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Jornalismo

Quino (1932-2020)

O traço precioso e o senso crítico aguçado do maior quadrinhista argentino resumem-se em sua maior criação: Mafalda. Quino, nascido Joaquín Salvador Lavado Tejón, morreu nesta quarta-feira, aos 88 anos, de causas naturais, e sempre será lembrado por sua principal protagonista, a curiosa e desafiadora Mafalda, que resumia suas preocupações políticas e humanas durante os nove anos em que foi publicada em tiras diárias, entre 1962 e 1973. Mas seu humor, sua visão crítica e seu traço precioso expandem-se para além de sua turma clássica de personagens e podem ser encontrados em cartuns épicos e delicados, em que vasculha os horizontes questionados por sua principal criação. A notícia de sua morte é um bom motivo para descobrir seu trabalho para além da querida fã de Beatles.

Girl Talk de volta

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O produtor norte-americano Gregg Gillis, mais conhecido como Girl Talk, ressurge depois de anos sem lançar nada com um single ao lado do rapper novato Bas. “Fallin'” é um rap quase clássico, melancólico e bluesy, bem distante dos mashups que o tornaram conhecido.

Mas isso não o impede de faturar com o passado – e ele acaba de colocar seus dois discos mais recentes (All Day, de 2010, e Feed the Animals, de 2008) em pré-venda para o lançamento pela primeira vez em vinil. Queria mesmo era o Night Ripper e o Unstoppable… Será que ele lança?

deerhoof

Sem avisar ninguém, o grupo indie norte-americano Deerhoof lançou Love-Lore, um impressionante exercício em que enfileiram quarenta e três músicas alheias em trinta e cinco minutos, misturando versos, riffs, melodias, solos, grooves e efeitos sonoros ao superporem pedaços de clássicos do rock, hits new wave, temas de seriado, experimentos de vanguarda, hits pop, trilhas de filmes e obras eruditas, misturando Velvet Underground, Sun Ra, Caetano Veloso, Beach Boys, Baden Powell e Vinícius de Moraes, Police, Gary Numan, John Williams, Parliament, Silver Apples, Ennio Morricone, B-52’s, e muito mais. De tirar o fôlego – a bula com todos os nomes das músicas vem abaixo:

Ornette Coleman – “in All Languages”
J.d. Robb – “Excerpt from Spatial Serenade”
Voivod – “Macrosolutions to Megaproblems”
Earl Kim – “Earthlight”
Stu Phillips – “Knight Rider”
Raymond Scott – “Ohio Bell”
Mauricio Kagel – “Music for Renaissance Instruments”
Eddie Grant – “Electric Avenue”
Gary Numan – “Cars”
Karlheinz Stockhausen – “Kontakte”
The Beach Boys – “Wonderful”
Gerald Fried – “Star Trek: Balance of Terror”
Pauline Oliveros – “All Fours”
Paul Williams – “Rainbow Connection”
James Tenney – “for Ann (rising)”
Silver Apples – “Oscillations”
The Police – “Driven to Tears”
Kraftwerk – “We Are the Robots”
John Williams – “Close Encounters of the Third Kind”
Morton Feldman – “Patterns in a Chromatic Field”
Sun Ra – “They Dwell on Other Planes”
Parliament – “Unfunky Ufo”
Asha Puthli – “Space Talk”
Ennio Morricone – “Ottave Comandamento: Corri Veloce”
Milton Babbitt – “Homily for Snare Drum”
The B52s – “Song for a Future Generation”
Sofia Gubaidulina – “Mechanical Accordion”
Vinicius De Moraes & Baden Powell – “O Astronauta”
Dionne Warwick – “Do You Know the Way to San Jose?”
David Graeber – “of Flying Cars and the Declining Rate of Profit”
Derek Bailey – “Improvisation”
William Hanna & Hoyt Curtin – “The Jetsons”
Anthony Braxton – “C-m=b05”
Gyorgy Kurtag – “Shadows for Contrabass Solo”
Eric Siday – “The Perking Coffee Pot”
Igor Stravinsky – “Variations Aldous Huxley in Memoriam”
Caetano Veloso – “Pulsar”
Luigi Nono – “Uno Espressione”
Krzysztof Penderecki – “Threnody for the Victims of Hiroshima”
John Cage – “Empty Words”
George Brecht – “Drip Music”
The Velvet Underground – “All Tomorrow’s Parties”
Laurie Anderson – “Example #22”

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Lembram daquele single novo que a Ana Frango Elétrico falou que estaria lançando em breve quando eu a entrevistei há pouco mais de um mês? “Mama Planta Baby” segue o clima do ótimo Little Electric Chicken Heart que ela lançou no ano passado, embora ainda mais bucólico e sossegado que o disco de 2019. O single chega às plataformas digitais nesta quarta, mas já dá pra ouvir aqui.

É a primeira produção que ela assina sozinha, reunindo um grupo que inclui Vovô Bebê tocando flauta, Alberto Continentino no baixo, Dora Morelembau e Lucas Nunes nos vocais e Joca na percussão eletrônica, além de violão, bateria eletrônica, órgão, Glockenspiel e efeitos tocados pela própria Ana. O single sai no mesmo dia em que seu disco foi indicado para o Grammy Latino de melhor álbum rock/alternativo brasileiro, quando concorre com o Aos Prantos da Letrux, o Amarelo de Emicida, o Universo do Canto Falado do Rapadura e Na Mão As Flores do Suricato. O Grammy Latino acontece no dia 19 de novembro e vários outros artistas brasileiros legais (Zeca Pagodinho, João Bosco, Pabllo Vittar, Ney Matogrosso, BaianaSystem, Maria Bethânia, Elza Soares, Céu, Marcelo Jeneci, Caetano Veloso, As Bahia e a Cozinha Mineira, Martinho da Vila) estão concorrendo a outros prêmios.

Uma Xx solo

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A vocalista inglesa Romy Madley-Croft pisa fora da igreja indie que fundou para mostrar seu primeiro trabalho solo. O clipe de “Lifetime”, a primeira música que ela mostra fora do Xx, cai na pista de dança com gosto e com estilo, num trabalho surpreendentemente astral, avesso à linha triste e cool de seu grupo original.

Que bela surpresa.

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A relativização dos valores morais que está acontecendo no mundo hoje reflete-se inevitavelmente no cinema, quando assistimos a filmes – e também séries e games – que buscam entender as motivações do antagonista ao mesmo tempo em que busca falhas éticas no protagonista. Sem distinguir bem e mal, a produção cinematográfica recente parece dissipar estas fronteiras à medida em que personagens outrora vilanescos ganham contornos de herói. Eu e André Graciotti discutimos esta tendência e nos perguntamos sobre como isso se reflete de volta na sociedade como um todo.

janis

Ouça Janis Joplin cantando “Me & Bobby McGee” em uma versão demo gravada meses antes de ela morrer, sozinha, apenas cantando e tocando violão, para lembrar-se porque ela é uma das maiores cantoras de todos os tempos.

Que mulher!

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A sensação indie filipino-britânica Beabadoobee mostra mais uma música de seu próximo álbum Fake It Flowers, que sairá em duas semanas, a delicada “How Was Your Day?”. Sem a pegada mais rock dos singles anteriores, a balada se sobressai justamente por sua fragilidade, mostrando apenas com voz e violão, todo o senso pop que já havia exibido com riffs e refrões.

Os Beastie Boys liberaram a íntegra de seu último show, quando encerraram o festival norte-americano de Bonnaroo em 2009, apenas para este fim de semana, por isso aumente o volume. E ao contrário da maioria dos últimos shows, este não tem uma vírgula de melancolia – o grupo está com a energia no talo e o característico altíssimo astral, sem fazer ideia que um deles, MCA, não estaria mais entre nós em poucos anos, encerrando prematuramente a carreira do nosso trio favorito. O show repassa toda a carreira do grupo, que vai do hardcore ao soul jazz, passando por pedradas clássicas de rap (boa parte delas recriadas por Mix Master Mike, também afiadíssimo) e a participação inesperada do mano Nas. E quantas bandas conseguem fazer um bis tão forte quanto com “Intergalactic”, “Three MC’s and One DJ” e “Sabotage” e incluindo uma versão folk para um semihit punk deles mesmos? Que banda!

“The Biz vs. The Nuge”
“Time for Livin'”
“Super Disco Breakin'”
“Sure Shot”
“No Sleep Till Brooklyn”
“Shake Your Rump”
“Gratitude”
“Sabrosa”
“Egg Raid on Mojo”
“Body Movin'”
“Pass the Mic”
“Root Down”
“Too Many Rappers”
“Paul Revere”
“Ricky’s Theme”
“Something’s Got to Give”
“Tough Guy”
“Remote Control”
“So What’cha Want”

Bis:
“Intergalactic”
“Three MC’s and One DJ”
“Heart Attack Man” (com Country Mike)
“Heart Attack Man”
“Sabotage”

gilmour

O canal isolado da guitarra de David Gilmour na clássica faixa “Echoes”, épico de 23 minutos que define o rumo da segunda e mais importante fase do Pink Floyd, revela as sutilezas e forças do instrumento elétrico no que vão muito além do solo apaixonado, do riff incisivo ou dos sons de gaivotas alienígenas do final. Gilmour exibe todo seu domínio do instrumento e pode-se ouvir, er, ecos do resto da discografia de seu grupo apenas nesse momento único: o lirismo do Dark Side of the Moon, a tristeza de Wish You Were Here, o ritmo de Animals, o peso do The Wall.

Guitar hero é pouco.