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O cantor e compositor escocês Badly Drawn Boy volta a dar as caras depois de sete anos sem lançar discos novos – e com um ótimo single, “Is This a Dream?”.

Tem lá seu lamento nostálgico desnecessário que paira sobre a faixa (e, claro, ecoa com grande parte dos velhos fãs), mas a doçura da melodia é superior a isso.

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2020 começou à toda e eu falei com o programa Metrópolis da TV Cultura sobre alguns dos discos esperados para o ano

vovobebe2020

Mais um sinal de vida do jovem PDC, que lançou o primeiro single (“Briga de Família“) de seu novo disco aqui no Trabalho Sujo, e agora ressurge com a regravação de “Êxodo”, que havia gravado em seu álbum anterior, Coração Cabeção, e que desta vez ressurge com o auxílio luxuoso da parceira Ana Frango Elétrico.

Compare a nova versão, que estará no disco que ele lança ainda no início deste 2020, com a do disco que lançou em 2017.

O grupo BaianaSystem dá as boas vindas a 2020 com mais uma parceria com a dupla conterrânea Antonio Carlos e Jocafi, um dos principais convidados de seu ótimo disco mais recente, O Futuro Não Demora, um dos melhores discos do ano passado. “Miçanga” já vinha sendo cantarolada por Russo Passapusso nos shows mais recentes da banda, mas agora, isolada e com uma espinha dorsal própria – e produção de Daniel Ganjaman -, a faixa ganha um tempero latino e uma malemolência que segue o clima pé no chão do disco de 2019, feita sob encomenda para a trilha sonora do filme moçambicano do diretor João Ribeiro Avó Dezanove e o Segredo do Soviético, baseado no livro do autor angolano Ondjaki.

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A menina-prodígio do ano passado começa o novo recuperando a deliciosa balada “Everything I Wanted” com a qual encerrou 2019. A novidade é que ela desta vez dirige o clipe (e o carro que o protagoniza) da canção dedicada a seu irmão, Finneas, melhor amigo e um de seus principais colaboradores. “Finneas é meu irmão e meu melhor amigo. Não importa as circustâncias, sempre estaremos lá um para o outro”, escreve logo no início do clipe.

Achei fofo.

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Outra grande estrela de 2019, Rosalía passou o ano passado colhendo a boa safra que surgiu a partir de seu disco de 2018, o ótimo El Mal Querer, e já entra em 2020 disposta a não deixar ninguém recuperar o fôlego. No novo single “Juro Que” ela segue fundindo passado e futuro de seu ponto de vista espanhol, fazendo o mínimo de concessão possível (legendas) ao inglês.

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O humor inglês fica um tanto sem graça com a partida do lendário Monty Python Terry Jones.

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Ninguém esperava por essa: o Radiohead acaba de lançar sua própria biblioteca pública, mastigando todo seu conteúdo online de bandeja para os fãs. E não estou falando só de discos e clipes – o grupo reuniu num mesmo acervo online inúmeros shows, produtos de marketing e camisetas de diferentes fases (que começarão a ser vendidas online no dia 4 de fevereiro), gravações raras, entrevistas e conteúdo digital que criaram nestas décadas de atividade, como os curtas da série The Most Gigantic Lying Mouth of All Time, o disco de remixes e o aplicativo que fizeram para o disco The King of Limbs, transmissões feitas pela internet e um acervo digital para seus próprios sites, labirintos online que faziam os fãs se perder semanas online antes do lançamento de novos discos.

“O Radiohead.com sempre foi irritantemente desinformativo e imprevisível”, disseram em suas redes sociais ao anunciar a biblioteca, “agora nós, de forma previsível, o tornamos incrivelmente informativo”. O Radiohead foi a banda que melhor soube utilizar a internet para divulgar seu trabalho, avançando diferentes fases de sua carreira pelas fronteiras digitais conhecidas, moldando-se às mudanças que aconteciam na internet. Desde os boatos que Kid A teria sido vazado na internet três meses antes de seu lançamento pela própria banda até o lançamento repentino de In Rainbows, que permitia que o público baixasse o disco pagando o preço que quisesse (inclusive nada), passando por apagões em mídias sociais e um disco distribuído via torrent. A biblioteca vem consolidar esta vanguarda do grupo, organizando sua história de forma didática e cutucando essa época bizarra que vivemos ao levantar as bandeiras da biblioteca – numa época em que o estudo e o intelectualismo parece que são falhas de caráter -, da gratuidade – você tem todo o conteúdo livre para desfrutar, sem pagar nada – e do serviço público. O site ainda permite que se crie uma carteira intransferível de sócio da biblioteca – muito foda. Já fez a sua? Faça aqui.

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Se você não viu O Barato de Iacanga, documentário sobre as mitológicas edições do maior festival hippie que já aconteceu no Brasil, pare tudo que está fazendo e assista agora – tem no Netflix, corre enquanto é tempo. Mas se você já assistiu ao filme, sabe que um dos pontos máximos é a inesperada e antológica participação de João Gilberto na terceira edição do Festival de Águas Claras, que o maior nome da história da música brasileira considerava um de seus melhores shows. O mais legal é descobrir que esse show está inteirinho no YouTube, aumenta o volume…

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Rastilho, segundo disco solo de Kiko Dinucci, é uma bordoada sonora, seja na forma que ele desce a mão no violão, seja no canto triste que entoa mensagens diretas, muitas vezes mesmo sem letra. Resgatando o jeito rude e ríspido de tocar o instrumento que o consagrou nos primeiros discos do Metá Metá e do Passo Torto, ele agora o isola para ser ouvido sem nenhum outro acompanhamento senão as melodias vocais. Acústico e pesado, Rastilho transforma o violão de Kiko em uma arma de fogo verbal, disparando canções que atravessam o coração – de diferentes formas. São lamentos instrumentais (“Exu Odara”) e cantos de terreiro (“Olodé”, “Foi Batendo o Pé Na Terra”), crônicas de quebrada (“Febre de Rato” e “Veneno”, com Ogi, quando o rapper e cantora Juçara Marçal se engalfinham numa introdução à Tom Zé) e sambas de roda (“Foi Batendo o Pé Na Terra”, “Tambú e Candongueiro” que já havia gravado com o Grupo Afromacarrônico, “Vida Mansa”, eternizada por Cyro Monteiro), quase sempre acompanhado pelo luxuoso coro feminino composto por Dulce Monteiro, Maraísa, Gracinha Menezes e pela própria Juçara. Rastilho até cria um gênero novo ao misturar a sonoridade de filmes de velho oeste à rispidez do agreste nordestino (“Marquito”, o duelo de gritos, sussurros e rosnados entre Kiko e Ava Rocha em “Dadá” ou o vôo noturno de Juçara em “Gaba”) O ponto central do disco é sua última faixa, que batiza o disco e sintetiza as duas naturezas de seu título – a peça do violão e o pavio da pólvora -, que acaba solta um pesado presságio sobre o Brasil de 2020: “Vamos explodir”, seja lá o quê. Vamos. Ah vamos.

“Queima
Deixa arder
Virar cinza
Fumaça
A praça derreteu
A noite não findou
O temporal mal começou
Deixa o sol nascer
Quando ele quiser
A lava escorrer até o último sinal de vida
Abraçado à morte sem saber
O moribundos dançam
As moscas já nos cobrem
Ninguém pode parar
Nem fé, amor ou sorte
Vamos explodir”