Depois de anos trabalhando como produtor eletrônico solitário, o ex-baixista do Defalla, foi aos poucos integrando amigos e conhecidos à execução de suas músicas, culminando com seu disco mais recente, Rocks (2013), quando montou diferentes grupos a partir de vários músicos no estúdio. Desta vez ele resolveu assumir de vez a natureza de banda no processo criativo e anuncia o lançamento de Mundo Novo, um disco em que também divide as canções com o mesmo grupo de músicos, batizado de Flu & Amigos: “O Marcelo Fornazier é meu parceiro musical desde o tempo do Defalla em 1992, nos entendemos bastante musicalmente. O Luciano Ganja entrou no século 21 pra turma e já é honorário. O mais novo é o Cláudio Calcanhoto que apesar de sermos amigos dos anos 80 nunca tinha chamado ele pra turma”, me explica o músico e produtor gaúcho por email, lançando o primeiro single deste disco, a singela e pesada “Porco”, em primeira mão no Trabalho Sujo. “Apesar de muita coisa ter feito sozinho rabiscando nuns brinquedinhos eletrônicos, o resultado final é criação de banda. Por isso resolvi virar banda e não mais artista solo. Eu mostro as bagunças e bagunçamos juntos pra dar um resultado final!”, ele continua.
Ele explica a escolha da música de apresentação do novo disco: “Desde que a gente começou a tocar eu via um grito de porco no riff de guitarra. Daí colocamos de brincadeira e foi ficando. Mas é aquele porco de quadrinhos, tipo o que o Max Sieber desenhou mesmo. Mundo divertido e infantil As crianças são muito espertas e sagazes”, ele explica, se referindo à capa do single, feita pelo filho do amigo Allan Sieber, Max Sieber.
“A sonoridade vai ser bastante variada”, ele prossegue, dizendo que ainda está fechando os arranjos finais. “Mas certo que vai ser mistura de locurinhas eletrônicas com riffs de guitarras, mais alguns rocks e umas de viola. A ideia de mundo novo é a de que tudo pode. Então vamos meter bronca nessa liberdade de criação!” O título do disco veio de uma região perto de Maquiné, no Rio Grande do Sul, onde ele passou um tempo longe da cidade. “O mato nos dá força e nos mostra que somos mais poderosos que a gente imagina”, ele se empolga, “É um olhar mais maluco sobre tudo, sem medos e receios desse momento fascista.”
Ele tem outros amigos em vista para agregar ao grupo inicial. “Além da banda base, por enquanto, chamei o amigo Diego Medina, que foi da banda Video Hits, baita artista. O Gabriel Guedes, do Pata de Elefante e Cumbia Negra, que fez o solo final do próximo single. Ainda conversando com o Paulo Beto pra desenvolver uma parceria que tinha começado com o Miranda e precisa de muitos ajustes”, ele explica, falando que está armando a vinda para São Paulo em um show na Casa do Mancha, em São Paulo. “Ao vivo sempre é bem rock. As firulas eletrônicas se transformam em riffs de guitarras e fica bem pesado!”, conclui.
Aproveitando o show desta sexta-feira, pedi para o Paulo Beto, o mentor do Anvil Fx e amigo de Marcelo Dolabela, que será homenageado neste show, para que ele escrevesse sobre a importância do escritor e poeta, que morreu no mês passado:
Sou muito ruim de datas, mas foi ou em 2016 ou no início de 2017, que tive a felicidade de encontrar o Marcelo tomando uma cervejinha num bar em plena Avenida Paulista. Ele me viu e me gritou. Estava acompanhado de sua adorável Regina. Conversamos um pouco, mas foi rápido. Ele me disse que ia passar uns dias e trocamos contato pra nos ver mais e bater um pouco de perna em SP.
Acho q ele já sabia que eu tinha incorporado no meu repertório ao vivo uma versão de “Aqui Aqui” do Divergência Socialista. Eu disse que ele precisava conhecer a Bibiana Graeff, vocalista da minha banda, e uma noite acabou rolando. Ele se encantou bastante com ela, até porque ela já era bastante fã de sua poesia. Nesse período dele aqui, me mandou um email com duas poesias que ele havia escrito num tempo ocioso no hotel. Me enviou a seguinte mensagem:
“Paulo Beto
bom dia
quarta-feira, como estava livre, fiquei em casa.
ouvi várias vezes a demo-tape sua e da Biba.
ela está ótima.
de tanto ouvi-la, rabisquei estes dois esboços de letras.
se servirem, usem.As lágrimas vermelhas de Olga B. (tanka # 2016A)
A cara desta fera é a usura
a peste desta festa infesta
a cura deste vício é a fúria
A besta saiu da floresta
a procura é o que nos resta
A cara desta fera é a usura
a peste desta festa infesta
a cura deste vício é a fúria
A besta saiu da floresta
a cultura é o que nos resta
A cara desta fera é a usura
a peste desta festa infesta
a cura deste vício é a fúria
A besta saiu da floresta
a loucura é o que nos resta
*
Louise Brooks voltou a sorrir
A máquina de tua maquiagem
o sexo: anexo? Convexo?
a brita que te faz tão bonita
na grata
greta
grita
grota
gruta
quem escuta tua imagem?
quem vê tua luta na paisagem?
quem lê tua bruta mensagem?”
Eu fiquei absolutamente chocado com a qualidade e conteúdo do material. E num email seguinte ele me disse:
“são duas, mas podem virar uma letra só.
o mote é o mesmo.
beleza (Louise Brooks) + verdade (Olga Benário) + realidade (Brasil-Hoje).
como disseram os românticos alemães: ‘a beleza é a única verdade / a verdade é a única beleza’.”Fora esse texto ele me enviou livros e impressos e me incentivou a experimentar música com seus poemas.
Com grande amor à obra desse poeta fascinante, que com sua atitude/poema/punk fez minha cabeça explodir no único show que vi de sua banda em 1988 no DCE da UFJF de Juiz de Fora, e desde então Divergência se tornou pra mim uma influência fundamental.Em sua carreira, Dolabela publicou mais de 30 livros. Entre eles, o ABZ do Rock Brasileiro, considerado a principal referência enciclopédica do rock nacional até a década de 2000. Ele ainda é o autor de Radicais e Adeus, América, que chegou a virar filme sob direção de Patricia Moran.
Estudioso, colecionador e influenciador de várias gerações da música underground de Belo Horizonte, Marcelo Dolabela fundou, em 1983, o Divergência Socialista, banda pilar da cena alternativa da capital mineira. A partir dela várias outras nasceram, dividindo os mesmos integrantes e ensaiando no mesmo espaço, como o Sexo Explícito, R Mutt, Ida e os Voltas, O grande Ah!, entre outras, e anos mais tarde o Pato Fu e o Tetine. “A gente meio que orbitava em torno do Marcelo. É mestre de muitos outros, de outras gerações”, publicou Ulhoa em uma rede social.
Em sua carreira como roteirista, assinou o texto do curta-metragem Uakti: Oficina Instrumental, do cineasta Rafael Conde, que faturou os prêmios de melhor filme e melhor montagem no Festival de Gramado de 1987. O artista também é responsável pelos roteiros dos filmes Arnaldo Batista: Maldito Popular Brasileiro e Adeus, América, ambos de Patrícia Moran.
Fará muita falta esse grande Mestre agredador e professor da arte inconformista, vanguardista e provocadora.
Seu conhecimento precisa ser perpetuado e difundido, porque durante décadas lá esteve ele acumulando, observando, ensinando e principalmente pensando muito a respeito do rock, do pop, da arte e da poesia.
Que se mantenha acesa a luz e o fogo de Marcelo Dolabela.
O jornal Nexo fez uma reportagem sobre a renascença de “Sujeito de Sorte”, de Belchior (que é a base de “Amarelo” de Emicida e está no disco Acorda Amor, na voz da Letrux) e pediu meus comentários, além de falar com o biógrafo do cantor cearense Jotabê Medeiros e com a jornalista Kamille Viola, sobre o assunto – confere lá.
Em entrevista dada ao Le Monde Diplomatique Brasil no começo do ano, nosso melhor ministro da cultura Gilberto Gil fala sobre a política de verdade do século 21.
O mestre haitiano-canadense Kaytranada lança a versão em vídeo para uma das melhores músicas de 2019, “10%”, sua parceria com a irresistível cantora colombiana Kali Uchis.
Pra sair deslizando na pista…
O Coronel Dax em Glória Feita de Sangue, o Van Gogh em Sede de Viver, o personagem-título de Spartacus… Kirk Douglas, que morreu nesta quarta depois de 103 anos bem-vividos, atuou vivendo homens de personalidade forte ou, como ele mesmo dizia, “fiz minha carreira interpretando filhos da puta”, mas meu filme favorito com ele é um de seus primeiros sucessos, quando vive o escrotaço Chuck Tatum no imortal A Montanha dos Sete Abutres (1951), um marco no cinema dirigido por Billy Wylder por retratar o jornalismo de forma crua e sem floreios, funcionando como um dos grandes marcos da história do cinema (ao lado de pelo menos O Homem que Matou o Facínora). E Kirk está ótimo!
Tô falando pra ficar de olho na carreira solo da vocalista do Paramore, Hayley Williams… Saca essa versão que ela fez pra ótima “Don’t Start Now” da Dua Lipa num programa da BBC.
Conforme já havia sido especulado no Twitter nesta quarta, a partir dos tweets da Popload e do Flesch, o grupo Wu-Tang Clan apresenta-se pela primeira vez no Brasil, no dia 8 de abril, no Espaço das Américas com a formação completa, tocando o clássico Enter the Wu-Tang (36 Chambers), que completa um quarto de século agora (confirmado agora pelo próprio Lucio).
“Ao meu redor só se fala em fase de transição”, desabafa o cantor e compositor capixaba Juliano Gauche, quando lhe pergunto sobre a inspiração para seu novo trabalho, o EP Bombyx Mori, que ele antecipa em primeira mão para o Trabalho Sujo e que chega nessa sexta às plataformas digitais. “São tantas as mudanças necessárias que fica até difícil enumerar. acho que tudo que eu tenho lido, ouvido ou assistido, gira em torno disso. O Água Viva da Clarice Lispector foi uma rajada de inspiração; a literatura espírita, principalmente os livros do Chico Xavier, de onde tirei a expressão que dá título ao EP, foi outra rajada; a leveza de cantoras como a Alice Phoebe Lou, a YMA, a Angel Olsen, também. a inspiração, de uma forma geral, veio das necessidades de mudança mesmo”
Bombyx Mori é o nome científico do bicho da seda, escolhido a partir de uma aparição como metáfora na literatura espírita, que havia embarcado. “Mas não foi só o que ele significa que me prendeu. Foi como apareceu no momento da leitura, a grafia da palavra, bomb, byx, y x, muito moderna, minha cabeça pop também olha essas coisas. Eu ainda nem tinha escrito as músicas, mas quando olhei essas palavras eu disse, vai ser isso.”
Bombyx Mori começa com um trovão que é antônimo de toda sua leveza musical. Gravado ao lado dos compadres Kaneo Ramos (violão), Klaus Sena (synth) e Marcos Vitoriano (piano), ele soa acústico e delicado, radicalmente oposto do elétrico e pop (quase rock, como o trovão do início) Afastamento, o ótimo disco que lançou, em 2018. Mas sua matriz composicional segue firme o caminho que já vinha trilhando, afastando-se mais esteticamente do que em termos essenciais. Ele escolheu lançar as três canções juntas pois fazem parte de um mesmo arco artístico: “As três canções estão ali pra contar a mesma história, é bom que sejam ouvidas juntas, naquela ordem, elas pertencem ao mesmo corpo”, explica.
Mas a mudança também faz parte da essência deste trabalho. “Ela só me faz crescer, é assim que eu sinto. Num momento em que o conservadorismo quer voltar com tudo, o simples fato de abraçar as mudanças passa a ser instinto de sobrevivência. Me parece o único movimento possível. Do jeito que as coisas estão é que não dá mais. E é claro que vale repetir que para as coisas mudarem nós temos que mudar. Gradativamente eu fui parando de comer carne, cortando o álcool, dormindo mais cedo, tentando me manter o mais forte possível. Politicamente, me sinto numa guerra desde 2013. E desde lá venho trabalhando nisso”, disseca.
A mudança também foi geográfica, quando mudou-se de volta para o Espírito Santo depois de uma temporada em São Paulo. “Sair um pouco de São Paulo faz parte de todas essas transformações que estou falando”, explica. “A repetição é um inferno, estou tentando me movimentar o máximo que posso, internamente e geograficamente. Mas não consigo me ver desconectado de São Paulo mais não. Mesmo não estando ai, toda a vibração da cidade ainda está em mim. E ainda tenho feito tudo ai, como a gravação deste EP, por exemplo. Corro, corro, mas na hora H eu só penso em Sampa.”
O disco também não está só. “O EP é só mais um movimento. Tem dois livrinhos que escrevi enquanto compunha as músicas que também gostaria de lançar este ano”, antecipa.
E quando você menos espera, eles reaparecem! Desta vez a ressurreição é culpa da gravadora Nada Nada Discos, que depois de resgatar clássicos do underground brasileiro dos anos 80 como Replicantes, Olho Seco, Gang 90, Mercenárias e a coletânea Sub, agora volta-se para uma das bandas mais emblemáticas de nosso pós-punk. A Melhor Coisa Que Eu Fiz reúne canções inéditas e versões alternativas para clássicos do Fellini, retirados do acervo de seus integrantes. O disco, que será lançado em vinil, também trará fotos, flyers, textos, ilustrações e fac-símiles reunidos após dois anos de pesquisas. O disco já está pré-venda na versão digital (a versão física só começa a ser vendida em março) e também contará com uma versão ilimitada que vem numa caixa que reúne outros materiais da banda, como camiseta, pôster, botton, fita cassete e adesivos. A capa, a ordem das músicas e duas destas faixas chegam em primeira mão aqui no Trabalho Sujo (abaixo), bem como o anúncio de mais um show da banda no Brasil, o primeiro desde 2016, quando Cadão Volpato, Thomas Pappon, Jair Marcos e Ricardo Salvagni se reúnem mais uma vez, agora no palco do Sesc Pompeia, dia 6 de março (mais informações aqui).
“É Chato”
“A Melhor Coisa Que Eu Fiz”
“Eclipse”
“Premonição”
“Asno”
“Rio Vermelho”
“Longa Adolescência”
“Chico Buarque Song”
“Las Drogas”
“Cacto”
“O Destino”
“É Sério”
“Por Toda Parte”











