
Na primeira das duas terças em que Mestre Nico apresenta-se no Centro da Terra, ele aproveitou para repassar suas mais de três décadas dedicadas à música. Liderando seu quarteto Balanço da Manipueira, composto pelas percussões e vozes de Thalita Gava e Rafaella Nepomuceno e pela voz e sax de Júnior Kaboco, ele recebeu compadres de diferentes gerações, desde velhos parceiros como o violonista Edinho Almeida e os sopros de Gil Duarte quanto novos compadres como o guitarrista Lello Bezerra e Bb Jupteriano, que distorce, em fita de rolo, sons gravados previamente. Este material está sendo depurado para tornar-se o primeiro disco solo de Nico. E terça-feira que vem tem mais…
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Muitos conhecem o trabalho do Mestre Nico a partir do trabalho que vem desenvolvendo com Siba há quase uma década, segurando o ritmo e a segunda voz do trabalho do pernambucano desde que este passou da rabeca para a guitarra, mas este percussionista conta com um trabalho solo que aos poucos começa a ser revelado. É esta nova faceta que dá as caras em duas terças-feiras no Centro da Terra, quando Nico traz propõe, ao lado de sua banda O Balanço da Manipueira (formada por Thalita Gava, Rafaella Nepomuceno e Júnior Kaboco), o início do que pode ser seu primeiro álbum autoral na minitemporada chamada De Andada no Tempo. E para estas duas apresentações reuniu compadres para abrir novas fronteiras de sua arte, como o guitarrista Lello Bezerra, Bb Jupteriano, que distorce fitas de rolo, o violão 7 cordas de Edinho Almeida e o trombone e o pífano de Gil Duarte. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos podem ser comprados neste link.

Mais uma noite com Ná Ozzetti no Centro da Terra e a viagem desta segunda-feira foi entre voz e sopro, com a cantora sendo conduzida pelos saxes e clarinetes de Fernando Sagawa. Juntos, desbravaram canções de Tom Zé, Beatles, Hermínio Bello de Carvalho, Déa Trancoso, Chico Buarque e Geraldo Filme e Luiz Tatit – Fernando superpondo seus sopros com arranjos minimalistas e a voz resplandecente de Ná abrindo luzes claras na escuridão do teatro. Muita doçura pra uma noite só.
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Cátia de França ao vivo, com seus setenta e tantos anos, é ainda mais forte que em disco, quase cinquenta anos mais nova, quando gravou alguns dos álbuns mais subestimados da música brasileira (entre eles o obrigatório 20 Palavras Ao Redor do Sol – se você não conhece esse disco, pare tudo que está fazendo e ouça agora!). Apresentando-se no Sesc Pinheiros neste domingo para celebrar seu cinquentenário nos palcos, ela mostrou que a presença de sua música é equivalente à de outros monstros sagrados que ergueram a bandeira da psicodelia no nordeste brasileiro nos anos 70, com o agravante de ser mulher e ter saído de João Pessoa, na Paraíba, cidade que não tem a tradição de capitais mais populosas da região.
Ela é um dos nomes mais importantes desta cena e embora não seja tão celebrada quanto nomes como Ave Sangria, Zé Ramalho, Robertinho do Recife e Alceu Valença, a paraibana orbitou a cena que circulava ao redor da casa de Lula Côrtes e Kátia Mesel e que viu surgir outros monstros sagrados que também não são mais reconhecidos, como Marconi Notaro, Flaviola e a banda Phetus. Só que Cátia continua viva, na ativa, produzindo, compondo e tocando e a apresentação que fez neste domingo mostrou o tamanho de sua importância.
Acompanhada de Alessandra Leão, pupila confessa e visivelmente emocionada por dividir o palco com sua musa, ela poderia apenas desfilar as canções de seu álbum mais conhecido – como fez, disparando hinos como a faixa-título, “Sustenta a Pisada”, “O Bonde”, “Coito das Araras” e “Estilhaços”, mas não deixou de lado outras fases da carreira, menos festejadas mas igualmente ousada, em músicas como “Avatar” e “Trator/As Águas Que Correram Dos Meus Óio” (que usou para abrir o show acompanhada apenas de Leão), “Não Há Guarda-Chuva”, “Espelho de Oloxá”, “Minha Vida É uma Rede” e “Geração”. Fez questão de celebrar sua espiritualidade, saudando Exu, de quem é filha, e puxando outras saudações ao Caboclo Boiadeiro.
Dividindo-se entre o violão, o pandeiro, o agogô e o triângulo, ela contava com uma banda tinindo, que a acompanhava para onde fosse – e o baixista dirigia a apresentação que equilibrava o duelo entre a viola e a guitarra, achando aquele ponto comum preciso no meio do rock e do baião que abre as possibilidades psicodélicas necessárias. Cátia ainda saudou a aluna ao tocar duas de Alessandra (“Não vou nem fala muito porque eu tô na beira do choro, mas quero dizer que uma parte grande do fato de eu ser artista, de eu escrever, de ser compositora e cantora, se deve à Cátia de França”, disse a compositora pernambucana), “Campo de Batalha” e “Corpo de Lã”, antes de encerrar com a inevitável “Kukukaya”. Uma noite mágica, de bruxaria pesada.
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Bem antes do rap nascer no final dos anos 70, um grupo de ativistas e poetas negros se reuniu no aniversário de Malcolm X três anos depois de seu assassinato para lembrar o líder com um novo movimento. O trio formado por Abiodun Oyewole, Dahveed Nelson e Gylan Kain apresentou um novo tipo de manifestação cultural que consistia em improvisar poemas sobre uma base rítmica, misturando a então recente novidade de recitar poesia sobre música que ficou conhecida como spoken-word e a ancestral roda de percussão que precede a vinda dos africanos que vieram escravizados para o outro lado do Atlântico. Dez anos antes da disco music se despedaçar criando os elementos para gangues nova-iorquinas se reinventarem a partir da música usando apenas toca-discos e microfones, os autodenominados Last Poets começavam a abrir um caminho que facilitou o início da cultura hip hop. E lá estavam dois de seus fundadores no palco do Sesc Pompeia, encerrando as atividades do Festival Zunido. No lugar de Gylan Kain estava Felipe Luciano, que nasceu no ano seguinte à fundação do grupo em 1968 e viaja com eles desde o final do século passado. Devido à idade avançada dos sobreviventes da banda (Abiodun Oyewole tem 75 anos e Dahveed Nelson, 89!), o show começou com uma longa (e tediosa) introdução de Luciano rimando sobre um violão tocado de forma quase vacilante, abrindo o território para a chegada dos tataravós do rap. Depois de Luciano, quem subiu ao palco foi o percussionista Baba Don Babatunde, que lentamente começou a esquentar a noite. Um vídeo curto apresentou a história da banda para o público antes que os poetas originais Abiodun e Dahveed entrassem em cena e conquistassem o público. Não era uma apresentação de rap, mas em pouco tempo os dois anciãos mostraram porque estão neste ponto tão central na genealogia de toda esta cultura, rimando sobre o ritmo dos tambores enquanto puxavam o público para a apresentação, pedindo para que este terminasse algumas rimas, repetisse palavras de ordem e se juntasse aos versos que vinham do palco. Mesmo com a idade avançada e sem um beat mais incisivo, foram lentamente conquistando o público, mostrando que a fama que os precede faz jus. Histórico!
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Que notícia triste a da passagem de Lance Reddick, que morreu de causas naturais com apenas 60 anos de idade! Seu olhar implacável, postura rígida e voz assertiva garantiram papéis icônicos em produções tão diferentes quanto as séries The Wire, Lost, Oz e Fringe e a série de filmes de ação John Wick. Essas mesmas qualidades o deram ares sobrenaturais que foram usados em diferentes produções, como o futuro filme inspirado na série de livros Percy Jackson (em que ele interpreta Zeus), no seriado American Horror Story (quando faz o papel de Papa Legba) e o violão Ra’s Al Ghul (no desenho seriado Beware the Batman). Ainda tinha muito o que fazer por aqui…

Tava devendo. Sei do Acesa de Alessandra Leão desde quando ele ainda era uma ideia, naquele longíquo tempo pré-pandemia. O projeto ganhou vida, virou show e eu ainda não tinha conseguido assisti-lo ao vivo – e finalmente saldei minha dívida nesta quinta-feira, quando pude ver esse híbrido de tradição com modernidade no palco da Casa de Francisca. Disparando samples de gravações que fez no sertão nordestino e manipulando timbres com pedais de distorção, Alessandra veio amparada por um trio digital de peso: Kastrup entre as percussões acústicas e MPC, Zé Nigro nos teclados e Marcelo Cabral no synth bass. E como se não bastasse a intensa roda eletrônica que armou no palco da Francisca, ainda chamou duas entidades para acompanhá-la – e tanto Dani Nega quanto Ava Rocha se esbaldaram ao lado da dona da festa. Que noite!
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(Foto: Elisa Mendes/divulgação)
Passou o carnaval mas não o calor no coração: ou pelo menos assim atesta o primeiro single que une vozes e violões de Josyara e Juliana Linhares, duas das grandes revelações dos últimos anos, em visita a um clássico do grupo Asa de Águia. “Muitas vezes a gente vê os estilos sendo associados a um momento do ano e o mercado tenta enquadrar a música em épocas nas quais ela ‘deve’ ser tocada: forró é junho e toca no São João, axé é carnaval”, explica Juliana sobre lançar uma axé music após a semana da folia, que esse ano durou meses. “‘Não Tem Lua’ faz parte da nossa memória afetiva adolescente e não é necessariamente só carnavalesca; lembramos que música é atemporal e pode atravessar gerações”, ela continua. A música será lançada nesta sexta-feira mas seu clipe pode ser visto em primeira mão aqui no Trabalho Sujo.
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Quarta-feira, você sabe, é dia de documentário sobre música brasileira no Centro da Terra, graças às parceria que firmamos com o festival In Edit e neste dia 15, às 20h, exibiremos Pedro Osmar, Pra Liberdade Que Se Conquista, que trata sobre o personagem que batiza o filme de Eduardo Consonni e Rodrigo Marques. Fundador do mitológico Jaguaribe Carne, nos anos 70, Pedro Osmar mudou a cara da arte paraibana a partir da psicodelia nordestina, que reverberou em outras áreas de sua produção artística – além de músico e compositor, também é poeta, artista plástico e dramaturgo e sempre expandiu seus horizontes a partir da liberdade que conquistou com sua arte, transformando o que seria uma biografia num um manifesto poético-político-musical. A sessão começa pontualmente às 20h, os ingressos estão à venda neste link.
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Que bordoada esse show que a Bufo Borealis fez ao lado de Edgard Scandurra. O guitar hero paulistano por excelência já havia participado das gravações do primeiro disco do combo de free jazz fundado a partir de uma cozinha de formação punk: o baixista do Ratos de Porão Juninho Sangiorgio e o baterista Rodrigo Saldanha fundaram o grupo a partir de experimentos musicais inspirados pela fase elétrica de Miles Davis. Com Tadeu Dias na guitarra, Paulo Kishimito na percussão e teclados, Vicente Tassara nos teclados e Anderson Quevedo no sax, o grupo enfileirava músicas de seus dois discos criando um parede sonora que entrou pelos poros de todos que lotaram o Centro da Terra nesta terça-feira. O acréscimo de Scandurra à formação trouxe um sniper para este batalhão enfurecido, que acertava com precisão para onde quer que apontasse sua guitarra. O final do show com versões para “In a Silent Way” de Miles Davis e “20th Century Schizoid Man” do King Crimson foi só o golpe baixo final que acabou por acachapar as expectativas de todos os presentes. Alguém anotou a placa do caminhão?
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