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Será que Rey e Kylo vão para o mesmo lado? E se forem, vão para qual? O novo trailer (que publiquei no meu blog no UOL) de Os Últimos Jedi mexe com questões sérias no universo de Guerra nas Estrelas…

Novas naves, novos robôs, novos animais, alienígenas e… quem é esse do lado do Chewbacca? E Leia, uou! O novo trailer do Episódio VIII de Guerra nas Estrelas acaba de ser lançado e mostra que o filme concentra-se na dualidade entre os personagens de Rey (Daisy Ridley) e Kylo Ren (Adam Driver), que, aos poucos, parecem se aproximar.

O filme estreia em dezembro, mas esse trailer aumenta ainda mais a expectativa para esse que pode ser o grande filme de toda a saga. É muita informação pra ser digerida num fim de noite, mas já já trago mais considerações sobre o que talvez iremos assistir.

E você, o que achou?

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Grupo lança trilha sonora de um documentário da BBC em meio a boatos da vinda ao Brasil. Falei sobre isso no meu blog no UOL.

Começou: os boatos sobre uma turnê sul-americana do Radiohead deixaram de ser meras divagações para ganhar um corpo um pouco mais sólido quando o jornalista Lucio Ribeiro anunciou em seu site Popload que a banda estaria planejando uma passagem pelo Brasil em abril do ano que vem, quando faria três shows no país. A especulação acontece quando a banda lança uma versão retrabalhada de uma de suas músicas recentes para continuação da minissérie da BBC Blue Planet. A nova versão foi gravada ao lado do maestro Hans Zimmer, mais conhecido pelas trilhas sonoras que compôs para os filmes de Christopher Nolan, e da BBC Concert Orchestra e recria “Bloom”, lançada no disco The King of Limbs, de 2011, originalmente inspirada pela série Blue Planet original. Eis a nova versão, rebatizada de “(Ocean) Bloom”:

Compare com a versão original:

Em material de divulgação da faixa, Thom Yorke explica que a canção “meio que entrou em meu inconsciente. Comecei a sonhar bastante com essas criaturas”, explica o vocalista da banda no vídeo abaixo (em inglês, sem legendas).

O site Vox também conversou com o Radiohead e com o maestro sobre o processo de transformação da faixa original em trilha sonora (também em inglês sem legendas).

E assim ficou a música retrabalhada no trailer da nova temporada da série, que também foi narrada pelo naturalista inglês David Attenborough, conhecido pela série Life, também produzida pela BBC:

Em outra notícia relacionada ao Radiohead, o vocalista da banda, Thom Yorke, anunciou o lançamento da versão física de seu segundo disco solo, Tomorrow’s Modern Boxes, de 2014, lançado originalmente apenas em formato digital. O disco deve chegar às lojas nas versões CD e vinil no início de dezembro e também chegará às plataformas de streaming. O vocalista aproveitou o anúncio do lançamento para falar das três datas que fará solo nos Estados Unidos em dezembro deste ano, quando toca em Los Angeles (no dia 12), em Oakland (dia 14) e no festival Day for Night, em Houston (dia 17).

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Morre o músico que sintetizou a alma caipira norte-americana – escrevi sobre a importância de Tom Petty para o meu blog no UOL.

A súbita e triste notícia da morte de Tom Petty, que foi encontrado inconsciente em sua casa na noite deste domingo e teve seu óbito decretado na noite desta segunda, vem apenas acelerar a importância de sua carreira para a música norte-americana. Popstar nato, roqueiro da velha guarda e com trânsito livre entre as celebridades musicais dos EUA, ele é uma peça-chave para entender não só a música nativa de seu país mas principalmente ao redefinir o conceito de country music após a vinda do rock.

Nascido após a era de ouro do country e testemunha da chegada do rock às paradas de sucesso e ao inconsciente coletivo (ele conheceu Elvis pessoalmente aos dez anos de idade e pode assistir, três anos depois, à chegada dos Beatles aos EUA), ele conseguiu traçar um percurso entre o velho vaqueiro que não queria ir para a cidade grande e o jovem desempregado que foi dispensado por esta. Aos poucos foi criando um personagem que não era propriamente um perdedor, mas não estava interessado apenas em vencer. Fugindo dos estereótipos galvanizados pelo country e pelo rock, ele preferia ficar fora dos holofotes da vida real, cantando a vida comum de pessoas que não almejavam virar astros.

À frente dos Heartbreakers, ele foi tecendo um rosário de hits entre os anos 70 e 80 que conquistou lentamente o público que descrevia. “Até os perdedores têm sorte de vez em quando”, cantava em um de seus primeiros hits, mirando em uma nova geração de caipiras que nunca esteve em uma fazenda ou cavalgou um cavalo. Eram moradores de trailers que viviam com suas famílias numerosas à margem de cidades de médio porte, em acampamentos que viravam vilas de casas com rodas, sem dinheiro para fazer nada mais do que comer, beber, transar e ir para shows. Um perfil que ficou mais tarde conhecido como “white trash”. Tom Petty entendia que aqueles eram os novos vaqueiros, os novos caubóis, pilotando motos ou dirigindo carros caindo aos pedaços, cruzando o país em busca de algum sentido para a própria vida, mesmo que este sentido fosse apenas uma letra de música.

Assim foi construindo sua reputação não apenas artística, mas também pessoal: era visto como um dos caras mais gente boa do rock dos anos 80 e 90, além de um compositor de hits inconfundíveis e um músico de timbre próprio e facilmente reconhecível. A textura de sua voz, doce, grave e levemente rasgada, ia moldando-se cada vez mais à guitarra clara e sem efeitos que puxava sequências de acordes memoráveis, criando uma assinatura musical que pariu hits do calibre de “Free Fallin”‘, “Breakdown”, “Listen to Her Heart”, “I Won’t Back Down”, “The Waiting”, “You Got Lucky”, “Here Comes My Girl” e “Learning to Fly”, sintetizando assim a essência de uma nova alma caipira norte-americana.

A amplitude de sua influência pode ser medida de inúmeras formas – desde sua participação no supergrupo Travelling Willburys (ao lado de ninguém menos que Bob Dylan, George Harrison, Roy Orbison e Jeff Lynne) até a inevitável influência que exerceu nas bandas que ganharam notoriedade depois que o grunge ajudou a revelar este novo caipira norte-americano – de grupos diretamente influenciados por aquela cena alternativa (como Pearl Jam, Screaming Trees, Temple of the Dog e até os Foo Fighters) até outros que só conseguiram espaço graças à explosão daquela cena (como Goo Goo Dolls, Third Eye Blind, Wallflowers, Counting Crows, Black Crowes, Matchbox Twenty, Hootie & the Blowfish e Blues Travellers, entre várias outras bandas dos anos 90 e além).

Sua influência é tão grande que embrenhou-se inclusive em artistas que, aparentemente, não têm nada a ver com seu legado ou com o próprio conceito de caipira norte-americano. Compare “Mary Jane’s Last Dance”…

…com “Dani California” dos Red Hot Chili Peppers.

Ou “I Won’t Back Down”…

…com “Stay With Me” do Sam Smith.

Ou “American Girl”…

…com “Last Nite” dos Strokes.

Mais um monstro sagrado que se vai. Quem sabe agora o reconheçam como tal.

Blade Runner, hoje

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Fotógrafo inglês registra cenas na Ásia em 2017 que mostram que já vivemos o futuro cyberpunk imaginado nos anos 80 – tem mais fotos de Marcus Wendt no meu blog no UOL.

Estamos a apenas dois anos do 2019 sugerido por Blade Runner e embora não haja sinal de que vejamos robôs idênticos a seres humanos andando entre nós em pouco tempo, a realidade visual cogitada pelo filme de Ridley Scott já existe em 2017. Prédios gigantescos e submundos infestados de gente, iluminados pelas cores artificiais das luzes de néon e por logotipos de lojas e corporações, fazem parte do dia a dia de diferentes cidades pelo planeta – e a visão que o fotógrafo inglês Marcus Wendt, diretor do estúdio de design Field.io, teve ao passear à noite pelas cidades de Shenzen e Hong Kong, na China, só reforça isso. “Graças a uma dose pesada de insônia induzida pelo jet lag, eu comecei a explorar a área de Kowloon em Hong Kong e o Huaqiangbei – “o maior mercado de eletrônicos do mundo” – em Shenzen tarde da noite em uma viagem recente à China”, ele escreve em seu site. “Mergulhado em um escuridão estrangeira encontrei uma nova maneira de ver, estranha e alienígena. A luz sintética se infiltrava em meus olhos, o ar cheio de cores que se deslocavam se e ângulos inflexíveis. No meio da noite começava um novo dia.” Eis uma amostra de seu trabalho:

É bom pra ir entrando no clima do novo Blade Runner, que, pelo visto, promete.

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A família de Frank Zappa, morto no início dos anos 90, anunciou que veremos, em 2018, o mestre de volta aos palcos – escrevi sobre isso no meu blog no UOL.

Um dos maiores iconoclastas da história da música moderna, o compositor e músico norte-americano Frank Zappa, que morreu em dezembro de 1993, está prestes a romper mais uma barreira: a do além-túmulo. Isso porque sua família acaba de fechar um acordo com a empresa Eyellusion para trazê-lo de volta aos palcos na forma de um holograma. “Estou emocionado que Frank Zappa finalmente estará de volta à estrada tocando suas músicas mais conhecidas bem como material raro e que nunca foi ouvido”, disse Ahmed Zappa, filho do compositor que é responsável por cuidar do legado da família em um comunicado no site oficial de seu pai. “Não vemos a hora de trazer seu trabalho criativo de volta ao lado dos músicos que ele amava tocar junto, como Steve Vai, Ian Underwood, Adrian Belew, Arthur Barrow, Vinnie Colaiuta, Scott Thunes, Mike Keneally, Denny Walley, Warren Cuccurullo e Napoleon Murphy Brock, além de outros que se comprometeram a fazer parte deste esforço épico. Quando falei com eles, eles ficaram excitados com a possibilidade de tocar ao lado de Frank mais uma vez e estão esperando a hora de dar aos fãs essa experiência inesquecível.”

“Frank foi um inovador e sua arte transcendia em tantas mídias diferentes”, continua Diva Zappa, filha de Frank, no mesmo comunicado. “Ele deixou um extenso volume de trabalho e queremos celebrar sua música com uma produção de hologramas realmente criativa e única que apresentará sua música a uma nova geração de fãs e permitirá a tantos que gostavam de sua música quando ele ainda era vivo a experimentá-la mais uma vez. Nós tínhamos essa ideia por muitos anos e depois de nos encontrarmos com a equipe da Eyellusion, sabíamos que eram os parceiros certos para fazer isso se tornar realidade.”

A Eyellusion “ressuscitou” o ex-vocalista do Black Sabbath Ronnie James Dio, morto em 2010, em duas oportunidades, ano passado na Alemanha e este ano nos EUA, que funcionaram a ponto da viúva de Dio, Wendy, ter confirmado uma turnê com o holograma do falecido, chamada de Dio Returns, que começará no final deste ano. O resultado funciona melhor do que as experiências anteriores com nomes como Tupac Shakur e Renato Russo, mas não deixa de ser meio mórbido.

A família de Zappa não se incomoda. “Não seria radical ter (a filha de Zappa) Moon cantando ‘Valley Girl’ com ele no palco? Ou ver Dweezil (outro filho de Zappa) lado a lado com nosso pai duelando solos de guitarras? Esse seria meu maior desejo e quero fazer essa celebração especial do legado de Frank a uma cidade perto de vocês. Mas como se isso não fosse suficiente em termos de coisas legais de Zappa, também estamos planejando uma versão em palco para Joe’s Garage: The Musical, com ninguém menos que o próprio Frank Zappa estrelando como The Central Scrutinizer”, comemorou Ahmed.

Isso seria bem interessante: o fantasma-holograma de Frank Zappa fazendo o papel do narrador e grande vilão de sua ópera rock Joe’s Garage, uma feroz crítica à indústria fonográfica. Mas fica a dúvida no ar para saber o que Zappa acharia de todo esse circo ao redor de sua imagem depois de sua morte. Ele certamente teria alguns comentários bem ácidos a fazer…

A turnê deverá ser anunciada para 2018.

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Encerrando a cobertura que fiz do Rock in Rio para o UOL, segue a lista dos cinco melhores shows do segundo finde do festival, que postei lá meu blog no portal.

Passei os dois últimos fins de semana andando feito um camelo pelo Rock in Rio, submetido a uma maratona de shows uns épicos, outros insuportáveis e mesmo que a exaustão final ainda se abata, é possível lembrar dos grandes momentos do festival. Havia publicado a lista com os cinco melhores shows do fim de semana anterior neste link, abaixo refiro-me aos cinco melhores do fim de semana passado.

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1) The Who
O melhor show de todo o festival e uma apresentação que já entrou para a história tanto do festival quanto dos grandes shows internacionais no Brasil. Pagando uma dívida de meio século sem nunca ter vindo ao país, os remanescentes do grupo original – seu vocalista Roger Daltrey e o guitarrista Pete Townshend – mostraram-se em plena forma mesmo com mais de setenta anos de idade.

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2) BaianaSystem
O melhor show do Brasil atualmente não se conformou com o espaço reduzido do Palco Sunset e misturou o climão de carnaval de rua ao de festas jamaicanas e show de punk rock, inflamando o público como poucas apresentações durante todo o festival. A presença da MC angolana Titica, flerte que o grupo já acalentava há anos e que o Rock in Rio conseguiu proporcionar, apenas temperou a massa sonora com uma pimenta estética forte, bem ao gosto da conexão Salvador-Luanda.

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3) Tears for Fears
Ninguém poderia prever o arrebatamento emocional causado pela dupla formada por Roland Orzabal e Curt Smith, mesmo com a quantidade de hits no repertório. Uma apresentação precisa, cujo timbre cristalino dos vocalistas ajudou o público a lembrar porque eles foram uma das principais bandas pop dos anos 80, fazendo aquilo que os Pet Shop Boys deveriam ter feito no fim de semana anterior.

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4) Ceelo Green
Que vocalista, que showman, que carisma! Metade da dupla Gnarls Barkley, Ceelo conquistou o público apenas com sua presença, chacoalhando seu corpo compacto enquanto alcançava vocais agudos que arrebatavam as canções para um nível acima. Com uma banda da pesada, ainda recepcionou a brasileira Iza em dois duetos (entre eles uma canção de Michael Jackson) e a vocalista quase roubou a cena, encantando a todos com sua presença magnética. O melhor ficou para o fim, quando o saxofonista da banda roubou o holofote para tocar a melodia do hit carioca “Deu Onda” pouco antes de cair numa versão arrasa-quarteirão para “September”, do grupo Earth Wind & Fire.

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5) Alice Cooper
A idade só faz bem para Alice Cooper e longe de acelerar sua decadência artística, a transforma em trunfo: o vocal mais grave, o rosto mais cheio de rugas e a presença mais ranzinza no palco só ajudam a aumentar a personalidade insana do pai do rock de horror. Os elementos cênicos certamente são metade do show e toda a banda que o acompanha (incluindo aí a sensacional guitarrista Nita Strauss e uma palhinha bem-vinda do aerosmith Joe Perry) também não faz feio, mas todo o show está concentrado no contato visual e vocal do público com Cooper, que rege expectativas e refrãos como um maestro do inferno. Que figura!

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Comentei no meu blog no UOL sobre o anúncio que David Lynch fez da versão física da terceira temporada de Twin Peaks, que finalmente passa a ser chamada oficialmente desta forma (e não só Twin Peaks: The Return).

Citando a Log Lady em um tweet, David Lynch anunciou o lançamento da nova temporada de Twin Peaks em DVD e Blu-ray para o final deste ano:

“Caros amigos do Twitter
As estrelas mudam e o tempo apresenta-se
5 de dezembro de 2017
Blu-ray e DVD!”

Não há mais novidades sobre o conteúdo dos discos, a não ser a capa que Lynch revelou neste mesmo tweet, que traz o agente Cooper (Kyle MacLachlan, que ator!) dividido em suas duas personalidades na temporada.

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Interessante notar que a versão física da série não é mais referida como Twin Peaks: The Return e sim como a terceira temporada da série – o que aumentou a especulação sobre a possibilidade vaga de uma quarta temporada.

Outra notícia paralela é que a Criterion, um dos selos de DVD mais importantes do mundo, anunciou o lançamento em Blu-Ray do filme Fire Walk With Me, lançado no Brasil com o título de Os Últimos Dias de Laura Palmer. O filme foi lançado após o cancelamento da série original e retrata a vida da adolescente antes de seu assassinato, que dá origem à história da série. À época vaiado e considerado por críticos como um dos piores filmes já feitos, Fire Walk With Me ganhou moral com o passar dos anos e hoje é considerado uma das principais obras da filmografia de David Lynch, além de ser central para entender os acontecimentos da terceira temporada da série. Além do filme original, a nova edição traz a série de curtas batizada The Missing Pieces e lançada na primeira versão em DVD do filme, desta vez organizada em ordem pelo próprio David Lynch, entrevistas feitas em 2014 pelo próprio diretor com os atores Sheryl Lee (Laura Palmer), Ray Wise (seu pai) e Grace Zabriskie (sua mãe), trechos da entrevista que o diretor deu ao escritor Chris Rodley para seu livro Lynch on Lynch, de 1997, além da nova masterização de áudio ter sido supervisionada por Lynch. Mais informações no site do selo.

bonjovi

Sem querer, o Rock in Rio retrata uma transformação crucial em dois dos grandes gêneros da música pop – escrevi lá no meu blog no UOL.

O primeiro fim de semana do Rock in Rio 2017 foi dedicado à música pop e é engraçado perceber como esses tempos estranhos ajudam a inverter os polos. Se o pop antes era dócil e confortável, ele vem assumindo um papel subversivo e desafiador que antes cabia ao rock. O rock era a contestação, a negação, o confronto, o embate. O pop era composto por girl groups e boy bands, cantores galãs e musas intactas sorrindo enquanto cantavam a tradição, a família e a propriedade. O rock era a perversão, o underground, o desvario, o circo pegando fogo, o caos. O pop aceitava tudo com “sins” e o rock negava tudo com seus “nãos”. E agora começa o fim de semana do rock, que tornou-se um gênero conservador.

Mas parte da música pop que desfilou no primeiro fim de semana do Rock in Rio dizia “não”. Estava nas letras politizadas de Rael e de Elza Soares, na participação de uma líder indígena brasileira no show de Alicia Keys, no beijo redentor entre Johnny Hooker, Liniker e nos discursos de Roberto Frejat, Samuel Rosa e Evandro Mesquita em seus shows no festival, na presença intrusa da esnobada Anitta através da participação de Pabllo Vitar, nos “fora, Temer” instantâneos e até no constrangedor protesto puxado por Ivete Sangalo e Gisele Bundchen ao som de “Imagine” de John Lennon. Claro que havia um pop que diria “sim” até para uma pedra (Maroon 5, Fergie, 5 Seconds of Summer, Shawn Mendes, Walk the Moon), mas pelas beiradas outros mostraram que o pop deste século lida com outra abordagem.

A música pop vem deixando sua doçura e delicadeza em segundo plano para funcionar a seus compositores e intérpretes como trampolins de personalidade, criando plataformas que podem vender diferentes facetas de um mesmo artista como se fossem souvenirs de museus. A década mágica desta transformação foram os anos 80 e tanto ícones gigantescos como Prince e Madonna quanto heróis anônimos dos primeiros anos da música eletrônica para dançar e do hip hop inverteram a regra do jogo. De repente a música pop começava a ficar mais desafiadora e cheia de si, dando auto-estima e petulância a artistas que pediam licença para entrar. E assim o pop começou a funcionar como uma forma de desafiar o status quo, mirando em temas e discussões que antes eram típicas da mentalidade do rock. Abraçando direitos civis, questões de gênero e sexualidade, minorias e o meio ambiente, este novo pop estabelece os próprios valores, em vez de adequar-se aos existentes.

É o extremo oposto do que vem acontecendo com o rock – e o rock que acontece neste segundo fim de semana do Rock in Rio vem sendo representado pelos headliners Aerosmith, Bon Jovi, Guns’N Roses e Red Hot Chili Peppers. Nomes que já foram sinônimos de confusão e desordem mas que hoje fazem tudo nos conformes, seguindo as regras do showbusiness. São executivos de suas próprias empresas que não querem saber de perder dinheiro. Deixaram todo o senso de periculosidade e de provocação no passado, alimentando uma caricatura de rockstar que pertence ao século passado. É sintomático que sejam nomes que também se estabeleceram nos anos 80, quando o último suspiro de contestação vindo do rock veio das cenas surgidas a partir do punk. Por isso que a inclusão de nomes como Titãs, Tears for Fears, Capital Inicial, Offspring e até Incubus, Fall Out Boy e Jota Quest não desequilibra. O pobre Who é quem mais soa deslocado nesse contexto.

Não que o rock não possa ser contestador atualmente – e o palco Sunset prepara encontros que mexem com essa veia. Nação Zumbi e BaianaSystem podem ser consideradas as principais bandas de rock do Brasil hoje, embora o elemento nordestino faça muitos torcerem o nariz para essa categoria (o que é apenas preconceito, sabemos) – o primeiro grupo toca ao lado de Ney Matogrosso e o segundo da rapper angolana Titica. Um improvável encontro entre Alice Cooper e Arthur Brown pode render mais do que promete e os shows do Kills e do Sepultura têm sua petulância, em diferentes níveis.

Mas no palco Mundo o que se vê é uma seleção conservadora. Grupos que forjaram suas reputações a partir da repetição de fórmulas e clichês que lhes distanciaram do ímpeto inicial de suas carreiras. Tanto Aerosmith quanto Red Hot Chili Peppers são os melhores disso: artistas cuja primeira fase da discografia foi dedicada à vida louca de rockstar, se reinventaram numa segunda fase como uma caricatura do que eram, bandas voltadas para tiozões que se consideram roqueiros. Enquanto o pop se tornou subversivo, o rock se tornou reacionário e conservador.

Saindo da mesmice

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Como parte da minha cobertura do Rock in Rio para o UOL, escrevi como Grandmaster Flash, Elza e Rael e Pabllo Vitar ajudaram a segunda noite do festival a ter algum gosto próprio.

Valendo! O Rock in Rio 2017 ainda não engrenou, mas o sábado do primeiro fim de semana do festival marcou o início de fato do festival. Desde a lotação total da nova Cidade do Rock a shows mais consistentes e recebidos de forma mais empolgada pelo público, o segundo dia aconteceu como se o anterior fosse uma espécie de rascunho do que o festival poderia ser. Embora ainda desequilibrado, o evento pareceu ver sua redoma de condomínio fechado trincando aos poucos a partir de protestos políticos, participações especiais e hits arrasa-quarteirão.

Nesta última categoria, poucos superaram o Skank, que abriu a programação do palco Mundo enfileirando uma sequência de músicas conhecidas que levou a multidão a um êxtase em crescendo. Aproveitando-se do astral mais família que o da noite anterior (havia muito mais times de pais e filhos curtindo juntos do que na sexta), o grupo mineiro apresentou um resumo bem comercial de suas quase três décadas em atividade e também aproveitou a onda de “Fora, Temer” que aos poucos assola o festival para que o vocalista Samuel Rosa fizesse um discurso indignado contra a classe política brasileira.

Samuel Rosa toca guitarra no show do Skank no Rock in Rio

Samuel Rosa toca guitarra no show do Skank no Rock in Rio

Crítica parecida aconteceu em outro bom show do outro palco do festival, quando a Blitz acompanhada de Alice Caymmi e Davi Moraes puxou “Aluga-se”, no primeiro momento “toca Raul” do festival, quando o hit de Raul Seixas surgiu como uma profecia macabra em relação ao atual momento de entrega dos recursos do país ao estrangeiro. Pouco antes da Blitz, o velho buda da bossa nova João Donato havia sido saudado pelo belo canto hipnótico de quatro sereias vocais: Lucy Alves, Emanuelle Araújo, Tiê e Mariana Aydar.

Outro grande momento daquele palco secundário, com uma escalação bem mais interessante do que a do palco principal, foi encontro entre Rael e Elza Soares. Sem a participação da eterna musa, o MC paulistano já havia consagrado ao encontrar a melhor lotação daquele espaço preenchida por uma massa que cantava todos seus sucessos. De forte inclinação romântica, o rapper não se furtou a comentários sobre política em suas letras e os gritos de “Fora, Temer” que aos poucos pipocavam pelo festival encontraram ainda mais eco quando Elza adentrou ao palco impassível em seu trono. Ovacionada pelo público que se aglomerava ainda mais, ela começou sua participação com a sua “A Carne” (“a carne mais barata do mercado é a carne negra”), que Rael emendou citando todos os versos de Mano Brown em “Negro Drama”, hino dos Racionais MCs. O rapper não se intimidou com a presença da veterana e a acompanhou de igual para igual. Elza encerrou sua participação cantando a faixa-título de seu aclamado álbum mais recente, Mulher do Fim do Mundo, que encerrava, raivosa, exigindo: “Até o fim eu vou cantar, me deixem cantar até o fim, eu quero cantar até o fim”. Parceiro de Rael, Emicida foi o convidado do rapper norte-americano Miguel, mas o bom show foi visto por um público bem mais reduzido, já seduzido pelas atrações sem graça do palco Mundo.

Depois do show do Skank, o adolescente Shawn Mendes subiu com seu violão andando nas pegadas do folk pop consagrado por Ed Sheeran. Mas é só vontade: por melhores que sejam as intenções do guri, sua apresentação só convence aos fãs bem mais jovens, embora a multidão que lotava cada vez mais a área principal do festival tivesse lhe dado um voto de confiança.

Pabllo Vittar faz participação surpresa em show de Fergie no Palco Mundo

Pabllo Vittar faz participação surpresa em show de Fergie no Palco Mundo

O mesmo aconteceu com Fergie, que fez um show todas as músicas que poderia cogitar: de músicas menos conhecidas de sua minúscula carreira solo a hits arrasa-quarteirão do grupo que lhe fez fama, o Black Eyed Peas. Mas quando lembrarmos deste show no futuro, o nome de Fergie, se for lembrado, vai ser como escada para Pabllo Vitar, que depois de arrebatar o público numa aparição num estande de patrocinador no dia anterior, voltava com todo o carisma no principal holofote da noite. Quando as frequências dos subgraves da introdução de “Sua Cara” ecoaram no Rock in Rio, o público parecia desacreditar que estava vivendo um sonho. O principal hit da diva drag foi gravado ao lado do grupo norte-americano Major Lazer e da cada vez mais onipresente Anitta, o que fez que a voz da atual rainha do pop brasileiro pudesse encontrar o público do festival. Sem dúvida foi o grande momento daquele palco – e o último sabor de política da noite (principalmente se imaginarmos uma leitura metafórica de uma drag brasileira cantando que vai “rebolar bem na sua cara” no palco principal de um festival que prefere ater-se a atrações internacionais meia boca do que a brasileiros de melhor estirpe).

Pabllo Vittar também é hardcore com sua camiseta do Bad Religion

Pabllo Vittar também é hardcore com sua camiseta do Bad Religion

O Maroon 5 voltou a se apresentar naquele mesmo palco, dessa vez tocando para pessoas que haviam pago para assisti-los, não como estepe de Lady Gaga. Assim, o show ligeiramente melhor que o do dia anterior, o que não quer dizer que tenha sido bom. Melhor sair de fininho em direção à tenda eletrônica, que receberia o principal nome da noite – o DJ Grandmaster Flash. Pai da parte instrumental do hip hop, só o fato de Flash ter inventado a forma moderna de discotecagem, com duas vitrolas e um mixer, tão perene que segue influente três décadas depois, já valeria sua presença em qualquer evento relacionado com música.

E o fato de ser um veterano das pistas faz com que ele domine o público sem a menor dificuldade, submetendo os sobreviventes do final da segunda noite – alguns milhares, bem menos que o público do palco principal – a uma maratona de sucessos tatuados em nosso subconsciente: “Under Pressure” do Queen com David Bowie, “Billie Jean” de Michael Jackson, “Play the Funky Music” do Wild Cherry, “California Love” de Tupac Shakur, “Stayin’ Alive” dos Bee Gees, entre outros clássicos, um superposto sobre o outro, enquanto Flash pedia para o público carioca gritar ou erguer as mãos. Um final sensacional para mais um dia de atrações irregulares, mas que conseguiram tirar o festival da mesmice do dia anterior. O domingo, que finalmente terá gringos de peso (Nile Rodgers, Alicia Keys e Justin Timberlake, especificamente), pode fazer o festival ter seu primeiro grande dia.

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Há quatro décadas, o grupo liderado por David Byrne inventava o pós-punk em seu disco de estreia, 77 – escrevi sobre esse disco no meu blog no UOL.

Enquanto o punk inglês ainda borbulhava no underground londrino prestes a estourar a cultura do faça-você-mesmo para todo o planeta, a versão nova-iorquina que inspirara o novo levante musical inglês fechava sutilmente seu primeiro ciclo. Nascida no meio da década de 70, a cena que cresceu ao redor do antigo bar de motoqueiros CBGB’s traçava uma genealogia que tinha suas raízes tanto nas bandas de garagem dos anos 60 quanto na contracorrente musical puxada pelo Velvet Underground dez anos antes e continuada com o surgimento de bandas como os Stooges de Iggy Pop, o MC5 (estas duas bandas da região de Detroit) e os Modern Lovers de Jonathan Richman.

O lugar descoberto pelo Television de Tom Verlaine serviu como palco para bandas desgarradas em Nova York que não gostavam de hard rock, heavy metal, folk rock ou rock progressivo, algumas das principais tendências musicais da época. Nomes como o Patti Smith Group, os Ramones, os Dictators e os Stilettoes (que mais tarde mudariam seu nome para Blondie) buscavam outras fronteiras musicais e misturavam riffs pontiagudos de guitarra, baixos duros e vocais com o dedo na cara do ouvinte com poesia, quadrinhos, pop bubblegum, música de vanguarda, surf music, política, literatura e a arte com A maiúsculo. Aos poucos estabeleciam-se como uma nova cena que aos poucos era reconhecida pelo apelido de “punk” (“podre” ou “sujo”, em inglês), nome de uma revista caseira feita por alguns dos frequentadores do CBGB’s. Tudo era feito por conta própria, embora as gravadoras – que ainda não eram majors como se tornariam na década seguinte – ainda tivessem um vínculo com o que acontecia fora do showbusiness e, aos poucos, cada uma dessas bandas foi lançando seus discos de estreia, a partir de 1975.

A última banda desta safra a conseguir lançar seu primeiro disco era um trio de universitários de Rhode Island que havia se mudado para Nova York depois de tentar fazer música em sua pequena cidade-natal. David Byrne e Chris Frantz, alunos da Rhode Island School of Design, tinham um grupo chamado The Artistics e a namorada de Chris, Tina Weymouth, fazia as vezes de roadie da banda. Os três desistiram da banda e mudaram-se para Nova York, quando Chris convenceu Tina a tocar baixo. Como um trio, fizeram seu primeiro show abrindo para os Ramones ainda em 1975. O novo nome havia sido tirado de um termo técnico usado no meio televisivo para designar programas que eram “só conteúdo, sem ação”. Os Talking Heads – cabeças falantes, como programas de debates ou de entrevistas – poderiam ter começado sua carreira ainda naquele ano, como um trio, quando foram sondados pela gravadora CBS. Gravaram uma série de demos que depois se tornariam um dos principais registros pirata da história da banda, mas que foram declinadas pela gravadora.

Tina Weymouth, Jerry Harrison, David Byrne e Chris Frantz

Tina Weymouth, Jerry Harrison, David Byrne e Chris Frantz

No ano seguinte começaram uma relação com a gravadora Sire, que assinou contrato com a banda e bancou seu primeiro disco. Jerry Harrison, ex-integrante dos Modern Lovers, aproximou-se do grupo e assumiu o papel de tecladista da banda. Com esta nova formação gravaram seu primeiro disco, batizado apenas de Talking Heads: 77, lançado exatamente há quarenta anos, no dia 16 de setembro de 2017. O fato de terem sido a última banda da cena punk nova-iorquina a lançar seu próprio disco teve um efeito direto na sonoridade do grupo. À medida em que o impacto sônico das bandas anteriores começava a ser assimilado pela crítica e pelo pequeno público boêmio em Nova York, os Heads foram lapidando seu som, deixando-o mais minimalista e ainda mais direto, ao mesmo tempo em que em vez de atacar o sistema preferiam descrevê-lo, ridicularizá-lo, criticá-lo. Os Talking Heads foram a primeira banda pós-punk do mundo.

Talking Heads: 77 é a essência deste novo som, que iria encontrar pares em outros norte-americanos novatos, como os grupos Devo e Pere Ubu, e, principalmente, na cena inglesa que ressurgiria depois da morte de Sid Vicious e do fim dos Sex Pistols, que incluía nomes como Joy Division, Smiths, U2, Public Image Ltd., Gang of Four, Cure, Killing Joke, Siouxsie & the Banshees, Echo & the Bunnymen, Bauhaus, Slits, entre inúmeros outros. A sonoridade seca e crua dos instrumentos, sua frequência mecânica, sua inclinação política e crítica sem necessariamente ser agressiva, seu vocal quase falado e um groove quadrado. O disco também é o molde para o pentateuco dos Talking Heads, os cinco primeiros lançamento de sua discografia (77, More Songs About Buildings and Food, Fear of Music, Remain in Light e Speaking in Tongues), que forjaram sua sonoridade e reputação.

Visualmente a banda também distanciava-se ao máximo do punk. Ao entender a fauna visual que começava a surgir ao redor do CBGB’s, Byrne e sua banda passaram a se comportar de forma cada vez careta e convencional. Vestiam-se como se estivessem indo para entrevistas de emprego e faziam questão de enfatizar um aspecto entre o ingênuo e o jovial, que contrastava diretamente com as letras de Byrne, ácidas críticas à sociedade moderna em forma de orações à rotina das grandes cidades. Faixas como “New Feeling”, “Don’t Worry About the Government”, “Pulled Up”, “First Week/ Last Week… Carefree” e, claro, o hit “Psycho Killer” colocavam a banda a uma certa distância do punk original, antes mesmo deste ganhar sua faceta ainda mais popular, via Inglaterra. Outras faixas, como “Happy Day”, “Tentative Decisions”, “Who Is It? e “No Compassion” com seus riffs dedilhados e groove sincopado já apontavam para as fronteiras musicais que o grupo descobriria nos anos seguintes, quando passou a desbravar primeiro o Caribe depois a África musical.

Mais do que isso, Talking Heads: 77 é o registro de uma banda em ponto de bala, no exato momento em que ela deveria ter gravado seu primeiro disco. Se seu álbum de estreia fosse lançado no 1975 cogitado pela CBS talvez o grupo tivesse incorporado características – que depois se tornariam clichês – do punk na primeira hora. Parido dois anos depois, o debut dos Talking Heads assiste sua apresentação mais centrada, mais decidida e convicta, o que fez que ela se tornasse uma das grandes bandas daquele período e crescesse sua moral na década seguinte. Moral que permanece intacta, principalmente pelo fato de que eles são uma das únicas bandas – num recorte que inclui nomes pesados como os Beatles, os Sex Pistols e o Velvet Underground – que nunca voltaram a tocar juntos, salvo uma ou outra ocasião. Poderiam voltar a fazer turnês e ganhar rios de dinheiro, mas preferem explorar novos rumos individualmente, uma sabedoria estética assumida ainda nos tempos do punk rock.