“Vixe, um monte de coisa, eu tinha a turnê de lançamento do Grandeza em Portugal e mais umas 40 datas entre abril e agosto na Europa”, lembra Sessa quando o pergunto sobre seus planos para esse ano que foram atropelados pela pandemia. Quarentenado em São Paulo, começou a trabalhar nos passos seguintes após seu disco de estreia, antecipando planos e lança em primeira mão no Trabalho Sujo o primeiro single após aquele disco, “Sereia Sentimental”.
“‘Sereia Sentimental’ é uma música que eu já vinha arranjando pensando num som novo pra um próximo trabalho, é um registro de um tatear no escuro por esse som”, me explica o músico paulistano por email. “As músicas do Grandeza ficam na minha cabeça muito ligadas ao jeito que eu fiz o disco, compondo e gravando tudo meio junto, misturado, entre turnês, em sessões curtas de um, dois dias. “Sereia Sentimental” eu fui pensando, fazendo com mais calma, aconteceu essa coisa de eu usar uma bateria numa música minha que é algo que eu nunca tinha feito antes, mas veio nesse processo de caçar um som, eu ficava ouvindo esse chimbauzinho sacana…”
A bossinha molenga foi gravada em plena quarentena num processo à distância com os outros músicos, o baterista d’O Terno Biel Basile e o baixista norte-americano Mikey Coulton. “Gravei as coisas em casa aqui na Consolação com a motos passando, ai mandei pro Biel botar a bateria em cima e depois pro Mikey botar o baixo e mixar em Nova York”, ele continua. “Confesso que foi um pouco esquisito, eu nunca tive muito tesão em tocar todos os instrumentos numa música, sabe? Pra mim gravar sempre foi uma coisa de botar um monte de gente junta no estúdio pra ver onde a coisa ia dar, na bagunça. Agora teve que ser diferente, mas foi legal também. ”
Sessa, como muitos, aproveita a quarentena para uma fase inevitavelmente mais introspectiva da vida. “Tenho tentado cuidar da casa, da comida, da cabeça, do corpo e das pessoas próximas. Dias melhores e dias piores, não é? Tenho também tomado cuidado pra não ficar me cobrando pra sair desse período com um disco escrito. Acho isso meio perigoso, encarar tudo o que está acontecendo, sem nem compreendermos direito o que isso é, já é uma tarefa entanto…”, divaga.
E quando pergunto sobre o que ele está achando deste período, ele vai além: “Bom, no Bolsonaristão, acho que sempre vale reiterar que esse período apresenta um problema sério e real: tem um vírus contagioso, sobre o qual não sabemos muito, matando muita gente por ai. Ai também acho que pode ser uma janela para uma lição de humildade. Fiquei triste em ter tantos shows cancelados, e fico preocupado com a grana e a perspectiva de trabalho, é claro, mas acho que ficar focando só na falta e na perda não ajuda também. Acho que esse freio brusco na máquina do mundo é bom em certo sentido pra gente pensar pra que mundo a gente que voltar, e que seja um mundo mais justo e ecológico.” Tá certo.
O líder do Tame Impala Kevin Parker participou de uma transmissão ao vivo realizada ao lado de artistas da Oceania para arrecadar fundos para os médicos que estão combatendo a pandemia do coronavírus na Austrália e na Nova Zelândia. E em sua aparição no Music From The Home Front, que ainda teve participações Courtney Barnett, Neil Finn, entre outros artistas daquela região, ele cantou uma versão acústica para “On Track”, do disco mais recente da banda, The Slow Rush.
Não é a primeira iniciativa que Parker faz em relação à quarentena, quando lançou, no começo do mês, uma versão “ao vivo” para o mesmo disco. The Slow Rush In An Imaginary Place foi feito para ser ouvido com fones de ouvido e simula uma apresentação ao vivo, com som ambiente de plateia, para suprir a ausência da turnê do novo disco.
O cantor, compositor e produtor inglês James Blake aproveita a quarentena para lançar seu primeiro single desde o ótimo Assume Form, que lançou no início do ano passado. “You’re Too Precious” carrega toda a delicadeza que esperamos dele num momento tão profundo como este:
Não é a primeira vez que ele dá o ar de sua graça neste período – no final de março, ele fez uma transmissão ao vivo em sua conta no Instagram em que, além de suas próprias músicas, tocou versões de músicas de Bill Withers (“Hope She’ll Be Happier”), Don McLean (“Vincent”), Radiohead (“No Surprises”), Feist (“Limit to Your Love”), Billie Eilish (“When the Party’s Over”), Frank Ocean (“Godspeed”) e Joni Mitchell (“A Case of You”). Felizmente, o próprio colocou a íntegra em sua conta no YouTube.
Lindaço.
O produtor chileno-norte-americano Nicolas Jaar debruçou-se por duas horas pelas raízes de seu disco mais recente, o enigmático e delicioso Cenizas, em uma transmissão ao vivo em seu canal na TwitchTV, misturando piano bucólico, Ellen McIlwain, drum’n’bass, percussão andina, música da Argélia, reggaeton, “Vitamin C” do Can, Sequentia, Juaneco Y Su Combo e até “Pai Xangô”, do Pinduca, levando-nos do espaço sideral ao centro do planeta, numa viagem que é um sonho dançante – e alguém registrou!
“Em São Paulo fiz como faço normalmente quando vou pra algum lugar pela primeira vez, costumo pedir pra muita gente muita música – e na bagunça que isso gera, alguma mágica começa a acontecer”, lembra o francês Vincent Moon, que está lançando uma gravação que fez com Kiko Dinucci e Thiago França em 2010 como o EP batizado com o nome dos dois, lançado por seu selo Petites Planètes e apresentado em primeira mão aqui no Trabalho Sujo. “Vou chamar isso de criar ordem através da técnica do caos. E assim o nome do Kiko aparecia bem no alto das recomendações de muita gente. Não me lembro nem se o Metá Metá já existia. Mas era bem óbvio, eu ouvia o nome dele na voz de todos, por isso decidi gravar algo com ele e na gravação ele chegou com o Thiago.”
O registro flagra Kiko e Thiago passeando pelo camelódromo do Brás enquanto improvisa entre os transeuntes, captando toda a cacofonia do ambiente. “Esse dia foi muito louco”, lembra Kiko, “o Vincent foi lá em casa, eu dividia o apartamento com o Serginho Machado, e ele queria fazer esse vídeo, sugerindo o camelódromo do Brás. A gente se encontrou na Pinacoteca e foi andando até lá, desceu a rua das noivas ali na São Caetano e na Avenida do Estado já tinha uma entrada no camelódromo. Daí a gente entrou na feira e tocamos no meio das barracas, com a participação de ruídos e gritos, falas e sons do ambiente…”
Kiko vinha com seu violão pendurado no pescoço e um amplificador de pilha a tiracolo e Thiago o acompanhava de perto, mas não do lado, sendo seguido por Vincent, que registrava o áudio e uma de suas alunas que filmou o percurso. O vídeo não funcionou, mas o registro sonoro é preciso: “”Alguém me disse ‘minhas memórias são minhas gravações’ – talvez tenha sido eu mesmo. Por isso não me lembro muito além os barulhos do mercado, o passeio bagunçado por aquela área, o fluxo incrível da música – quero dizer, que músicos extraordinários esses caras são! Parecia tão fácil para eles, tocar, captar a vibe ao redor e integrá-la à sua própria música…”, lembra Vincent. Kiko se empolga com a memória: “Eu lembro que eu me perdia do Thiago pelas barracas e depois reencontrava. Aí tem uma criança que sopra uma cornetinha no meio da música, gente gritando… O bagulho é caótico e a gente fez umas músicas mais agitadas, pelo camelódromo inteiro tocando – ninguém entendia nada. Foi bem louco.”
A passagem de Vincent por São Paulo à época foi bem frutífera e rendeu ótimos vídeos, capturando o calor da cena paulistana há dezx anos. “Fui convidado para dar aulas numa escola de cinema, que foi também o motivo de gravarmos essa sessão”, lembra o cineasta. “Obviamente tudo era pretexto pra outra coisa – nesse caso, era uma fantástica oportunidade para circular, gravar todas aquelas pessoas ao redor desta cidade insana – me apaixonei à primeira vista por SP, mas foi mais uma febre urbana na época, mudei um pouco depois disso… Terminei indo pros melhores lugares de samba com a Dona Inah, filmei com Thiago Pethit no Minhocão, passeei numa noite mágica com José Domingos, fui a festas insanas com o Holger, explorei o centro da cidade com M. Takara, filmei Lulina em seu apartamento, dancei na laje do prédio de Tom Zé… Cara, foi pura mágica, sabe? Eu não acredito que tudo isso aconteceu em tão pouco tempo. Mas, mais uma vez, é a excitação do desconhecido que motiva nossas almas aos feitos mais puros.”
Mas logo Vincent se apaixonou pelo Brasil onde viveu por quatro anos até o ano passado, com base no Rio, fazendo registros de rituais transcendentais por todo o país, fazendo o projeto Híbridos, ao lado de sua esposa, Priscilla Telmon. “Exploramos profundamente a relação entre a música e o transe, a música e o sagrado em várias formas de rituais, em todo o país. Acho que filmamos cerca de 60 rituais diferentes, alguns bem pouco conhecidos – como o Almas e Angola no sul – ou bem novos – como a Fraternidade Kayman. Não dá pra se decepcionar em termos de música…”, diz, explicando porque não acompanha mais a cena contemporânea brasileira.
“Eu lembro que uma vez, durante uma sessão de Umbandaime na praia, todo mundo sob a influência do ayahuasca, incorporando espíritos de animais”, ele lembra, traçando um paralelo entre o mundo ancestral e o moderno. “Foi maravilhoso e completamente maluco ao mesmo tempo e, de repente, eles começaram a tocar uma música do Metá Metá! Foi fantástico – nós ouvimos muito sobre a música sair do uso ritualístico para os chamados usos profanos, mas o movimento contrário é algo que está me fascinando no Brasil – e uma grande inspiração para nossa geração híbrida global, claro.”
Pergunto sobre como anda a quarentena na França e ele responde aliviado que as coisas vão bem: “Tenho sorte, a situação na França parece razoavelmente fácil de se lidar, pois a sociedade vem desenvolvendo um sistema de saúde pública forte pelas últimas décadas, mesmo que boa parte de nossas riquezas venham da exploração de outras terras por muito tempo. E também não temos um maluco completo no comando”.
Mas ele é cético em relação à volta para a vida que levávamos antes. “Não acho que iremos voltar ao normal, mas quem seria estúpido suficiente para desejar tal coisa? Eu acabei de publicar um pequeno ensaio sobre isso – The Nyépi-Demic – que discute as muitas questões relacionadas a possíveis evoluções da cena artística, etc.”
Ele aproveita para explicar o que está acontecendo hoje à luz de sua pesquisa de rituais. “Muitos anciãos por todo o mundo, de diferentes origens indígenas, têm sido muito caros a passar, nas últimas décadas, para nossa geração, este conhecimento profundo – que a realidade externa e material é só um espelho do nível interior da consciência de toda nossa sociedade. É o conhecimento mais antigo da humanidade, provavelmente, você pode ler isso formulado de diferentes formas em todas os caminhos espirituais ancestrais, da Índia a Grécia, do Egito aos xamãs…”
“O que isso quer dizer?”, prossegue. “Que a imaginação é muito mais importante do que pensamos neste nosso mundo pós-industrial. Que a imaginação é o CENTRO da realidade nesta terceira dimensão. Então é bom que imaginemos o amanhã. Para fazer isso, sugiro que paremos de ler tudo que venha da mídia de massas e que inventemos nossas ficções alternativas.”
Enquanto a pandemia não passa, ele fala sobre o projeto que vinha trabalhando antes do surto, que quer retomar logo em seguida. “Estou tentando explorar a relação entre o cinema e os estados de transe, vibrações e o código da realidade e criar alguns protocolos de cura para longe do mundo do cinema mas mais com cara de híbridos – nós estamos começando o Teatro da Cura assim que essa pandemia começar a diminuir – uma experiência faça-você-mesmo em que as pessoas, qualquer um, nos convida para suas casas para uma sessão de música, cinema e cura. Vamos continuar a publicar todos nossos trabalhos na internet, sob licenças de código aberto, através de nosso selo de música digital e você pode conferir algumas performances recentes no site da Petites Planètes.
A mais clássica banda punk de Los Angeles já havia dado sinal de vida no ano passado, quando lançou uma nova versão para a velha “Delta 88 Nightmare”. Os quatro integrantes da formação original da banda, o casal Exene Cervenka eJohn Doe, o baixista Billy Zoom e o baterista DJ Bonebrake se reuniram pela primeira vez em 35 anos em novembro do ano passado, quando a versão inicial tornou-se um EP com cinco faixas recicladas. Mas a empolgação continuou 2020 adentro e mesmo antes da epidemia paralisar o planeta, o grupo conseguiu gravar Alphabetland, que estava agendado para ser lançado em agosto, mas o grupo resolveu antecipar para já. A voz de Exene está ótima e a de Doe parece não ter envelhecido um centímetro, tornando a principal marca registrada do grupo – o jogo de vozes do casal-líder – perfeito mesmo 40 anos depois de lançarem o primeiro disco, produzido por Ray Manzarek do Doors. Discão!
No final dos anos 90, os Beastie Boys resolveram tirar uma onda com os Beatles, que encerravam seu Anthology, projeto que consolidou a reputação da banda de Liverpool no final do século passado, e eles mesmos lançaram sua coletânea dupla, batizando-a com o mesmo nome. Beastie Boys Anthology: The Sounds of Science vasculhava a discografia da banda até 1999, cobrindo seus cinco primeiros discos, remixes, sobras de estúdio, lados B e os quinze primeiros anos da banda. Ninguém tinha como saber que eles já haviam passado a metade de suas carreiras e que não teriam mais outros quinze anos pela frente, uma vez que o integrante que botou pilha nos outros dois para que eles se tornassem uma banda, Adam Yauch, partiria para o outro plano em 2012.
Oito anos após a morte de Yauch, os dois beastie boys remanescentes – Adam Horovitz e Michael Diamond – se juntam ao amigo e diretor Spike Jonze para finalmente ter seu Anthology propriamente dito. Beastie Boys Story, que estreou nesta sexta-feira no streaming da Apple, é a versão oficial da história do grupo e um tributo a um amigo que por toda a história da banda, também era um mentor. O documentário devia ter estreado na edição deste ano do SXSW e poderia ir para os cinemas, mas como o coronavírus mudou a cara de 2020, o lançamento ficou apenas no formato digital e, por enquanto, exclusivo para a plataforma da Apple, produtora do documentário, o que restringe bastante seu alcance.
O formato “documentário ao vivo”, que podia transgredir parâmetros cinematográficos uma vez que foi proposto por um diretor com esta afinidade, é apenas o registro dos melhores momentos das três apresentações que Ad-Rock e Mike D fizeram entre 8 e 10 de abril do ano passado no Kings Theatre, no Brooklyn, em Nova York. E o filme da história dos Beastie Boys contada por eles mesmos, talvez a parte final de um processo que começou com o livro de mesmo nome que foi lançado em 2018 e seguiu nas citadas apresentações ao vivo de 2019, não é o documentário definitivo sobre a história da banda – e sim a versão que os dois integrantes querem passar de sua saga para o público, além de ter altas doses de auto-ajuda, ao mesmo tempo em que Adam e Mike explicam como se tornaram gigantescos, quebraram a cara e amadureceram neste processo.
A química entre os dois beasties sobreviventes é impecável. O filme de quase duas horas é uma longa apresentação dos dois em formato stand-up, contando suas próprias histórias ao mesmo tempo em que vão ilustrando-a com fotos e vídeos disparados por Spike Jonze. A forma como um passam o microfone para o outro e seu inevitável domínio sobre a plateia nos faz esperar por um momento musical a qualquer instante, como se eles pudessem começar a rimar em cima de alguma base instrumental de surpresa, mas isso nunca acontece. Em vez disso, os dois trocam olhares cúmplices, piadas internas e tiram sarro um do outro como os conhecemos há décadas. Mas nunca voltam a ser uma dupla de MCs – são apenas amigos lembrando de histórias.
Os registros do passado, claro, são deslumbrantes. Especialmente os primeiros anos da banda, quando ainda tocavam hardcore com quinze anos de idade, apresentando-se em programas de TV local e falando de suas raízes punk. Eram literalmente moleques e a simples visão daquelas tenras imagens da inocência de uma juventude que mal sabia o que era ter uma banda de rock já valem o documentário, bem como sua brusca transformação em um trio de rap no momento em que o gênero começava a ensaiar voos mais altos.
Mas, principalmente, Beastie Boys Story é uma carta de amor a MCA. A imagem de Adam Yauch paira por toda a extensão do filme mais do que a lembrança de um saudoso amigo, mas como se ele mesmo fosse a encarnação do espírito beastie boy. São os momentos mais tocantes e introspectivos do documentário e talvez seja o ponto de desequilíbrio que não o torne perfeito. É como se o Anthology dos Beatles fosse feito para engrandecer a figura de John Lennon. Por mais que, como Lennon nos Beatles, Yauch fosse o ponto de parte e a força-motriz na parte de criação do grupo, ele não era mais importante que os outros dois. Como nos Beatles, não havia um melhor – quando muito, há um preferido. A magia vem do equilíbrio de seus integrantes – e para celebrar o amigo, Ad-Rock e Mike D dão passos para trás, deixando de falar de sua própria importância. A banda não acabou porque seu fundador morreu – caso qualquer um deles tivesse morrido antes, é impossível imaginar que Yauch quisesse seguir o grupo com o outro sobrevivendo.
Os Beastie Boys eram três, o número mágico, e ao enxugar sua importância em si mesmos – a autonomia que conseguiram a partir dos anos 90, depois que se recuperaram do tombo comercial que foi o lançamento do Paul’s Boutique, em 1989 – mudaram a história de seu tempo. Como as principais memórias oficiais de quaisquer artistas, o documentário Beastie Boys Story peca por não ter um olhar externo que se aprofunde na influência e importância do grupo, inclusive para além do rap, e prefere um olhar cândido e tenro sobre o passado e um respeito profundo pelo amigo morto. É uma história pessoal: feridas são expostas e mea culpas são feitos, o que deixa o ar sentimental ainda mais carregado. E mesmo que traga lágrimas aos olhos em vários momentos, é um documento divertido e nostálgico, trazendo surpresas e gargalhadas que temperam o tom emotivo com o melhor gosto que lembramos do grupo. Uma viagem!
A cantora cearense Soledad mostra em primeira mão no Trabalho Sujo o segundo clipe de seu disco Revoada, lançado no ano passado, mais uma parceria com a diretora Patrícia Araujo. O clipe é da ótima versão que ela fez para a tocante “Pássaros, Mulheres e Peixe”, de Alessandra Leão. “O que está visível hoje?”, pergunta-me de volta quando a pergunto a relação entre o novo clipe e a situação que atravessamos por conta do coronavírus. “O isolamento pandêmico destaca e fortalece as diferenças sociais, políticas e culturais nas quais as mulheres são inseridas. Ficamos ainda mais expostas ao desamparo e às violências do machismo, o aumento do feminicídio em alguns países desde que a quarentena começou comprova isso, por exemplo.”
O clipe foi gravado antes do período de confinamento, à exceção das imagens de Soledad, feitas por ela mesma com inspiração em técnica de stop-motion da cineasta Agnès Varda “Eu e Pati conversamos há algum tempo sobre como a arte e os valores feministas podem, e devem, refletir a nossa responsabilidade cidadã e humana, e também a de personagens da natureza. Como artistas, precisamos estabelecer alguma conversa com o mundo e sua realidade, vislumbrando transformações. Desde o nascimento do Revoada, nós ficamos muito atraídas pela ideia de criarmos juntas um vídeo-arte para essa canção, pelo que ela conta e nos une afetivamente e politicamente na nossa condição de mulher, esse momento se deu agora. É impressionante o que uma música, uma dança, um texto, ou um filme podem comunicar, atravessar e construir.”
“Há quarenta dias tento deixar a respiração pacífica para que seja possível imaginar o mar e desenhar uma linha do horizonte para a vida futura”, responde quando pergunto a ela sobre os dias de isolamento social. “Mergulho em leituras e filmes que me dão possibilidades de criar uma paisagem melhor para essa vida, a desejada por mim e pelas pessoas que se colocam perto e distante. Também tenho me dedicado ao pequeno livro que pretendo lançar em breve e a tentar entender se o que produzo contribui para a transformação social que manterá o planeta e as pessoas vivas ou não. Difícil falar sobre a pós pandemia agora, por enquanto penso o quão é importante nos posicionarmos politicamente e enxergarmos nossas responsabilidade sócio-afetivas.” Ela planeja lançar mais um clipe deste mesmo disco (a música escolhida ainda é segredo), mas já começa a compor novamente…
O blog francês La Blogothèque publicou nesta quinta-feira a gravação de um show que Stephen Malkmus fez em um café em Paris no fim de 2019, cantando a clássica “Spit on a Stranger”, do último disco do Pavement, Terror Twilight.
O Pavement iria se reunir pela primeira vez em dez anos em duas apresentações no festival Primavera no meio deste ano e Malkmus acabou de lançar um disco folk (o ótimo Traditional Techniques), então o registro acaba funcionando como um consolo uma vez que estas apresentações foram adiadas para um futuro indefinido.
O caso Milton Nascimento e Criolo está ficando sério: depois de duetos ao vivo, os dois ícones da música brasileira anunciam o lançamento de um disco em conjunto, o EP Existe Amor, que será lançado no mês que vem e antecipam o que vem por aí ao mostrar regravação da faixa “Não Existe Amor em SP”, com produção de Daniel Ganjaman e arranjos do pianista Amaro Freitas, que acompanha os dois na gravação. E como se não bastasse, o EP também conta com arranjos de outro mestre, Arthur Verocai.
Isso promete…










