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Triste a notícia da passagem de Ryuichi Sakamoto, um dos pioneiros da música eletrônica que, a partir do trio japonês Yellow Magic Orchestra, começou uma lenta doutrinação dos novos sonos sintéticos e sua aproximação tanto com os sons da natureza, quanto da música erudita, seja clássica ou contemporânea. Um gênio que nos deixa cedo, aos 71 anos, por causa de um câncer. E é o segundo integrante da YMO a morrer este ano, o baterista Yukihiro Takahashi nos deixou em janeiro.

De volta ao desvio

Só o fato do Ira! resolver visitar seu disco mais ousado 35 anos depois de seu lançamento já seria motivo para comemoração. O mitológico Psicoacústica, lançado 12 anos antes do fim do século passado, reúne uma série de qualidades que o tornam único, tanto na discografia da banda quanto na história da safra de bandas que surgiu naquela década: além de ser o primeiro disco produzido por uma banda e praticamente não trazer nenhum refrão (como o vocalista Nasi fez questão de frisar), ainda ampliou o leque artístico e conceitual daquele final de década, antecipando inovações que seus pares de geração só iriam experimentar nos anos seguintes, como fariam os Paralamas em seu Os Grãos, os Titãs com seu Õ Blésq Blom e o Legião com seu V. E neste sábado o grupo colocou esse plano em prática no Teatro Bradesco, em São Paulo.

Seguindo uma trilha aberta pelos Paralamas em seu Selvagem?, o Ira! flertava com a embolada e com o rap (“Advogado do Diabo”, que ecoou no Recife pré-mangue beat) ao mesmo tempo em que questionava sua própria natureza rock, mas chocava-se com o astral do trio formado no Rio ao desbravar um pessimismo que tirava o país do oba-oba do chamado “rock de bermudas” que havia dado as cartas da música pop daquele período. Flertando com o cinema marginal (sampleando O Bandido da Luz Vermelha em “Rubro Zorro”) e a poesia moçambicana (mesmo que sem saber disso, em “Receita para Se Fazer um Herói”), Psicoacústica puxava o tom pessimista que começava a pairar sobre o país à medida em que afundávamos na ressaca da tragédia que foi a ditadura militar iniciada em 1964, enquanto Scandurra cantava sua busca por “outros sons, outras batidas, outras pulsações” em um hard rock chamada “Farto do Rock’n’Roll”. Ao vivo e num país arrasado pela pandemia e pela extrema direita, aquelas canções ganhavam novas dimensões – e como é bom ver o grupo deslizando num delírio anticomercial do passado que consolidou sua aura depois de emplacar vários hits no rádio com os discos anteriores.

Claro que as oito faixas deste terceiro disco não corresponderiam ao total do show e o grupo foi esperto ao passear por clássicos inevitáveis (“Dias de Luta”, “Envelheço na Cidade”, “Flores em Você”, uma bem-vinda “Tarde Vazia” e “Núcleo-Base”, que encerrou a noite) quanto por músicas de outro período além dos anos 80 (tocando “Flerte Fatal”, “Vida Passageira”, “O Amor Também Faz Errar”, “O Girassol” e “Eu Quero Sempre Mais”), além de visitar clássicos do rock como se fizesse questão de mostrar suas patentes – uma inesperada versão para a faixa que batiza o grupo Black Sabbath, a versão que o grupo fez para “Train in Vain” do Clash (que virou “Pra Ficar Comigo”) e “Purple Haze” de Jimi Hendrix seguida de “Surfin’ Bird” dos Trashmen.

Nasi, de bom humor, apontava para o público, cumprimentava quem estava na primeira fila, deu autógrafo e jogou uma camiseta para o público, enquanto Scandurra esmerilha cada vez mais seu instrumento, provando-se um dos maiores guitarristas de rock do Brasil. A dupla icônica, únicos remanescentes da formação clássica da banda, era acompanhava pelo fiel escudeiro Johnny Boy (no baixo) e Evaristo Pádua (na bateria), ambos cientes que estão tocando num grupo clássico – e fazendo jus a essa reputação. E ao abrir mão de sucessos como “Tolices”, “Vitrine Viva”, “Pobre Paulista”, “Gritos na Multidão” e “Longe de Tudo” para sair dos anos 80, seja tocando sua obra mais recente quanto celebrando ícones do passado, o Ira! mostrou que ainda faz sentido em 2023, principalmente à luz da semente que plantaram 35 anos atrás.

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O mineiro tornado capixaba sentiu o impacto do mar. Juliano Gauche refugiou-se no litoral do Espírito Santo logo no início da pandemia, onde passou boa parte da quarentena e perdeu pessoas queridas – entre elas, seu próprio pai -, quando abriu seu inconsciente para conectar-se com o que estava acontecendo. Compôs uma série de canções neste período e separou algumas delas para exorcizar estas sensações no disco Tenho Acordado Dentro dos Sonhos, que acabou de lançar. Conversei com ele sobre este processo e como ele tem se envolvido cada vez mais com espiritismo e sonhos lúcidos e como isso dialoga com sua criatividade e… com o mar.

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Prontos pro mês de abril no Centro da Terra? Porque nem a gente tá acreditando. A temporada das segundas-feiras fica por conta da Jadsa, que agitou essa seleção chamada Big Buraco em que revê sua obra recente a partir dos pontos de vistas de convidados muito especiais: na primeira segunda, dia 3, ela convida Giovani Cidreira; na semana seguinte, dia 10, ela vem com Kiko Dinucci; depois, no dia 17, ela chama Marcelle, Marina Melo e Josyara; para, finalmente, encerrar com Alessandra Leão e Juçara Marçal! Tá achando muito? Pois a primeira terça-feira, dia 4, é o dia em que o Guaxe, dupla formada pelo eterno supercorda Bonifrate e pelo boogarinho Dinho Almeida, estreia nos palcos pela primeira vez. Na semana seguinte, dia 11, vem o Guizado apresentar-se com uma nova formação, chamada A Realeza. E nas duas últimas terças do mês, dias 18 e 25, Alessandra Leão vem acompanhada de Rafa Barreto para apresentar seu Punhal de Prata, com convidados-surpresa. Tá achando muito? Pois lembre-se que toda quarta nosso teatro agora exibe documentários sobre música brasileira em parceria com o festival In Edit – e em abril a programação traz Paulo César Pinheiro – Letra e Alma (dia 5), O Piano Que Conversa (12), Toada para José Siqueira (19) e O Fabuloso Zé Rodrix (26). Os espetáculos começam pontualmente às 20h e os ingressos já estão à venda online, não deixa pra comprar em cima da hora porque tem show que já tá se esgotando…


(Foto: Rayssa Lima/Divulgação)

A história já se arrasta há um tempo: Yma e Jadsa estão fazendo um disco juntas! Há uns dois anos a parceria entre a paulista e a baiana se firmou, foi para o estúdio, e aguarda lentamente – como é de praxe na carreira das duas – o momento certo para aparecer. E eis que Zelena – o nome do EP de seis faixas que firma o compromisso artístico das duas – começa a dar as caras no fim deste mês, quando, nessa sexta-feira, será lançada a primeira faixa da colaboração, “Meredith Monk”, que pode ser ouvida em primeira mão no Trabalho Sujo.

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E na última quarta de março, o documentário que o Centro da Terra exibe em parceria com o festival In Edit é o sensacional Belchior – Apenas um Coração Selvagem, deNatália Dias e Camilo Cavalcanti, que traça a história do inconstante bardo cearense a partir de seus próprios depoimentos, fazendo com que o próprio autor monte o quebra-cabeças de sua personalidade, sem precisar seguir uma linha-mestre cronológica ou linear. A sessão começa pontualmente às 20h e os ingressos podem ser comprados neste link.

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Até furar!

Em quase duas horas de apresentação, Mestre Nico conseguiu até furar seu próprio tambor, de tamanha empolgação. “É a primeira vez que isso acontece!”, disse, surpreso, quase no fim de sua segunda apresentação no Centro da Terra, quando mostrou seu espetáculo De Andada no Tempo. Mais uma vez à frente de seu Balanço da Manipueira (com Thalita Gava, Rafaella Nepomuceno e Júnior Kaboco), ele puxou o fio da meada de sua trajetória outra vez com os compadres BB Jupteriano, Lello Bezerra, Edinho Almeida e a flautista belga Fiona Kelly, que fez uma performance durante a apresentação.

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Em nome de Vadico

Deslumbrante a última apresentação da temporada de Ná Ozzetti no Centro da Terra, quando ela se juntou ao violonista e pesquisador Franco Galvão para debruçar-se – e deslizar – sobre a obra de Oswaldo Gogliano, que todos conhecemos por Vadico. Eterno parceiro de Noel Rosa, Vadico é objeto de estudo de Galvão, que está prestes a gravar um disco triplo dedicado ao legado do mestre sambista, incluindo versões para arranjos que o autor escreveu quando estava em turnê pelos Estados Unidos com Carmen Miranda. O espetáculo de voz e violão foi concebido e arranjado pelo violonista, que também abriu um site dedicado ao mestre (vadicogogliano.com/), e passeava por diferentes facetas do compositor, todas conduzidas pela voz angelical de Ná, que aproveitou algumas canções para continuar dançando, atividade que vem desfilando em sua conta no Instagram e que materializou-se no palco nesta temporada do Centro da Terra. Siga a dança, Ná!

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Muitos achavam que Juca Chaves, que morreu nesta segunda-feira, era um humorista que fazia música, quando na verdade era justo o contrário: o Menestrel Maldito tinha formação erudita e começou a brincar em seus shows aos poucos consolidando sua fama mais conhecida.

O quarto capítulo da saga John Wick, estrelada por Keanu Reeves, que estreou neste fim de semana, leva os filmes de ação para outro patamar. Além de desafiar conceitualmente a ideia de uma franquia cinematográfica interminável a partir de um final aparentemente definitivo, mas ambíguo (fique até o fim dos créditos que tem cena escondida), o novo filme do ex-dublê Chad Stahelski nos envolve num crescendo de cenas de luta de tirar o fôlego, que além de abrir o leque para armas para além das pistolas, rifles, fuzis e metralhadoras que atravessavam os três filmes anteriores, ainda tem sua natureza internacional reforçada em cenas que vão do deserto árabe ao Japão, passando por Nova York e conhecidas paisagens europeias. As quase três horas de John Wick 4 passam com a mesma velocidade de suas cenas de ação, mas quando seus personagens chegam a Paris, a gente não quer que o filme acabe nunca mais. Cenas hiperbólicas em cartões postais parisienses alternam uma luta no trânsito de deixar qualquer um tonto, uma fuga filmada de cima (em que o protagonista dispara uma arma inacreditável), uma escadaria interminável e um duelo tão dramático quanto inteligente. O filme ainda conta com um elenco impressionante, que além de Reeves ainda traz atores conhecidos do grande público como Bill Skarsgård, Hiroyuki Sanada, Ian McShane, Laurence Fishburne e o último papel de Lance Reddick e queridinhos do cinema de ação, como Donnie Yen, Scott Adkins e Marko Zaror, além da cantora Rina Sawayama, que sai-se ótima como atriz de ação. Algumas coisas são meio forçadas (como a cena da festa, os ternos à prova de balas e a onipotência da sociedade secreta que controla o crime organizado mundial), mas não são suficientes tiram o brilho deste que é um dos melhores filmes de ação já feitos que resume a franquia numa frase lapidar: “A forma como você faz qualquer coisa é a mesma forma como você faz tudo.” Pra assistir no cinema.