O pianista pernambucano Zé Manoel lança a lindíssima e triste “História Antiga” para lembrar que a ferida do racismo segue aberta.
Que música maravilhosa…
Esta semana trago uma ótima conversa com Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, como principal atração do Clube Trabalho Sujo. É a quinta edição do meu programa semanal de entrevistas, Bom Saber, em que o cantor, compositor e músico cearense reavalia a história de sua banda, sua volta para Fortaleza e o mergulho em si mesmo que o conduziram ao seu primeiro disco solo, que deve materializar-se em breve. Fernando mudou-se novamente para São Paulo para consolidar esta nova fase, mas, como todos, foi surpreendido pela quarentena e teve de readequar seus planos para este novo estágio, mas de peito aberto. Assim foi a conversa com Catatau, cada vez mais tranquilo e consciente de seu papel como artista, personalidade pública e autor.
O Bom Saber é meu programa semanal de entrevistas, atualizado todo sábado em meu canal do YouTube (assina lá!). Já conversei com o Bruno Torturra, a Roberta Martinelli, o Ian Black e o Negro Leo (assista a todas entrevistas aqui) e quem colabora financeiramente com o meu trabalho (pergunte-me como no trabalhosujoporemail@gmail.com) assiste ao programa no dia do lançamento, no próprio sábado. Quem não paga, assiste na semana seguinte.
Quando Tika, Kika, João Leão e Igor Caracas se juntaram para homenagear o disco que Tom Jobim lançou em 1987, mal sabiam o quanto esta união iria durar. “Estamos há três anos tocando o projeto que criamos sobre o álbum Passarim e nesse projeto reduzimos os arranjos de um disco gravado com orquestrações e coro para nossa formação de quatro integrantes – quatro vozes, bateria, piano, guitarra e sintetizador”, Kika relembra o início de Passarim30. “Fizemos uma pesquisa de timbres, escolhemos as frases mais marcantes do disco, tiramos as linhas vocais com fidelidade e gostamos do resultado, da sonoridade que alcançamos”. Agora o quarteto começa a gravitar em direção a outro mestre da música brasileira, João Gilberto, ídolo dos quatro, que é revisitado através de sua versão para “O Astronauta”, de Carlos Pingarrilho e Marcos Vasconcellos, lançada em primeira mão aqui no Trabalho Sujo no dia do primeiro aniversário sem sua presença entre nós, já que João morreu no ano passado.
“João Gilberto é uma grande referência pra nós, todos temos uma ligação muito forte com a obra dele. Quem lembrou de ‘Astronauta’ foi a Tika, que estava tirando essa harmonia no violão”, Kika continua. “Pensamos que a letra tinha um subtexto de despedida, ficamos imaginando o João Gilberto como sujeito da canção – ele agora mora só no pensamento ou então no firmamento… – e então decidimos que seria um presente pra ele, que se despediu ano passado quase em silêncio, sem muitas homenagens, sem uma nota oficial sequer. Concordamos que ele foi o maior artista brasileiro de todos os tempos, quisemos fazer nossa interpretação para ficar mais perto dele, como uma maneira de dizer que temos saudade e que sabemos o valor de tudo que ele deixou pra nós. O clipe é assinado por Guilherme ‘Guime’ Destro, que recolheu imagens do recôncavo baiano, filmadas numa vila de pescadores chamada Santiago do Iguape em Cachoeira, na Bahia, imagens que remetem às origens da nossa cultura e diversidade artística, além de já ser uma homenagem ao nosso homenageado, que é também baiano.”
O resultado, produzido por Victor Rice, é o primeiro registro fonográfico do grupo, que só havia se apresentado ao vivo, e traz o imaginário musical de João numa bossa nova setentista que acena para os timbres elétricos do soul e o jazz, mas sem perder o minimalismo e as harmonias ousadas do mestre baiano. “A mágica do João Gilberto está na interação da voz dele com o violão, na escolha dos acordes e tempos”, Kika continua falando sobre a versão. “Procuramos preservar ao máximo a harmonia dele e certas jogadas de tempo que ele faz. A maior dificuldade é a mesma de revisitar qualquer música da bossa nova, recriar algo que muitos julgam intocável, por isso temos um cuidado com a escolha do repertório, em não trazer temas que já foram exaustivamente revisitados.”
O registro faz com que o grupo pense para além da homenagem que vinha fazendo. “Há um tempo estamos trabalhando essa ideia de expansão do Passarim30”, continua a cantora. “Nós vemos um potencial enorme em um grupo formado por instrumentistas que são também compositores, produtores, cantores e têm o seu trabalho solo. Praticamente desde o início do projeto nós sempre demos um jeito de incluir alguma música autoral em nossos shows. Procuramos compor em parceria também, o que pode gerar um trabalho completamente autoral no futuro, mas esse primeiro passeio do grupo fora da obra do Tom com João Gilberto é uma consequência natural dessa nossa busca.” Além de “Astronauta”, o grupo também gravou “Borzeguim”, do Tom Jobim, que será lançada em breve.
Idiotice dita pelo sujeito que teoricamente é o ministro da saúde comparava a proximidade do nordeste brasileiro com a Europa, o que tornaria a região mais suscetível ao inverno do hemisfério norte (pois é, esse governo é sempre pior do que podemos imaginar). A asneira, claro, virou meme, mas pelo menos serviu para relembrarmos de um dos primeiros curtas de Kleber Mendonça Filho, Recife Frio, de , quando, “daqui a alguns anos” como o futuro indeterminado de Bacurau, a capital pernambucana é assolada por uma frente fria interminável, que provoca inclusive (e, claro, em se tratando de quem é o diretor) felizes comentários sobre a desigualdade social brasileira.
Sem contar que tanto Junior Black quanto Lia de Itamaracá também aparecem. É ótimo.
O que mais Martin Scorsese poderia fazer durante a quarentena senão filmar? Foi assim que ele topou o desafio da historiadora e apresentadora de TV Mary Beard, que está apresentando a série Lockdown Culture, na emissora BBC. E assim, ele fez sua reflexão sobre o confinamento de 2020, filmada com seu celular, e inspirada no filme O Homem Errado, de Hitchcock, e com uma referência do sábio iraniano Kiarostami.
Se no ano passado Maurício Tagliari lançou o primeiro disco com seu nome em mais de três décadas de carreira (Maô: Contraponto e Fuga da Realidade, que foi a base para sua temporada no Centro da Terra), agora o músico, compositor e produtor paulistano lança um disco essencialmente sozinho, um sem colaboradores, o extremo oposto do disco de 2019. “Maô: Falta de Estudo #1 foi um disco pensado até antes de lançar o Contraponto e Fuga da Realidade”, ele me explica por email. “A ideia era fazer um trabalho espelho/oposto. Sem colaborações e com sonoridades mais estranhas”.
A quarentena acelerou este processo e ele montou um estúdio caseiro, debruçou-se na estrutura musical dos pigmeus, que deram origem a várias faixas diferentes, como se cada uma delas fosse um exercício específico. “‘Auto sample’ é auto explicativa. Me sampleei e incluí faixas inéditas, “Feedback & Distortion” é um teste de pedais novos, “Pigmeu Bate estaca’ é o som de um bate-estaca de uma obra infernal perto de casa, sampleado e reprocessado mil vezes, “Passageiro” é teste de microfonação para percussão e guitarras e por aí vai.” A gravação, a mixagem e até a capa levam o nome de Taliari. “Esse é solo de verdade, no outro eu estava muito protegido pelos amigos…”
Mas foi só um processo de quarentena (enquanto já vem cogitando um segundo volume), outros ainda incluem novidades do Tanino (grupo de improvisação ao lado de Guizado, Thomas Harres e Pedro Dantas), parcerias com Rodrigo Campos e Saulo Duarte, além de ter feito a trilha sonora para o reality show de zumbis (!) Reality Z.
O grupo paulistano Vitreaux está prestes a lançar seu segundo disco, Esperando na Fila, que marca sua consolidação como um conjunto criativo, uma vez que as músicas do disco de estreia foram feitas principalmente por seu líder, o guitarrista e vocalista Lucas Gonçalves, que também toca no grupo baiano Maglore. “Eu levei muita coisa pronta, o Ivan (Liberato, o outro guitarrista e vocalista) tinha acabado de entrar na banda e gravou sem saber as harmonias de algumas músicas, ficou pescando o disco inteiro – para a nossa sorte, ele é um ótimo pescador.”
Já o novo disco foi um trabalho coletivo. “Esse disco foi concebido em casa. Em 2016 estávamos morando juntos, eu, Ivan e João (Rocchetti, baixista e vocalista), todo o departamento de cordas e aí foram nascendo algumas das canções, em conjunto”, lembra Lucas. “Estávamos ouvindo muito Beto Guedes, Almendra, The Band, Clube da Esquina, Tarancón…”, continua. Completa o grupo o baterista Guib Silva. A primeira faixa do disco que sai no fim do mês, “Meia-Luz”, lançada em primeira mão no Trabalho Sujo, mostra esta nova sonoridade, distanciando-os da psicodelia do disco anterior e levando-os rumo à América que fala espanhol.
Descrita por Lucas como “uma marcha violenta, uma guarânia tocada num porão frio”, a música surgiu após o cantor e compositor sentir os ecos da ditadura militar há seis anos. “Boa parte dela foi escrita em 2014, ano que marcava os cinquenta anos do golpe militar”, lembra o líder da banda. “Assisti a um documentário sobre o João Goulart, Operação Condor, e todo aquele cinza. Pelo documentário, vi o prédio do Doi-Codi em São Paulo e coloquei na cabeça que já havia passado na frente, onde hoje funciona uma delegacia. Meio tonto, tentei despejar esse clima ruim que ficou naquele quartinho de pensão no papel, com a ajuda do violão. Aí mostrei para a banda, num ensaio no ano seguinte. Ivan não estava, pois tinha ido acompanhar uma cantora pelo Paraguai, um detalhe que só agora me veio, mas acho que contribuiu de alguma forma para o disco. Em 2016, eu fui morar com João e terminamos a música, a estrutura. Os metais foram gravados pelo Douglas Antunes, do Bixiga 70, na introdução e no final, dobrando o solo de baixo do João.”
O clima pesado e melancólico se reflete pelo disco, segundo Lucas. “A gente queria fazer um disco conectado com a nossa realidade, enquanto latino-americanos”, explica. “Tentamos recriar algumas paisagens de episódios recentes na história do Brasil e da ‘gran pátria’. Um cenário de opressão, cortinas de fumaça, torturas, omissão por parte da mídia, mas também de luta contra o massacre que vem sofrendo o povo brasileiro. Miramos no realismo a partir de uma ótica pessimista.”
O disco foi produzido por Caio Alarcon e é o primeiro lançamento da 3Works, empresa idealizada pelo saxofonista do Bixiga 70, Cuca Ferreira, ao lado de seu compadre baixista, com quem toca no grupo de jazz punk Atønito, Ro Fonseca. “Faz muito tempo que conversamos sobre como de um tempo pra cá, a principal encrenca de um artista não é mais produzir um disco, isto está cada vez mais fácil, acessível e com qualidade cada vez melhor; a encrenca agora é lançar e fazer com que sua música chegue no público”, explica Cuca. “A maioria dos selos ainda coloca muita energia na produção, e depois que o disco é lançado, fica uma sensação de ‘e agora?’. E estamos montando a 3Works a partir da estrutura da Baticum, produtora de audio do Ro. Nem estamos chamando de selo, porque a ideia também é de trabalhar em conjunto com outros selos, focando na etapa de planejamento e lançamento. A quarentena de uma certa maneira catalisou as coisas. Nos impôs um tempo que antes não tínhamos e, principalmente, uma necessidade!”
E Cuca já antecipa os próximos trabalhos: o grupo Valentin, liderado por Julia Valiengo, e a banda Corte, com quem ele divide o palco com Alzira Espíndola, com os companheiros de Bixiga Daniel Gralha e Marcelo Dworecki e o baterista Nandinho Thomaz. “Nosso critério será sempre sons que a gente gosta. Nada técnico nem racional, só emocional”, resume.
Lembro quando convidei Rico Dalasam para uma temporada no Centro da Terra e ele me explicou que queria sair de onde estava se vendo preso, entre a pista de dança e a bateção de cabelo. Acompanhado de seu maestro, o tecladista Dinho Souza, ele apresentou quatro edições do show Elefantes, Mantras e Trava-Línguas, em que apresentava-se sobre beats eletrônicos, acompanhado de teclados e guitarras, a cargo de Moisés Guimarães, além de usar efeitos em sua voz. Deixava o hip hop e a dance music num segundo plano para abraçar o R&B em composições ousadas, que acompanharam nestes últimos anos, reconstruindo sua reputação para um lugar intimista, melancólico e quase sempre solitário. O novo EP Dolores Dala Guardião do Alívio, que além de Dinho também traz produções de Mahal Pita, ex-BaianaSsytem e parceiro de Giovani Cidreira na dupla Mano Mago, mostra o rapper concluindo esta transformação e achando um lugar próprio na música brasileira hoje.
Em seu terceiro disco, Mahmundi mostra que está cada vez mais à vontade no espaço musical que criou para si. Desde que surgiu, no início da década passada, Marcela Vale trabalha este universo paralelo que batiza seu pseudônimo – nome que batizava seu antigo blog, quando era conhecida apenas por “Mah”. Neste Mundo Novo, ela apenas reforça o equilibra questões sérias do dia a dia com a suavidade da melhor música pop. Suas tintas são oitentistas e ela deixa cair aquele pop sintético em que o R&B e o soul eletrônico se mistura com a MPB da década que consolidou a sigla como sinônimo da música brasileira, aquela pista de dança diurna que reúne Terence Trent D’Arby, Djavan e Marina Lima. O tom do disco é mais solar que o anterior, o belo e melancólico Para Dias Ruins, e consolida este universo musical de forma maiúscula e ao mesmo tempo poética. As parcerias com Castello Branco (a faixa-título e a balada-sambinha “Nós De Fronte”), ao lado da versão synthpop para um samba-reggae que Jorge Mautner compôs para Caetano cantar num álbum de Dadi (a ótima “No Coração da Escuridão“) e da belíssima “Vai”, que encerra o álbum dando a fórmula de seu sucesso (“abre um sorriso e vai”), são os pontos altos de Mundo Novo, um disco curto e direto, que consolida Mahmundi como um dos grandes nomes da nova música pop brasileira.
A cantora australiana de dreampop Hatchie se uniu aos recém-terminados norte-americanos The Pains of Being Pure at Heart – que voltaram a tocar juntos para esta versão – para revisitar “Sometimes Always”, o doce single que o Jesus & Mary Chain lançou em 1994 com a vocalista do Mazzy Star, Hope Sandoval, divindindo os vocais.
Ficou bonitinho.









