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Foto: Priscila Buhr

Foto: Priscila Buhr

Ao pegar pesado nas duas músicas (“Sangue Frio” e “A Casa Caiu“) que usou para anunciar seu quarto disco solo Desmanche, que chega nessa sexta às plataformas digitais, Karina Buhr nos induziu a imaginar que ela viria com um disco agressivo e pesado, subindo o tom em relação ao disco anterior, o forte Selvática (2015). As duas músicas (mais “Temperos Destruidores”) formam apenas um dos sabores do álbum, que também se desmancha em doçura.

“Eu não pensei num tema pra fazer um disco”, ela me conta em uma troca de áudios por WhatsApp. “Fiz as músicas, as letras e ao pensar no nome, achei que Desmanche representava muito, porque ele tem uma coisa tanto de guerrear, de ser agressivo, de ir pra cima e buscar as coisas, o desmanche do país, o desmanche de carro, o imperativo do verbo desmanchar, como também tem uma tranquilidade, um bailar na festa, um carnaval, tem as duas coisas. Eu não parti do nome Desmanche pra criar o disco, mas não tem um tema, são um monte de coisas misturadas. E feminista todo meu disco vai ser, porque eu sou.”

O disco foi criado a partir da tríade que montou com o guitarrista Régis Damasceno (guitarrista do Cidadão Instigado e coprodutor do disco, que vem se reinventando musicalmente de uma forma bem interessante nos últimos anos) e o percussionista Maurício Badê. “Eu faço as músicas partindo da percussão, que é o meu instrumento”, ela me explica. “Não tem muita ordem na hora de fazer melodia ou letra, mas o ritmo tá sempre por perto, mesmo que eu não esteja com o tambor ali, eu toco na mesa, no que tiver, sempre com uma coisa rítmica junto.”

Esse sim é o tema musical de Desmanche, um disco com tambores que pulsam pesados ou com delicadas texturas rítmicas que sustentam os devaneios – alguns deliciosos, outros ríspidos – de Karina. “Nos outros discos, desde que comecei minha carreira solo, mas nos discos isso não aparecia. Eu tirava a percussão quase que totalmente, usava esse material pra mostrar pra banda pra criar os arranjos, mas depois os tambores saíam. E nesse disco resolvi mostrar essa percussão, tirar a bateria, deixar só a percussão. Eu trouxe pra frente e prum lugar de importância uma coisa que sempre foi fundamental, mas que na hora de mostrar e botar na rua, não aparecia.” Além de Badê e Damasceno, o disco conta com participações de outros músicos, como Mestre Nico, Isaar, Sthe Araújo, Lenis Rino, Victor Vieira Branco, Bernardo Pacheco e Max B. O., este último – atual parceiro de vida de Karina – coautor da ótima “Filme de Terror”, um “quase bolero” como diz Karina, que conta com a participação do MC.

“No disco eu aproveitei mais isso, no show vai ter umas bases, mas sou eu e Maurício Badê fazendo percussão”, continua falando sobre o show, que estreia no Sesc Pinheiros no próximo dia 3 (mais informações aqui). “Antes de começar meu trabalho solo, eu sempre cantei tocando percussão, e depois eu descobri essa coisa de cantar sem tocar e descobrir coisas com a voz, que é bem diferente de cantar sem o tamborzão pendurado. Principalmente a alfaia, que eu gosto muito de tocar, que é um tambor de quase dez quilos. Muda muito. Toco mais no show, mas não toco todas as músicas, Maurício faz as percussões e Régis toca guitarra e baixo, enquanto Charles Tixier faz MPC e uma ou outra coisa de teclado.” Aproveitei a deixa do lançamento e pedi para que ela dissecasse-o faixa a faixa.

Desmanche, faixa a faixa

“Sangue Frio”
“Fala sobre extermínio de pessoas pelo exército brasileiro e polícias e como brasileiros que não morrem se colocam diante disso. Ela faz parte – junto com ‘A Casa Caiu’ e ‘Temperos Destruidores’ – do grupo de músicas do disco onde usei o peso dos tambores e levadas influenciadas por caboclinhos e toré, misturando com coco e viradas de maracatu de forma livre e sobreposta criando um tipo de punk rock de tambor.”

“Amora”
“A romântica defeituosa do disco.”

“Lama”
“Caminhada psicodélica de palavras e tambores por Recife, nos bairros de São José, Santo Antônio, Casa Amarela, Bomba do Hemetério. Festa, pesca, leveza, tensão, calor, memórias de carnaval, de dormir no asfalto esperando a hora de tocar na avenida Guararapes, os ônibus lotados das agremiações, escolas de samba, ursos.”

“Temperos Destruidores”
“Sobre os fins dos mundos, as justificativas falsas de guerra e os verdadeiros motivos, os assassinos legalizados que comandam as nações.”

“Nem Nada”
“Calma, mar, falta de pressa, desapego, descanso, esquecimento momentâneo dos gritos, uma zerada, por motivo de sobrevivência.”

“Chão de Estrelas”
“Baile, pista, globo, fumaças, bebidas, luzes.”

“Filme de Terror”
“De verdade só os filmes de terror. E o quase bolero e a rima viva de Max. B.O.”

“A Casa Caiu”
“Sobre latifúndio, ocupação, exploração desenfreada da terra e das pessoas, Brumadinho, revoluções e líderes delas em ação, MST, MTST, MSTC…

“Peixes Tranquilos”
“Jah love, coração transposto num rio que corre no leito original dele, águas mornas e tranquilas, Oxum, Yemanjá, lembranças de Os Sertões com o Teatro Oficina, um mapa no chão.

“Vida Boa é a do Atrasado”
“E quem dirá que não? Côco com Isaar e seu brilho cantando junto”

gabriel-thomaz-trio

“Eu fui jurado de um concurso musical em que o Supercordas concorria, quando ouvi a banda pela primeira vez. O prêmio era uma ajuda pra gravar um disco e acho que acabei ajudando a lançar alguma coisa deles por ter votado neles”, lembra Gabriel Thomaz, líder dos Autoramas, que usa o saudoso grupo psicodélico fluminense para lançar o primeiro registro de seu trio instrumental, Gabriel Thomaz Trio. O grupo começa a mostrar o disco de estreia, batizado de Babababa, que será lançado no dia 6 de setembro, com uma versão sem vocal para o hit indie “Ruradélica”, que na versão surf do trio de Gabriel vai à praia só até a beirinha pra ficar curtindo a brisa e o barulho das ondas.

“A melodia de ‘Ruradélica’ me pegou de jeito e assoviei essa música por anos e anos”, continua Gabriel. “Sempre a achei extremamente pop – e pop pra mim é um dos maiores elogios. Com essa versão tiramos ela do mato e trouxemos pra morar aqui com a gente na decoração space age”, diverte-se o guitarrista, que lidera o trio ao lado de Jairo Fajer (baixo) e Bruno Peras (bateria). Babababa será lançado no dia 6 de setembro.

gabriel-thomaz-trio-ruradelica

metronomy

O grupo inglês Metronomy, liderado por Joseph Mount, lança mais um single de seu próximo disco, Metronomy Forever, que será lançado em setembro. “Walking in the Dark” segue o tom melancólico do single anterior (“Salted Caramel Ice Cream”), mas difere de “Lately“, que o grupo lançou no semestre passado – dando o tom variado do novo disco.

O disco, que sairá dia 13 de setembro, já está em pré-venda e seguem abaixo sua capa e a relação das (dezoito!) faixas:

metronomy-forever

“Wedding”
“Whitsand Bay”
“Insecurity”
“Salted Caramel Ice Cream”
“Driving”
“Lately”
“Lying Now”
“Forever Is A Long Time”
“The Light”
“Sex Emoji”
“Walking In The Dark”
“Insecure”
“Miracle Rooftop”
“Upset My Girlfriend”
“Wedding Bells”
“Lately (Going Spare)”
“Ur Mixtape”

westworld3

De tudo que foi mostrado na Comic Con deste ano – fase 4 da Marvel completa, inclusive -, o que mais me deixou salivando foi o trailer da terceira temporada de Westworld…

…que pelo visto se passa no mundo real, fora dos parques temáticos, e coloca Dolores para conhecer outros humanos, bem diferentes dos superricos que frequentam aquele universo fake e que a fez odiar nossa espécie. Guiada por um novo personagem, vivido pelo Aaron Paul de Breaking Bad, a nova temporada parece sugerir uma nova empatia dos robôs com os humanos, só que com a classe operária. E, de relance, ainda vislumbramos um novo parque temático inspirado na Segunda Guerra Mundial. Pena que temos que esperar mais um ano ainda…

jamc

“A mistura de música pop com barulho e o jeito esculhambado com que se comportaram ao longo dos anos, de não se levarem muito a sério, o sarcasmo das letras… É a soma quase perfeita de elementos pra construir a imagem e a estética de uma banda de rock. Em uma entrevista à revista Bizz, em 1990, falando sobre o irmão William, o Jim Reid disse algo como ‘ele sabe como tocar guitarra da maneira errada’. E eu acho que o rock, em essência, é exatamente isso, tocar guitarra da maneira errada”.

Assim Filipe Albuquerque, um dos donos da novíssima editora Sapopemba, explica o motivo de escolher Barbed Wire Kisses – A história do Jesus and Mary Chain, da jornalista inglesa Zoë Howe, para inaugurar o catálogo de sua empreitada. Fundada com o sócio Mauro Albano (o nome por trás das clássicas fotonovelas Wagner & Beethoven), a editora surgiu da vontade dos dois de lançarem livros que gostariam de ler. “O nome vem da tentativa de fugir dos nomes em inglês, por ser um nome de um bairro tradicional de São Paulo – nós dois somos paulistanos – que é bastante sonoro e gráfico. A linha editorial é esse universo meio indefinido da cultura pop e do comportamento, em que a música é talvez o principal elemento.”

“Sempre gostei muito de biografias e a do Jesus and Mary Chain era uma que eu sabia que seria das mais legais de se ler. Quando fiquei sabendo do lançamento do livro da Zoë Howe, em 2014, encomendei com uma amiga que estava de viagem aos EUA e, enquanto lia, tive a ideia de tentar comprar os direitos autorais”, lembra Filipe. “Entre pensar nisso e comprar os direitos de fato foram quase três anos. Mas pensei em começar pelo livro por ser um tema familiar, já que eu sempre gostei da banda, desde a primeira vez que ouvi/vi “Just Like Honey”, entre 85, 86, provavelmente no Som Pop, do Kid Vinil. Tenho os discos, fui a dois dos três shows que fizeram em São Paulo – no Terra e no Festival Cultura Inglesa. Achei que conhecer o tema do livro e o universo em que a história da banda se passa ajudaria a errar menos considerando que era algo que a gente estava fazendo pela primeira vez.”

A Sapopemba no entanto faz mistério sobre seus próximos lançamentos. “Há um outro livro já sendo trabalhado, mas sobre esse eu não posso adiantar praticamente nada”, esconde Filipe, não sem antes deixar de dizer que o trabalho mais conhecido de seu sócio deve sair da internet. “Existe a ideia de, no ano que vem, lançar uma coletânea com o melhor de Wagner & Beethoven, e seguir com títulos na área da música e cultura pop. Acho que existe uma trilha boa a seguir por aí.” Barbed Wire Kisses (que já está à venda na Amazon)foi lançado pegando carona na quarta vinda do grupo para o país, no mês passado, e a editora cedeu um trecho de um dos capítulos para publicar no Trabalho Sujo, que conta o momento em que o grupo começa a preocupar a cena inglesa, no histórico e tumultuado show na North London Polytechnic, no dia 15 de março de 1985:

jesus-and-mary-chain-barbed-wire-kisses

Os ingressos para o show seguinte, no North London Polytechnic, esgotaram-se rapidamente. O show seria no dia 15 de março, o famoso “ides of March” [nos idos de março, no meio do mês], quando o profeta alertou o imperador romano Júlio César para que tomasse cuidado. A situação do Jesus and Mary Chain não foi tão dramática quanto a do imperador Júlio César no “ides of March”, mas foi uma noite e tanto. O número de fãs da banda crescia dia a dia, e naquela noite, quando Neil Taylor entrou no North London Polytechnic, na Holloway Road, o sentimento dominante era, nas palavras dele: “A besta cresceu demais”.

Os companheiros de Creation, Jasmine Minks e Meat Whiplash, abririam o show. Adam Sanderson, líder dos Jasmines, já antecipava os problemas, para grande surpresa da atração principal da noite. Bobby Gillespie contou: “Na passagem de som, o Adam me disse: ‘Olha!’. Ele abriu a mochila e mostrou um martelo. Perguntei: ‘Por que você trouxe isso?’ Ele respondeu: ‘Esta noite vai ter confusão’”.

“Ele morava em um squat em King’s Cross e deve ter ouvido alguma coisa. Ele me disse: ‘Cara, ‘tô pronto para o que der e vier. Se algum filho da puta vier pra cima de mim, estouro a cabeça dele!’ Só pensei: ‘Aí é um pouco demais, que pretensioso’.”

O local já estava lotado, mas, quando o Jesus and Mary Chain definhava no camarim, bebendo com toda a determinação, a porta foi escancarada. “Alguém disse: ‘Tem centenas de pessoas na rua, sem conseguir entrar’”, contou Gillespie. “O Douglas e eu abrimos as portas de emergência pra aquela gente. Foi uma atitude punk: entra todo mundo!”

O Meat Whiplash, garotos de East Kilbride fazendo o primeiro show em Londres, subiu ao palco e foi imediatamente atingido por um míssil. Quando os Jasmine Minks entraram, o vocalista-líder arremessou uma garrafa de vinho no público. “Provavelmente não foi uma boa forma de começar”, observou Neil Taylor.

Quando o Jesus and Mary Chain entrou no palco, a atmosfera já estava bem carregada. Por um momento, o rumor anárquico foi abafado por um som puro, lembrou o engenheiro de som do Mary Chain, David Evans, ex-Biff Bang Pow!: “A intenção da banda não era chamar a atenção do público com aquilo, mas fizeram uma microfonia ensurdecedora, deixando todo mundo num enorme estado de excitação, mas também certa frustração, esperando pela próxima música, como se uma música tivesse começado e sido interrompida, pra começar de novo em seguida. Foi um momento muito especial”. Os fãs ficaram eletrizados com a apresentação no North London Poly. Um deles, perguntado por um jornalista de TV por que gostava do Mary Chain, respondeu simplesmente: “Fazem bastante barulho”.

Bobby Gillespie disse: “Toda noite era diferente, sem roteiro. O William é um guitarrista virtuoso. Eu sempre tinha a guitarra dele no meu retorno. Ele começava com aqueles riffs e ia viajando, e aquilo me inspirava a tocar com mais energia. Eu me guiava por ele, atento ao que ele tocava. E, um dia, o Jim me disse que, quando me via ficando maluco, ficava maluco também”.

“O Bobby era o nosso motor”, disse Jim. “Se eu estivesse pensando: ‘Não estou entendendo como estão as coisas, onde é que isso vai dar?’, era só eu olhar em volta e veria o Bobby com um sorriso radiante na cara. Aí eu pensava: ‘Isso está ficando bom demais’.”

Naquela noite, no North London Poly, o público era uma mistura de devotos do Jesus and Mary Chain, pessoas curiosas com aquele fenômeno e uma significativa parcela de encrenqueiros. “Com certeza”, disse Neil Taylor, “o que aconteceu foi um setlist muito curto, falação exagerada, a bebedeira de sempre, as quedas em cima de tudo, as quedas do palco… Então as pessoas ou quiseram mais ou pensaram ‘O.k., esse é o sinal pra gente começar o bom e velho furdunço e partir pra porrada’.”

Alan McGee e David Evans insistem que, honestamente, não esperavam que as coisas saíssem do controle e ficassem violentas como ficaram. Certamente não pensaram que a própria segurança seria colocada em risco. O equipamento, como geralmente acontecia nos shows do Jesus and Mary Chain, ficou à disposição: chutes nas caixas de som e quebradeira – a diferença é que dessa vez os fãs é que se encarregaram, e não Jim Reid. Dessa vez, isso não fazia parte do show, embora os envolvidos não tivessem dúvida de que fazia parte da energia violenta e do barulho que tinham sido desencadeados pela banda.

Bobby Gillespie viu, com o bom humor de sempre, o recrudescimento do tumulto, que começou antes que a banda deixasse o palco. “As pessoas estavam jogando coisas na gente, e eu joguei os tambores nelas. Não senti medo nenhum. Ei, North London Poly, eu estava adorando aquilo!”

Joe Foster, que era professor do Poly naquele tempo, ficou horrorizado com o que se desenrolava, principalmente quando viu que alguns estudantes corpulentos tinham conseguido puxar Jim do palco. “Foi bizarro, um caos, horrível”, lembrou ele. “Sendo – como eu posso dizer – um idiota, mergulhei no meio do povo e agarrei o Jim. Tentamos voltar pro palco, mas aí um dos estudantes fortões decidiu que devia nos pegar. E nós, tipo: ‘O.k., então você acha que vai nos dar uns belos chutes na bunda com sua perna musculosa de jogador de rúgbi? Não vai, não!’” Joe Foster foi demitido no dia seguinte por causa da ligação com o Jesus and Mary Chain.

McGee também ficou horrorizado com o caos e também não demorou muito para se jogar no meio da briga.

Enquanto mais policiais chegavam, o que serviu para colocar mais lenha na fogueira, a banda escapou para a segurança do camarim e lá ficou escondida, porque uma horda correu atrás dela. “Começaram a bater na porta com extintores de incêndio”, contou Douglas. “Parou de ser engraçado, virou uma brutalidade.”

A lembrança de Bobby Gillespie é um pouco diferente. Ele estava entusiasmado com o perigo que sua presença parecia ter desencadeado. “Quando o McGee veio e disse: ‘Estão tentando entrar no camarim’, eu pensei: ‘Que demais!’ Eu queria mexer com o máximo de pessoas possível. Tinha esperado a vida inteira para estar no olho do furacão, porra!”

Quando a situação se acalmou e o local ficou tranquilo, a banda emergiu para dar uma entrevista, parecendo totalmente calma. Talvez os caras estivessem só disfarçando magistralmente a própria aflição, e isso só podemos cogitar, mas seu jeito blasé certamente foi convincente.

Durante a entrevista, Jim foi categórico ao responder às acusações de que as guitarras estavam desafinadas, explicando que a guitarra de William estava perfeitamente afinada, mas a dele não, porque essa servia “para ser chutada”. Sem evitar alguns palavrões, Douglas respondeu suavemente à inevitável pergunta sobre seu baixo Gibson de duas cordas, explicando ao jornalista que aquelas eram as únicas duas cordas que usava, então por que se incomodaria em comprar as outras duas? Jim acrescentou que “o cara ficaria atrapalhado se tivesse que lidar com mais cordas”. O jornalista perguntou como eles se sentiam ao serem descritos, muitas vezes, como a melhor e a pior banda do hemisfério ocidental. Depois de uma pausa contemplativa, William respondeu: “Minha cor favorita é dourada”. Para um grupo de jovens supostamente sociopatas, sabiam dar boas declarações.

“Assisti a algumas dessas gravações recentemente”, disse Gillespie. “Só estávamos tentando parecer cool. No fim, estou sentado no palco e digo: ‘Só quero que as pessoas escutem a música. Ouça a si mesmo! Quem você pensa que é?’ Não parecemos muito assustados naquela filmagem, não é? Estamos é muito arrogantes.”

Enquanto a entrevista rolava, Neil Taylor já estava no telefone com a NME, e a lenda do show do North London Poly já estava sacramentada. “Acho que faltavam uns dois dias pra imprimir, mas derrubaram qualquer que fosse a matéria que ia na página três e colocaram essa. Sempre fico irritado quando me lembro disso, porque o subeditor fez a seguinte chamada: ‘Tumulto Jesus and Mary Chain’. Eu não disse que tinha sido um tumulto, ainda que tenha sido quase isso. Houve cenas violentas. Aí a banda saiu dizendo ‘Não foi um tumulto, foi aquele cara da NME que disse isso’ ou alguma coisa assim, e é por isso que sempre volto a falar nesse assunto.”

William insiste que nunca houve nenhum “tumulto” de verdade, apenas “um palhaço, que pensou que era o Rambo, sapateando na mesa de som”. Ainda assim, não importa o quanto minimizassem, a quantidade crescente de confusões em seus shows estava se tornando uma preocupação, não apenas do ponto de vista da segurança pessoal, mas porque violência significava o oposto do que o Jesus and Mary Chain realmente era. “Odeio isso”, disse William na época. “Estamos tentando nos mostrar como uma banda séria, e não um tipo de banda Oi!, como o Cockney Rejects.”

No dia seguinte ao fiasco no North London Poly, McGee e a banda foram para a Alemanha, para uma apresentação na TV. “Foi tudo bem, um pouco de paz”, disse McGee. Naturalmente, a imprensa já queria informações sobre as loucuras da noite anterior, mas McGee colocou seus verdadeiros sentimentos de lado, em uma tentativa de dar uma declaração fria e ao estilo Malcolm McLaren: “O público não destruiu o local, destruiu a música pop… Foi realmente arte usada como terrorismo”. Os Situacionistas teriam adorado.

“Na verdade, não foi uma boa declaração”, disse ele na entrevista para esta biografia. “Ficou meio esquisita e, depois daquele ponto, ficou parecendo ingênua. Eu achava que todo mundo percebia que a gente estava brincando, mas de repente as pessoas estavam destruindo coisas e não tinha mais graça. Ainda que a maior parte fosse nossa responsabilidade, quer dizer, a ‘arte como terrorismo’ etc., a verdade é que acabamos ficando: ‘Que porra está acontecendo aqui?’”

daveberman2019

Boa a hora em que o Dago (valeu!) me lembrou que o Dave Berman estava de volta com disco novo, anunciado no fim do ano passado, com o novo nome artístico de Purple Mountains. E como os singles iniciais (“All My Happiness is Gone” e “Darkness and Cold“) já vinham mostrando, é reconfortante encontrar o criador do movimento poético Nova Abertura que inventou no lançamento do clássico American Water de seu grupo Silver Jews, continua em ótima forma (mesmo que alguns teclados fuleiros sobrem em algumas faixas), depois de mais de dez anos sem gravar nada.

purplemountains

Discaço.

dialogando

Fui convidado pela Bia Fiorotto para participar do podcast Dialogando sobre a relação do trabalho com a tecnologia, ao lado do Cris Dias, do Boa Noite Internet – segue a conversa abaixo.

Listen to “#010 – Podcast Dialogando – Como a tecnologia mudou o trabalho?” on Spreaker.

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É disso que as lendas são feitas: os poucos registros em vídeo do Velvet Underground em sua breve existência ajudam a aumentar a aura que o torna uma das bandas mais importantes dos últimos cinquenta anos. Por isso é sempre motivo para comemorar quando surge algum trecho da banda em vídeo – e foi o que acabou de acontecer nos Estados Unidos, quando, ao digitalizar parte do acervo da Southern Methodist University, em Dallas, foram descobertas imagens do grupo ao vivo – e a cores – em um show em 1969.

Os registros trazem a banda em sua formação final, com Doug Yule substituindo John Cale. Mas três de seus pilares iniciais estão lá: o cantor e compositor Lou Reed, o guitarrista Sterling Morrison e a baterista Maureen “Mo” Tucker. A banda foi chamada para participar do Dallas Peace Day, um protesto contra a guerra do Vietnã realizado no dia 15 de outubro daquele ano e, infelizmente, a maior parte dos registros não tem som. Os que tem mostram a banda tocando “I’m Waiting for the Man”, “Beginning to See the Light” e “I’m Set Free” e uma entrevista com Sterling Morrison. Mas só de ter imagens em movimento e a cores da banda já é um achado e tanto, saca só:

Velvet_Underground_Dallas_Peace_1969

Vi no Dangerous Minds.

manoel-magalhaes-centro-da-terra

O cantor e compositor carioca Manoel Magalhães fala sobre o espetáculo Consertos em Geral, inspirado em seu ótimo disco de mesmo nome que chega ao Centro da Terra neste dia 9 de julho. “Mais do que reproduzir o disco de uma forma fiel, tentei readaptar pra que a minha trajetória soasse como uma ode ao ofício de fazer canção”, me explicou em entrevista antes do show, que também trará músicas de suas bandas anteriores – como Polar e Harmada -, além de uma homenagem a João Gilberto provocada por este que vos escreve (mais informações aqui). Conversei com o Manoel sobre esta apresentação.

joaogilberto2008

Apesar de inevitável, a notícia da morte de João Gilberto veio como uma pedra no peito – doeu fundo. Ele é o maior nome da música brasileira e talvez o maior de nossa cultura, um autor que inventou um Brasil em que vivemos até hoje, Brasil que infelizmente vemos se despedaçar no momento de sua morte. Pude vê-lo em uma de suas últimas apresentações (obrigado mais uma vez Lillian), no dia 14 de agosto de 2008, no Auditório Ibirapuera, num show perfeito, em que ele visitou minha parte favorita de seu repertório (seus três primeiros discos). Temendo ser flagrado filmando e comprometer aquele contato supremo, liguei a câmera apenas no final, registrando sua despedida.

Mal sabia que estava vendo o primeiro de sua última série de shows. Ele faria mais um show no dia seguinte em São Paulo, no dia 24 no Rio de Janeiro e no dia 5 de setembro, em Salvador. Mal sabia que estava me despedindo de um dos meus maiores ídolos. Obrigado, João.