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Jornalismo

Mais conhecida por uma versão que fez para uma música de Prince e por ter rasgado uma foto do Papa João Paulo II em cadeia nacional nos EUA em um protesto contra a igreja católica, a cantora irlandesa, que morreu nesta quarta-feira, é um dos maiores nomes da música de seu país e uma das artistas mais implacáveis contra o sistema em que estava inserido – tanto que morreu sem que sua grandeza fosse reconhecida em vida, infelizmente.

Casa cheia para assistir à mutação que o Glue Trip está se impondo a partir deste seu décimo aniversário. O grupo liderado pelo paraibano Lucas Moura contou com a direção musical de Zé Nigro (produtor do disco mais recente do quarteto, Nada Tropical) para amarrar canções de seus quatro discos (três álbuns e um EP) de forma linear e coesa no espetáculo 10 Anos de Psicodelia, que o grupo apresentou nesta terça-feira, no Centro da Terra. A apresentação faz o Glue Trip pensar em sua própria sonoridade a partir desta primeira década. O resultado foi um mergulho lisérgico em canções que bebem tanto da música eletrônica quanto da MPB dos anos 70 ao mesmo tempo em que o tempo todo convulsionam uma transformação musical que parte do envolvimento dos quatro músicos com seus instrumentos, fazendo as canções funcionarem como territórios musicais passíveis de exploração improvisada em conjunto. É o pleno processo psicodélico, quando os horizontes se expandem e deixam os instrumentistas libertos nestes novas camadas atmosféricas em formação. É aquele momento em que a música brasileira funde-se com o jazz, que o rock psicodélico aos poucos se metamorfoseia no rock progressivo e que os limites e gêneros musicais parecem desaparecer. Lucas (guitarra), Pedro Lacerda (bateria), João Boaventura (teclados) e e Thiago Leal (baixo) estão debulhando seus instrumentos e o entrosamento conjunto contagia o público. Resta saber o que a banda pode fazer a partir daí…

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Satisfação enorme de trazer a banda paraibana para o palco do Centro da Terra, quando comemoram uma década de atividade numa apresentação inédita em que repassam estes primeiros anos de carreira. Glue Trip: Dez Anos de Psicodelia revê os três álbuns que o grupo lançou desde 2023, misturando as referências musicais de sempre com outras disciplinas artísticas, como artes visuais e cênicas, numa apresentação inédita. O espetáculo acontece nesta terça-feira e começa pontualmente às 20h, mas os ingressos já estão esgotados.

Há um ano a mestra Joni Mitchell pegou a todos de surpresa quando ressurgiu ao vivo em pleno festival de Newport, o clássico evento anual de folk music em que apareceu pela última vez em 1969. Há duas décadas sem fazer shows e recuperando-se de um aneurisma no cérebro que sofreu em 2015, ninguém esperava vê-la ao vivo em público, embora ela já tivesse puxado algumas sessões de música em casa como forma de se reabilitar, em eventos que chamava de Joni’s Jam. Pois exatamente há um ano, uma das maiores nomes da canção norte-americana reapareceu em carne e osso num show surpresa realizado num domingo. Era 24 de julho de 2022 e a mera aparição de Mitchell em público já seria motivo de festa, mas quando ela segurou uma apresentação de mais de uma hora e treze canções, todos – presentes no evento ou quem soube depois – sabiam que a história havia acontecido naquele momento. Tanto que ela lança na próxima sexta-feira Joni Mitchell at Newport, que já estava em pré-venda pela gravadora Rhino. E um aperitivo da apresentação foi publicado esta semana, mostrando nossa musa cantando a imortal “Summertime” – assista abaixo, além de ver o setlist deste show: Continue

Roda de dois

“O samba e o choro são bem constituintes da origem do meu enredo”, Maria Beraldo arrematou (bem, como ela mesma constatou) no meio de sua terceira noite no Centro da Terra, quando apresentou ao lado de Rodrigo Campos um amplo repertório de sambas, de clássicos da velha guarda a hits do pagode dos anos 90. Só os dois no palco, tomando uma cervejinha, cada um com um instrumento em diferentes momentos – Beraldo ia do cavaquinho ao clarinete ao violão enquanto Rodrigo ia do violão ao repique ao cavaquinho, numa roda a dois que teve momentos terrenos e sublimes. Da primeira música que Maria aprendeu ao cavaquinho (“Apaga o Fogo Mané”, de Adoniran Barbosa) à “Minha Missão” de João Nogueira, o repertório foi costurado por Chico Buarque (“Bom Tempo” e uma versão maravilhosa para “Dois Irmãos”), Exaltasamba (“Gamei”), Só Pra Contrariar (“Inigualável Paixão”) e Dona Ivone Lara (lembrada na maravilhosa “Tendência”, que Maria aproveitou para revelar qual é o tema da terceira lição de sua banda, o Quartabê). Os dois ainda tocaram duas inéditas que compuseram juntos, duas de Rodrigo Campos (“Firmeza?!” e “Batida Espiral”), mas o ponto nevrálgico da apresentação foi exatamente no meio quando emendaram “Lindeza” de Caetano Veloso (você conhece, “coisa liiiiindaaa…”) com “Recado À Minha Amada” do Katinguelê (você também conhece, “lua vai…”) mostrando que o samba segue samba não importa de onde ele venha.

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E agora o Flesch crava que quem vem para o Brasil no próximo semestre é o grupo inglês Depeche Mode. O clássico grupo eletrônico que desenho parte do futuro da música pop no início dos anos 80 deve vir ao país entre maio e junho de 2024 para divulgar seu disco mais recente, Memento Mori. É a primeira vez que o grupo virá ao país depois da morte de Andy Fletcher no ano passado. O grupo já passou aqui duas vezes, em 1990 e 2018, e retorna com dois de seus fundadores na formação, Dave Gahan e Martin Gore. E fica a dúvida: como o próprio Flesch anunciou que os Tears for Fears viriam para o Brasil no mesmíssimo período, será que está se desenhando um festival de veteranos dos anos 80 no modo daquele Darker Waves que comentei aqui outro dia?

Outra passagem neste começo de semana, soubemos da morte de Doris Monteiro, uma das cantoras que aos poucos ajudou a música brasileira a cantar macio e sem a impostação de ídolos do rádio, como Angela Maria e Dalva de Oliveira. Doris pertenceu a uma geração que, como Lucio Alves e Dick Farney, pavimentou o caminho para que a voz sem afetação da bossa nova se tornasse um novo padrão para a música brasileira – ela mesma tornando-se uma das principais intérpretes do novo gênero.

Uma das maiores intérpretes do Brasil, Leny Andrade, morreu na madrugada desta segunda-feira. Ela começou sua carreira no início da bossa nova e foi uma das grandes cantoras do gênero, mas expandiu sua atuação para o jazz, quando começou a fazer temporadas no exterior, sempre levando a música brasileira – bossas e sambas – em seu repertório, sempre aplaudido internacionalmente.

Inaugurando a nova temporada do meu programa de entrevistas Bom Saber em grande estilo, com a presença do mestre Guto Lacaz. Um dos grandes artistas plásticos brasileiros, Guto mistura arte e ciência em suas obras, que acontecem no papel ou em performances memoráveis. Conversei com o Guto sobre arte, cultura e criatividade, além de falar sobre seus projetos recentes, incluindo uma homenagem a um de seus grandes ídolos, Santos Dumont.

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Este fim de semana viu a segunda edição do espetáculo Conjunto Nordeste, idealizado pelo produtor Duda Vieira e pelo maestro Regis Damasceno, no Sesc Pinheiros. Se a primeira, realizada em junho do ano passado, priorizou novos nomes da música nordestina – reunindo um elenco estelar formado por Alessandra Leão, Almério, Flaira Ferro, Getúlio Abelha, Larissa Luz, Luiz Lins, Otto e Potyguara Bardo -, esta segunda preferiu voltar para as raízes e celebrar artistas da região que estão aí há tempos – mas sem tirar o pé da contemporaneidade. Este foi representado por Josyara, que abriu a noite com sua voz e violão estupendos encantando corações que estavam, em sua grande maioria, esperando os veteranos da noite. Depois foi a vez de Ednardo, aos poucos recuperando sua voz depois de um problema de saúde, mas com carisma intacto, fazendo todos cantar “Enquanto Engoma A Calça”, “Pavão Mysteriozo” e “Terral” (e não teve como não dar uma choradinha nessa hora), seguido de Hyldon, que brincou com o fato de ninguém lembrar que ele era baiano (“do polígono da maconha”, riu, reforçando que foi “parceiro do Tim Maia e vizinho de Raul Seixas, sou um sobrevivente!”), e emendar os hits “Dores do Mundo”, “Na Sombra de Uma Árvore” e inevitavelmente “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda”. A estrela da noite foi a gigante Anastácia, eterna alma gêmea de Dominguinhos, que lembrou, no show de domingo, que seu companheiro e parceiro morrera há exatos dez anos, e aproveitou a oportunidade para reforçar que discorda da lógica que brasileiro não tem memória, citando aquele espetáculo como prova disso, antes de passear pelos sucessos “Sanfona Sentida”, “Amor Que Não Presta Não Serve Pra Mim” (bolero eternizado por Angela Maria) e “Tenho Sede”. Os quatro foram acompanhados por uma banda dirigida por Régis, que alternava-se entre a guitarra e o violão de doze cordas, e ainda contava com Danilo Penteado (tocando sanfona, teclado, cavaquinho e violão), Charles Tixier (tocando percussão e sampler), Magno Vito (no contrabaixo) e Alana Ananias (na bateria). Os quatro voltaram tocando “Só Quero um Xodó” e mostrando que este formato tem vida longa. Que venha o próximo!

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