
A morte precoce de Marjane Satrapi nesta quinta-feira (que, pesado demais constatar isto, morreu de tristeza) vai acelerar sua canonização no panteão dos quadrinhos, mas sua importância ainda há de ser medida. Mais do que autora de um Maus persa que viveu em primeira mão (seu Persépolis é autobiográfico, ao contrário do clássico de Art Spiegelman, uma história contada a partir de um relato alheio), ela é uma personagem importantíssima no movimento feminista deste século, não só como agente e autora, mas como inspiração e força contínua. Mas prefiro indicar o obituário feito pelo Érico Assis em sua newsletter obrigatória Virapágina, um dos melhores veículos sobre quadrinhos atualmente. Deixo um trecho a seguir:
“Marjane Satrapi, há quinze anos: ‘A primeira coisa a se lembrar é que não é uma graphic novel. É um gibi. O povo tem medo de dizer essa palavra, gibi. Porque aí vem aquela imagem do homem adulto espinhento, de rabo de cavalo e uma pança. Se você fala graphic novel, essa imagem vai embora. Só que não: é tudo gibi.’
Há 27 anos, Satrapi não se chamava Satrapi. Era uma ilustradora iraniana em Paris tentando a carreira no mercado de livros infantis, que dividia o Atelier des Vosges com vários autores de quadrinhos. Passava horas contando aos colegas – David B., Émile Bravo, Christophe Blain – da sua vida no Irã, dos perrengues que tinha passado na Áustria, de como chegou a Paris. Eles disseram que ela tinha que transformar aquilo em quadrinhos e deixaram Maus na mão da moça.
‘Passei por uma mega depressão. Aí, sabe o que aconteceu? Eu estava muito deprimida e, quando eu fico deprimida, eu não respiro. O ar não entra. Aí teve uma noite em que eu estava sozinha e minha respiração ia parar. Liguei pra emergência e disse: ‘Eu não consigo respirar.’ Aí vieram, me enrolaram no alumínio como se eu fosse um frango assado, me botaram um cobertor, me colocaram na maca e começaram a me descer pela escada, que era em espiral. Acabou que eu caí, desabei escada abaixo e cortei a cabeça. Tiveram que dar quatro pontos! Aí minha depressão acabou. Foi tanta dor que minha respiração voltou e ali eu decidi: Vou ter que fazer alguma coisa. Aí escrevi Persépolis.’
É muita pulsão de vida, abalada fatalmente pelo fim de um relacionamento, quando seu companheiro, como a própria família disse no comunicado sobre sua passagem: “morreu de tristeza pouco mais de um ano após o falecimento de Mattias Ripa, seu marido e amor de sua vida.” Confira a íntegra do texto do Érico aqui.

Michael Stipe está quicando para voltar aos palcos. Sem lançar nada há três anos, ele quebrou esse jejum em março, quando mostrou a “I Played the Fool”, que fez para o seriado Rooster, da HBO, como sua música-tema. E depois de aparições bissextas – e empolgadas! – ao lado da dupla Michael Shannon e Jason Narducy, que vêm fazendo shows em tributo aos discos clássicos do R.E.M, e dos integrantes de sua banda original, ele agora vem para a televisão tocando ao vivo a música que fez para o seriado ao lado do produtor de rock clássico da vez (Andrew Watt, que acabou de produzir os discos novos de Paul McCartney e dos Rolling Stones) no programa do apresentador Jimmy Kimmel. E se na versão original ele contava com o baterista do Blink-182‘s Travis Barker, nesta apresentação chamou o dos Red Hot Chili Peppers Chad Smith, que tocou ao lado do guitarrista Josh Klinghoffer (que também tocou no Red Hot) nos teclados, do baixista Troy Van Leeuwen do Queens Of The Stone Age e do ex-guitarrista de outra fase do Jane’s Addiction Chris Chaney e mostrou-se animadaço, pronto para sair desse autoexílio que se impôs. E a gente sempre fica na torcida pra rolar aquela volta em grande estilo do R.E.M…. Porque eles merecem e a gente também.
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Enquanto isso, o chileno Primavera Fauna (que não tem nenhuma relação com o Primavera Sound que vai acontecer em São Paulo) acaba de anunciar sua escalação da sua edição 2026 incluindo alguns nomes que tocarão na versão paulistana do festival catalão por aqui. Mas outros — como New Order, Johnny Marr, American Football, Godspeed You! Black Emperor. Tricky, Of Monsters and Man e até a volta da dupla brasileira Twelves — não e poderiam dar aquele gostinho que falta ao elenco já anunciado do festival em São Paulo. Vai saber…

E antes de começar sua nova fase, Charli XCX apagou quase todo seu feed do Instagram e deixou apenas três posts: um de música, um de moda e um de cinema. Ah garouta!

Em transição do primeiro álbum para o próximo, mais intimista, que deve lançar no ano que vem, o multiinstrumentista e compositor Leal mostrou os rumos que deve perseguir no novo trabalho e as influências externas que tem recebido no espetáculo Circulando, que trouxe nesta terça-feira ao palco do Centro da Terra, quando tocou ao lado de Reyviton Lima (trombone), Rafael dos Santos (bateria) e Fernanda Horvath (baixo). Ele passou por diferentes formações entre os músicos e instrumentos – passando do violão para o tambor onça, da rabeca ao piano e finalmente para a guitarra -, visitando o repertório de seu disco de estreia com novas formações, músicas ainda inéditas em formato acústico e versões para artistas tão diferentes quanto João do Vale e Cidade Negra (da fase inicial, com Ras Bernardo nos vocais) enquanto passeava por diferentes formatos de canção brasileira que investiga em suas composições.
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Começou! Charli XCX já criou um gerador pra você emular a capa de seu recém-anunciado disco reunindo seus ícones da música, moda e cinema no já clássico quarto em preto e branco que é o cenário do encontro original, que reúne Scorsese, Jacobs e Cale. Dá uma sacada neste link e que comece a nova temporada!
Veja umas que já estão rolando abaixo: Continue

A irlandesa CMAT teve um ótimo ano em 2025, quando seu terceiro disco Euro-Country a elevou a um patamar para além de revelação musical – e agora acaba de ganhar um endosso que a vai fazer crescer ainda mais, quando Olivia Rodrigo, em sua passagem pelo programa Live Lounge, da rádio inglesa BBC 1, escolheu o hit “When A Good Man Cries” para cantar como sua versão escolhida para a apresentação. E a reação da própria CMAT ao ouvi-la mencionar o nome da minúscula cidade que cresceu (Dunboyne, na Irlanda, que tem cinco mil habitantes e onde ela é obviamente uma heroína local) é impagável.
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Já estão cogitando que o anúncio de Music Fashion Film possa inaugurar a fase preto e branco de Charli XCX e que isso possa se espalhar por seus discos anteriores, como quando ela fez quando lançou Brat, mudando todas as capas de seus outros álbum para apenas uma cor e com o titulo em texto no meio da capa.

Aproveitei a quarta vinda do Superchunk ao país para falar da importância deles na cena indie dos EUA e de como o grupo foi um dos artífices da conexão desta cena com a brasileira, desde que vieram pela primeira vez para cá, ainda nos anos 90, em texto que escrevi sobre o show deles no domingo passado em mais uma colaboração com o Toca UOL. Continue

Maravilhosa apresentação do quinteto Lumia nesta segunda-feira no Centro da Terra que, apesar de tocar nesta formação que inclusive batizava sua apresentação, não pode contar com a baterista Amanda Barbosa no palco, que teve problemas de deslocamento para chegar em São Paulo a tempo. Com o baixista Bruno Migotto fazendo as vezes (e bem!) de baterista, as integrantes do grupo não tiveram dificuldade em mostrar seu repertório autoral e uma química latente entre elas que transparecia na troca de olhares e sorrisos que atravessou a apresentação feita por Marina Marchi (voz), Júlia Toledo (piano), Laryssa Alves (contrabaixo) e Miriam Momesso (guitarra). O entrosamento e sensibilidade dos músicos equilibra-se na delicadeza do jazz à brasileira com pitadas de música estrangeira, como quando fizeram uma composição do músico isralense Shai Maestro e uma composição tradicional da Estônia “Kiik Tahab Kindaid” na versão feita pela vocalista estoniana Karmen Rõivassepp, mas com arranjo próprio. Noite linda.
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