
Erykah Badu prometeu e cumpriu. Transformou mais uma vinda ao Brasil em uma catarse coletiva, terreiro cósmico em que misturou jazz, soul, funk, rap e boas doses de bossa nova, como ela mesma fez questão de frisar. Num evento em que tudo funcionou direitinho no Memorial da América Latina, ela esquentou o caldo da expectativa – que era palpável desde que o sol havia se posto, quando o público chegou em peso ao local – e o transbordou com exuberância, sensibilidade e técnica. Ela mostrou sem dificuldades o quanto domina tudo ao seu redor – a banda, o público, a tensão da atmosfera -, e transformou o início da noite de domingo num enorme rito transcendental, em que todos cantavam joias como “On & On”, “Appletree” e “Bag Lady” com a mesma intensidade e paixão de sua autora. Badu conduzia o público como a maestra que é, elevando a já alta temperatura deste verão de 2023 com arroubos vocais de tirar o fôlego, toque ancestral em suas percussões digitais e altas doses de simpatia – até se jogou no público duas vezes na última música, posando pra fotos e deixando os fãs cantarem trechos ao microfone. O único vacilo foi terem cortado o som no finzinho do show – ela já tinha ultrapassado o tempo limite do lugar e estava lentamente terminando a apresentação, mas a organização foi severa e deixou o fim do show com um gosto estranho. E bem que podiam ter colocado o show da Larissa Luz com a Anelis Assumpção exatamente antes do show da deusa, não no início da tarde… E quem quiser ver mais do show é só seguir assistir abaixo. Continue

“David se foi, mas sua música segue viva. A alma do CSNY, a voz e a energia de David estavam no coração da nossa banda”, escreveu Neil Young em seu site após a passagem de seu companheiro de aventuras na virada dos anos 60 para os 70. Crosby e Young estavam no cerne de uma cena hoje reverenciada como um dos grandes momentos da música do século passado – o encontro humano que aconteceu no bairro de Laurel Canyon à medida em que a Califórnia se transformava em um acontecimento pop tão importante quanto a Londres do meio daquela década. A meca de malucos que migrou para aquele bairro de Los Angeles reunia artistas tão diferentes quanto Frank Zappa, The Mamas & The Papas, os Doors e Joni Mitchell e as as bandas destes dois artistas – o Buffalo Springfield de Young e os Byrds de Crosby – estavam exatamente no meio das transformações culturais daquele período. O fim destas duas bandas os aproximou ainda mais quando montaram um dos primeiros supergrupos da história, o mitológico Crosby Stills Nash & Young, que reunia os dois a um outro ex-Buffalo Springfield, Stephen Stills, e outro ex-integrante do Hollies, Graham Nash, que se tornou uma força-motriz do cancioneiro californiano da época.
“Suas grandes canções falavam do que acreditávamos e era sempre divertido e emocionante quando tocávamos juntos”, continua Young no post em seu site. “‘Almost Cut My Hair’, ‘Dejavu’ e tantas outras grandes canções que ele escreveu eram maravilhosas para improvisar e eu e Stills nos divertíamos muito enquanto ele nos mantinha tocando. Seu canto com Graham era tão memorável que o duo deles era sempre um dos destaques de muitos de nossos shows.”
“Tivemos tantos momentos ótimos, especialmente nos primeiros anos. Crosby foi um amigo que me apoiou muito no início da minha vida, quando compartilhamos grandes pedaços de nossa experiência juntos. Ele foi o catalisador de muitas coisas.”
“Meu coração está com Jan e Django, sua esposa e filho. Muito amor para você. Obrigado David por seu espírito e canções. Te amo cara. Lembro-me dos melhores momentos!”
Bonito.

A coluna Direto da Fonte do Estadão trouxe confirmações sobre o próximo festival da Dueto Produções de Monique Gardenberg, que realizava o Free Jazz e o Tim Festival em décadas passadas. O C6 Fest vai acontecer em vários espaços do Parque Ibirapuera nos dias 19, 20 e 21 de maio deste ano e segue a linha dos eventos anteriores da produtora, reunindo novatos e veteranos da música pop mundial. E o primeiro nome confirmado é o de ninguém menos que a minha jovem musa Weyes Blood, dona de um dos melhores discos do ano passado. Aguenta coração!

Lançado nesta sexta-feira sem nenhum alarde, o ótimo disco instrumental Five Easy Hot Dogs foi a forma como Mac DeMarco escolheu pra começar seu 2023: tecladinhos lo-fi, percussões discretas, violões dedilhados, um ar meio praiano, meio estrada, mas também meio frio, meio nublado. No sossego, mas sem esquecer as tensões dos últimos anos Uma deliciosa metáfora pra esse começo de ano.
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Daqui um mês é carnaval e esse ano a gente já tem uma ideia do nível de acabação que vai ser. Mas resolvi dar início aos trabalhos mominos de maneira recatada, ecoando o carnaval do centro de Florianópolis, capital do estado mais reacionário do país mas que resiste na marra à tragédia pesada que se abate em nossos tempos. Eis que surge o herói indie Fabio Bianchini, o eterno superbug, com seu projeto pessoal Gambitos mais uma vez celebrando esses quatro (cinco? seis?) dias de farra na singela e ingênua marchinha “Hercílio Luz”, que será lançada só no fim do mês mas que ele antecipa em primeira mão no Trabalho Sujo. Ouça abaixo: Continue

Nos encontramos em Brasília e quase fizemos um DM diretamente do Planalto Central, mas foi bom que o primeiro programa do ano não fosse realizado na minha cidade, pois além do deslumbre literal que acometeu Dodô, também pudemos refletir sobre a tragédia que abateu-se sobre a cidade uma semana após a posse do novo presidente. Falamos portanto dessa resistência fascista, mas dedicamos, sem querer, o programa a um panorama sobre Brasília em que eu, nativo, falo sobre as características específicas e históricas de nossa capital e Dodô, forasteiro, faz sua leitura de fora da cidade especificamente neste novo momento que felizmente estamos atravessando.
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Mais um dos protagonistas da era de ouro do rock abandona nosso plano…

Muita satisfação anunciar abertas as inscrições de um curso que venho acalentando com minha comadre designer capricorniana Maria Cau Levy sobre capas de discos, que acontece gratuitamente neste mês no Sesc Vila Mariana. Em A Arte da Capa do Disco, eu e ela apresentamos duas aulas complementares nos dias 24 e 26 a partir das 18h em que falamos da importância desta imagem que lança personalidades, apresenta transformações e consolida reputações, seja de artistas, produtores, gravadoras, fotógrafos e designers. Hoje elas podem ser apenas uma pequena imagem no aplicativo de música dentro do seu telefone celular, mas as capas de disco são ícones visuais da contemporaneidade tão presentes quanto cenas de filmes, cartões postais, logotipos de marcas e rostos emblemáticos. O curso “A Arte da Capa do Disco” conta a história de como elas se tornaram onipresentes desde a metade do século passado e como continuam importantes quase um século depois das transformações que mudaram a forma como elas são vistas e como o conteúdo que elas transportam passou a ser ouvido. Contamos essa história tanto do ponto de vista global quanto brasileiro e as inscrições podem ser feitas neste link.

Menos de um ano da morte do vocalista dos Screaming Trees, Mark Lannegan, quem nos deixa agora foi um de seus fundadores, o baixista Van Conner, que morreu de pneumonia aos 55 anos…

Retomando as atividades do meu canal no YouTube, começo 2023 com nova edição do infalível Aparelho, que toco com Emerson “Tomate” Gasperin e Vladimir Cunha, “O Vlad”. Uma crise existencial efêmera pareceu ter tornado o programa uma espécie de literal situacionista, mas felizmente recapitulamos nossa natureza contestatória misturando Uber e jornalismo, narrativas dos quadrinhos europeus dos anos 80 e uma possível forma de salvar Santa Catarina da extrema-direita, numa inusitada mas lógica conexão amazônica – e estabelecemos metas para o ano que começa.
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