Pioneiro na bossa nova, no cinema novo e na era dos festivais, Sérgio Ricardo era um monumento à cultura brasileira: conheceu João Gilberto no apartamento de Nara Leão em 1958, lançou um disco de bossa nova um ano antes de lançar seu filme (Menino da Calça Branca, de 1961) dentro do movimento cinema novo e inaugurar sua carreira como cineasta. Tocou no histórico concerto da bossa nova no Carnegie Hall, fez a trilha de Deus e o Diabo na Terra do Sol e teve seu filme de 1964 (Esse Mundo é Meu) incensado pela revista francesa Cahiers du Cinema. Quebrou seu violão em protesto em um festival na televisão ao vivo e teve a ideia de lançar o Disco de Bolso do jornal Pasquim, cuja primeira edição trazia o lançamento de “Águas de Março”, de Tom Jobim. Mais um mestre que perdemos para o maldito coronavírus.
O belo Lover, de 2019, já havia feito Taylor Swift se reerguer do tropeço que foi Reputation, de 2017, e agora ela parecia que iria colher os frutos disso, numa ascendente contínua que seria consagrada com a turnê do disco do ano passado, que encerraria este ano com ela no topo do elenco do festival de Glastonbury deste ano, mas aí veio o coronavírus – e todos os planos foram pro brejo. Mas de forma inesperada, ela consegue retomar a escalada majestática que acompanha sua discografia nos últimos dez anos lançando algo completamente improvável: um disco-surpresa produzido durante a quarentena. Não bastasse fugir de toda a calculada estratégia que ela faz em sua carreira, Folklore, anunciado poucas horas antes de ser lançado nas plataformas digitais, é uma pequena obra-prima acústica e foi gravado ao lado de pouquíssimos – e improváveis – colaboradores, Aaron Dessner do National, Justin Vernon (o Bon Iver, você sabe) e seu produtor de longa data Jack Antonoff, além de um certo William Bowery – que muitos supõem ser seu atual namorado, o ator Joe Alwyn. É isso: Taylor Swift lançou um disco de indie folk no meio do maior evento global desde a Segunda Guerra Mundial.
E que maravilha de disco. Ela recolhe-se ao tom intimista da quarentena e cerca-se de mestres da canção que voltam-se para o acústico com a mesma curiosidade que ela, mas sem tirar o pé do século 21, que paira sobre o disco como um fog eletrônico, que pixela a visão como uma versão digital das ondas de calor que distorcem a imagem que vemos através das chamas. Folklore está longe de ser um disco ortodoxo, como se quisesse abraçar a utopia de um tempo que nunca viveu, e por mais que evoque cordas cátedras (“Epiphany”), ar country (“Betty”) ou dedilhados solenes (“Illicit Affairs”), se localiza essencialmente no século 21, depois que o gênero passou pela feliz deformação alt.country no final na virada do milênio. É um disco de folk que reverencia o Nixon do Lambchop e o Summerteeth do Wilco tanto quanto Nashville, Johnny Cash ou Woody Guthrie. Conversa, de alguma forma, com o primeiro single do excelente 1989, “Out in the Woods”, quando prenunciou que iria lançar algo completamente diferente em 2014. E é com este auxílio instrumental que ela compõe algumas de suas melhores canções: “Cardigan”, “Seven”, “Mad Woman”, “August”, o dueto com Bon Iver em “Exile” e a magistral “The Last Great American Dinasty”, que é o mais perto que Taylor Swift chegou de Bob Dylan. E isso não é pouco – ela está criando seu próprio folclore, precioso o suficiente para que ela retome sua ascensão rumo ao topo do pop. E fazer isso em plena pandemia é admirável.
Canção emblemática da amizade de Chico Buarque e Gilberto Gil, a joia “Copo Vazio” volta em versão atualizada com os dois dividindo vocais. A canção foi feita por Gil para Chico gravar no clássico Sinal Fechado, de 1974, um disco em que o compositor carioca se faz de intérprete para driblar a censura da ditadura militar, que o perseguia a cada nova música. Gil sintetiza aquele momento com sua característica sensibilidade de buda-nagô, simplificando a dor do compositor calado na imagem que batiza a canção.
A gravação, no entanto, é antiga e foi sugerida por Andrucha Waddington, em 2014, quando filmava os dois para a trilha de seu filme Rio, Eu Te Amo.
O mestre australiano Nick Cave transmite seu show solitário Idiot Prayer nesta quinta-feira, prometendo tocar música nova e antecipando um trecho de “Galleon Ship”, de seu disco mais recente, o lírico e pesado Ghosteen.
O show não será ao vivo e foi registrado no clássico Alexandra Palace londrino pelo diretor de fotografia irlandês Robbie Ryan, que trabalhou em filmes de Noah Baumbach, Ken Loach, Stephen Frears e Yorgos Lanthimos. E ao contrário das famigeradas lives que pululam de graça pela internet nessa época, esta apresentação será paga (mais informações no site oficial de Cave).
Reunindo alguns dos principais nomes da nova cena independente mineira, o quarteto Ginge é um pequeno supergrupo local ao parear duas ex-integrantes do grupo Miêta (Bruna Vilela e Marcela Lopes) ao lado de Vítor Brauer (que além de sua carreira solo, também é da Lupe de Lupe) e do guitarrista Fernando Motta, que também tem seu trabalho solo. “Eu e o Vitor tínhamos acabado de voltar da turnê de quatro meses que fizemos em 2017”, lembra o guitarrista e vocalista Fernando Motta, que tem seu próprio trabalho solo. “A gente ouviu muita música no carro durante as viagens e comentava que sentia falta de músicas pop boas, tanto no nosso nicho quanto de uma maneira mais geral mesmo do rock. Chamamos primeiro a Bruna, que compartilhou dessa impressão com a gente. Aí inicialmente a banda seria nós três: eu tocaria baixo, a Bruna guitarra e o Vitor, bateria. Mas a banda ainda não tava completa, a gente queria várias harmonias de voz. Aí tivemos a ideia de chamar a Marcela e ela pilhou. Foi perfeito porque ela canta muito e é muito inventiva com as melodias pra backing vocal também. Ela passou pro baixo e eu fui pra segunda guitarra. No primeiro encontro na casa dela, a gente fez ‘Marília’, que ela canta. Gostamos tanto que escolhemos pra ser o primeiro single. A sintonia entre a gente foi muito forte e ali a gente viu que a gente tinha uma banda completa mesmo.”
Juntos, escolheram o nome de Ginge para o novo grupo, a partir desta incomum palavra em português. “A primeira definição que a gente viu no dicionário era ‘calafrio de emoção; frenesi’. Mas depois eu descobri que muitas pessoas falam isso quando têm gastura de alguma coisa, aqueles ‘arrepiaços’, tipo quando alguém arranha o quadro”, ri Fernando. “Acho que a primeira definição leva pra um lado mais poético da coisa, enquanto a outra leva pra um lado mais provocativo. Eu acho bom porque, querendo ou não, a gente é um pouco das duas coisas.” O grupo lança seu primeiro EP, gravado no final do ano passado, ainda presencialmente, nesta quinta-feira: as quatro músicas de Pré-Jogo têm clipe e duas delas (“Marília” e “Kaft Kapum”) anteciparam o lançamento do novo disco, as duas restantes (“Pergunta” e “Qualquer Um Sabe Fazer Shoegaze”) dão as caras em primeira mão aqui no Trabalho Sujo.
Apesar do ineditismo do grupo, eles já haviam tocado juntos em diferentes formações e ocasiões. “Ano passado, eu e a Bruna Vilela fomos guitarristas na banda suporte do Vitor Brauer num show que ele fez durante a turnê com a mãe dele”, continua Fernando. “Eu também já toquei com a Miêta, ex-banda das meninas, em um festival na Matriz. Elas foram minha banda de apoio em algumas músicas e eu fiz um guitarrista adicional nas músicas delas. Basicamente a gente já era grandes amigos de dar rolês em BH. Então pode ser que tenha até outras vezes que a gente tocou junto e que eu não esteja me lembrando. Já fomos em milhões de shows uns dos outros e sempre saíamos pra resenha depois.”
Disco lançado, o grupo não vê a hora de fazer shows: “A gente conversa sempre dizendo que tá louco pra tocar essas músicas, fazer um show propriamente dito, mas enquanto tá longe disso, a gente ainda não tem nada de concreto pra anunciar”, lamenta o guitarrista. “Até agora a gente estava focado em lançar esse EP da melhor maneira possível e acho que conseguimos. Com a ajuda dos nossos amigos, conseguimos tirar quatro clipes muito fodas da cartola em plena pandemia. Então não tivemos muito tempo pra pensar no que dá pra fazer depois. Agora é divulgar o máximo possível e ver como vai ser a repercussão. Quem sabe a gente não tem alguma ideia viável de produzir algum conteúdo mais pra frente.”
A novidade desta semana é reencontro com meus chapas dOEsquema. Pra quem não lembra, eu, Arnaldo Branco, Gustavo Mini e Bruno Natal conduzíamos um condomínio de blogs que reunia gente de todo o Brasil até 2015, quando resolvemos fechar o site devido à ascensão das redes sociais. Mas a conexão dos quatro continua e por mais que só tenhamos nos encontrado pessoalmente três vezes, seguimos trocando impressões, comentários e opiniões sobre assuntos diferentes. Consegui reunir todo mundo para um papo sobre redes sociais e resolvemos que vamos tentar manter a periodicidade quinzenal. Chega mais.
A banda pernambucana arrastou o pé pesado ao regravar o clássico forró “Homem com H”, de Antônio Barros, eternizado por Ney Matogrosso, e chamou a atriz Samantha Schmütz para assumir os vocais. A faixa foi regravada para a continuação do filme Cine Holliúdy, dirigido pelo cearense Halder Gomes, e a sugestão foi da própria atriz.
E as faixas que o Yo La Tengo começou a soltar na semana passada no fim se transformaram num EP, We Have Amnesia, que eles disponibilizaram em sua página no Bandcamp. São só os três no estúdio, deixando o som rolar, em faixas com títulos que descrevem seus métodos de improviso, uma para cada dia da semana: “James and Ira demonstrate mysticism and some confusion holds”, “Georgia thinks it’s probably okay”, “James gets up and watches mourning birds with Abraham”, “Georgia considers the two blue ones” e “Ira searches for the slide, sort of”. O resultado, você já sabe, aquele calorzinho noise sossegado que gostamos de ouvir…
Dá uma sacada em “Scarlett”, mais uma faixa inédita da reedição do clássico Goat’s Head Soup pareia o grupo inglês com o cérebro do Led Zeppelin, Jimmy Page, Que sonzeira!
Mais uma ótima conversa com minha querida amiga Polly Sjobon – e desta vez focamos em crônicas, estas impressionais informais e subjetivas por escrito que acabam sintetizando o período em que foram escritas. Ou será que elas precisam ser escritas para serem crônicas? Falamos do Chuck Klosterman, do Machado de Assis, da Clarice Lispector, do Woody Allen, do Bob Dylan, do Luís Fernando Veríssimo e tantos outros que registram o cotidiano como história.









