
Alessandra Leão e Rafa Barreto encerraram a minitemporada de retorno de sua banda Punhal de Ferro, que celebra os clássicos da psicodelia nordestina dos anos 70, em uma noite mágica nesta terça-feira no Centro da Terra. Não bastasse revisitar no formato guitarra e voz (ou rabeca e voz) músicas de nomes como Ave Sangria, Alceu Valença, Zé Ramalho, Cátia de França e Geraldo Azevedo, os dois ainda contaram com as presenças esotéricas de Siba e Josyara, que diviram canções épicas como “Molhado de Suor”, “Coito das Araras” e “Sol e Chuva”. E Alessandra encerrou filosofando sobre o estado de experimentação do teatro: “Semana passada a gente tava conversando depois do show e eu disse que o Centro da Terra é um lugar que a gente faz um pacto, que a gente pode cair que ninguém quebra os dentes, ninguém se machuca”, contou. “Mas é um pacto que não só entre quem tá aqui no palco e quem tá aqui trabalhando, mas também com quem vem assistir também.” Bem sabemos 🙂
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Retomando as atividades do meu programa sobre jornalismo, entrevisto desta vez o querido Phelipe Cruz, que há anos transformou um blog pessoal em uma dos mais importantes veículos de cultura pop no Brasil. À frente do Papel Pop, do podcast Um Milkshake Chamado Wanda e da festa VHS, ele conseguiu reinventar parte do jornalismo de entretenimento no Brasil ao fugir de uma série de clichês que ainda acompanham este formato, influenciando novas gerações de leitores, ouvintes e fãs ao mesmo tempo em que mexia com as estruturas do próprio jornalismo convencional. Às vésperas de lançar um jornal diário em vídeo do Papel Pop, ele conta o que aprendeu com a imprensa tradicional, com a vida na internet e com os padrões corporativos para deixar sua marca tão consistente, sem trair princípios pessoais que o acompanham desde o início, há quase duas décadas.
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Mais do que um dos primeiros nomes a popularizar a música latina – mais especificamente caribenha – no mercado norte-americano e depois no mundial, o cantor, ator e ativista Harry Belafonte, que nos deixou nesta terça-feira, foi um dos principais nomes a reunir política, cultura e artes nos Estados Unidos. Além de ter sido o primeiro cantor negro a ganhar um Tony e um Emmy, ele também tornou-se parceiro de Martin Luther King na luta pelos direitos civis nos EUA e foi um dos primeiros artistas afrodescendentes a apoiar causas no continente africano (morou anos no Quênia e foi um dos principais ativistas contra o apartheid na África do Sul, além de ter sido um dos principais articuladores do movimento USA for Africa, que reuniu dezenas de artistas nos anos 80 para gravar o disco “We Are the World”).

Jadsa encerrou seu Big Buraco no Centro da Terra com duas sumidades no palco: primeiro chamou Juçara Marçal, que trouxe sua kalimba, e depois Alessandra Leão, no toque de seu tambor. As surpresas ficaram por conta da vinda do compadre e conterrâneo João Milet Meirelles, metade do projeto Taxidermia que os dois têm juntos, que pilotou efeitos nas vozes e instrumentos do palco desde as primeiras músicas (que Jadsa fez sozinha com sua guitarra), e da surpresa da vinda de Fernando Catatau, que subiu para fazer as últimas músicas da noite. De brinde, Jadsa saiu do palco sem fazer o bis, como é de praxe, e deixou Juçara e Catatau tocando juntos pela terceira vez “Lembranças que Guardei”, que o compositor cearense escreveu para o disco mais recente da cantora paulista. Uma noite milagrosa.
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Chico César e Geraldo Azevedo bolaram a turnê Violivoz no início de 2020, planejando atravessar o Brasil apenas com seus instrumentos naquele fatídico ano em que todos nossos planos foram mudados na marra. Passados os anos mais críticos do início da década, os dois colocaram a parceria na estrada, que havia continuado mesmo à distância (quando, inclusive, compuseram canções “onlinemente”, como brincou o pernambucano), em outubro de 2021 e desde então vêm cruzando o país misturando canções de suas próprias carreiras solo em obras conjuntas, em que os violões e as vozes dos dois casam-se como se os dois sempre tivessem criado em dupla. Os dois encerraram sua minitemporada no Sesc Vila Mariana neste domingo e abriram o show já gastando seus maiores hits sem pensar duas vezes (Geraldo puxa sua “Táxi Lunar” e Chico vai de “Mama África”). Atravessaram as mais de duas horas de autocelebração, induzindo o público a uma celebração ritualística em forma de roda de violão – ou de serenata, como quando brincaram contando inúmeros causos durante a noite. Os dois estão numa ótima fase: Geraldo com quase oitenta anos e a mesma presença e voz de sempre, Chico chegando nos 60 com o eterno ar de pré-adolescente; os dois tocando violões afiadíssimos. Revisitaram inclusive o épico álbum Cantoria, que Geraldo gravou ao lado de Elomar, Vital Farias e Xangai em 1984, cunhando o pilar da música épica nordestina que funciona como um dos principais alicerces do espetáculo. Mas nada se compara ao ápice da apresentação, quando os dois instrumentistas bradam seus violões na hipnótica trança sertaneja que é esticada durante a introdução de “Bicho de Sete Cabeças”, colocando a música em um lugar central e imponente desta genealogia musical, num dos momentos instrumentais mais intensos dos palcos desta década. Esse show é uma joia – não o perca de vista.
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Céu e Vanessa da Mata abriram a quarta temporada dos Encontros Históricos realizados na Sala São Paulo, acompanhadas da orquestra Brasil Jazz Sinfônica, regida pelo maestro João Maurício Galindo. Além do prazer de ter suas próprias composições arranjadas para uma orquestra e interpretadas neste espaço maravilhoso que é a Sala São Paulo, as duas tiveram o privilégio de abrir a edição 2023 de um projeto que visa tornar o local e o formato mais aberto ao público, trazendo uma nova audiência e popularizando um espaço que é visto como elitizado pela programação constante de música erudita. As duas tocaram acompanhadas pela orquestra primeiro sozinhas, quando desfilaram parte de seu repertório solo, e cantaram juntas dois clássicos da música brasileira (“Carinhoso” de Pixinguinha e “Dindi” de Tom Jobim), além de dividir vocal em duas faixas próprias: “Malemolência”, de Céu, e “Ai, Ai, Ai”, de Vanessa, que encerrou a noite. O Encontros Históricos promete outros grandes momentos no decorrer do ano reunindo Tom Zé e Lívia Nestrovski, Alaíde Costa e Fernanda Takai, Chico César & Mariana Aydar, Gaby Amarantos & Xênia França, Tulipa Ruiz & Liniker, entre outros.
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Foi-se um dos grandes nomes do pós-punk inglês, pedra fundamental em gêneros musicais como rock industrial, música eletrônica e trip hop, entusiasta da fusão de gêneros com dub e free jazz e da cena de sua cidade natal, Bristol, antes de ela entrar no mapa do pop mundial nos anos 90 (por uma cena influenciada diretamente por seu trabalho, que incluía o Massive Attack e o Portishead), seja à frente de grupos como Pop Group e Maffia ou em sua própria carreira solo.

Morreu neste sábado um dos grandes heróis da resistência underground de São Paulo, antes de abraçar a música eletrônica e a bandeira LBTQIA+ como capitão de um dos principais pontos dessa cena, a clássica balada A Lôca, André “Pomba” Cagni já tinha feito carreira no rock pesado, seja tocando em bandas ou como um dos principais entusiastas da imprensa do gênero, seja como colaborador da Rock Brigade ou fundador da Dynamite. Também teve atuação na gestão pública, como coordenador na secretaria de cultura de São Paulo, onde sua influência fez que ambas cenas ganhassem voz nas políticas culturais da cidade. Uma perda considerável.

Quinta passada o Cine Joia recebeu o tão aguardado show do Brian Jonestown Massacre, que lotou o lugar com sua psicodelia garageira em câmera lenta que hipnotizou os fãs – e mesmo que o som estivesse mais baixo que muitos esperavam, dava pra discernir cada um dos vários instrumentos que estavam no palco.
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Às vésperas de lançar o sucessor de seu Trança, Ava Rocha apresentou-se pela segunda vez acompanhada apenas de piano nesta quarta-feira na Casa de Francisca. Ao seu lado, mais uma vez, o mestre Chicão Montorfano, que ia da sutil delicadeza quase impressionista ao improviso extremo fazendo um par perfeito para os devaneios em forma de canção interpretados pela cantora carioca. Ava subiu ao palco toda de couro preto e entre suas próprias canções (“Você Não Vai Passar”, “Dorival”, “Assumpção”, “Mar ao Fundo”, “Hermética”, “Boca do Céu”, “Doce é o Amor” e as ainda inéditas em disco “Um Sonho” e “Felicidade Ébria”) soltou seu lado intérprete visitando clássicos brasileiros e internacionais: passeou por “Besame Mucho”, Capinam e Jards Macalé (“Movimento dos Barcos”), Tim Maia (“Lamento”), Edu Lobo (“Pra Dizer Adeus”), Bola de Nieve (“Déjame Recordar”), Cat Power (“Where’s My Love”) e Caetano Veloso (“Força Estranha”), sempre conduzindo o público com sua voz e seu corpo, entregue à sua tradicional intensidade cênica. Entre o sublime, o mundano e o êxtase, Ava cuspia pétalas e erguia o próprio chapéu do chão com o pé, equilibrando-se entre cadeiras e brincava com água e vinho, sem deixar que tais gestos tirassem o fôlego e o sentimento das canções, numa apresentação de lavar a alma.
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