que estivesse a fim de fazer. Os três mudaram-se para Los Angeles e começaram a andar com os Dust Brothers, produtores que estavam ganhando fama com as colagens musicais que faziam usando o recém-inventado sampler – gravador que permitia disparar trechos de músicas pré-gravadas como se elas fossem notas em um teclado. O novo instrumento provocou uma pequena revolução fonográfica ao permitir que discos inteiros fossem gravados usando trechos de músicas alheias sem que fosse preciso pagar pelo direito autoral. Isso permitiu que uma geração inteira de artistas ingleses reinventasse a dance music, enquanto nos Estados Unidos esta época foi abraçada pelo hip hop – sendo que Paul’s Boutique, o disco que os Beastie Boys gravaram com os Dust Brothers, é seu principal exemplar.
O disco, no entanto, foi recebido friamente pelo público. Ao misturar o dedo na cara do hip hop com riffs de hard rock e de rock clássico, os Beastie Boys atingiram ouvintes que nunca haviam imaginado – principalmente o tipo de playboy que ridicularizavam em “Fight for Your Right to Party”. Foi este público que transformou o grupo de uma novidade peculiar da cena de rap nova-iorquino em novos popstars (a ponto de tocarem como banda de abertura da Madonna) e que depois o abandonou quando lançaram seu disco mais ousado. O fracasso comercial de Paul’s Boutique, no entanto, foi uma benção para o trio. Longe das pressões da gravadora, fizeram seu próximo disco do jeito que queriam – sem pressão.
Em vez de alugar um estúdio, transformaram um salão de festas num estúdio que, graças às habilidades do novo tecladista como carpinteiro, também tinha uma tabela de basquete que eles todos usavam nos intervalos de gravação. Quando estavam gravando, discos estavam por toda a parte – Isaac Hayes, Bad Brains, James Brown, “Scratch” Lee Perry, A Tribe Called Quest, Alice Coltrane, Jazz Cruzaders, Stevie Wonder, De La Soul. Quando gravavam seus instrumentais queriam soar como a banda de James Brown, os JB’s, ou os Meters e a limitação técnica de serem músicos nascidos pelo faça-você-mesmo do punk rock não os impedia de embalarem grooves irresistíveis.
Era a época em que MCA viaja para o Tibet e volta nitidamente influenciado pela cultura oriental (não por acaso a última faixa do disco chama-se “Namasté”) e aquela nova consciência influenciaria o grupo cada vez mais. Mas naquele terceiro álbum ainda era um elemento incipiente e misturava-se ao hardcore instrumental da banda nova-iorquina Front Line recuperado por MCA enquanto Mike D recitava letras que lia na contracapa de um disco de Sly Stone. “Live at PJ’s” não disfarçava a referência do disco do Kool & the Gang, enquanto “Groove Holmes” era uma tentativa descarada de soar como o tecladista Richard “Groove” Holmes – mas o fato de isso vir assumido no título da música era mais uma prova de que os Beastie Boys haviam crescido.
Foi naquele disco que eles se tornaram os Beastie Boys que amamos até hoje. Licensed to Ill era um disco de festa tão eterno quanto perecível. Paul’s Boutique era uma biblioteca em forma de disco, o Sgt. Pepper’s implodido para dentro de uma geração, que deu origem a gêneros musicais inteiros, como o trip hop e o big beat. Em Check Your Head os três equilibraram estes pontos distintos de duas suas personalidades, assumindo o papel de líderes de um novo tipo de comportamento, que lhes permitiu abrir sua própria gravadora (a Grand Royal, que também era uma revista, e lançou artistas como Luscious Jackson e Sean Lennon), ter uma grife de roupas próprias (a X-Large), dirigir seus próprios clipes, lançar discos instrumentais e EPs de hardcore, fazer um festival a favor do Tibet, gerir a própria carreira e a própria vida sem precisar fazer diferente do que faziam em disco.
Músicas como “So What’cha Want”, “Finger Lickin’ Good”, “Something’s Got to Give” e “Gratitude”são clássicos de uma época em que gêneros musicais eram separados muros altos, demolidos carinhosamente pelo rolo compressor pilotado pelo trio. Os limites entre o rap, o rock, o soul, o funk, o jazz e o punk foram devastados por três moleques que descobriram que podiam crescer sem perder a juventude, que envelhecer não era sinônimo de esmaecer, que dá para amadurecer brincando. Com Check Your Head os Beastie Boys fizeram jus ao que parecia ser uma heresia em seus primeiros dias – estar posicionado alfabeticamente entre os Beach Boys e os Beatles. Mais do que uma grande banda de rap, eles são um dos grupos mais importantes da história da cultura – e não apenas da música – popular recente.


























