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Jornalismo

Que notícia triste a da passagem de Lance Reddick, que morreu de causas naturais com apenas 60 anos de idade! Seu olhar implacável, postura rígida e voz assertiva garantiram papéis icônicos em produções tão diferentes quanto as séries The Wire, Lost, Oz e Fringe e a série de filmes de ação John Wick. Essas mesmas qualidades o deram ares sobrenaturais que foram usados em diferentes produções, como o futuro filme inspirado na série de livros Percy Jackson (em que ele interpreta Zeus), no seriado American Horror Story (quando faz o papel de Papa Legba) e o violão Ra’s Al Ghul (no desenho seriado Beware the Batman). Ainda tinha muito o que fazer por aqui…

Tava devendo. Sei do Acesa de Alessandra Leão desde quando ele ainda era uma ideia, naquele longíquo tempo pré-pandemia. O projeto ganhou vida, virou show e eu ainda não tinha conseguido assisti-lo ao vivo – e finalmente saldei minha dívida nesta quinta-feira, quando pude ver esse híbrido de tradição com modernidade no palco da Casa de Francisca. Disparando samples de gravações que fez no sertão nordestino e manipulando timbres com pedais de distorção, Alessandra veio amparada por um trio digital de peso: Kastrup entre as percussões acústicas e MPC, Zé Nigro nos teclados e Marcelo Cabral no synth bass. E como se não bastasse a intensa roda eletrônica que armou no palco da Francisca, ainda chamou duas entidades para acompanhá-la – e tanto Dani Nega quanto Ava Rocha se esbaldaram ao lado da dona da festa. Que noite!

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(Foto: Elisa Mendes/divulgação)

Passou o carnaval mas não o calor no coração: ou pelo menos assim atesta o primeiro single que une vozes e violões de Josyara e Juliana Linhares, duas das grandes revelações dos últimos anos, em visita a um clássico do grupo Asa de Águia. “Muitas vezes a gente vê os estilos sendo associados a um momento do ano e o mercado tenta enquadrar a música em épocas nas quais ela ‘deve’ ser tocada: forró é junho e toca no São João, axé é carnaval”, explica Juliana sobre lançar uma axé music após a semana da folia, que esse ano durou meses. “‘Não Tem Lua’ faz parte da nossa memória afetiva adolescente e não é necessariamente só carnavalesca; lembramos que música é atemporal e pode atravessar gerações”, ela continua. A música será lançada nesta sexta-feira mas seu clipe pode ser visto em primeira mão aqui no Trabalho Sujo.

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Quarta-feira, você sabe, é dia de documentário sobre música brasileira no Centro da Terra, graças às parceria que firmamos com o festival In Edit e neste dia 15, às 20h, exibiremos Pedro Osmar, Pra Liberdade Que Se Conquista, que trata sobre o personagem que batiza o filme de Eduardo Consonni e Rodrigo Marques. Fundador do mitológico Jaguaribe Carne, nos anos 70, Pedro Osmar mudou a cara da arte paraibana a partir da psicodelia nordestina, que reverberou em outras áreas de sua produção artística – além de músico e compositor, também é poeta, artista plástico e dramaturgo e sempre expandiu seus horizontes a partir da liberdade que conquistou com sua arte, transformando o que seria uma biografia num um manifesto poético-político-musical. A sessão começa pontualmente às 20h, os ingressos estão à venda neste link.

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Que bordoada esse show que a Bufo Borealis fez ao lado de Edgard Scandurra. O guitar hero paulistano por excelência já havia participado das gravações do primeiro disco do combo de free jazz fundado a partir de uma cozinha de formação punk: o baixista do Ratos de Porão Juninho Sangiorgio e o baterista Rodrigo Saldanha fundaram o grupo a partir de experimentos musicais inspirados pela fase elétrica de Miles Davis. Com Tadeu Dias na guitarra, Paulo Kishimito na percussão e teclados, Vicente Tassara nos teclados e Anderson Quevedo no sax, o grupo enfileirava músicas de seus dois discos criando um parede sonora que entrou pelos poros de todos que lotaram o Centro da Terra nesta terça-feira. O acréscimo de Scandurra à formação trouxe um sniper para este batalhão enfurecido, que acertava com precisão para onde quer que apontasse sua guitarra. O final do show com versões para “In a Silent Way” de Miles Davis e “20th Century Schizoid Man” do King Crimson foi só o golpe baixo final que acabou por acachapar as expectativas de todos os presentes. Alguém anotou a placa do caminhão?

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Maior satisfação receber o grupo instrumental Bufo Borealis baixa pela primeira vez no palco do Centro da Terra, que faz sua apresentação Escuridão com um convidado que já é da casa – o guitarrista Edgard Scandurra, que injeta uma dose de rock (e progressivo ainda por cima!) no caldeirão jazz funk do grupo paulistano. E o resultado é explosivo! Os ingressos estavam quase no fim, mas ainda dá pra comprá-los neste link e o espetáculo começa pontualmente às oito da noite. Vamo?

Salto no escuro

Na segunda segunda-feira de sua temporada no Centro da Terra, Ná Ozzetti abraçou o desconhecido. Amparada pelo contrabaixo acústico de Marcelo Cabral, ela deixou o território que lhe é mais familiar – a canção – para dar um salto no escuro a partir de superpoderes que nunca haviam sido exibidos no palco: ela entrou na apresentação dançando e pouco depois sentou-se ao piano para cantar suas composições, inclusive uma inédita composta com Romulo Fróes. Tanto a dança quanto o piano já fazem parte da rotina de Ná, mas foi a primeira vez que ela mostrou-se assim ao vivo, com o músico e arranjador servindo de base e estímulo. E assim aos poucos ela foi entrando no território do improviso livre, que não faz parte de seu repertório, mas que pode ser desbravado numa nova fase de sua carreira. Tratando toda a apresentação como uma longa peça musical, a dupla encantou o público do Centro da Terra numa apresentação emocionante – e até Cabral soltou a voz, cantando suas próprias canções. Uma noite única – quem foi sabe.

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Demorou mas finalmente retomo as atividades com meu programa de entrevistas Bom Saber, que estava parado desde o ano passado, e volto com uma entrevistada que venho tentando conversar há um bom tempo: Verônica Oliveira era empregada doméstica e influenciadora digital antes da pandemia se abater sobre nós, há três anos, e passou a ter uma importância ainda maior quando entramos em quarentena e tivemos que lidar com a realidade deste trabalho que é descendente da escravidão e que não existe com tanta naturalidade quanto no Brasil. Ela fala sobre os preconceitos sofridas como faxineira e a recente consciência de classe que vem surgindo nesta categoria, em que seu trabalho como influenciadora acabou exercendo uma importância considerável. Neste período ela apenas consolidou sua presença online (seja no Twitter ou no Instagram) como lançou até um livro contando sobre sua trajetória.

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Triste essa notícia de que o baixista dos Raimundos nos deixou antes da hora.

Qualquer apresentação de Kid Koala é um convite a perder o rumo. Tocando três vitrolas e um mixer ao mesmo tempo sem usar fones de ouvido, o DJ canadense pertence à escola do turntablism que reinventou o tocadiscos como instrumento na virada do século e como outros da sua estirpe, transcende barreiras entre gêneros musicais, lentamente transformando faixas facilmente reconhecíveis e hits desconhecidos guardados a sete chaves em uma massa amorfa de som que desafia rótulos sonoros. Mas em sua performance única, ele não desmerece estilos e escolas como se fossem meras classificações técnicas, muito pelo contrário: faz questão de passear por diferentes áreas mostrando para o público o universo que está desbravando, não importa se é o ska ou o shoegaze. E assim enfileirou clássicos dos Beastie Boys com aquele remix do Erol Alkan pro Franz Ferdinand, contrapondo Outkast com a islandesa Emiliana Torrini, sempre criando climas exóticos e familiares ao mesmo tempo. O DJ apresentou-se neste domingo no Sesc Pompeia com a canadense Lealani, que alterna entre esmerilhar na MPC e rugir com sua guitarra, tocando hinos punk de sua banda Pezheads (quando Koala assume as baquetas de sua MPC e se torna ele mesmo um baterista). Koala fechou a noite mostrando que seu virtuosismo não é só exibicionismo ao visitar a música favorita de sua mãe, “Moon River”, que deixou tocar com os vocais de Audrey Hepburn para depois ele mesmo tocar a música usando apenas a variação de velocidade de seus tocadiscos. Um mestre.

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