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Jornalismo

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Que prazer ser amigo de um mestre – e poder aprender em papos deliciosos que podem durar horas. Qualquer conversa com o mister Pena Schmidt é uma viagem no tempo e no espaço e começamos falando do mercado da música em plena quarentena, falando de experiências interessantes em transmissões ao vivo e experiências bizarras como o show drive-in em que o buzinaço vira aplauso, mas daí depois deixei ele falar do livro novo do William Gibson, de outras dimensões, de ler ficção científica a luz de velas no sítio da Cantareira quando ele morava com os Mutantes e outras histórias deliciosas. Chega mais.

O Bom Saber é meu programa semanal de entrevistas que chega primeiro para quem colabora com meu trabalho, como uma das recompensas do Clube Trabalho Sujo (pergunte-me sobre como colaborar pelo email trabalhosujoporemail@gmail.com). Além do Pena, já conversei com Fernando Catatau, Mancha, André Czarnobai, Larissa Conforto, Ian Black, Bruno Torturra, Roberta Martinelli, Dodô Azevedo, Negro Leo, Janara Lopes, João Paulo Cuenca e Alessandra Leão – todas as entrevistas podem ser assistidas aqui ou no meu canal no YouTube, assina lá.

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Quem aguenta ver um filme de quatro horas? Quem aguenta ver uma série com dez episódios de uma hora? Qual é o tempo ideal de um filme? Os filmes da Marvel são uma enorme série exibida no cinema? Mad Men é um filme de dezenas de horas? Eu e André Graciotti não nos apegamos a nenhum filme ou série específicos pra falar sobre tempo gasto – ou aproveitado – assistindo narrativas audiovisuais por horas e horas em mais uma edição do Cine Ensaio.

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Renato Barros, que nos deixou nesta terça-feira após complicações em uma cirurgia que fez há pouco mais de uma semana, não foi só um dos maiores guitarristas da história do Brasil como foi o responsável pela musicalidade da Jovem Guarda. Liderando o longevo grupo Renato e Seus Blue Caps, ele tocou e compôs para quase todos os intérpretes que passaram pelo programa apresentado por Roberto Carlos nos anos 60, além de ter o timbre fuzz distorcido que caracterizou grandes clássicos de nosso cancioneiro.

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E o Polimatias desta semana é uma aula sobre o fenômeno Elena Ferrante. Fiz como todo mundo que não sabe tem de fazer: escutei e perguntei à querida Polly Sjobon porque esta autora italiana não é só um fenômeno de vendas como um clássico literário moderno. E ela vai muito além da tetralogia Amiga Genial, devidamente dissecada, e fala também sobre os livros anteriores, dá a dica por onde começar a lê-la, sobre sua personalidade misteriosa (sem entregar nada, claro), a série feita pela HBO e muito mais.

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O grupo A Cor do Som é um dos raros representantes pop da categoria supergrupo no Brasil, quando um conjunto reúne músicos de outras formações para criar um trabalho coletivo forte. Formado no meio dos anos 70 pelos irmãos Mu (tecladista que tocava com Jorge Ben) e Dadi Carvalho (baixista dos Novos Baianos), pelo guitarrista Armandinho (o herdeiro do trio elétrico original, o de Dodô e Osmar, este último seu pai), pelo baterista Gustavo Schroeter (que tocava no grupo A Bolha) e pelo percussionista Ary Dias, o grupo foi o primeiro artista brasileiro a apresentar-se no Festival de Montreux na Suíça a pedido do organizador do evento, Claude Nobs, impressionado pelo virtuosismo e experimentalismo da banda, que até então era instrumental.

Mas o sucesso de crítica não garantia a venda dos discos e sua gravadora pressionou para que eles gravassem canções com letras, o que o transformou em um dos grupos comerciais brasileiros mais bem sucedido da virada dos anos 70 para os anos 80. Mas mesmo com hits como “Zanzibar”, “Beleza Pura”, “Abri a Porta”, “Menino Deus”, “Zero”, “Magia Tropical” e “Suíngue Menina”, o grupo não arredava o pé dos instrumentais e mais de quarenta anos após sua formação, consegue retomar este momento, anunciando para o próximo dia 30 o primeiro disco sem vocais em décadas, Álbum Rosa (a capa segue abaixo). Para anunciar o lançamento, anteciparam uma nova versão para “Frutificar”, realizada em isolamento devido à quarentena, que ainda contou com a presença do baterista Jorginho Gomes, que fez parte do grupo em outra formação.

O novo álbum traz todas as músicas que o grupo gravou no mitológico show que fizeram no festival de Montreux na Suíça, em 1976, que virou disco (“Dança Saci”, “Chegando da Terra”, “Arpoador”, “Cochabamba”, “Brejeiro”, “Espírito Infantil”, “Festa na Rua” e uma versão para “Eleanor Rigby”, dos Beatles) e mais quatro outras faixas instrumentais lançadas após o grupo entrar em sua fase vocal.

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O grupo instrumental Música de Selvagem encerra o ciclo de seu disco Volume Único, seu disco de 2018 que contou com a participação de Tim Bernardes, Luiza Lian, Sessa e Pedro Pastoriz como vocalistas convidados ao lançar, em primeira mão no Trabalho Sujo o registro que fizeram da única vez que os quatro tocaram ao mesmo tempo, na sala Adoniran Barbosa do CCSP, quando eu era curador de música de lá.

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São quatro vídeos em que cantam músicas compostas pelos vocalistas convidados: Sessa canta sua “Música”, Luiza vai de “Dois Blocos” (que mistura suas “Cadeira” e “Tem Luz (Úmido V)”), Pedro Pastoriz canta “Assovio” e o vocalista do grupo O Terno canta “Morto”. Os quatro são acompanhados pelos músicos do grupo, o baixista Arthur Decloedt, os saxofonistas Filipe Nader e Oscar “Cuca” Ferreira, o baterista Guilherme Marques e o trumpetista Amilcar Rodrigues.

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“Esse show foi o único show que fizemos com os quatro compositores convidados durante esses dois anos de vida do disco”, me explica o baixista Arthur. “É realmente muito difícil juntar todo mundo, principalmente por conta das agendas, por isso a gente fez alguns shows com somente alguns convidados. O fato de ter todos os quatro fez desse show muito especial, ainda por cima porque ele rolou em um verdadeiro templo da música de São Paulo, que é a sala Adoniran Barbosa do CCSP.”

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Ele antecipa que o grupo está começando a preparar o sucessor deste álbum, batizado de O Pensamento Selvagem, que ainda está sendo discutido por seus integrantes em videoconferências durante essa interminável quarentena. “Ainda estamos definindo as bases, mas já posso adiantar que teremos a participação da artista sonora Luísa Puterman e da cantora Inés Terra. Estamos buscando incessantemente fazer algo que ainda não fizemos como grupo”, conclui Arthur.

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Peter Green, que morreu neste sábado, entrou para a história como o fundador do Fleetwood Mac, embora o som que tenha consagrado a banda fuja completamente do blues rock que ele concebeu em 1967. O grupo que dez anos mais tarde lançaria o clássico da fossa em alto estilo Rumours começou com a saída de Green do legendário grupo John Mayall’s Bluesbreakers, onde substituiu ninguém menos que Eric Clapton quando tinha apenas 19 anos. Ele pertenceu à grande safra de guitarristas ingleses dos anos 60, que beberam no blues elétrico dos anos 50 para parir a psicodelia, o hard rock e o heavy metal nas décadas seguintes, e foi um dos guitar heroes mais emblemáticos do período. Saiu dos Bluesbreakers e levou o baterista Mick Fleetwood e o baixista John McVie com ele e, ao lado do guitarrista Jeremy Spencer, criou o grupo Peter Green’s Fleetwood Mac featuring Jeremy Spencer com o nome de seus integrantes, que logo foi reduzido apenas para o nome que o consagrou. Green liderou o grupo até o início dos anos 70, emplacando seus primeiros hit, como “Man of the World”, “Black Magic Woman” e “Albatross”. Saiu do grupo em carreira solo mas logo cedeu à esquizofrenia, que lhe tirou dos holofotes e dos palcos, sendo lembrado sazonalmente principalmente por ter fundado o grupo mais tarde consagrado com a entrada do casal duo Lindsey Buckingham e Stevie Nicks.

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Mais notícias de Rincon Sapiência durante a quarentena, mas ao contrário do single anterior, ele não quer mais nem ouvir falar do assunto e retoma o tema do Mundo Manicongo, que lançou no ano passado, lançando o clipe da irresistível “Malícia”, em que seguimos assistindo-o desbravar musicalmente o continente africano, especificamente as musicalidades de Angola, do Congo, de Gana e da Nigéria. E assim ele manda meter dança!

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Alegria que o grande Pedro Pastoriz finalmente vê seu Pingue-Pongue com o Abismo ver a luz do dia, três meses depois da data que havíamos pensado originalmente, em abril, devido, claro, à quarentena e à pandemia. Neste processo, com o qual trabalho venho trabalhando como diretor artístico do lançamento junto ao cantor e compositor gaúcho, repensamos como o disco poderia ser apresentado nos meses seguintes e Pedro começou a explorar outros caminhos longe do palco, especialmente a partir de entrevistas Linha Cruzada feitas através Instagram ou do programa de humor Comitê. Tais ações conversam com o clima onírico e inquieto do disco, qualidades que parecem contraditórias mas que, a partir dos novos horizontes enxergados por Pedro, é um saque com efeito contra as expectativas. Abaixo, o release que escrevi para o lançamento, que foi produzido pelos mesmos músicos que o acompanham no disco (Arthur Decloedt, do Música de Selvagem, e Charles Tixier, produtor que trabalha com Luiza Lian) e ainda conta com participações de Fausto Fawcett, Lydia Del Picchia e Tomas Oliveira. Discão.

Pedro Pastoriz – Pingue-Pongue com o Abismo

Pingue-Pongue com o Abismo é um lugar imaginário, uma metrópole de papelão, uma tarde ensolarada numa paisagem cinzenta, um brinquedo sério. Como em seus discos anteriores, Pedro Pastoriz condensa sensações e situações em canções que soam como crônicas, contos ou conversas, que descrevem relacionamentos, memórias e ansiedades. Mas neste terceiro álbum, o cantor e compositor gaúcho, que também é vocalista do Mustache e os Apaches desbrava fronteiras conceituais e invade outros territórios narrativos, como a poesia, a publicidade, o teatro, a comunicação institucional, a auto-ajuda, o jingle, o rap, o esquete de comédia e outras possíveis formas de texto musicado que nunca havia cogitado em seus discos anteriores, num disco influenciado por outras disciplinas, por acontecimentos pessoais e seu próprio subconsciente. É um salto que consolida sua carreira solo e aumenta seu espectro de atuação para muito além da canção.

O título – meio niilista, meio dadaísta – foi emprestado de uma referência do poeta beat Allen Ginsberg a uma de suas inspirações, o escritor Carl Solomon, tema da terceira parte de sua obra mais importante, Uivo, a quem ele dedicou todo o poema. Seu trabalho foi reunido pela primeira vez no meio dos anos 60 em dois livros, Mishaps, Perhaps (1966) e More Mishaps (1968), que formaram a base de seu único livro publicado no Brasil, De Repente Acidentes (lançado em 1989). Ginsberg citava-o nominalmente na terceira parte de Uivo (“I’m with you in Rockland / where you scream in a straight jacket that you’re losing the game of the actual ping pong of the abyss”, “Estou contigo em Rockland / Onde você grita numa camisa-de-força que está perdendo o jogo do verdadeiro pingue-pongue com o abismo”) e esta imagem, além de outras levantadas por este livro, grudou no inconsciente de Pedro desde que ele o conheceu, ainda em sua adolescência, quando apaixonou-se pela obra a ponto de andar com ela para cima e para baixo e ser reconhecido como seu leitor apaixonado.

A lógica daquele livro renasceu no fazer deste terceiro disco e sua apresentação não-linear, com textos de diferentes tamanhos, humores e intensidades, funcionou como inspiração inconsciente para seu novo álbum, principalmente na utilização de vinhetas, pedaços de textos musicados que não chegam a se tornar canções, acentuando a natureza polifônica do disco.

Outra influência crucial foi a mutação da banda que o acompanhou em seu disco anterior, Projeções (2016). Originalmente um quarteto formado por Pedro, o baixista Arthur Decloedt (Música de Selvagem), o guitarrista Artur Vac (Grand Bazar) e o vocalista do grupo O Terno, Tim Bernardes, fazendo as vezes de baterista, ela passou por duas mudanças de formação que trouxeram o produtor Charles Tixier (Luiza Lian) para a bateria, metamorfoseando o quarteto em um novo trio, que ainda contava com Arthur e Pedro.

Foi este trio que decantou o repertório escolhido para o disco, enxugando bastante o número de canções e materializando as vinhetas a partir das ideias que o autor tinha de outros formatos musicais. A improvável união de violão, contrabaixo elétrico e MPC firmou-se durante as gravações no estúdio Canoa, sob os auspícios do produtor Gui Jesus Toledo, grande entusiasta do trabalho de Pedro e sócio do selo RISCO, que apostou nessa aventura. Juntos, Pedro, Arthur e Charles, que também produziram o disco, passearam por outros instrumentos, tocando synths, mellotrons, teclados de baixa fidelidade, harpa paraguaia, fazendo colagens, usando samples e enfileirando efeitos sonoros, criando esse lugar mental ao mesmo tempo verdadeiro, artesanal e artificial. Todas as vozes são de Pedro Pastoriz.

Durante a produção, Pedro soube da morte da sua mãe e a perda inevitavelmente abalou o disco – e sua cabeça. Em pouco tempo, ele viu-se num lugar em que espiritualidade, meditação, luto, misticismo e saudade misturavam-se de forma tão díspar e sintética quanto a linguagem que estava desenvolvendo para o disco. Isso não tirou o disco do prumo, e sim acentuou sua natureza plural, forçando Pedro a um amadurecimento artístico que não previa, mas que consolida-se no resultado, cuja sonoridade parece o tempo todo muito familiar e incomum.

Neste processo, Pedro entrou num buraco de minhoca que o lançou de volta à sua adolescência e passou a buscar respostas racionais para seu drama pessoal em diferentes fontes: a meditação, a psicologia, a espiritualidade e a arte foram veículos nesta busca infrutífera, que só foi render algo quando Pedro regurgitou tudo aquilo em seu inconsciente. Pingue-Pongue com o Abismo é um disco que foi composto quase todo em sonhos.

“Eram sonhos loucos que ressignificavam todas as informações de um jeito improvável, absurdo, geralmente beirando a comédia”, lembra Pedro, citando como o texto de Freud “Recordar, Repetir, Elaborar” parece ter originado um sobre um serviço que encenava memórias antigas com atores em um palco, tema de uma das canções. Neste processo, houve a constatação de que a repetição funcionava como uma prisão, uma dificuldade de se quebrar um comportamento, um vício, um hábito – e o disco passou a ser encarado como o desafio de sair deste loop.

De sonoridade ímpar, Pingue-Pongue com o Abismo é tanto um disco de variedades da metade do século passado quanto uma colagem pós-moderna no início do século 20 e uma provocação conceitual aos limites da canção neste novo século. Usando a repetição como conceito e tentando, paradoxalmente, não se repetir, ele passeia por baladas idílicas, chavões, levadas latinas, timbres retrô, frases assobiáveis, refrães pegajosos, instrumentos improváveis, copy and paste absurdistas, palavras de ordem, mensagens subliminares e propagandas surreais. As presenças da atriz Lydia Del Picchia, do poeta Fausto Fawcett e do tocador de taças Tomas Oliveira soam tão improváveis quanto familiares fazendo o disco aprofundar o cancioneiro de Pedro para além da linhagem trovadora que atravessou seus dois discos, criando um universo sonoro próprio, jocoso e introspectivo, irônico e minimalista, melancólico e palhaço, expondo contradições que descortinam um novo compositor, pronto para iniciar uma nova fase de sua carreira.

Pingue-Pongue com o Abismo, por Pedro Pastoriz

“Dolores”
“Foi uma das primeiras do novo repertório, fiz a melodia dela no quarto de um hotel no Rio de Janeiro em uma noite tocando assistindo TV sem volume. Foi uma busca de tentar reproduzir aquele mundo praiano pintado em aquarela, uma espécie de mundo da doçura do Harry Belafonte, do Henri Salvador, e aquela coisa das harpas bolivianas do Pájaro Campana, que Charles conseguiu traduzir na maestria, com harpas sintetizadas. A letra fala de uma maneira naïf de alguém que se foi sem avisar e deixou pra trás memórias e objetos, algo que pode ter relação com os dias que vivi arrumando as coisas da minha mãe depois de sua morte. Foram dias que fiquei sozinho em sua casa, li cartas e abri caixinhas de uma pessoa que eu amava tanto, e que pude conhecer ainda mais enquanto organizava esses objetos. “

“Fricção”
“Começamos a tocá-la no início da ser turnê do Projeções, meu disco anterior, ainda com Tim na bateria e Vac na guitarra. A intenção é que ela tivesse essa coisa cool francesa, meio Françoise Hardy, um tanto Burt Bacharach. Um ponto alto são as linhas vertiginosas de baixos do Arthur e as taças, instrumento criado e tocado pelo meu parceiro de Mustache e os Apaches, Tomas Oliveira.”

“Sessão das Sete”
“Foi a música que veio por último. Eu e minha namorada, Talita, pegamos algumas sessões das sete em semanas seguidas no Belas Artes e isso me lembrou uma época dos meus 20 anos lá em Porto Alegre, onde tinha esse hábito semanal de ir no cinema. Achei que precisava puxar esse clima pro disco, e ela tem essas referências de uma noite que parece que já foi vivida, de um filme que já foi visto. Me surpreendi com a combinação dos arranjos com os elementos que pintaram, usei um violão de 12 cordas nessa música, e achei que casou com o MPC do Charles, a sonoridade ficou bem nova pra mim.”

“Chicletes Replay”
“Essa música foi feita a partir de um poema curtinho que tinha escrito, em uma volta de show na madrugada, dia nascendo. Deixei uma cidade na noite anterior, dormi na van depois de um show, dormi, acordei naquela solidão ancestral e contemplativa de quem viaja no escuridão de uma estrada no meio da noite. Dormi de novo, sonhei profundamente, acordei no susto, parei em um posto, voltei pra estrada. E chegando na cidade tive essa revelação de como as coisas se repetem consecutivamente desde sempre – grandes manchetes, possíveis novos finais de mundo, novas eleições, novas promessas de esperança, que é justamente o que possibilita que as coisas continuem sendo como são. Acredito que em Roma ou na China antiga as coisas e os sentimentos e as expectativas eram muito parecidas com as de agora. Os personagens e as ações estão aí desde sempre, e a gente se limita com essas cobranças complicadas e repetidas de apego a uma identidade, uma história que a gente imagina serem únicas, essas coisas. Ela tem esse discurso publicitário e traz esse produto que promete unir histórias tão dissonantes, experiências de vida tão diferentes a partir do consumo de algo fácil, rápido e descartável, um chiclete. Foi uma música feita em sonho, em parte. “

“Lydia Réplica”
“Nós e Outros foram duas peças que vi no ano passado e que me pegaram muito. Vi mais de uma vez e levei caderninhos pra anotar várias coisas, no escuro do teatro. Depois de algum tempo achei as anotações e eram totalmente incompreensíveis. As duas peças são uma parceria do Grupo Galpão de Minas Gerais, com o diretor Márcio Abreu. Nós tem elementos de repetição no texto, quase um remix de palavras, e uma história de despedida amarga e engraçada, e queria trazer isso pro disco de alguma forma. Então convidei a Lydia Del Picchia, diretora e atriz do Grupo, pra participar e “remixar” um texto comigo, uma réplica / reprise / continuação de Chicletes Replay. E foi de primeira, fácil como descobri que as coisas podem ser.”

“Alzira”
Quando componho uma música raramente falo da minha vida pessoal de forma direta, pelo menos. E essa música saiu espontaneamente, é sobre minha mãe. Tinha uma conexão muito forte com ela, e durante os meses de composição pra esse disco eu tinha muita dificuldade de sentar pra compor. As idéias vinham em sonhos, quando meu superego cochilava. Minha mãe morreu um acidente de carro, e muita coisa mudou na minha vida, noites ficaram muito longas e dias muito curtos. Essa música eu levei num ensaio já me desculpando, achando que não devia entrar e que gostava mais da melodia, algo assim. E foi Charles quem me falou: ‘justamente por ser uma história tão pessoal que tu deveria cogitar trazer ela pro repertório, pensa nisso’. Acho que se eu quisesse escrever uma música pra uma coisa tão forte e tão complexa, iria querer florear demais. E isso é impossível, então aceitei essa música como ela veio, porque é importante pra mim.”

“Cachorro Replay”
“Essa vinheta fala por si, do meu animal com o animal em si.”

“Janela”
“Na rua onde eu moro – ou melhor, na rua onde minha janela está presa – conheço quase todos os personagens, vendedores das lojas de música, algumas pessoas que esperam o ônibus barulhento sempre na mesma hora, alguns casais reincidentes que brigam na entrada do hotel, um sujeito que entrega água de bicicleta e todos os dias desce o pequeno declive com uma excitação admirável, gritando: ‘Eu vou morrer, eu vou morrer!’ Todos gritam, aplaudem, jogam qualquer tipo de energia de volta pra esse sujeito. E são raros os momentos, infelizmente, que eu desejo ver essas pessoas. Então geralmente fumo um cigarrinho e ouço um som ao final do dia, quando as pessoas já voltaram pra casa. Essa música foi feita em um desses, dias, um exercício de composição. Fumava meu cigarrinho e olhava pra rua, e assisti alguém que ficou embaixo da minha janela, excessivamente imóvel, uma figura híbrida de existencialismo e alienação total, o que me sugeriu muitas possibilidades possíveis pro futuro e pro passado daquela pessoa. No final das contas é tudo um tanto de projeção, achei justo ela estar no disco.”

“Replay Esportes”
“Li sobre budismo e espiritismo e outros ismos, seguindo a vida depois do trauma da perda da minha mãe. Fiquei mais tempo interessado na meditação transcendental. A idéia de ficar em silêncio, entrar em contato com os pensamentos de outra forma, e de aceitar alguns vazios que estão ali. É relativamente difícil entrar em contato com a informação do como fazer, com a prática e os exercícios. São muitos livros falando sobre os benefícios, como pode mudar sua vida. Mas não ensinam muito sobre a prática. Tem aplicativos que jogam uma ansiedade estranha na prática, com programas de metas e de desempenho, o que pra mim é o oposto de ouvir sua própria respiração e investigar o que está acontecendo em seu corpo. E em algum momento meditando voltei com essa cena do esporte de alto rendimento no abismo na meditação e uma mistura totalmente improvável de tudo isso.

“Teatro Replay”
“Fazendo terapia no ano passado, conheci um texto do Freud que fala sobre Recordar, Repetir e Elaborar, e em alguns momentos minha terapia foi em um caminho de como tendemos a repetir ações na intenção de superá-las. Racionalmente era isso. Mas então algo bem mais legal aconteceu. Sonhei com esse serviço de uma companhia de teatro que prometia ajudar as pessoas a reviverem melhores momentos de suas famílias através de atuações em um teatro, e achei que que tinha algo ali. Foi uma das primeiras músicas do disco e foi outra música feita em sonho, em grande parte.”

“Resposta sobre Hostel Replay”
“Esse é um reclame do meu disco anterior, misturado com um comercial. É também importante afirmar o que não se é.”

“Faroeste Dançante”
“Essa música é uma parceria com o Fausto Fawcett, que admiro muito e que mensalmente acompanho suas participações nos sarau Trovadores do Miocárdio. Em uma das edições levei meu exemplar do livro Santa Clara Poltergeist pra ele e disse que estava fazendo uma música que eu estava tentando emular algo Fausto Fawcett. Ele riu e me falou pra mandar a música pra ele. O processo foi fácil, todo a distância. Foi minha primeira parceria com outro letrista, ouço e ainda fico maravilhado com a idéia de ter um fonograma com o man. Tem um solo de MPC cabuloso do Charles, eu uso um violão de 12 cordas nessa faixa, e Arthur toca um controlador synth bass.”

“Sol”
“Essa veio de um desses exercícios de meditação, tem qualquer coisa de influência naquela linguagem do Instituto Dharma, do seriado Lost.”

“Boogaloo”
“Essa música era uma das preferidas do público na turnê de 15 shows que fiz na Alemanha em setembro de 2019. Ela surgiu a partir da idéia de eu ensinar português pros alemães, formando uma grande miniorquestra junto com as palmas e os calcanhares batendo no chão. E eu gritava “Napoleão”, e eles repetiam, e eu mandava “A egiptologia!”, e eles morriam de rir com os fonemas. Ela fecha o disco, com solo de liquidificador.”

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Era inevitável que o concerto que Nick Cave deu sozinho no mítico Alexandra Palace, em Londres, aparecia online logo depois de ser transmitido em regime fechado – só não achei que fosse aparecer tão logo e justo no YouTube. A apresentação reforça o sentimento de solidão global que nos atravessa nesses dias de isolamento social. Armado apenas de sua voz e um piano de cauda, Cave equilibra-se entre a solenidade e o desolamento e se seus shows tradicionais o fazem ir da raiva à prece, aqui estes sentimentos se transformam em desespero e desalento, e atravessando diferentes momentos de sua carreira (que versões absurdas para “Mercy Seat” e “Jubilee Street”, ele tocou poucas canções de seus discos mais recentes, ambos carregados da tristeza e do luto da perda de seu filho adolescente, puxou duas canções de seu grupo tosco Grinderman (que, sem guitarras e rosnados, parecem rascunhos de canções menores de Bob Dylan) e uma inédita, “Euthanasia”, e a primeira versão ao vivo para Idiot Prayer”, que batiza a apresentação. Assista antes que tirem do ar.

“Spinning Song” (em versão falada)
“Idiot Prayer”
“Sad Waters”
“Brompton Oratory”
“Palaces of Montezuma”
“Girl in Amber”
“Man in the Moon”
“Nobody’s Baby Now”
“(Are You) The One That I’ve Been Waiting For?”
“Waiting for You”
“The Mercy Seat”
“Euthanasia”
“Jubilee Street”
“Far From Me”
“He Wants You”
“Higgs Boson Blues”
“Stranger Than Kindness”
“Into My Arms”
“The Ship Song”
“Papa Won’t Leave You, Henry”
“Black Hair”
“Galleon Ship”