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Você já sabe se quer ver um documentário sobre música brasileira no cinema em São Paulo já tem dia e hora marcada toda semana: graças à parceria que o Centro da Terra fez com o festival de documentários In Edit Brasil, sempre trazemos filmes novos e clássicos sobre grandes nomes e cenas da nossa cultura musical. E nesta primeira quarta de abril, mergulhamos no grande Paulo César Pinheiros, um dos maiores letristas do Brasil, que é dissecado no documentário que Andrea Prates e Cleisson Vidal lançaram em 2021. Paulo César Pinheiro – Letra e Alma aprofunda-se na importância deste poeta que fez exemplos clássicos de nosso cancioneiro ao lado de artistas tão diferentes quanto Ivan Lins, Edu Lobo, João Nogueira, Francis Hime, Dori Caymmi, Pixinguinha, Sueli Costa, Raphael Rabello, Tom Jobim, Lenine, Guinga, Carlinhos Vergueiro, Toquinho e Baden Powell Maria Bethânia, eternizado por intérpretes como Maria Bethânia, Elis Regina, Simone, Nelson Gonçalves, Emílio Santiago e Clara Nunes, com quem foi casado. A sessão começa pontualmente às 20h e os ingressos podem ser comprados neste link.

Só a notícia que existe um disco novo inédito dos Tincoãs que nunca foi lançado já seria suficiente para segurar o fôlego de qualquer um que goste de música. Mas não para por aí: esse disco, engavetado há quarenta anos, finalmente verá a luz do dia, trazendo Dadinho (violão), Mateus Aleluia (atabaques) e Badu (agogô e ganzá) acompanhados do Coral dos Correios e Telégrafos do Rio de Janeiro, um projeto que foi idealizado pelo produtor Adelzon Alves, que trabalhava com o grupo. O primeiro aperitivo de Canto Coral Afrobrasileiro, que será lançado ainda este semestre, é o single “Oiá Pepê Oiá Bá”, que chega às plataformas digitais nesta quinta-feira, mas já dá pra sentir um gostinho em primeira mão aqui no Trabalho Sujo.

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Desafio vencido

Que maravilha a estreia do Guaxe ao vivo. A dupla formada por um boogarin e um supercorda finalmente debutou nos palcos depois de quase dez anos de parceria – Dinho e Bonifrate começaram a compor desde o primeiro dia em que se conheceram, em 2015, e lentamente seguiram maturando composições entre a guitarra do goiano e a viola do paratiense até que elas tomaram forma no ano anterior à pandemia e o encontro no palco foi suspenso pelos motivos que conhecemos. Este primeiro reconhecimento finalmente aconteceu nesta terça, quando Bonifrate disparava bases eletrônicas num Casiotone – ou simplesmente fazia o teclado cantarolar uma melodia – para que seus instrumentos de corda e suas vozes se encontrassem num ponto perfeito entre a desconfiança caipira e a ingenuidade lo-fi, num show memorável que terminou com os dois reverenciando Spacemen 3, numa versão para “The Sound of Confusion”. Lindaço.

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Vocalistas de duas das principais bandas psicodélicas brasileiras deste século, Dinho e Bonifrate atravessaram os anos pós-golpe lapidando, nas idas do goiano à Paraty, um disco que só foi lançado depois em 2019. E como aconteceu com todo mundo em 2020, o projeto que une o boogarin e o supercorda criaram em casa, não se materializou nos palcos pelos motivos que a gente sabe, ressurgindo apenas em 2023 na primeira apresentação ao vivo, que recebemos com prazer neste início de abril no Centro da Terra. A dupla Guaxe mistura as sensibilidades caipira e lo-fi entre violas e teclados de brinquedo nessa que já uma das apresentações mais disputadas no Centro da Terra neste ano. O espetáculo Desafio do Guaxe começa pontualmente às 20h e ainda há ingressos à venda online – mas estão quase no fim!

Jadsa escolheu a canção como fio da meada da primeira noite de sua temporada no Centro da Terra e convidou o conterrâneo e contemporâneo Giovani Cidreira para cair no Big Buraco que vai tomar conta das segundas-feiras no palco mais ousado do Sumaré. Juntos e acompanhados apenas de seus instrumentos – Jadsa na guitarra e Giovani ao violão -, os dois foram do céu ao inferno entrelaçando vozes e instrumentos em canções cruas que eram distorcidas pelos efeitos de Felipe Galli, que fez timbres e ecos dar novas dimensões a um encontro tão afetivo e importante. E pensar que foi só a primeira noite…

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Jadsa: Big buraco

Quem toma conta das noites de segunda-feira no Centro da Terra é a baiana Jadsa, que completa dois anos de lançamento de seu disco de estreia, o lírico-paulistânico Olho de Vidro, olhando para o que construiu neste início de carreira e como isso misturou-se com o nefasto período pandêmico. Ela reúne a velhos e novos compadres e comadres para revisitar o disco em encontros que prometem ser históricos. No primeiro deles, dia 3 de abril, ela convida o conterrâneo Giovani Cidreira para mergulhar em seu passado comum. Na segunda que vem, dia 10, é a vez de se encontrar com o guitarrista Kiko Dinucci. Na semana seguinte, dia 17, ela junta-se às cantoras e compositoras Marcelle, Josyara e Marina Melo, e termina a temporada, chamada de Big Buraco, no dia 24, quando recebe, na mesma noite, Alessandra Leão e Juçara Marçal. Vai ser lindo e intenso, como só Jadsa sabe fazer. Os espetáculos começam sempre pontualmente às 20h e os ingressos podem ser comprados antecipadamente neste link.

À frente da Sire Records, Seymour Stein ajudou a consolidar a geração punk do CBGB’s ao assinar com os Ramones e com os Talking Heads, além de descobrir uma certa novata chamada Madonna e a revelar artistas em ascensão durante os anos 80, como os Smiths, os Pretenders, Depeche Mode, os Replacements e o Echo & The Bunnymen, entre outros. Morreu neste domingo.

Triste a notícia da passagem de Ryuichi Sakamoto, um dos pioneiros da música eletrônica que, a partir do trio japonês Yellow Magic Orchestra, começou uma lenta doutrinação dos novos sonos sintéticos e sua aproximação tanto com os sons da natureza, quanto da música erudita, seja clássica ou contemporânea. Um gênio que nos deixa cedo, aos 71 anos, por causa de um câncer. E é o segundo integrante da YMO a morrer este ano, o baterista Yukihiro Takahashi nos deixou em janeiro.

De volta ao desvio

Só o fato do Ira! resolver visitar seu disco mais ousado 35 anos depois de seu lançamento já seria motivo para comemoração. O mitológico Psicoacústica, lançado 12 anos antes do fim do século passado, reúne uma série de qualidades que o tornam único, tanto na discografia da banda quanto na história da safra de bandas que surgiu naquela década: além de ser o primeiro disco produzido por uma banda e praticamente não trazer nenhum refrão (como o vocalista Nasi fez questão de frisar), ainda ampliou o leque artístico e conceitual daquele final de década, antecipando inovações que seus pares de geração só iriam experimentar nos anos seguintes, como fariam os Paralamas em seu Os Grãos, os Titãs com seu Õ Blésq Blom e o Legião com seu V. E neste sábado o grupo colocou esse plano em prática no Teatro Bradesco, em São Paulo.

Seguindo uma trilha aberta pelos Paralamas em seu Selvagem?, o Ira! flertava com a embolada e com o rap (“Advogado do Diabo”, que ecoou no Recife pré-mangue beat) ao mesmo tempo em que questionava sua própria natureza rock, mas chocava-se com o astral do trio formado no Rio ao desbravar um pessimismo que tirava o país do oba-oba do chamado “rock de bermudas” que havia dado as cartas da música pop daquele período. Flertando com o cinema marginal (sampleando O Bandido da Luz Vermelha em “Rubro Zorro”) e a poesia moçambicana (mesmo que sem saber disso, em “Receita para Se Fazer um Herói”), Psicoacústica puxava o tom pessimista que começava a pairar sobre o país à medida em que afundávamos na ressaca da tragédia que foi a ditadura militar iniciada em 1964, enquanto Scandurra cantava sua busca por “outros sons, outras batidas, outras pulsações” em um hard rock chamada “Farto do Rock’n’Roll”. Ao vivo e num país arrasado pela pandemia e pela extrema direita, aquelas canções ganhavam novas dimensões – e como é bom ver o grupo deslizando num delírio anticomercial do passado que consolidou sua aura depois de emplacar vários hits no rádio com os discos anteriores.

Claro que as oito faixas deste terceiro disco não corresponderiam ao total do show e o grupo foi esperto ao passear por clássicos inevitáveis (“Dias de Luta”, “Envelheço na Cidade”, “Flores em Você”, uma bem-vinda “Tarde Vazia” e “Núcleo-Base”, que encerrou a noite) quanto por músicas de outro período além dos anos 80 (tocando “Flerte Fatal”, “Vida Passageira”, “O Amor Também Faz Errar”, “O Girassol” e “Eu Quero Sempre Mais”), além de visitar clássicos do rock como se fizesse questão de mostrar suas patentes – uma inesperada versão para a faixa que batiza o grupo Black Sabbath, a versão que o grupo fez para “Train in Vain” do Clash (que virou “Pra Ficar Comigo”) e “Purple Haze” de Jimi Hendrix seguida de “Surfin’ Bird” dos Trashmen.

Nasi, de bom humor, apontava para o público, cumprimentava quem estava na primeira fila, deu autógrafo e jogou uma camiseta para o público, enquanto Scandurra esmerilha cada vez mais seu instrumento, provando-se um dos maiores guitarristas de rock do Brasil. A dupla icônica, únicos remanescentes da formação clássica da banda, era acompanhava pelo fiel escudeiro Johnny Boy (no baixo) e Evaristo Pádua (na bateria), ambos cientes que estão tocando num grupo clássico – e fazendo jus a essa reputação. E ao abrir mão de sucessos como “Tolices”, “Vitrine Viva”, “Pobre Paulista”, “Gritos na Multidão” e “Longe de Tudo” para sair dos anos 80, seja tocando sua obra mais recente quanto celebrando ícones do passado, o Ira! mostrou que ainda faz sentido em 2023, principalmente à luz da semente que plantaram 35 anos atrás.

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O mineiro tornado capixaba sentiu o impacto do mar. Juliano Gauche refugiou-se no litoral do Espírito Santo logo no início da pandemia, onde passou boa parte da quarentena e perdeu pessoas queridas – entre elas, seu próprio pai -, quando abriu seu inconsciente para conectar-se com o que estava acontecendo. Compôs uma série de canções neste período e separou algumas delas para exorcizar estas sensações no disco Tenho Acordado Dentro dos Sonhos, que acabou de lançar. Conversei com ele sobre este processo e como ele tem se envolvido cada vez mais com espiritismo e sonhos lúcidos e como isso dialoga com sua criatividade e… com o mar.

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