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Jornalismo

Mais uma quarta-feira de cinema no Centro da Terra, graças à parceria que fizemos com o festival In Edit, que acontece no mês que vem! Neste dia 10, a sessão de cinema no teatro do Sumaré exibe o filme de Helder Lopes e Cláudio Bezerra que conta a história de um dos grandes nomes do baião. Onildo Almeida – Groove Man mostra a vida de seu principal personagem, que foi parceiro de Luiz Gonzaga e Gilberto Gil, sempre atuando no meio artístico. O filme começa a ser exibido a partir das 20h, os ingressos podem ser comprados neste link e o trailer pode ser visto abaixo.

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E vocês viram que o velório de Rita Lee será no planetário do Parque do Ibirapuera? A despedida acontece na manhã desta quarta, a partir das 10h.

Sinapses de som

A estreia do projeto Rotunda – formado pelos cariocas Bella, Thiago Nassif e Cláudio Britto – aconteceu em São Paulo pois os dois primeiros vieram morar na cidade depois do período pandêmico. Criado durante a turnê que Nassif fez pela Europa no ano passado, quando foi acompanhado de Bella e Cláudio como integrantes de sua banda, o trio mistura as origens musicais de cada um de seus integrantes a partir da conexão entre células de som – boa parte delas vindo do samba, devido à presença de Brito, percussionista analógico e digital. A guitarra de Thiago, que por vezes pega o violão, também cai no samba, mas em muitos momentos trabalha no território oitentista em que afiou seu instrumento, entre o noise, a música latina, o pós-punk e o funk. Ligando os dois vêm as texturas sonoras de Bella, que também deixa cair no suíngue quando puxa seu synth bass completando o trio – e ela inclusive chega a cantar. Este primeiro show que aconteceu na terça no Centro da Terra marca a reta final da gravação do primeiro disco do grupo e contou com a participação de Negro Leo, que começou tocando um piano dissonante no escuro e logo assumiu o violão para engatar essa improvável – e contagiante – roda, ou melhor, rotunda, de samba.

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Nossa Rita Lee

Meça suas palavras. Não perdemos Rita Lee. Nunca perderemos Rita Lee. Ganhamos Rita Lee, isso sim. Ela é uma personagem ímpar em nossa história, não apenas em nossa cultura, não apenas em nossa música, em nosso rock. Mas Rita é muito maior que tudo isso. É um acidente feliz que mudou completamente nossas vidas, contemporâneos dela ou (agora) não. Não é exagero dizer que essa paulistana mudou a história do Brasil.

Lógico que existiria rock brasileiro sem Rita Lee. Certamente muito mais sem graça, menos provocador, menos sexy, menos mulher. Não existe um ícone roqueiro tão preciso no Brasil, não tem Roberto Carlos nem Cazuza, nem Baby Consuelo nem Ney Matogrosso, nem Celly Campelo nem Renato Russo. Não à toa Rita não era comparada a nenhum de seus conterrâneos, as referências eram sempre internacionais. No dia de sua passagem não faltam comparações que a colocam ao lado de outros ídolos do rock, todos homens: “nosso Mick Jagger”, “nosso David Bowie”, “nosso Paul McCartney”… São comparações bem vindas, mas que morrem na praia, porque nossa Rita Lee era maior do que qualquer um desses, porque ela conseguiu ser tudo isso sendo mulher num país atrasado da América Latina e cantando em português. Nenhuma mulher do rock internacional tem a força e o espírito de Rita, nem Grace Slick, nem Patti Smith, nem PJ Harvey. Porque mesmo tendo saído de uma das bandas de rock mais importantes de todos os tempos (e pouco reconhecida internacionalmente como tal), ela superou a importância do grupo – e tornou-se uma estrela central em seu próprio sistema solar, mais do que um planeta girando em torno de um sol nostálgico.

Mesmo porque Rita Lee é muito mais do que rock. Só o início de sua carreira solo (minha fase favorita) pode ser rotulada estritamente como rock, discos gravados com os Mutantes embora lançados com seu nome ou lançados ao lado do Tutti-Frutti deveriam estar em quaisquer discografias básicas do gênero e a dobradinha Fruto Proibido e Entradas e Bandeiras é a porta de entrada pra quem quiser entender o que é o rock feito no Brasil. Mas depois disso, ela flertou com a disco music, preparou o terreno para a chegada do pop dos anos 80, gravou canções com sabor latino, crônicas pop, paródias de outros gêneros musicais, além das eternas declarações de amor aos Beatles.

Sua atuação ia para além da música, comemorando o feminismo, o hedonismo, a sexualidade, o uso de drogas recreativas e batendo de frente de qualquer tipo de autoritarismo que visse em sua frente. Era a primeira a se ridicularizar e fazer pouco de sua importância, mas sabia o quanto havia deixado ouvintes felizes, tornado outros tantos fãs e inspirados mais outros – e, principalmente, outras – a seguir a carreira artística. Não era uma mulher à frente do seu tempo – era o próprio tempo nos lembrando que era uma mulher. Uma mulher brasileira, desbocada e de saco cheio de tudo, mas também mãe e esposa amorosa e uma personalidade pública que nunca se esquivou de dar sua opinião em assuntos espinhosos – por mais que odiasse dar entrevistas. Seu papel como motor das transformações comportamentais que aconteceram no Brasil nas últimas décadas a coloca acima de nomes consagrados do pop brasileiro não apenas pelo fato de ser mulher (a imensa maioria dessa lista é composta por homens), mas pelo fato de ter seguido influente para várias outras gerações.

Também é uma personagem fundamental para a habilitação de São Paulo como polo cultural brasileiro, a mais querida torcedora do Corinthians, uma atriz nata, a popstar quem melhor explicou a androginia (e, infelizmente, a misoginia) por aqui, a primeira ativista pelos direitos dos animais que você conheceu, escritora de livros infantis e, claro, uma de nossas maiores compositoras. Seu domínio da canção brasileira aproximou nosso léxico musical à cultura pop do planeta e nos deu um repertório de hits que todos nós sabemos de cor.

Uma mulher imensa, uma estrela que não se apaga, a alma da rebeldia contemporânea do Brasil, devemos tanto a essa mulher que o mínimo que devemos fazer e mantê-la viva. Afinal de contas, ela é nossa.

Nesta terça-feira é dia de ver, pela primeira vez no Brasil, um projeto que começou nos palcos pela Europa mas nunca foi materializado. O encontro dos cariocas Bella, Thiago Nassif e Claudio Britto acontece no Centro da Terra e consagra a chamada Rotunda como nova fase da carreira dos três: a artista sonora Bella cria seus próprios instrumentos eletrônicos, o produtor Thiago Nassif traz sua guitarra inspirada pela no-wave e pelo pós-tropicalismo enquanto o percussionista e cavaquinhista Cláudio Brito, filho de Ovídio Brito, experimenta expandir os limites de seus instrumentos nessa roda, em que, segundo os três, “sua curva infinita faz com que tudo se cruze no epicentro da circunferência: interseção entre ritmo batucado, luz/som, e guitarrêra. Falar de forma rotunda é falar de jeito firme, sem k.o., papo reto”. A apresentação de hoje ainda conta com a iluminação de Mau Schramm e a participação especialíssima de Negro Leo. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos podem ser comprados neste link.

Não tô conseguindo processar essa perda, putaqueopariu.

Lulina começou sua temporada Decantar e Decompor no Centro da Terra revirando um baú de inéditas – e fez isso com uma formação inédita que parece sempre ter sido a banda com quem ela se apresentou: os synths do mombojó Chiquinho Moreira (com quem a cantora gravou um disco de ficção científica durante a pandemia) se misturavam com os teclados de Katu Hai (que por vez tirava uma flauta transversal ou um flugelhorn milimetricamente inserido em algumas canções), criando uma cama de textura sonora que encaixava-se perfeitamente à base formada pelo baixo sinuoso de Hurso (com quem, por sua vez, Lu gravou um disco de amor no mesmo período) e pelo ritmo mínimo e preciso da baterista Bianca Predieri. Salpicando discretas notas de eletricidade, o guitarrista Lucca Simões deixava Lu livre para reger a banda apenas com os acordes claros de sua guitarra e suas apaixonantes, doces e irônicas canções – não sem antes brincar com a estreia de uma guitarra eletrônica com quem tocou duas músicas. O convidado desta primeira noite foi o cantor paraense Bruno Morais, com quem Lulina tocou uma de suas primeiras canções (“Outra história de Shan Lao”, do disco Acoustique de France, de 2001), a canção de Lulina que ele gravou em seu Poder Supremo (“Cores”) e finalizando com uma versão deslumbrante pra uma das músicas mais bonitas desta compositora pernambucana que tanto amamos, “Nós”.

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Que prazer poder abrir o Centro da Terra para uma temporada inteira para a querida Lulina, que aproveitou o convite para rever velhas canções que nunca foram lançadas e canções novas que quem sabe ainda serão no que a cantora e compositora pernambucana chamade “processo de análise intuitiva de células musicais”. Ela visita discos recentes que não foram lançados ao vivo (por motivos pandêmicos), como Vida Amorosa Que Segue e do Wi-Sci-Fi, e trabalhos anteriores como Desfaz de conta e Cristalina em quatro apresentações para matar a saudade dos palcos, sempre acompanhadas de uma banda formada por Hurso Ambrifi (baixo, synths e voz, que também faz a direção musical do projeto), Chiquinho Moreira (synths e MPC), Bianca Predieri (bateria e SPD), Katu Haí (flauta, trompete e synths) e Lucca Simões ((guitarra), e a cada segunda-feira traz um convidado: nesta primeira, dia 8, ela recebe Bruno Morais, no dia 15 é a vez de Fabrício Corsaletti, depois, dia 22, vem Romulo Fróes, e a temporada chega ao fim com a presença de Felipe S, no dia 29. Os espetáculos começam pontualmente às 20h e os ingressos podem ser comprados com antecedência neste link.

Foi Mal ao vivo

Redondinho os shows que os Pelados fizeram neste fim de semana no Sesc Avenida Paulista. Tocando na ordem e na íntegra seu disco mais recente, o sensacional Foi Mal, o quinteto paulistano entregou-se ao delírio idílico indie encapsulado no disco do ano passado, mostrando todas as cores de pérolas como “Coquinha Gelada After Sex”, “A Linha Tênue Entre Gostar e Não Gostar”, “Foda Que Ela Era Linda”, “Julho de 2015”, “Música de Término” e “Yo La Tengo na Casa do Mancha”, tocadas com o entrosamento típico de uma banda de garagem: Manu Julian completamente entregue à canção, Vicente Tassara deixando baixar a vibe de guitar hero anos 90, enquanto a bateria e o baixo de Theo Cecato e Helena Cruz estavam completamente sintonizados, temperados pelos timbres retrô do moog Lauiz Orgânico. Entre piadas infames e diversos pedidos de desculpas que ecoavam o nome do disco, o quinteto foi acompanhado pelo guitarrista Thales Castanheira, aumentando o volume e a parede de microfonia, sem que isso tirasse a doçura e a complexidade de canções-chave. Entre as faixas do disco (incluindo uma versão Pixies para “Ser Solteiro é Legal!!!”), eles ainda tocaram uma música do disco anterior, uma versão para uma música do disco solo de Lauiz e uma inédita, aos poucos apontando os próximos passos. Com pouca conversa entre as músicas – papo que quase sempre ficou a cargo seu humor larrydavidiano do tecladista Lauiz e -, o grupo mostrou que está cada vez mais coeso musicalmente, funcionando como um mesmo organismo com a pressão e ruído necessários (e consequentes leveza e melodia) para uma banda de sua estirpe. Fico imaginando essa apresentação num inferninho…

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Estava devendo essa conversa com a Sara Não Tem Nome há um tempo, desde antes de seu disco mais recente, A Situação, ter sido lançado. Sempre conversei com ela sobre seu processo criativo depois do ótimo Ômega 3 e tentamos algumas vezes gravar esse papo para o meu programa sobre música brasileira Tudo Tanto. Só conseguimos nos acertar depois do disco ter sido lançado – e ela fala sobre a conclusão deste processo e como isso se deu durante o período pandêmico e num governo de extrema-direita. Ela também aproveita para falar sobre seu mestrado, sobre mulheres multiartistas, e como isso influenciou este seu trabalho.

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